A crise da habitação em Portugal é discutida, quase sempre, a partir de Lisboa, do Porto e das cidades onde comprar ou arrendar casa se tornou demasiado caro para muitos portugueses. É compreensível. É aí que o problema se manifesta com maior visibilidade e onde tantas pessoas começam a sentir que trabalhar já não chega para pagar uma casa.

Mas há uma pergunta que raramente ocupa o centro do debate: e se uma parte da resposta estivesse nos territórios que Portugal passou décadas a perder?

Em 2025, os preços da habitação em Portugal aumentaram, em média, 17,6%, segundo o Instituto Nacional de Estatística. Este número ajuda a perceber a dimensão da pressão sobre o mercado. Porém, olhar apenas para as zonas onde a procura é maior pode levar-nos a procurar soluções sempre nos mesmos lugares, reforçando a concentração que contribuiu para o problema.

O Interior não vai resolver, sozinho, a crise da habitação. Mas pode fazer parte da resposta. Para isso, temos de deixar de o tratar como um território condenado ao declínio e começar a considerá-lo como um lugar onde ainda é possível criar oportunidades, atrair pessoas e construir uma vida.

Um problema antigo, uma oportunidade nova

No final dos anos 90, a litoralização de Portugal e o despovoamento de vastas áreas do Interior já faziam parte do diagnóstico sobre o território nacional. A concentração de população, emprego e investimento nas grandes áreas urbanas não era uma descoberta. O problema foi identificado, discutido e estudado durante décadas. Ainda assim, a tendência persistiu.

O resultado está à vista. Há localidades onde faltam jovens, trabalhadores e famílias para assegurar a continuidade das escolas, do comércio, das associações e de muitos serviços. Noutros lugares, há casas que precisam de obras, edifícios sem utilização e centros históricos que perderam habitantes. Ao mesmo tempo, nas grandes cidades, há pessoas que passam uma parte crescente do rendimento a pagar uma habitação que nem sempre corresponde às suas necessidades.

Não devemos confundir estas duas realidades como se uma resolvesse automaticamente a outra. Uma casa vazia no Interior não é necessariamente uma casa habitável, disponível para arrendamento ou situada perto de emprego e serviços. Pode estar degradada, presa numa herança por resolver ou exigir obras que o proprietário não tem meios para realizar.

Mas é precisamente aqui que deveria começar uma política mais inteligente. Em vez de aceitar que estas dificuldades são inevitáveis, importa perceber o que impede a recuperação dos imóveis e criar condições para os devolver ao mercado. Em muitos casos, isso exige simplificação administrativa, apoio à reabilitação, soluções para os conflitos de propriedade e mecanismos que deem confiança tanto aos proprietários como a quem procura casa.

A crise da habitação pode, assim, obrigar-nos a olhar para um recurso que temos negligenciado: a possibilidade de distribuir melhor a população e a atividade económica pelo território.

Uma casa não chega para fixar uma família

Há, no entanto, uma condição essencial. Não basta dizer a uma família que no Interior encontrará uma casa mais barata. É preciso explicar-lhe como vai trabalhar, onde os filhos vão estudar, a que distância fica o centro de saúde e quanto tempo terá de perder em deslocações.

Uma casa sem condições de vida à sua volta é apenas um imóvel. Não é uma solução de habitação duradoura.

Por isso, a resposta tem de ir além da construção e da recuperação de edifícios. Exige transportes públicos fiáveis, ligações rodoviárias adequadas, Internet de qualidade, serviços de saúde e educação, apoio às empresas e oportunidades de trabalho. Exige também uma administração pública que não obrigue uma pessoa a deslocar-se dezenas de quilómetros para resolver assuntos que poderiam ser tratados localmente ou à distância.

O trabalho remoto e os modelos híbridos abriram possibilidades que eram mais limitadas há alguns anos. Nem todas as profissões permitem trabalhar a partir de casa, e seria ingénuo imaginar que uma ligação à Internet substitui um mercado de trabalho. Ainda assim, há profissionais, trabalhadores independentes e pequenas empresas para quem a localização já não tem de estar tão dependente de uma grande cidade.

