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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta terça-feira com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, que está em Washington. Olá, Bruno, bem-vindo.
Olá, obrigado.
Bruno, começamos pelas negociações em Riade. Zelenskyy que acusa a Rússia de influenciar a Casa Branca com narrativas falsas sobre o conflito. Isto depois de Steve Witkoff ter, entre outras coisas, comentado negativamente a adesão da Ucrânia à NATO, declarações que foram mal recebidas em Kiev e vistas como um eco da propaganda russa.
Sim, e realmente eu percebo e penso que até objetivamente e infelizmente, parece que Zelenskyy tem alguma razão. O que também não é de espantar, porque este senhor, o Steve Witkoff, tem zero experiência em diplomacia internacional, é uma pessoa do imobiliário. Isso em si mesmo não é um problema, desde que a pessoa depois também estude os dossiês, mas aparentemente ele parece realmente estar a estudar os dossiês russos. Por exemplo, esse ponto, mas por exemplo, a questão que ele diz que a população desta zona fala russo e nos referendos disse que queria ser russo. Bem, o Zelenskyy também fala russo. O Zelenskyy deve aprender a falar ucraniano já depois de ser presidente. O fato de uma pessoa falar russo não quer dizer que queira ser russa. Os brasileiros também falam português, não quer dizer que queiram ser portugueses ou os angolanos. Além disso, nós vimos todos as imagens de como é que decorreram aqueles referendos. Além de ter havido um processo de limpeza étnica antes, ou seja, as pessoas ou fugiram ou foram forçadas a fugir, muita da população original já não estava lá e a que estava foi obrigada a votar muitas vezes com espingardas apontadas. Portanto, obviamente, esse referendo não tem nenhuma validade à luz da lei internacional. E não devia ser preciso explicar isso ao principal negociador americano, que devia perceber bem, no fundo, qual é que foi o tipo de manobras que a Rússia fez neste contexto e também qual era a gravidade deste precedente. Ao mesmo tempo, pode-se argumentar que se calhar Zelenskyy não devia estar a insistir nestes pontos. Na mesma entrevista, por exemplo, o Steve Witkoff também veio dizer que achava que os europeus queriam era aparecer, que queriam é ter visibilidade e protagonismo. Não sei se ele não estava a confundir os europeus com o seu próprio chefe, com o presidente Trump, mas queriam ser o novo Winston Churchill. Ironicamente, o próprio Trump insistiu em ter um busto do Winston Churchill lá na Sala Oval, mas aparentemente não porque tenha em conta o pensamento dele sobre os perigos de chegar a acordos a qualquer preço contra ditadores expansionistas que já várias vezes violaram acordos, etc. Mas a verdade é que, por exemplo, o primeiro-ministro britânico optou por basicamente não responder, mandou alguém responder, o que também está bem, porque o Steve Witkoff não é o presidente dos Estados Unidos, trabalha para o presidente dos Estados Unidos. Portanto, o primeiro-ministro britânico mandou um dos seus assessores responder a dizer que isso eram questões secundárias, o que interessava é que os europeus estavam concentrados em conseguir um bom acordo para a Ucrânia e um bom acordo implicava boas garantias de segurança e, portanto, repetir no fundo o essencial. E desse ponto de vista pode ser que esse tipo de postura de Zelenskyy, de fato, seja um pouco contraproducente. Não se vê que vá fazer Donald Trump mudar de ideias ou o negociador. Portanto, se calhar ele devia perceber também que tipo de tática é que funciona melhor, nomeadamente com os aliados europeus, embora também se percebe que ele está num contexto de guerra, de uma luta de vida ou morte contra a Rússia e, portanto, isso também se calhar condiciona um pouco as reações mais apaixonadas e menos pensadas.
Entretanto, Trump diz que a guerra na Ucrânia está sob controle e que é a única pessoa no mundo capaz de deter Vladimir Putin. Bruno, o que leva o presidente norte-americano a dizer tudo isto quando do telefonema da semana passada ficamos mais com a impressão que Putin é que tem Trump na mão e que não tem pressa de acabar com o conflito?
