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Começa agora o Gabinete de Guerra, hoje numa edição mais curta, mas sempre com a análise do Bruno Cardoso Reis, coordenador do Doutoramento em História e Defesa do ISCTE e da Academia Militar, e que faz também parte dos programas "Café Europa" e "Cinco Continentes" da Rádio Observador. Bruno, bom dia e obrigada por te juntares a nós, hoje mais cedo do que o habitual. As forças russas vão sair da cidade de Kherson, cruzar o rio Dnipro e fixar-se na outra margem. O general que comanda a guerra na Ucrânia terá dito que se tornou impossível defender a cidade da contraofensiva ucraniana. Bruno, faz mais sentido confiar ou desconfiar desta decisão russa e olhar para ela como uma armadilha, aliás, como receiam os ucranianos?
Eu acho que é normal que se desconfie das declarações russas. Em geral, infelizmente, esta guerra, um dos problemas que coloca é exatamente esse. Temos aqui uma grande potência, que é muito difícil de ignorar e que é uma potência nuclear, mas que realmente se desacreditou completamente, começando com a própria questão da invasão, que foi desmentida sistematicamente até horas antes de estar a acontecer. Portanto, acho que é normal essa desconfiança. Apesar de tudo, eu acho que, por um lado, se formos pelo lado da lógica, de facto, esta decisão militarmente já há muito tempo que parecia evidente que realmente fazia sentido. E aliás, os termos em que ela foi também defendida nesta encenação televisiva entre o comandante da operação, este novo comandante, o general Surovikin, e o ministro da Defesa, Shoigu.
E onde não está o Putin, não é, Bruno?
Exatamente. Portanto, realmente faz sentido. Putin não está porque obviamente o líder máximo, este grande estratega, só aparece para anunciar vitórias. Não vai aparecer aqui associado a uma retirada. São os subordinados que têm de explicar que isso é necessário. Apesar de tudo, eu acho que há sinais de que realmente isto faz sentido, por um lado, e portanto, que poderá ser para levar a sério. Isso não quer dizer que de facto os ucranianos não tenham toda a razão em desconfiar. Porque pode fazer parte aqui de uma desinformação operacional e, sobretudo, este ponto que foi o que os responsáveis ucranianos sublinharam, que é: nada nos é oferecido, portanto, temos que ter muito cuidado com o que pode estar preparado. No mínimo, será expectável, por exemplo, que estejam armadilhadas casas, que haja colocação de minas, etc. Portanto, o avanço tem de ser bastante cuidadoso. Podem estar a preparar aqui barragens de artilharia, medidas do gênero, por exemplo, aquela questão que foi muito falada aqui há umas semanas da própria barragem de Nova Kakhovka poder ser dinamitada e portanto haver aqui uma inundação que atingiria bastante a cidade de Kherson e esta zona que os russos iriam desocupar. Portanto, percebe-se que tem de haver prudência. Obviamente, nós também como analistas temos de ter prudência e esperar que os dados no terreno confirmem as coisas. Apesar de tudo, eu acho que toda esta encenação, no fundo, dificilmente existiria se não fosse também, mesmo em termos internos russos, para explicar por que se está a tomar esta decisão. Portanto, eu tenderia a dar credibilidade por estas duas razões, mas percebo perfeitamente que sobretudo os ucranianos e as tropas ucranianas no terreno avancem com muita prudência.
Aliás, Zelensky, e como disseste há pouco, diz que Moscovo não costuma mostrar gestos de boa vontade e por isso não faz sentido falar em retirada russa até a bandeira ucraniana estar em Kherson. O içar da bandeira ucraniana será então o sinal de que o governo de Zelensky fica em posição vantajosa nesta guerra, tendo em conta a importância estratégica de Kherson?
Eu acho que a confirmar-se tudo isto, será mais uma derrota importante de Putin e da invasão russa. Ou seja, depois da derrota na Batalha de Kiev, depois da derrota na Batalha de Kharkiv e nesta zona mais do norte, temos aqui mais uma derrota muito importante na frente sul, que até aqui era a única que tinha estado a dar boas notícias ao lado russo, embora, de facto, já desde agosto que os ucranianos tinham recuperado a iniciativa e que aquela questão da ameaça russa sobre Odessa e sobre o resto do sul da Ucrânia tinha sido afastada. Mas é muito importante, também por isso, porque afasta ainda mais esta ideia de que a Ucrânia poderia perder o seu acesso ao mar, poderia perder todos os seus grandes portos. A própria cidade em si é bastante importante e depois permite, a partir daqui, à Ucrânia, por um lado, ter uma boa posição defensiva e eventualmente recuperar a iniciativa noutras regiões importantes. E não é por acaso que os russos nas últimas semanas têm estado visivelmente a investir em reforçar as suas posições defensivas, por exemplo, em toda esta zona sul, mesmo então em cidades como Mariupol, de que já não ouvíamos falar há bastantes meses. Portanto, isso mostra que realmente é uma derrota importante e uma mudança importante. Agora, não é, infelizmente, o fim da guerra.
Sim, não. Bruno, falamos sobre isso ontem. Putin já decidiu e sem surpresa, não vai à cimeira do G20 na Indonésia. A Rússia vai ser representada por Sergei Lavrov, mas pergunto se foi uma oportunidade perdida para eventuais negociações para pôr fim à guerra. Ou nunca seria?
Os norte-americanos tinham deixado claro que não queriam um encontro bilateral com Putin, porque há essa questão, que é isso podia ser visto como estando a negociar a paz nas costas da Ucrânia, sem o envolvimento da Ucrânia. De facto, o presidente Zelensky disse que estaria, mas por via virtual, à partida. Agora, eu acho que é realmente significativo a este nível. Eu acho que é revelador, por um lado, das dificuldades internas e relacionadas com a guerra de Putin. Ou seja, parece-me claro que esta questão de Kherson não é aqui despicienda, ou seja, Putin tem de ficar na Rússia para continuar a gerir estes problemas e inclusive podemos especular que ele acharia perigoso, se calhar, até sair neste contexto. Portanto, tem que continuar a controlar de perto a situação. Por outro, eu acho que também reflete um pouco esta questão do relativo isolamento de Putin em termos internacionais, que temos aqui de qualificar, por exemplo, a questão do Irão, que é importante, mas por exemplo, num cenário muito mais favorável à Rússia, à partida muito mais controlado, que foi a cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, que é uma organização criada pela Rússia e pela China e que teve lugar no Cazaquistão. Aquilo que acabou por vir a público, podia-se pensar que seria uma demonstração de apoio à Rússia de uma série de países importantes, foi de facto uma série de momentos um pouco embaraçosos de Putin, por exemplo, em relação à China, em relação à Índia, que deixaram claro que embora esses países não estejam dispostos a alinhar completamente com os países ocidentais, a assumir uma rutura com a Rússia, estão muito longe de estar alinhados com a Rússia nesta invasão e inclusive têm críticas e têm preocupações sérias com aquilo que tem sido a estratégia russa. Portanto, no contexto do G20, poderia haver uma repetição desses momentos embaraçosos que Putin provavelmente terá querido evitar.
Bruno Cardoso Reis, hoje ficamos por aqui. Obrigada por ter estado conosco em mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia pra ti, Bruno.
Bom dia.
Obrigada.