Se Portugal conseguir associar habitação acessível a conectividade, serviços e atividade económica, algumas localidades poderão tornar-se alternativas reais para quem deseja viver fora dos grandes centros. Não se trata de convencer toda a gente a abandonar Lisboa ou o Porto. Trata-se de permitir que ficar ou mudar de região seja uma escolha possível, e não um privilégio reservado a quem tem dinheiro.

O Interior não precisa de ser salvo. Precisa de condições

Os dados demográficos também aconselham a evitar generalizações. Entre 2021 e 2024, 120 dos 308 municípios portugueses registaram um aumento do número de jovens, segundo dados divulgados pela Pordata. No mesmo período, 99 municípios perderam população em idade ativa. O país não evolui todo da mesma maneira. Há territórios com sinais de renovação e outros onde o envelhecimento e a perda de população continuam a colocar dificuldades sérias.

Esta diferença importa. Uma política nacional para o Interior não pode limitar-se a distribuir incentivos de forma igual por municípios com necessidades e possibilidades distintas. Deve identificar onde existe capacidade para atrair novas famílias, onde é prioritário recuperar habitação devoluta e onde é necessário garantir, antes de mais, condições mínimas para que os residentes atuais possam continuar a viver na sua terra.

Também não basta oferecer benefícios fiscais temporários e esperar que as pessoas apareçam. Os incentivos podem ajudar, mas só funcionam de forma duradoura quando existe uma economia local capaz de sustentar empregos e negócios. A agricultura, a transformação de produtos locais, a indústria, o turismo, os serviços, a cultura e as novas atividades digitais podem contribuir para essa economia. O objetivo não deve ser criar localidades dependentes de subsídios, mas permitir que a iniciativa das pessoas encontre condições para prosperar.

Há ainda uma questão humana que não pode ser ignorada. Para quem nasceu numa aldeia e teve de partir para estudar ou trabalhar, regressar pode significar recuperar proximidade à família, participar na vida da comunidade e viver de outra forma. Para quem nunca viveu no Interior, mudar-se pode representar a possibilidade de ter casa, espaço e tempo para a vida familiar. Estas escolhas não são universais, mas devem ser possíveis.

Uma oportunidade que exige decisões

O Estado não precisa de escolher entre investir nas grandes cidades e investir no Interior. Portugal necessita de infraestruturas nacionais, de transportes eficientes e de cidades capazes de competir. Mas a modernização não deve significar concentrar cada vez mais oportunidades nos lugares onde elas já existem.

A política de habitação pode contribuir para corrigir esse desequilíbrio, desde que seja articulada com o ordenamento do território, a mobilidade, a reabilitação urbana e o desenvolvimento económico. Isso significa criar programas que facilitem a recuperação de imóveis, apoiar o arrendamento de longa duração, aproximar serviços das populações e ligar as cidades médias às redes de transporte e de emprego. Significa também avaliar os resultados: quantas casas voltaram a ser habitadas, quantas famílias se fixaram, quantas empresas nasceram e que serviços permaneceram disponíveis.

Não há soluções rápidas para décadas de concentração territorial. E não devemos transformar o Interior num cenário idílico, como se a distância, o envelhecimento ou a falta de serviços fossem virtudes. Quem lá vive conhece as dificuldades melhor do que ninguém.

Mas também não podemos continuar a tratar a habitação apenas como um problema de metros quadrados nas áreas metropolitanas. A forma como distribuímos casas, empregos, transportes e serviços determina, em larga medida, onde as pessoas conseguem viver e que futuro podem construir.

Talvez a crise atual nos obrigue finalmente a fazer uma pergunta diferente. Em vez de procurarmos apenas como acomodar mais pessoas nos lugares onde todos querem viver, porque não criar condições para que mais lugares voltem a ser desejáveis para viver?