Sim, no fundo, lá está. São declarações que correspondem ao estilo de fazer política do Donald Trump. E a verdade é que aparentemente foram suficientes para ele voltar a ganhar as eleições, embora por uma margem curta, mas é sempre muito esta ideia de que tudo o que ele faz é o melhor e o maior do mundo. Depois os resultados na prática não interessam muito para toda esta retórica, para toda esta forma de gerir a política. Passa muito realmente pela questão da imagem, de uma imagem maximalista, de uma retórica hiperbólica, exagerada, e quando os fatos são inconvenientes, basicamente tenta-se negar os fatos, ocultar os fatos, acusar a imprensa de estar, no fundo, atravessa publicar fatos, dizendo que a imprensa não tem credibilidade, portanto no fundo atacar o mensageiro quando não se está interessado na verdade da mensagem. E tudo isso corresponde ao estilo do Donald Trump fazer política. O grande problema é que neste contexto, realmente, os Estados Unidos têm um papel muito importante no apoio à Ucrânia. Não estamos a falar sequer de novo apoio, de fornecer novo equipamento. Se os Estados Unidos deixarem de fornecer peças para manutenção, se criarem dificuldades ao apoio europeu, que muitas vezes é usando armamento que foi adquirido aos Estados Unidos, tudo isso pode ter aqui um efeito muito complicado de gerir por parte da Ucrânia. Aí acho que aquilo que os europeus, os ucranianos têm de se concentrar em dizer é que se houver aqui uma vitória russa, algum tipo de colapso da resistência, ele será da responsabilidade do Donald Trump, será Donald Trump que estará a oferecer uma espécie de vitória que Putin nunca conseguiu alcançar no campo de batalha, que isso faria os Estados Unidos perder credibilidade, que afetaria negativamente a sua imagem, porque realmente parece ser sobretudo isso que Donald Trump valoriza e também a sua popularidade aqui internamente. Para já, os números continuam a descer e ele tem uma popularidade Sempre teve uma popularidade historicamente baixa, mas a verdade é que, sobretudo no seu núcleo duro, continua a contar com muito apoio.
Bruno, temos ainda a polêmica sobre o jornalista que foi por engano incluído no chat da equipe de segurança dos Estados Unidos e ficou a saber mais do que era suposto sobre planos de guerra da administração Trump. O que ficamos todos a saber e que nos deve preocupar e como é que uma coisa dessas acontece?
Acho que, por um lado, é uma mistura de arrogância e de amadorismo, que muitas vezes, aliás, vão de mãos dadas. Portanto, esta ideia de que as regras habituais não se aplicam a nós, regras de segurança, obviamente não se pode discutir operações militares em telefones normais e utilizar apps que estão disponíveis a toda a gente, mesmo que esta app seja considerada relativamente segura, a verdade é que os telefones em si não são, bastava alguém ter perdido um telefone ou ter adicionado um jornalista que não fosse tão consciencioso ou que não fosse norte-americano, ou ter adicionado o Michael Watts, que é o conselheiro de segurança nacional, certamente estará, por exemplo, no telefone do seu homólogo russo. Quer dizer, aparentemente não se deram ao trabalho de verificar isso. E depois, eu diria que aquilo que é também muito significativo, especialmente para nós europeus, é que um dos grandes pontos a ser discutido foi a questão da Europa. O grande problema para o vice-presidente J.D. Vance, aparentemente para o ministro da Defesa também, Pete Hegseth, o responsável da defesa, era que isto podia ser bom para os europeus. Temos declarações várias do J.D. Vance a dizer: "O meu principal problema é que isto não interessa nada aos norte-americanos da zona onde eu vivo, lá do meio do Hawaii, aí tudo bem. Além disso, isto mais uma vez é estarmos a ajudar os europeus e é isso que me irrita". O responsável da defesa responde: "Eu estou completamente de acordo. O fato de os europeus nos andarem aqui a explorar as nossas capacidades de defesa realmente é inaceitável e é patético". Eu ponho isso até em letras minúsculas. E a operação avança porque no final eles chegam à conclusão, mas não há problema, porque vamos a seguir forçar os europeus a pagar o custo desta operação, na qual os europeus não foram convidados a participar, não foram consultados, tanto quanto se sabe, não se percebe se foram informados ou não. É verdade, e temos referido aqui isso várias vezes, que os europeus, do meu ponto de vista, já deviam ter feito mais contra os houthis, que este estrangulamento da navegação civil não é aceitável, é contrário aos interesses de toda a gente no mundo. Agora, aqui, obviamente, uma operação deste tipo acontece ou não, porque é do interesse dos Estados Unidos manter a liberdade de navegação, isso é fundamental para a economia mundial. Os Estados Unidos são a maior economia do mundo, exporta e importa muito. O fato de favorecer os europeus até devia ser um bônus, ou eventualmente procurava-se envolver os europeus de alguma forma. Agora, realmente, esta lógica mostra bem o nível de hostilidade, de aversão em relação à Europa e também esta ideia de que a Europa pode ser tratada como uma espécie de dependente da máfia, que pode ser depois chantageado usando a força norte-americana para extrair recursos. Realmente, tudo isto é profundamente lamentável, é mais um aspecto que mostra que este tipo de comunicações não devia existir. Ao mesmo tempo, fica bastante claro, ou deveria ficar para os europeus, exatamente o que alguns dos principais responsáveis norte-americanos pensam da Europa e o que contam fazer em relação à Europa.
