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Analisar os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, gabinete de guerra, Rádio Observador. Hoje com os comentários de Luís Tomé, professor catedrático e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais. Eu sou o Miguel Cordeiro e vamos começar desde já com a situação em torno do líder do Hamas. O governo de Israel terá sido informado que é muito provável que Sinwar esteja morto depois de um ataque das forças israelitas em Gaza. Foi confirmada de imediato a morte de três terroristas, isto pelas forças israelitas. Não foi possível confirmar a identidade e tem sido dito pela imprensa de Israel que neste ataque, as forças não sabiam que Sinwar se encontrava no local, viram apenas combatentes entrar no edifício, atacaram, a estrutura ruiu e só depois os soldados israelitas chegaram para inspecionar os danos e aperceberam-se que um dos terroristas mortos se assemelhava fortemente a Sinwar, o líder do Hamas. Estão a ser realizados testes de ADN com amostras recolhidas quando Sinwar esteve detido em Israel entre 1988 e 2011. Estão a ser cruzados esses dados, mas para já, Luís Tomé, todas as informações apontam já com grande certeza para a morte de Sinwar. Certo que isto ainda está a aguardar confirmação, mas seria um duro golpe para o Hamas.

Olá, boa tarde. Sim, sem dúvida, porque é bom recordar, Sinwar é líder do Hamas não há muito tempo, sucedendo a Haniyeh, que foi morto, como todos sabemos e recordamos, em Teerão, no Irão. E portanto, confirma aquela linha tendencialmente vitoriosa das últimas semanas de Israel, de sucesso na decapitação, desde logo dos dois movimentos, membros do eixo da resistência, o Hezbollah. Nós vimos como num curto espaço de dias, o histórico líder Nasrallah e depois Safieddine, que lhe sucedeu, foram ambos mortos. E agora a confirmar-se, Sinwar que sucedeu a Haniyeh, também desaparece e portanto, desse ponto de vista, é obviamente uma vitória que o governo Netanyahu pode apresentar. Significa a decapitação sequencial do Hamas e a sua sucessiva degradação ainda por cima, porque desde a morte de Haniyeh, todo o foco do movimento Hamas estava centralizado em Gaza. Antes, nós tínhamos uma liderança de Sinwar em Gaza, mas havia um grupo, como se passa por Haniyeh, que residia fora, que estava exilado e que era o rosto político do movimento. Ora, quando Sinwar lhe sucedeu, tudo ficou concentrado na sua figura. Ele estava muito limitado nos movimentos e contactos com o exterior. Até nos lembramos daquela expressão, inclusivamente do secretário de Estado Blinken dos Estados Unidos, dizendo que mesmo que 10 pisos abaixo de terra não seriam suficientes para ele se esconder de forma perpétua. E ainda por cima, temos indicação de que Sinwar era um travão a certas negociações tendentes a um cessar-fogo, porque tinha a expectativa, que tem aliás, desde que lançou o ataque de 7 de outubro de 2023, de poder arrastar para um conflito em larga escala não apenas o Hezbollah, mas naturalmente o povo palestiniano, inclusivamente na Cisjordânia, depois algumas milícias na Síria, no Iraque, os Houthis e naturalmente o Irão. E portanto, ele como sempre foi dizendo, o sangue derramado era o sangue necessário para se alcançarem os objetivos. E eu creio que esta mensagem vai continuar a ser patenteada pelo Hamas, fragilizado, mas que vai querer mostrar uma prova de força de que resiste, apesar dos seus mártires terem sido abatidos.

Sendo que ainda há muito para detalhar sobre este incidente e sobre o que terá acontecido neste ataque. Aguardamos, claro, confirmação por parte de Israel, se morreu ou não Yahya Sinwar neste ataque. Vamos ao conflito da Ucrânia, até porque tem estado em destaque ao longo de todo o dia. Zelenskyy discursou em Bruxelas, no Conselho Europeu, mas foi também hoje que Zelenskyy disse que a Coreia do Norte enviou 10 mil homens para a guerra na Ucrânia para apoiar o esforço russo. Fala num primeiro passo para uma guerra mundial. Faz sentido esta afirmação de Zelenskyy? Diz também o presidente ucraniano que sabe deste número com base naquilo que é informação dos serviços secretos da Ucrânia.