O Interior não precisa de promessas de salvação. Precisa de casas habitáveis, trabalho, serviços, ligações e pessoas com razões para ficar ou regressar. Se a crise da habitação ajudar Portugal a perceber isso, poderá ter pelo menos uma consequência positiva: mostrar-nos que a resposta ao excesso de concentração não tem de ser continuar a construir à volta dos mesmos centros, mas voltar a dar futuro a partes do país que nunca deveriam ter sido deixadas para trás.

P.S. Há, no entanto, uma dimensão desta discussão que dificilmente cabe nas estatísticas da habitação e nos indicadores económicos. Creio que estamos a perder algo essencial: a convivência humana.

Vivemos tempos de extremismos, de divisões e de desconfiança. Talvez por isso seja ainda mais importante preservar aquilo que nos aproxima: a hospitalidade, a disponibilidade para o outro, a conversa que não precisa de ter um objetivo, o cumprimento que não é mera formalidade e aquele abraço humano que, durante muito tempo, fez parte da maneira portuguesa de receber e de viver em comunidade.

No Interior, ainda encontro muito disso. Na cidade, corremos o risco de nos tornarmos números numa morada, o morador do número X, no andar Y, alguém que partilha um edifício com dezenas de pessoas sem chegar verdadeiramente a conhecê-las. No Interior, pelo menos na minha experiência, ainda somos muitas vezes reconhecidos pelo nome, pela família de onde vimos, pelos nossos antepassados ou simplesmente por aquilo que somos. Há uma proximidade que não se decreta nem se constrói com uma política pública. Cultiva-se ao longo do tempo, nas relações quotidianas, na entreajuda e na memória partilhada.

Não quero, com isto, idealizar o Interior nem demonizar as cidades. Há solidão nas aldeias e há comunidades solidárias nas grandes cidades. As diferenças não são absolutas, e seria um erro transformá-las em mais uma clivagem entre portugueses. Mas também seria injusto ignorar que, em muitos lugares do Interior, subsiste uma qualidade de vida que não se mede apenas pelo tamanho da casa, pelo rendimento ou pela distância ao emprego. Mede-se também pela qualidade das relações humanas, pelo sentimento de pertença e pela possibilidade de não passarmos pela vida sem que ninguém repare verdadeiramente em nós.

Tenho o privilégio de conhecer os dois mundos. Lisboa, a grande metrópole, com a sua energia, as suas oportunidades e a sua diversidade. E a Beira Alta, na zona do Sabugal, na maravilhosa vila do Soito, onde encontro outro ritmo e outra forma de estar. E deixem-me dizer-vos uma coisa, talvez simples, mas que para mim tem significado: aqui, até a comida sabe diferente, o ar é diferente, as pessoas são diferentes e os vizinhos são diferentes . Talvez porque os sabores também dependam das pessoas com quem nos sentamos à mesa, do tempo que temos para conversar e da sensação de estarmos, de alguma forma, em casa.

Longe do caos das grandes cidades, encontro aqui uma espécie de oásis. Não um paraíso, porque continuam a existir carências, necessidades por resolver e dificuldades concretas. Mas um lugar onde o tempo parece passar de outra maneira e onde ainda é possível encontrar uma proximidade humana que considero cada vez mais valiosa. E é justo reconhecer que, apesar do isolamento e de muitas limitações, existem esforços, por vezes difíceis e quase invisíveis, para melhorar as ligações, aproximar serviços e garantir que estas comunidades não ficam desligadas do resto do país.

Talvez seja também por isso que defender o Interior importa tanto. Não apenas para aliviar a pressão sobre a habitação no litoral, recuperar casas vazias ou corrigir desequilíbrios demográficos. Mas para preservar a possibilidade de viver de outra forma, sem que isso implique renunciar à modernidade, ao trabalho, à cultura ou ao futuro.

Esta é, naturalmente, a minha experiência e a minha opinião, que partilho convosco sem a pretensão de a transformar numa verdade universal. Mas acredito que a qualidade de vida também se mede pela forma como vivemos uns com os outros. E talvez, numa época em que tanto discutimos o preço de uma casa, valha a pena perguntar quanto vale aquilo que acontece à sua volta.

Porque uma casa pode dar-nos abrigo. É a vida que construímos com os outros que a transforma num lar.