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Está no ar mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador com o historiador Bruno Cardoso Reis. Estará a Rússia a preparar uma nova grande ofensiva para este novo ano? É uma das perguntas que gostaríamos de ter resposta no encontro de hoje do Gabinete de Guerra, também aqui com a ajuda da Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.
Antes de discutirmos isso em específico, é melhor olharmos para o que se passa no terreno porque pode ajudar. Bruno Cardoso Reis, em apenas 24 horas a Rússia bombardeou Kherson mais de 16 vezes. Kharkiv e Kiev ficaram sem eletricidade depois de um ataque aéreo que foi de grandes dimensões. Parece estar aqui a haver mais um ataque em massa contra os ucranianos.
Sim, por um lado, é a continuação desta estratégia de ataques aéreos, ataques aos grandes centros urbanos e, sobretudo, ataques à infraestrutura elétrica. Acho que neste ataque, pelo que disseram as fontes ucranianas, esses ataques foram particularmente bem-sucedidos e há a indicação de que a rede elétrica, em particular na zona de Kharkiv, foi muito atingida. Um segundo aspecto é esta flagelação de Kherson, que é feita não apenas utilizando estes meios, mas inclusive utilizando artilharia, uma vez que a cidade está separada das forças russas apenas pelo rio Dniepre, e era uma das poucas cidades que não tinha sido massivamente bombardeada, porque tinha sido ocupada pelos russos praticamente desde o início da campanha. No fundo, agora há uma espécie de vingança pelo fato de a Rússia ter sido forçada a abandonar essa cidade para as forças ucranianas e têm havido bombardeamentos sistemáticos. Não temos aqui a alteração da estratégia russa, mas há a continuação de ataques e, sobretudo, ataques aéreos que são muito desgastantes, que provocam vítimas e que também colocam em risco a capacidade de sobrevivência da população ucraniana, da população civil, sobretudo no contexto do inverno, porque a privação de eletricidade tem implicações, por exemplo, ao nível também do aquecimento.
Segundo prevê o ministro da Defesa da Ucrânia, o Kremlin está a preparar uma grande ofensiva no início do ano. Achas que o tempo está a acabar para Putin? Ou seja, há aqui alguma urgência na forma como isto está a acontecer? Pouco estruturado, mais por impulso?
Eu acho que temos que ter algum cuidado com essas declarações. Eu não ponho em questão que a Ucrânia tenha boas informações e que obviamente esteja particularmente atenta à ameaça russa. Mas eu recordo, por exemplo, no início da invasão, a Ucrânia inicialmente pareceu alinhar com aqueles que diziam que não havia um risco iminente de invasão. Inclusive, não avançou com trabalhos preparatórios de minagem, de criação de trincheiras, etc. E neste contexto também é bastante claro que estes avisos de vários responsáveis ucranianos, também do próprio presidente Zelensky, numa conversa com o The Economist, vão no sentido de avisar os países ocidentais contra uma excessiva complacência e apelar ao reforço do apoio em armamento mais sofisticado, mais pesado, com maior alcance por parte dos países ocidentais. Isso não quer dizer que a questão que é levantada por estas declarações não seja uma questão real. No fundo, o que estes responsáveis ucranianos vêm dizer é que a Rússia fez aqui uma mobilização parcial de quase 300 mil soldados. Uma parte foi enviada praticamente sem treino para a linha da frente, inclusive alguns deles têm sido capturados, desertado, etc. Mas o que é que aconteceu ao resto? Parece haver sinais de que nem todos foram já empregados na linha da frente. Portanto, é possível que uma parte dessa força, e é uma força significativa, esteja a ser melhor treinada, melhor equipada, esteja a ser usada para de facto constituir aqui unidades de reserva que permitissem à Rússia pensar numa ofensiva de inverno. E realmente, pode parecer um pouco estranho às pessoas que nós vamos dizendo que o outono é uma altura complicada para grandes operações ofensivas. À partida, podia-se pensar que o inverno será ainda pior, mas não é exatamente assim. No fundo, o grande problema do outono é a questão de que as chuvas muito intensas transformam estas grandes planícies da Ucrânia numa espécie de gigantesco pantanal. Tornam muito difícil as operações que não sejam através de estrada, operações ofensivas em frentes mais amplas. No inverno, de facto, o congelamento do terreno volta a permitir a utilização de meios mais pesados e em frentes mais amplas. Não quer dizer que seja fácil fazer ofensivas de inverno. Obviamente, há a questão das condições de visibilidade e até das condições climatéricas. Uma coisa é estarmos a falar de inverno, mas não estarmos no meio de uma tempestade de neve. Outra coisa é isso estar a acontecer. E depois, obviamente, são operações que exigem tropas muito bem equipadas, com equipamento adaptado realmente ao inverno rigoroso desta região e muito motivadas, muito moralizadas. Mas, de facto, é possível e faria sentido do ponto de vista militar, que a Rússia tentasse utilizar uma parte destas forças da mobilização parcial para fazer algum tipo de ofensiva de inverno. Para mim, não é garantido que isso seja possível, que isso aconteça, ou que isso aconteça pelo menos numa frente muito ampla. A verdade é que a Rússia continua a ter dificuldades, por exemplo, em conseguir fazer cair Bakhmut, que já está praticamente cercada, que está a ser atacada há semanas e semanas de forma extremamente Intensa. Mas teremos de ver. Eu acho que esse risco existe e é natural e legítimo que os ucranianos chamem a atenção para esse risco e para a necessidade de tentar ajudar a Ucrânia o mais possível a contrariar essa possibilidade.
