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Essa agora o Gabinete Guerra das Manhãs 360, esta segunda-feira com análise do coronel José do Carmo. Muito bom dia, bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o nosso convite, coronel.

Bom dia, e obrigado.

Bom dia, obrigada. Já estão com Israel os corpos de mais três reféns. O processo de identificação pode agora demorar cerca de dois dias. E coronel, é mesmo preciso esperar para ver se não acontece o mesmo dos últimos corpos que os exames forenses mostraram que não eram de reféns israelitas?

Sim, não há qualquer confiança naquilo que o Hamas diz. Aliás, na verdade, até é mais provável que aconteça mesmo esse tipo de falsidade, esse tipo de truques. O Hamas pretende, obviamente, prolongar o tempo.

Prolongar, pois.

E por isso todos os truques são admissíveis e os enganos são os truques menos sensíveis, de maneira que é até provável que isso aconteça, de modo que o tempo vá passando e o Hamas vá consumindo e vá criando a ideia de que está ali para ficar e que passará à segunda fase, que é o desarmamento, está mais longe. O Hamas está a fazer isto de propósito, é deliberado. Obviamente que Israel espera que todos os truques possam acontecer.

Mas sobre o ficar, que o coronel mencionava, os mediadores que estão envolvidos nas negociações do acordo do cessar-fogo, terão apresentado, com a aprovação do próprio Hamas, uma nova proposta com a retirada dos militantes do grupo palestiniano para as zonas não ocupadas pelo exército israelita. Coronel José do Carmo, parece-lhe que será tranquilo? É que isto surge depois de Netanyahu ter prometido eliminar dois alegados núcleos do Hamas que ainda estarão activos em Rafah e Khan Yunis, ou seja, duas zonas ocupadas pelas tropas de Tel Aviv.

Pois, a própria presença dessas forças na zona controlada por Israel é uma violação ostensiva e continuada do cessar-fogo. O que ficou acordado era que Israel retirava-se para aquela zona, que é a Linha Amarela, que no fundo é uma buffer zona ao longo da fronteira com Israel, e o Hamas ficava nos territórios que ficam obviamente a oeste dali e a sul. Mas o Hamas não fez isso. Eventualmente não fez porque não pôde, ou não conseguiu, ou não quis. Ficaram lá umas centenas de homens que, segundo consta, ficaram lá nos túneis e têm estado inclusive a fazer ataques, pequenas flagelações a forças israelitas. Na verdade, isto é uma violação ostensiva do cessar-fogo. Agora, como está resolvido, de facto, Israel poderá obviamente deixá-los passar, deixá-los sair, ou poderá caçá-los, poderá ir atrás deles. Evidente que as partes que sustentam o Hamas, digamos assim, ou que o apoiam, não pretendem que esses homens sejam capturados ou sejam liquidados. Obviamente que irá propor Israel, ou irá tentar propor Israel que os deixe passar, calmamente. Basicamente, é mais uma violação do cessar-fogo que está a acontecer e, na verdade, daria direito a Israel de os neutralizar à força.

Pois. Sobre outro foco de tensão, o ministro da Defesa israelita diz que o Hezbollah está a brincar com o fogo e que cabe a Beirute concretizar o seu desarmamento. Caso contrário, Israel diz que irá intensificar as operações militares. Coronel, o que lhe parece que será o desfecho desta situação?

O que está a acontecer no Líbano é que o governo libanês é elegido por um-- ou seja, o presidente é um cristão, o primeiro-ministro é um sunita e o Parlamento é um xiita, portanto é aliado do Hezbollah. Havia um compromisso, aliás, o compromisso já vem dos acordos anteriores, de 2004, 2006, resoluções da ONU, que obrigavam ao desarmamento do Hezbollah. Aliás, ao desarmamento de todas as partes que estavam envolvidas nos conflitos. Dentro do Líbano, obviamente. O Hezbollah nunca desarmou, pelo contrário, reforçou-se. Pensou-se agora que o Líbano, que este novo governo libanês, que o Líbano reforçado pelo facto de Hezbollah ter sofrido um grande golpe, iria avançar, embora não seja fácil, obviamente, para o desarmamento do Hezbollah. O Hezbollah não quer desarmar-se, tem estado a receber armas através de várias fronteiras, armas do Irão, outra vez, está-se a reforçar, está a criar suas estruturas, está a recrutar, outra vez, quadros e militantes. E o governo libanês não quer ou não tem capacidade de desarmar o Hezbollah pela força. Até porque o exército libanês conta também com uma parte importante de xiitas, que são apoiantes também do Hezbollah. O cálculo do governo libanês é que o exército se poderá desfazer se tentar desarmar o Hezbollah. E estamos a caminho, outra vez, de Israel, obviamente, um exílio, lá está, não vai desarmar o Hezbollah, não irá fazer, se não o fez antes, não irá fazer agora. Portanto, estamos a caminho de um novo confronto, porque Israel já disse que não irá permitir, a partir de agora, a estratégia já não é esperar e responder, a estratégia agora é atuar preventivamente, antes que a ameaça cresça. É o que irá acontecer, basicamente. Os Hezbollah não se desarmaram, não vão desarmar.

