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Muito boa tarde, seja bem-vindo a mais um gabinete de guerra sobre os avanços militares na Ucrânia e também os mais recentes desenvolvimentos no terreno. Esta tarde temos conosco o Major-General Isidro Morais Pereira, também antigo representante de Portugal na NATO. Muito boa tarde, senhor Major-General.
Boa tarde.
Agradeço-lhe desde já a disponibilidade. Antes de analisarmos os desenvolvimentos propriamente ditos no terreno, começo por lhe perguntar sobre a notícia que demos conta agora na síntese das 16h30, de que a Rússia terá dito que está disposta a fazer tudo o que for preciso para permitir que os especialistas da Agência Internacional de Energia Atômica possam ter acesso à central nuclear de Zaporizhzhia, que tem sido, de resto, um tema central nesta guerra. Este comunicado surgiu horas depois de vários países, dezenas de países terem exigido que as tropas russas abandonem a central e devolvam o controle às autoridades ucranianas. Major-General Isidro Morais Pereira, começava então por lhe perguntar: como é que podemos ler esta nova posição da Rússia?
Esta posição da Rússia parece-me uma posição, de alguma forma equilibrada, uma posição semelhante àquela que levou à possibilidade de descolar os cereais da Ucrânia. Portanto, aqui a Rússia, perante tantos pedidos e tanta insistência de tantos países, naturalmente que vai facilitar o acesso a inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica. Sem, contudo, que isso possa significar que a Rússia vá abdicar, ou pretenda abdicar, do controle da central de Zaporizhzhia. Isso aí, na minha opinião, julgo que a Rússia não irá fazer. No entanto, no sentido de sossegar o mundo quanto a um possível incidente nuclear que possa ter grandes repercussões, quer na Ucrânia, quer na própria Rússia, quer na Europa Ocidental. Portanto, penso que a Rússia irá abrir a possibilidade de ser da central de Zaporizhzhia, que está controlada por si, seja inspecionada por um grupo de inspetores. Sem isso significar que a Rússia vá abrir mão do controle da respectiva central.
Ou seja, apesar desta posição, não ficará por aqui toda esta questão em volta da central nuclear, que tem, de resto, suscitado várias preocupações, precisamente por se tratar de uma central nuclear e toda esta luta pelo controle da central.
Nós temos que ter a noção de que esta central nuclear, além de ser a maior central nuclear da Europa, com seis reatores de cerca de 1 GW cada um, é uma central que em 2020 foi remodelada e modernizada, fundamentalmente naquilo que tem a ver com regras de segurança. Portanto, é uma central que podemos considerar segura. Para que haja uma explosão nuclear, quase que seria necessário que um míssil de alta precisão e de grande capacidade fosse capaz de perfurar e entrar na casa de um dos reatores. Contudo, noutros locais onde é armazenado material físsil ou material radioativo que já foi utilizado, portanto, combustível atômico que já foi utilizado. Essas instalações, se forem bombardeadas, poderá haver, num raio relativamente pequeno, perigo para as pessoas, para os humanos. Mas ter algo parecido com Chernobyl, penso que tinha que haver um ataque direto a um dos reatores.
Algo maior, algo mais significativo.
Algo maior.
É uma questão decisiva. Avançava também noutros desenvolvimentos no terreno que temos dado conta ao longo desta tarde. Por exemplo, o Ministério Britânico da Defesa mostrou esta tarde um mapa. Diz que as tropas russas deverão falhar a meta que é a conquista total de Donetsk, um objetivo também já várias vezes assumido por parte da Rússia. Diz o governo britânico que este é um revés para os objetivos na Ucrânia. O que é que isto nos mostra no terreno, senhor Major-General?
Parece-me que, de facto, a ofensiva terrestre no Donbass, tendo conquistado praticamente Lugansk, agora temos sensivelmente metade ou 45% de Donetsk que ainda está em mãos ucranianas. No último mês, têm sido levados a cabo ataques, alguns reconhecimentos em força, algumas ofensivas de caráter limitado, que têm, de uma forma geral, sido repelidas pelas forças ucranianas que se encontram a defender na região. Portanto, fazendo uma leitura daquilo que se vem passando no último mês, e porque já estamos a meio do mês de agosto, entraremos daqui por duas semanas em setembro, outubro e depois entramos no inverno. Se de facto a Rússia não colocar mais potencial de combate a leste, este objetivo, que foi definido pelo próprio presidente Putin no seu célebre discurso de 9 de maio.
