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Fazemos nos próximos minutos, na Rádio Observador, um ponto de situação dos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Sou Miguel Cordeiro, estou à conversa com Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da Sedes Europa. Muito obrigado por se juntar a nós. Vamos começar com o encontro anunciado entre Netanyahu e Trump. Vão estar reunidos na próxima semana. Primeiro, ontem à noite houve uma confusão sobre datas. Foi avançado pelo lado israelita que a reunião aconteceria no dia 4 de fevereiro, depois a Casa Branca veio desmentir e dizer que seria na próxima semana, mas que não aconteceria no dia 4. Entretanto, foi confirmado por Washington que deveria acontecer esta reunião na quinta-feira da próxima semana. Dias à parte, certo é que esta reunião vai acontecer. Qual a importância deste encontro também para aquilo que é o conflito no Médio Oriente e aquilo que é a participação norte-americana nesse conflito?

Antes de mais, boa tarde. Obrigado à Rádio Observador pelo convite, mais uma vez. Antes de mais, dizer que foi Donald Trump que convidou Netanyahu a estar em Washington. Portanto, é uma visita a convite de Donald Trump. Donald Trump quer mostrar com isso, até pelo que disse agora na questão das datas, Donald Trump gosta de ter sempre a primeira palavra, sempre a iniciativa. Isso provavelmente poderá ter havido um lapso dos serviços diplomáticos israelitas ao divulgarem primeira data. Donald Trump quis reforçar depois da parte dele ou os serviços que o acompanham. Donald Trump gosta de ser ele a ter o controle da agenda. Isso foi notório nesta questão. É uma questão menor, mas foi bem patente essa questão. O facto é que Donald Trump quer dar um sinal de que está com Israel e de que naquela zona do globo, no Médio Oriente, Israel é essencial para os Estados Unidos. De relembrar que os Estados Unidos dão uma grande importância àquela zona do globo pela quantidade de navios comerciais que passam naquela zona e que impactam bastante a economia americana, mas também nas relações que não têm com outros países, como é o caso do Irão. Sabem que Israel é fundamental, nomeadamente os serviços de informação de Israel e todo o acompanhamento e capacidade que Israel tem de conhecimento do Médio Oriente para continuar a geopolítica que Trump tem definida para este mandato.

Olhando aqui para o outro conflito, o conflito na Ucrânia, hoje há a informação de que Zelensky está a pedir um relatório às autoridades ucranianas, um relatório para estudar o impacto que pode ter a suspensão da ajuda dos Estados Unidos da América, a ajuda à Ucrânia. O presidente ucraniano pediu este relatório sobre os programas financiados pelos Estados Unidos da América, que passam a ser afetados por essa suspensão de ajuda externa decretada por Donald Trump. A medida consiste num congelamento de 90 dias, tem impacto em diferentes iniciativas humanitárias na Ucrânia. De facto, isto pode ter algum impacto para o esforço de guerra ucraniano e Zelensky quer perceber qual é a real dimensão deste corte na ajuda.

É claro que sim. Zelensky falou na madrugada de ontem para hoje de que esse corte dos Estados Unidos durante 90 dias ordenado por Donald Trump a diversas organizações que os Estados Unidos apoiam habitualmente, e são organizações muitas delas não governamentais, que têm programas de apoio tanto sociais como económicos, como de desenvolvimento, alguns até científico e também de apoio em áreas energéticas, são fundamentais para o funcionamento da Ucrânia hoje em dia. E aquilo que Zelensky quer saber é quanto tempo poderá aguentar, provavelmente sem esse apoio dos Estados Unidos, e como é que poderá conseguir gerir essa questão nos próximos três meses para aguentar Putin, que por sua vez já disse, e puxando aqui um assunto talvez lateral, mas a ver com este assunto, é que Putin já disse que não negociará nenhum acordo de paz com Zelensky, porque diz que ele não é um líder legítimo, porque já devia ter ido a eleições em maio. Portanto, temos aqui um braço de forças, um braço de ferro entre Putin e Zelensky também na questão do acordo de paz. Provavelmente, Putin quer assinar o acordo de paz só com Donald Trump e sem os líderes europeus, nem com Zelensky à mesa. Isso parece-me um pouco difícil, mas penso que é para aí que Putin vai tentar levar essa negociação de paz, para que seja ele e Donald Trump os dois líderes a assinarem como sendo os dois maiores líderes a assinarem o acordo e lateralizando um pouco até a Europa e Zelensky.

E tirar também da equação o papel da União Europeia nessa negociação. Certo também que, é uma informação do dia de hoje, a União Europeia prepara-se para avançar com um novo pacote de sanções contra a Rússia, propôs um embargo gradual do alumínio russo como parte deste novo pacote de sanções. Foi dito, entretanto, que a União Europeia não vai banir para já gás natural russo neste novo pacote de sanções, mas Zelensky, depois de perceber que a União Europeia se preparava a isto, veio dizer mesmo que são importantes essas sanções perante aquilo que é o aumento do orçamento militar russo. O que a União Europeia ainda pode fazer a nível de sanções? Estamos com quase três anos, já perdemos a conta do número de pacotes de sanções da União Europeia à Rússia. Muitas estão a ser contornadas, a Rússia encontra formas de contornar essas sanções. O que ainda pode ser feito?