Em relação à guerra na Ucrânia, depois dos Estados Unidos cancelarem a cimeira em Budapeste, que poderia sentar à mesa Trump e Putin, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse este fim de semana que não considera necessário um novo acordo entre os presidentes, que o que é preciso, sim, é um trabalho muito meticuloso nos detalhes sobre a questão do acordo. Mas Coronel, sobre isto, não há grandes desenvolvimentos. A Rússia continua a não ceder um milímetro das exigências.

Tal como eu te disse, a Rússia não irá ceder enquanto não for obrigada a isso. A única coisa que fará a Rússia ceder nas suas pretensões maximistas, a Rússia não quer só a Ucrânia, a Rússia quer muito mais que isso. Há um plano geopolítico em marcha. E não irá ceder enquanto pensar que tem capacidade de De alguma forma, alcançar os objetivos ou parte dos objetivos que permitam mais tarde continuar a perseguir o objetivo principal. Putin não está para negociação. Enquanto pensar que está em posição de força, não irá negociar, irá usar todos os papéis, todos os argumentos e todas as alternativas para não negociar ou, negociando, exigir aquilo que pretende obter de forma pacífica, mas se não conseguir obter pela força, obviamente será mais vantajoso obter as coisas de um chá do que tendo que lutar no terreno. Se a Rússia conseguir, com um cessar-fogo, obter, por exemplo, agora, a fortaleza do Donbass, que está a ser assolada, será mais fácil, poderá perder menos gente. A Rússia não irá fazer cessar-fogo enquanto não for pressionada a isso, enquanto sentir que não tem muito a ganhar com isto e só tem muito a perder. O que acontecerá mais tarde ou mais cedo se mantiver o apoio à Ucrânia.

Entretanto, Aleksandr Lukashenko ameaçou este fim de semana os seus adversários políticos no estrangeiro com a utilização de uma arma terrível, os mísseis balísticos russos Oreshnik, que Moscovo só utilizou contra a Ucrânia uma vez ao longo de quase quatro anos de guerra. Diz que quer que saibam que pode castigar os seus adversários se as coisas correrem mal e por isso diz: "Não se metam conosco". Coronel, por que tudo isto agora?

A ver, o Lukashenko-

Já não surpreende, mas por que esta retórica?

Ele fala por ele. Lukashenko diz aquilo que... Aliás, que as armas são russas. Lukashenko é uma espécie-

Uma espécie de fantoche?

Sim, ele diz aquilo que o Putin quer que diga. A Bielorrússia é um protectorado russo, uma espécie de província da Rússia, digamos assim. E portanto, o Lukashenko, mesmo que as armas não sejam delas, as armas são russas que as opera. E obviamente que Lukashenko está a fazer a habitual ameaça urbi et orbi, como faz Putin, que está a gesticular. No fundo, para instilar medo nos seus aliados, para os evitar a tomar decisões que possam complicar a vida à Rússia. E é isso que ele está a fazer. É uma estratégia consolidada, portanto, dividir, tentar aterrorizar. É uma espécie de bullying psicológico, mas que muitas vezes funciona, porque há líderes europeus que de facto têm medo e não tomam decisões que às vezes seriam racionais por medo e por temerem justamente que essa gesticulação tenha alguma substância por trás. O Lukashenko está a fazer aquilo que Putin manda que ele faça. Há coisas que Putin não diz e depois manda os seus porta-vozes oficiais dizer, como o Medvedev, e aquele senhor também que agora não me lembro do nome e que sempre ouvimos falar e nunca vemos, não estou lembrando o nome dele agora. E o Lukashenko também é um...

É mais um.

Também é um comando.

Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise no Gabinete de Guerra. Boa semana para si.

Igualmente para si. Obrigada

Obrigada.