Bruno, entretanto, temos mais um apoio adicional da União Europeia para a Ucrânia no próximo ano, cerca de 18 mil milhões de euros e o nono pacote de sanções contra a Rússia. Voltamos sempre ao mesmo, tentar saber se estas sanções têm alguma eficácia e se serão suficientes para dificultar essa grande ofensiva, se for esse mesmo o plano de Vladimir Putin.
Eu penso que estamos num contexto em que realmente, no fundo, estamos a falar um pouco de assinar as sanções. Quer dizer, não são grandes pacotes que vão trazer grandes novidades, são novas vagas no sistema de sanções que já existem. Aqui foi especialmente importante o facto de a União Europeia ter conseguido desbloquear os 200 mil milhões de euros, que são a previsão da ajuda regular à Ucrânia durante o próximo ano. A ideia é ser à volta de 1,8 mil milhões por mês, para ajudar a sustentar o Estado, os serviços públicos, os serviços básicos, o apoio à economia ucraniana, em conjunto com outros grandes doadores. E de facto, aí o problema era que isso estava a ser bloqueado pela Hungria, pelo senhor Orbán, no contexto de uma série de disputas que a Hungria tem tido com as instituições comunitárias, por causa desta deriva cada vez mais iliberal do governo húngaro e portanto, no fundo, tentar utilizar o veto, o bloqueio a esta ajuda para tentar extrair concessões. Felizmente, foi possível, de facto, ultrapassar esse veto húngaro. E isto é muito importante também numa perspetiva de moralização da resistência ucraniana, além do efeito prático que terá no próximo ano. Ainda tem um último elemento interessante, é que é mais uma vez uma utilização desta possibilidade de recorrer a empréstimos conjuntos. Portanto, no fundo, isto é uma espécie de empréstimo a muito longo prazo, com juros zero. A Ucrânia só terá de começar a pagar a partir de 2033 e até lá, esse empréstimo é garantido pela União Europeia e pelo conjunto dos Estados membros e é mais uma vez um recurso a esta possibilidade de recorrer à dívida em situações de crise ou em situações de emergência, que durante muito tempo foi um tabu na União Europeia e que entretanto, a partir da pandemia, foi criado um pouco esse precedente, pelo menos para estas situações excepcionais.
Bruno, temos ainda aqui um quarto ponto na nossa ordem de trabalhos. O presidente da Rússia vai fazer uma visita na próxima segunda-feira, uma visita de trabalho, é assim que é classificada, à Bielorrússia. Falavas aqui há dias nas manobras militares em território bielorrusso e também de uma eventual ofensiva a ser estudada ali através do norte da Ucrânia. Esta visita de Putin pode ter que ver com isso?
Por um lado, é relevante esta enorme assimetria que se criou e no fundo, no facto da Bielorrússia não ser um país independente, mas de facto ser basicamente um Estado satélite. Cinco ou seis vezes desde aquelas eleições fraudulentas de 2020, o presidente Putin ainda nunca tinha feito isso e portanto, há aqui um sinal dessa assimetria traduzido também nesta diferença na forma como um e outro decidem quem é que vai visitar quem. Em relação à questão do que é que Putin vai fazer com esta visita. A informação oficial é que se vai falar até de questões que têm a ver com o reforço da coesão e da unidade entre a Bielorrússia e a Rússia. Portanto, pode-se especular que um sinal concreto desse alinhamento seria, de facto, o emprego de tropas bielorrussas pela primeira vez nesta campanha. De facto, a Bielorrússia já é, na prática, um co-beligerante, ou seja, a Bielorrússia permitiu a utilização do seu território e tem permitido a utilização do seu território para atacar a Ucrânia, seja com meios aéreos, com mísseis, seja, sobretudo na fase inicial da invasão, com tropas russas a invadirem a partir do norte em direção a Kiev. Se isso voltará a acontecer, eu acho que do ponto de vista militar, voltar a multiplicar frentes, voltar a multiplicar as linhas logísticas seria um problema potencialmente para a Rússia. Acho que é interessante a Rússia criar essa suspeita, alimentar essa suspeita, obrigar os ucranianos a manter tropas nesta frente norte, a construir trincheiras, campos minados, etc. Esse é um outro fator que do ponto de vista militar me levaria a dizer que é menos provável que volte a haver aqui uma invasão a partir do norte do que no início da guerra, é que entretanto os ucranianos já se prepararam para isso. Colocaram campos minados ao longo da fronteira, criaram trincheiras, linhas de defesa. Agora, isso não é, de facto, completamente impossível. Eu diria que não é muito lógico, mas vimos que a guerra muitas vezes não é regida simplesmente pela lógica. Um objetivo potencialmente com algum sentido do ponto de vista desta estratégia russa, inclusive de atacar a rede elétrica ucraniana, seria a grande central. Uma das três grandes centrais nucleares ucranianas, que a Ucrânia ainda controla, está situada a menos de 100 km da fronteira bielorrussa, portanto, também nesta zona do norte. E portanto, eventualmente, a haver aí um alvo militar com algum sentido, eu diria que seria esse, mas acho que teremos de ver. Teremos de ver se é simplesmente uma tentativa de fixar tropas ucranianas a norte, se vai além disso.
Vamos ter de esperar. Bruno Cardoso Reis, há mais Gabinetes de Guerra para a semana, mas tu não paras. Estás de volta amanhã para o "Cinco Continentes", com o Diogo Teixeira Pereira e Catarina Miranda, nas manhãs 360. Bom trabalho e bom descanso quando puderes. Até para a semana.
Muito obrigado. Até para a semana.