Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
E começa agora mais um Gabinete de Guerra, à segunda, sempre com a análise do historiador e investigador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia, obrigado.
Bom dia. Começamos pela Rússia e pela substituição de Sergei Shoigu. Putin diz que quer que o novo ministro da Defesa esteja absolutamente aberto à inovação e a novas ideias. Bruno, mas o que significa isto, estas mudanças, e quais as implicações no conflito?
Por um lado, confirma realmente as suspeitas de que se passava alguma coisa com-
Com Shoigu
...em relação a Sergei Shoigu. Houve aquela demissão do vice-ministro Timur Ivanov, que foi preso logo a seguir a uma reunião com o ministro da Defesa e acusado de envolvimento num esquema de corrupção. No fundo, podia-se pensar: "Bem, mas se era para o substituir, por que não logo?" Ainda por cima, ele não é propriamente demitido ou afastado. Em teoria, até seria promovido. Este cargo de secretário do Conselho de Segurança Nacional Russo é realmente bastante importante na Rússia, tal como nos Estados Unidos e na maior parte dos países, Portugal é uma exceção. Foi criada, de facto, esta estrutura que é suposto coordenar toda a ação externa do Estado, a ação de defesa e a ação de segurança do Estado. É realmente um órgão com alguma importância, embora haja o secretário, mas depois há o presidente. Quem realmente preside ao conselho é o presidente da República, ou seja, é Putin. Isso já em si desvaloriza um pouco. Para mim, isto é um sinal de que mesmo quando há queixas e críticas, e sabemos que Shoigu foi alvo de muitas críticas em termos da eficácia da sua ação, aliás, era um dos alvos preferidos do falecido senhor Prigozhin, mesmo quando há críticas e alguma razão para essas críticas e para a sua substituição, os que são leais a Putin acabam sempre por não ser completamente postos de lado. Por um lado, acho que esse é o primeiro significado. Depois temos a pessoa que substitui Shoigu, este novo ministro, que é conhecido essencialmente como alguém que vem da economia. Aliás, há um vídeo em que aparece a explicar a Putin, este Andrei Belousov, que 95% das componentes necessárias para os drones têm de ser importadas. E grande parte delas terão de ser contrabandeadas, aliás, porque virão de países, por exemplo, ocidentais, que proíbem essas exportações. É alguém que, por um lado, também não ameaça Putin, não é um militar, é um civil e, por outro, é alguém que à partida daria algumas garantias, até em termos de imagem pública, de alguém que é um gestor supostamente competente, ou mais competente, pelo menos, do que Shoigu, e que seria capaz de desenvolver. É essa a missão que lhe é atribuída, aliás, publicamente, e a explicação que é dada também para esta substituição de melhorar a economia de guerra e a indústria de defesa russa. Isso é uma prioridade que faz realmente sentido. Agora vamos ver se isso é possível e até que ponto é que é possível, porque um dos problemas de base, como eu tenho aqui referido, é que aumentar muito a eficiência supõe pôr em questão a própria base do sistema político russo, ou seja, a questão da lealdade cega, a questão de que acima de tudo conta essa lealdade, nomeadamente a Putin, e não propriamente o mérito. Há limites para aquilo que se pode mexer no sistema sem pôr em risco a viabilidade do próprio sistema e do próprio regime.
No terreno, mais de 4 mil pessoas foram retiradas da região de Kharkiv depois de as tropas russas terem reivindicado a tomada de posse de mais quatro aldeias. Bruno, a cidade pode cair em breve e passar para o controle da Rússia?
A cidade de Kharkiv parece-me bastante mais complicada e é isso que as próprias autoridades ucranianas têm estado a dizer. Aliás, não está a haver evacuações de Kharkiv, que é uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes. É a segunda maior cidade da Ucrânia, que chegou a ser a capital da Ucrânia no período inicial da anexação soviética da Ucrânia. Mas realmente é vulnerável, está próxima da fronteira russa, foi um dos alvos também no início da campanha, mas o problema de ocupar uma cidade com essas dimensões é que multiplica por muitas vezes os problemas que se colocam na guerra urbana. Para já estamos a falar de pequenas aldeias, muito junto à fronteira. E realmente a Rússia, isto é quase que um ataque ou uma ofensiva anunciada, mostrou-se muito incomodada com os ataques a partir desta zona em direção a Belgorod, que é uma cidade já no interior da Rússia. No fundo, seria aqui um alvo evidente também para forçar o desvio de tropas ucranianas mais para norte, portanto, da frente mais do leste e do sul. Vamos ver. Para já, aquilo que os ucranianos também dizem é que as forças russas, que andariam à volta dos 30 mil soldados concentrados nesta zona, apontariam mais para um esforço para criar aqui, por um lado, uma diversão, portanto, forçar esta divisão de esforços ucranianos e também, eventualmente, uma zona tampão, criar aqui uma zona com o controle russo que dificulte mais a infiltração, nomeadamente de forças dissidentes russas. Tem havido não apenas bombardeamentos, mas mesmo alguma entrada destes dissidentes russos em território russo. Isso parece ser, para já, o cenário mais provável, mas vamos ver qual é a capacidade, por um lado Russa de aumentar o esforço ofensivo e, por outro, até que ponto é que a Ucrânia fez algum trabalho mínimo de preparação, nomeadamente linhas defensivas que permitam travar isto com alguma eficácia.