A questão que falou agora do gás é uma questão crucial. Só que a questão é que a União Europeia não pode unilateralmente utilizar o fornecimento de gás como sanção totalitária, porque continua ainda a depender do gás. Aliás, grande parte do gás que chega neste momento à União Europeia via Rússia vem por outros intermediários que não a Rússia diretamente. Portanto, isso é algo que poderia dar um rombo nos cofres e no esforço de guerra russo, mas que para a União Europeia teria custos gravíssimos neste momento no inverno, em que muitos países e a economia, por exemplo, a economia alemã, continua ainda muito dependente desta questão do gás. Sabemos que o Donald Trump já assumiu durante o seu discurso em Davos que continuaria a prestar ajuda comercial ou colaboração comercial, é uma venda, mas é uma colaboração comercial à União Europeia e até a aumentar as centrais de gás liquefeito, que depois por sua vez chegam à Europa. Mas a União Europeia está a pagar esse gás a um preço muito mais elevado do que pagaria o gás russo. Portanto, a União Europeia está num colete de forças em que terá que continuar a aumentar essa pressão e aumentar essas sanções, mas também, por outro lado, não tem muitas soluções. E agora com o Donald Trump na equação não tem muitas soluções em termos energéticos pra conseguir contrariar essa supremacia russa em termos energéticos. E Vladimir Putin também sabe disso e também aproveita essa questão para trazer pro tabuleiro de xadrez que tão bem tem jogado até agora.

Olhando aqui para um tema que marca a semana, a questão do investimento na NATO. Esteve Mark Rutte no início desta semana em Portugal, falou bastante da questão do investimento em defesa. Donald Trump tem vindo a defender que os Estados membros da NATO devem aumentar para 5% do PIB os gastos com defesa. Rutte não é tão ambicioso, mas também exige mais do que os 2%, e Portugal disse que está disponível para antecipar a chegada aos 2% de investimento em defesa, 2% do PIB nacional ao ano. Como é que vê esta discussão e qual é a importância de aumentar os gastos em defesa e se Portugal tem condições, nesta altura, para chegar a estes valores definidos pela NATO?

Antes de mais, as condições terão que ser sempre políticas em primeiro lugar. As condições criam-se com uma política estratégica e orientada pra essa área, que até hoje não tem sido, nos mais diversos governos e nos últimos anos, uma das prioridades, mas sobretudo também por uma pedagogia à sociedade. Isso é muito importante, porque em política, se agora unilateralmente, qualquer governo decidisse que cortaria na área da saúde ou da educação para aumentar gastos em defesa, provavelmente as pessoas, um eleitorado bastante importante não compreenderia e penalizaria esse governo ou essa coligação em próximas eleições. Nos regimes democráticos, isso tem que ser analisado criteriosamente. Agora, sabemos, por exemplo, e eu deixava ali umas declarações do general Hubert Bonneau, que é o comandante geral da Gendarmerie Nacional em França, que enviou uma carta esta semana às pessoas que gera em toda a França a dizer que deveriam estar cada vez mais preparados para um conflito armado em que a França tivesse que entrar nesse conflito armado. Portanto, esses alertas que vão ser dados no centro da União Europeia devem servir também para a política nacional conseguir puxar essa informação para Portugal e tendo cada vez mais uma política pedagógica neste aumento, que deve ser provavelmente antecipado, mas também devem ser dados sinais que é possível provavelmente ir mais além do que esse aumento. Dizer-lhe só esta questão para terminar. Há muitos países na zona do Báltico e nas zonas mais próximas de fronteira com a Rússia que já estão a dar sinais que vão aumentar para 4, 5, 6%. Grande parte dos países que antes não eram os principais financiadores e não viam a União Europeia, como é o caso da Holanda e os países nórdicos, não injetavam, se me permite utilizar este termo, tanto dinheiro na União Europeia, hoje em dia estão a injetar muito mais porque eles próprios, principalmente os países nórdicos, ficam muito mais expostos. Portanto, mesmo entre a União Europeia, as forças e a pressão de forças está a mudar completamente. Os países estão a ver a questão da defesa num parâmetro completamente diferente do que viam antes da guerra. E só para terminar mesmo, dizer-lhe que este será um assunto que, penso eu, dominará os próximos meses, nomeadamente com a questão das eleições presidenciais, até pelas características que elas vão ter como candidatos. Aliás, já ouvimos várias pessoas nos últimos dias a falar sobre isto. Será um ano em que isso será bastante discutido e que cabe também aos líderes políticos fazerem essa pedagogia, que é o que eu penso que Portugal deve fazer.

Vitor Gabriel Oliveira, secretário-geral da CEDJ Europa. Muito obrigado por ter estado conosco neste Gabinete de Guerra.

Obrigado, eu.