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Arranca agora o Gabinete de Guerra das manhãs 360, hoje mais cedo. A análise é de Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Muito bom dia, Francisco, bem-vindo.
Bom dia, Maria João.
Bom dia. Este fim de semana, Moscovo atacou a Ucrânia com centenas de drones e dezenas de mísseis. Morreram pelo menos 12 pessoas num dos ataques, entre elas três crianças. A Ucrânia fala no ataque russo mais massivo desde o início da invasão. Trump disse há poucas horas que Putin ficou completamente louco e que mísseis e drones estão a ser disparados sem nenhuma razão. Francisco, só agora é que Trump percebeu isso? Como é que devemos interpretar estes comentários?
Não propriamente, porque ele expressa-se diariamente nas redes sociais e, portanto, basta andar para trás para vermos declarações parecidas.
Pois, também é verdade. A narrativa vai mudando.
Neste aspecto concreto, nem por isso, porque eu lembro há pouco tempo que ele enviou um post em que dizia: "Vladimir, para, porque é preciso parar com os ataques. Isto é horrível, não faz qualquer sentido". Mas entretanto falou ao telefone com Trump e estas revoltas momentâneas. Eu próprio, ainda ontem, na final da taça, fui ao Twitter manifestar o meu estado de espírito, mas eu não sou o presidente dos Estados Unidos e esse é que é o ponto. Realmente, eu acredito que Trump seja aquilo que ele de facto sente, mas na verdade podia que esses seus sentimentos tivessem alguma expressão na política americana em relação à Rússia. E a verdade é que não têm, porque aquilo que ficou acordado com Vladimir Putin na semana passada foi os russos enviarem um memorando.
E até agora nada, não é?
E até agora nada. E o memorando virá e nós sabemos que virá com condições inacreditáveis, que no fundo não serão aceites pela Ucrânia. E isto que aconteceu este fim de semana é muito significativo e expressa no fundo um pouco aquilo que a guerra é neste momento, que é uma guerra feita no ar, com centenas de drones a atacarem a Ucrânia e a Ucrânia a responder na Rússia também com centenas de drones. Isto foi um grande desenvolvimento em relação ao tipo de guerra que nós tínhamos há três anos, foi um desenvolvimento tecnológico enorme. Quer a Rússia, quer a Ucrânia têm estas capacidades agora e é muito difícil contrariá-las. Agora, era preciso ser feita alguma pressão sobre os russos, que não apenas posts nas redes sociais, mas claramente Donald Trump não quer fazer outra coisa que não isto. Agora já sabemos que Putin não liga nenhuma a esse tipo de mensagem. Se é que tem conhecimento das mesmas. Não sabemos o que é que chega até Putin.
Sobre o Médio Oriente, temos de falar das mensagens de voz que vários israelitas receberam com a voz de reféns a pedir para serem libertados e para Israel chegar a um acordo. O som das sirenes ao fundo parecem ser editadas a partir de vídeos que o Hamas publica como prova de vida. Israel está a investigar. Mas Francisco, como é que devemos olhar para isto? Estratégia, propaganda do Hamas, isto pode tudo ser de facto real?
Sim, a chamada guerra híbrida muitas vezes passa por isto, por tentarem influenciar a opinião pública da forma que melhor se conseguir através dos meios de comunicação social, das redes sociais, e esse é um exemplo. Um outro exemplo que tivemos recentemente, ao contrário, foi a Eurovisão, porque está a ser investigado aqueles votos que foram feitos, muitos deles, e isto é público, com o próprio primeiro-ministro de Israel a pedir às pessoas para votarem na canção de Israel. Houve uma organização também paraestatal para que Israel tivesse uma vitória na Eurovisão, porque isso seria também considerado muito importante, como uma espécie de soft power, para mostrar que Israel não está tão isolado como estaria no passado. E aqui, ao contrário, o Hamas, que sabe que neste momento há uma grande maioria de israelitas que é contra a continuação da guerra, há sondagens que falam em 70%, e procurou explorar isto. E nós sabemos que desde o início deste 7 de outubro, as famílias dos reféns desenvolveram um protesto diário contínuo, que obviamente influencia muita gente. E claro, há uma proposta na mesa dos Estados Unidos para a libertação de metade dos reféns, ou da maioridade dos reféns, desde que exista o fim do conflito, e o Hamas quer isso, quer sobreviver e, portanto, recorre a todas as ferramentas que consegue, inclusivamente essa.
Entretanto, ao contrário da Secretária de Segurança Interna norte-americana, que de visita a Israel expressou o apoio inequívoco a Netanyahu e à sua gestão de guerra, Espanha quer embargo na venda de armas a Israel. Francisco Pereira Coutinho, parece-lhe que outros países da União Europeia possam seguir o exemplo? Netanyahu ganha muito em perder o apoio dos europeus.
Bem, eu não sei se perderá muito.
Ganha, não. Perde. Exatamente, perde.
Esse é que é o ponto. Nós tivemos a notícia na semana passada que está a ser investigada a possibilidade de suspender o acordo de comércio entre Israel e a União Europeia. E aí, sim, mais do que as armas. Os israelitas não precisam das armas europeias, precisam das armas dos Estados Unidos. É dali que realmente poderão vir problemas para a sua defesa, caso os Estados Unidos cessem o remete de armas para Israel. Esse é o grande perigo para Israel. Agora, da perspectiva europeia, o perigo deles é económico. Como justamente foi aquele acordo de comércio. E aí, aparentemente, para suspendermos o acordo de comércio, será necessária a maioria qualificada. Os espanhóis claramente querem essa suspensão. Em relação ao envio de armas, não vão enviar armas para Israel, já o disseram há muito tempo. Reconheceram a Palestina, intervieram no Tribunal Internacional de Justiça ao lado da África do Sul, no processo sobre a violação da Convenção para a Prevenção do Genocídio. Mas há vários Estados europeus, por exemplo, a Alemanha, que neste momento, apesar de também não enviar para Israel armamento, armamento que possa ser utilizado em Gaza, já há muito tempo, não está ainda disposta a sancionar Israel suspendendo este acordo de comércio, porque esse acordo de comércio, de facto, teria um grande impacto sobre Israel, sobre a economia israelita, que está muito pressionada também pela guerra. Eu acho que é mais por esse campo que os europeus podem pressionar Israel do que propriamente no domínio militar. Agora, já sabemos que este governo de Sánchez está muito apoiado também na extrema-esquerda, muito pró-Palestina, e isso também ajuda a explicar que esteja sempre na liderança ocidental no ataque a Israel, diplomático.
Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra desta semana. Um bom dia.
Bom dia, Maria.