Sobre o Médio Oriente, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução para garantir novos direitos e privilégios à Palestina. Teve 143 votos a favor, incluindo o de Portugal, nove contra, 25 abstenções. Bruno, isto significa que a Palestina muda significativamente de estatuto nas Nações Unidas?
Depende do que se considera significativo. Não tem aquele direito que é fundamental e que é reservado para aqueles que são os membros de pleno direito de um clube, que é um clube de Estados, é por isso que se chama uma organização intergovernamental, os únicos membros são realmente Estados, que é a questão do voto e da capacidade de agendamento por iniciativa própria. Há algumas mudanças, passa a entrar no rol alfabético como se fosse um Estado e não fica num rol à parte, etc. Eu diria que são mais medidas simbólicas, mas esta votação não deixa de ser significativa, como dizias, uma larga maioria dos Estados membros das Nações Unidas, 145 em 193, realmente votam a favor desse reforço. Fica claro também que apesar de tudo, a Assembleia Geral, porque isto diz apenas respeito à Assembleia Geral, não ao Conselho de Segurança, que a Assembleia Geral também evita de uma forma inteligente entrar em choque direto com o Conselho de Segurança, porque a admissão de Estados membros tem que passar pelo Conselho de Segurança, o que significa que obviamente os cinco membros permanentes podem vetar essa possibilidade, inclusive, neste caso, em particular, os Estados Unidos. Mas é um aumento da pressão política sobre Israel. Apenas cinco Estados votaram contra e inclusive muitos países que são vistos como aliados tradicionais de Israel, nomeadamente na Europa, ou votaram a favor ou abstiveram-se. Realmente é mais um sinal de que há aqui uma pressão internacional crescente sobre Israel, quer por causa da forma como tem decorrido a campanha, quer também por causa da desconfiança que o governo Netanyahu e em particular uma série de ministros mais extremistas provocam, de que realmente esta campanha não está a ser perseguida apenas para defender Israel, mas também com outros objetivos que são inaceitáveis para a maior parte dos seus aliados.
Bruno, antes de terminarmos, queria apenas o teu comentário ao resultado das eleições na Catalunha, 14 anos depois, os independentistas perderam a maioria. Podemos falar aqui numa derrota para a Rússia?
Eu acho que sim. E pode-se perguntar o que a Rússia tem a ver com isso. Tem muito a ver, porque temos muitas provas de que realmente a Rússia se empenhou, tal como em vários outros contextos, em criar divisões, no fundo a divide e para reinar.
E que não são dois.
A questão da desinformação, isso está bastante bem documentado. A utilização de bots, etc, sobretudo daqueles meios das redes, para procurar promover a divisão no seio de Espanha, para procurar promover realmente vozes nacionalistas na Catalunha. Há também alegações de que houve até um apoio mais directo, envolvendo financiamento, etc. Isso já é eventualmente mais questionável, mas não há nenhuma dúvida de que a Rússia tem realmente essa estratégia. Isto é diferente dizer, obviamente, que foi a Rússia que criou o problema da Catalunha ou do independentismo catalão, ou que levou um setor desse independentismo a radicalizar-se, mas realmente não há dúvida de que é também desse ponto de vista uma derrota para a Rússia. Como temos aqui referido várias vezes, nomeadamente no Cinco Continentes, do meu ponto de vista, para Portugal, tudo o que seja um aumento da divisão, da tensão política, das crises em Espanha, à partida é mau para Portugal, porque estamos muito ligados, nomeadamente economicamente a Espanha, e sabemos que os investidores não gostam de incerteza, não gostam de crises, desse ponto de vista, é algo que é negativo e também porque ao nível da União Europeia, há muita convergência de interesses entre Portugal e Espanha. A Espanha é obviamente aqui um aliado importante quando é assim, Portugal tem outro peso e se estiver distraída com questões internas, se estiver enfraquecida por questões internas, também é um aliado com menos capacidade ao nível da União Europeia. Pelo menos desses dois pontos de vista, acho que realmente é algo negativo e esperemos que, vamos ver agora como é que se forma o governo, esperemos que desse ponto de vista seja também uma má notícia para a Rússia e uma boa notícia para quem está interessado numa certa estabilização em Espanha e eu diria que é o caso de Portugal.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada uma vez mais pela análise. Um bom dia para ti, Bruno.
Bom dia, obrigado.
Muito obrigada.