E que tem sido um objetivo central nesta guerra.
Tem sido um objetivo central, foi o objetivo reformulado, foi o objetivo do qual explicitamente a Rússia não iria abdicar, seria o controle do Donbass e todo o resto, e toda a ligação, toda aquela ponte terrestre passando por Mykolaiv, Kherson, que já estava anexado praticamente logo desde o início desta ofensiva, desta dita operação especial, e essa ligação à Crimeia, este seria o objetivo minimalista. Eu, contudo, penso que Pelo andar da carruagem, pela forma como estão a decorrer as operações no leste e no Donbass, não me parece que a Rússia seja capaz de concretizar a conquista deste objetivo até ao final do verão, até o início do inverno. E se não o fizer até o início do inverno, dificilmente o poderá fazer no inverno, porque no inverno, como sabemos, nestas regiões, as temperaturas facilmente atingem os menos 20 °C. E a partir dos menos 20 °C, as operações militares são muito difíceis, por várias razões, até porque os próprios soldados no campo de batalha têm dificuldade em resistir a essas condições e os materiais também, principalmente os óleos, os hidráulicos e os próprios combustíveis das viaturas acabam por congelar. Se este objetivo não for conquistado até meados de outubro, porque aí começa a estação das chuvas e começamos a ter novamente os grandes lamaçais, parece-me que este objetivo não ficará conquistado. Por outro lado, na região de Kherson, também temos uma contraofensiva anunciada. Aquilo que podemos concluir é que, eventualmente, nas próximas duas semanas, podemos assistir a uma ofensiva, que eu diria, no mínimo, para libertar pelo menos a parte a oeste do rio Dnipro, do Oblast de Kherson por parte das forças ucranianas. Aliás, há notícias de hoje de que, inclusivamente, há responsáveis russos, quer militares, quer da parte administrativa e política, que já terão abandonado essas regiões, porque a Rússia faz o bombardeamento das pontes rodoviárias e ferroviárias, que permitiam, naturalmente, a chegada dos reforços e o abastecimento logístico às forças russas que se encontram a ocupar essa porção de terreno do Oblast de Kherson, a oeste do rio Dnipro. Isto não se está a efetivar e há notícias de hoje de que-
Espera-se essa nova ofensiva em Kherson.
Espera-se essa ofensiva e que poderá ocorrer nas próximas duas semanas e que no mínimo, essa parte desse terreno possa ser libertado pelas forças ucranianas.
Há também informações de que as tropas ucranianas terão atingido um quartel-general do grupo de mercenários Wagner, vão sendo ataques que vão sendo aqui relatados. E do outro lado, há também um anúncio do Ministério Russo da Defesa, de que as tropas russas eliminaram mais de uma centena de mercenários estrangeiros em Kharkiv, é o que diz pelo menos o governo russo, feriram outros 50. O que lhe perguntava é se a guerra também se faz a este nível, não é? Atacar mercenários e quartéis-generais.