E perante este cenário, Bruno, a Turquia, por exemplo, pode ser a aliada improvável da União Europeia?
Neste momento, a perspectiva que se coloca, e isso é uma questão global e geral, é que a questão de promoção da democracia é um luxo, a questão da ajuda ao desenvolvimento cada vez mais vai ser um luxo que vai ter de ser sacrificado à necessidade de buscar dinheiro para o rearmamento da Europa. A promoção da democracia é um luxo ineficaz ainda por cima, porque não só estes países, estes autocratas, estes ditadores podem contar com a China ou com a Rússia, mas aparentemente podem contar também com os Estados Unidos, não só não terem problemas como até eventualmente fazerem negócios lucrativos com a nova administração, porque isso é indiferente aparentemente à administração Trump. O que isso significa é que os europeus realmente têm de ser muito mais pragmáticos na sua postura, muito mais realistas, têm de procurar diversificar relações, obviamente não cortar relações com os Estados Unidos e procurar o mais possível perceber se é possível salvar alguma coisa desta relação que tem sido muito valiosa, por exemplo, como garantia de segurança para a Europa. Também se percebe isso, infelizmente, nestas circunstâncias, de forma muito clara, mas realmente tem de haver aqui uma diversificação. E a Turquia, obviamente, é um exemplo do tipo de dinâmicas que este tipo de postura da administração Trump leva. Ou seja, a multiplicação de conflitos armados. Estamos a ver isso, por exemplo, com o Ruanda praticamente abertamente a ocupar e conquistar uma boa parte do leste do Congo, mais uma cidade mineira que foi ocupada nos últimos dias. E vemos isso, por exemplo, com Erdogan a prender sem qualquer problema o presidente da Câmara da principal cidade turca, de Istambul, o líder da oposição, sem ter qualquer receio de retaliações pesadas, por exemplo, para a economia turca, porque claramente isso não vai acontecer com Donald Trump, que tem grande simpatia por Erdogan e outros homens fortes. E os europeus também dificilmente se podem dar ao luxo disso, por causa da questão da gestão das correntes migratórias e por causa do papel crucial da Turquia, por exemplo, na questão do acesso ao Mar Negro, que é um palco vital também nesta guerra entre a Ucrânia e a Rússia.
Entretanto, ia terminar. Sobre o Médio Oriente, Bruno, a solução para a Faixa de Gaza tem que ser política e deve passar, por exemplo, por novas regras no Conselho de Segurança da ONU?
Eu penso que a solução durável e desejável seria realmente algum tipo de solução política. E não sou só eu a dizer isso, são elementos do próprio partido de Netanyahu, que entretanto foram afastados, como o antigo ministro da Defesa, são altos responsáveis militares e até dos serviços de informações israelitas, como o responsável do Shin Bet, que o primeiro-ministro está a tentar afastar porque descobriu umas negociatas, aparentemente entre assessores de Netanyahu e o Qatar, que também subsidiava o Hamas. Mas em relação ao protagonismo da ONU, ele está extremamente limitado. A ONU, o próprio secretário-geral, imagino que esteja extremamente preocupado com a possibilidade de cortes radicais ao financiamento americano. Também mais uma vez nos recorda como os Estados Unidos, apesar de todas as críticas que sempre sofreu, foi o principal e continua a ser o principal financiador do sistema das Nações Unidas. Portanto, tem aqui pouca margem de manobra. Cortou todas as pontes também com Israel, portanto Israel basicamente vê a ONU como algo completamente hostil e não há nenhuma margem de manobra para grandes mudanças na forma de funcionamento das Nações Unidas, porque as principais potências não têm interesse em que isso aconteça, ainda mais com os Estados Unidos, que todas as indicações são que vão desinvestir das Nações Unidas e que, como presidente, tem uma grande hostilidade a este tipo de organizações multilaterais, seja a União Europeia, seja as Nações Unidas. Portanto, acho que sempre foi difícil conseguir algum tipo de alterações nas regras das Nações Unidas, porque implica um consenso muito amplo e que não haja veto dos cinco membros permanentes, que são aqui também muitas vezes a grande força de bloqueio. Mas qualquer reforma tem que passar por eles, não pode ter o seu veto e, portanto, isso não parece todo realista no contexto atual.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela análise e mais um "O Briga de Guerra". Boa semana, Bruno. Bom descanso. Obrigada.
Obrigado.