A guerra faz-se muito a este nível. Aliás, já se fazia a esse nível desde o início desta operação militar ou desta ocupação por parte da Rússia. A Rússia já desde 24 de fevereiro, que através dos seus mísseis, através dos seus mísseis de precisão de longo alcance, através da sua aviação, que tem atacado fundamentalmente a profundidade do dispositivo defensivo da Ucrânia. Aquilo que a Ucrânia não era capaz de fazer até há um tempo a esta parte. Mas desde que a Ucrânia recebeu os conhecidos HIMARS e os MARS II, ou seja, os sistemas de lança-foguetes múltiplos que permitem alcances de cerca de 80 km, pelo menos. Com este tipo de armamento, a Ucrânia também passou a ser capaz de atingir os quartéis-generais, postos de comando, instalações logísticas das forças russas. E o que aconteceu na região de Donetsk foi de facto um ataque cirúrgico a uma instalação onde estariam forças Wagner, onde estariam os mercenários do grupo Wagner. Por outro lado, de sublinhar, e também é um facto, que a Rússia não desistiu, e devemos deixar isto bem claro, não desistiu de conquistar Kharkiv. Muito embora Kharkiv não faça parte do objetivo que foi explicitamente anunciado, o Donbass, como sabemos, Kharkiv, pela sua proximidade à fronteira russa, é algo que nós devemos deduzir que continua a fazer parte do objetivo político, conquistar Kharkiv. E é por isso que temos vindo a assistir nos últimos dias a bombardeamentos consecutivos de regiões de Kharkiv e algumas iniciativas por parte de alguns battle groups que têm sido empregos em Kharkiv. Se bem que estes battle groups que têm sido empregos em Kharkiv são os battle groups que têm sido constituídos a custo de voluntários com uma preparação algo deficiente e não têm tido o sucesso que a Federação Russa poderia estar a contar. De qualquer forma, é de sublinhar que a Rússia continua a tentar conquistar o Oblast de Kharkiv e a própria cidade de Kharkiv, e é por isso que houve efeito este tipo de bombardeamento, onde poderão ter morrido muito bem esses 100 militares do exército ucraniano.
Mercenários estrangeiros.
Mercenários estrangeiros, mas ao serviço, naturalmente, do exército da Ucrânia. É muito bem possível que essa notícia possa ser verosímil, ou seja, verdadeira.
Major-general Isidro Morais Pereira, muito rapidamente gostava também de lhe pedir para analisar aqui os últimos desenvolvimentos nas relações da Rússia com outros países. Há também deste fim de semana um aviso de Moscovo de que pode vir a cortar as relações com os Estados Unidos, caso os norte-americanos coloquem a Rússia na lista de Estados que apoiam o terrorismo. Pergunto-lhe que aviso é este e se, por outro lado, os norte-americanos podem mesmo seguir em frente com esta possibilidade e que consequências é que podem vir desta medida?
Eu penso que colocar um país na lista de país terrorista ou patrocinador direto do terrorismo, julgo que temos que olhar para esta ideia com alguma cautela. Julgo que os Estados Unidos não irá, pelo menos a breve trecho ou num futuro próximo, considerar a Rússia como um país terrorista ou patrocinador do terrorismo. Aliás, como não o fez com outros países. Por exemplo, todos nós sabemos que a Arábia Saudita é um dos países que é patrocinador de movimentos terroristas, inclusivamente da Al-Qaeda e do Isis e do Daesh, e nunca foi considerado pelos Estados Unidos como um país patrocinador do terrorismo. Portanto, nós temos que ler estas declarações com alguma cautela. Agora, que é um pedido expresso do governo ucraniano, é. Com alguma insistência, Zelensky tem vindo a pedir ao mundo ocidental, ao Ocidente alargado, onde se incluem naturalmente os Estados Unidos, para que declare a Rússia como país patrocinador do terrorismo internacional ou como país terrorista. Mas eu julgo que os Estados Unidos serão cautelosos neste tipo de declaração, neste tipo de decisões.
Ainda só mesmo para terminar e muito rapidamente, gostava também de tocar aqui nas relações de Putin com a Coreia do Norte. Putin garantiu esta manhã que a Rússia e a Coreia do Norte vão expandir as relações bilaterais. Foi numa carta enviada a Kim Jong-un a propósito agora do Dia da Libertação da Coreia do Norte e também hoje o embaixador russo no Afeganistão veio afirmar que é do interesse de Moscovo trabalhar com os Talibã. O que lhe pergunto é se a Rússia está aqui de alguma forma à procura de aliados e se estas eventuais aproximações podem mesmo acontecer e que consequências é que podem ter no terreno.
É muito importante referir que a Rússia, desde 24 de fevereiro, está numa guerra, não numa operação especial, que tem provocado um enormíssimo desgaste nas suas capacidades militares, quer humanas, quer materiais. Nós sabemos disso. Aliás, sabemos que a própria Duma propôs um investimento de mais de 10 mil milhões de dólares em material militar e que o próprio presidente, já há um mês atrás, terá aprovado esse mesmo investimento. E a Rússia também procura suprir algumas insuficiências no seu complexo militar industrial. Aliás, por isso é que comprou, há bem pouco tempo, teve um contrato com o Irão para a aquisição de mil drones, como nós sabemos, sabendo nós que alguns deles já se encontram inclusivamente a operar no teatro de operações. Portanto, a extensão deste tipo de colaboração com a Coreia do Norte faz parte também deste tipo de filosofia de aproximação a países que são normalmente países hostis ao Ocidente e que antagonizam os Estados Unidos. E a Rússia está a procurar, no fundo, um conjunto de aliados para se opor ao Ocidente alargado e através dos quais possa fortalecer o seu complexo militar industrial, a comprar, inclusivamente, equipamento militar que possa necessitar de forma urgente e também procurar compradores para o seu petróleo e para o seu gás natural, para os seus cereais e para os seus metais preciosos, de que é exportadora. Portanto, no fundo, a Rússia está a tentar constituir, ou fortalecer, melhor dizendo, uma coligação antiocidental sob todos os domínios. Domínio económico, domínio diplomático e domínio militar incluído.
E acaba por ser aqui uma estratégia também.
Acaba por ser uma estratégia em benefício da própria Rússia. Aliás, a Rússia, nós sabemos aquela frase do bilião de ouro que já tem cerca de 20 anos, de um homem do marketing russo e que tem sido utilizada ultimamente pelo Kremlin de forma comum, a dizer que, de facto, o Ocidente alargado é o Ocidente rico, é o Ocidente que consome praticamente todas as matérias-primas do mundo e que se arroga a poder decidir pelos outros todos. Mas no mundo existem mais seis bilhões de almas. Quer dizer, este bilião de ouro não tem que mandar, não tem que comandar o resto do mundo. E a Rússia está a procurar opor-se, de alguma forma, a este conjunto de seres humanos nos quais nós estamos incluídos. Quando digo nós, digo o nosso país, nós portugueses, pertencendo à NATO e a este Ocidente alargado, nós estamos incluídos no Ocidente alargado, no Ocidente próspero e neste bilião de ouro, assim designado, na Rússia. E o que é que tem feito a Rússia a nível diplomático? Uma campanha muito bem orquestrada, uma campanha digamos fora-hors, dirigida fundamentalmente a alguns países da Ásia, praticamente todos os países da África Subsaariana e da América do Sul, no sentido de constituir, de ter aqui aliados para se poder opor, no fundo, ao Ocidente alargado, capitaneado pelos Estados Unidos, como nós conhecemos.
E vamos ver o que é que vai acontecer nos próximos tempos em relação a essas relações com a Coreia do Norte.
Com a Coreia do Norte e vamos ver, no fundo, também a questão da China, também é aqui importante, só que a China tem que ser observada à parte. Portanto, a China não é um aliado, digamos, "tout court" da Rússia, porque a China tem outras ambições. A China é uma potência, é a segunda maior economia do mundo e é um país que tem aspirações a ser uma superpotência a par com os Estados Unidos.
E é também aqui central.
É aqui central. A Rússia é que se encontra algo perdida neste mundo. A Rússia, neste momento, não terá a capacidade que tem a China para poder ser uma superpotência. Portanto, procurando olhar para o mundo no futuro, daqui a três, quatro décadas, o que nós vemos é o mundo bipolar. Vemos um mundo à volta dos Estados Unidos e um mundo com uma centralidade à volta da China, eventualmente. Não estamos a ver que a Rússia seja vassalo da China ou vice-versa, ou que a China possa ser um dos vassalos da Rússia. Aliás, isso nunca aconteceu na história. Portanto, não é agora que vai acontecer.
Muito bem. Agradeço-lhe, major-general Isidro Morais Pereira, agradeço-lhe a disponibilidade para se juntar a nós nesta tarde de segunda-feira de feriado. Ajudou-nos aqui o major-general Isidro Morais Pereira a olhar para os mais recentes avanços no terreno na guerra da Ucrânia. Agradeço-lhe a disponibilidade. Foi aqui mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Muito boa tarde.