Nós temos que contextualizar as afirmações e as informações vindas de Kiev, do presidente Zelenskyy. Eu acredito que ele tenha informações. Aliás, já tinham havido notícias de que haveria combatentes norte-coreanos a ser mortos, inclusivamente militares ou pelo menos combatentes norte-coreanos que estavam a ser até utilizados quase na sua estratégia de carne para canhão por parte dos russos. Aliás, o mesmo já vem acontecendo de muitas outras nacionalidades, mas a dramatização que Zelenskyy faz tem um significado óbvio, porque ele ainda ontem no Parlamento ucraniano, ao anunciar o seu plano da vitória, referiu expressamente alguns países a que chamou aliás coligação de criminosos, onde incluiu naturalmente a Coreia do Norte, o Irão e inclusivamente a China A questão da Coreia do Norte é perceptível e não é uma grande surpresa. Veremos se, de facto, é um contingente de 10 mil militares e se isso tem significado especial, mas nós todos percebemos a aproximação que houve de Moscovo, quer à Coreia do Norte, quer ao Irão, desde a invasão da Ucrânia. São os dois países que estão a municiar, no caso da Coreia do Norte, com munições e mísseis, o Irão, sobretudo com drones e alguns mísseis. Mas o problema, e por isso Zelenskyy quando fala numa guerra mundial, é que em contrapartida, aquilo que está a ser feito por parte da Rússia à Coreia do Norte é conceder-lhe acesso não apenas à energia, mas sobretudo a tecnologia, inclusivamente tecnologia de satélites, de submarinos e de outro tipo de tecnologia capaz de apoiar o programa nuclear da Coreia do Norte, que tem obviamente implicações diretas na estabilidade do Nordeste Asiático, em particular da Península Coreana. Lembremos que o próprio Putin celebrou com Kim Jong-un um acordo de assistência e defesa mútua. No fundo, permitir, salvaguardando numa legislação por um tratado internacional, que a Rússia apoie e assista a Coreia do Norte e a Coreia do Norte apoie e assista a Rússia, no caso de algum deles estar a enfrentar algum tipo de ameaça. Se se confirmar que de facto há 10 mil militares norte-coreanos ao serviço das forças russas na Ucrânia, a Coreia do Norte está em guerra com a Ucrânia, mas é mais uma peça de uma engrenagem ampla, em que nós vemos uma solidariedade no domínio da defesa entre autocracias que se estende a um terceiro elemento, que é o Irão, e que tem um grande patrono dos três, que é a República Popular da China, que vai ter cada vez mais dificuldade em justificar como é que seus três parceiros estratégicos vão reforçando relações bilaterais entre si e sempre envolvendo a China. Ainda por cima, nós sabemos como, por exemplo, o presidente Xi Jinping vai estar dentro de poucos dias na Rússia com Putin e com o presidente do Irão, no âmbito da Cimeira do BRICS+. Aliás, as relações ótimas, entre aspas, da Coreia do Norte com a China persistem, porque a China é o sustento económico também da Coreia do Norte. Portanto, isto cria dificuldades acrescidas para o regime chinês poder mostrar a sua imagem de neutralidade na comunidade internacional.

Mas a Rússia, ao contar com 10 mil militares da Coreia do Norte, não está a fazer exatamente aquilo que tem contestado e que tem avisado como linha vermelha, ter boots on the ground, militares de países aliados da Ucrânia neste conflito? A Rússia não está a fazer precisamente isso que definiu como linha vermelha até para a utilização de armas nucleares?

Está. Esse é o lado da desfaçatez e do cinismo russo, porque utiliza as suas capacidades em território de outro país soberano, como é a Ucrânia, e tem utilizado capacidades militares que são cedidas pelo Irão e pela Coreia do Norte. A questão é que a Rússia nunca o assume oficialmente. Aliás, nem a Coreia do Norte, nem o Irão, até porque se assumisse isso, a Rússia não só perderia qualquer legitimidade para estar a dizer que outros países não devem fornecer capacidades de defesa à Ucrânia, e muito menos capacidades que a Ucrânia possa utilizar em território russo e contra alvos russos, mas estaria a ferir a legalidade internacional, porque é preciso lembrar, nós estamos a falar dos países mais sancionados do mundo. Por isso é que eu tenho chamado a esta coligação, não de criminosos ou este mal, mas uma coligação de sancionados, porque a Rússia é o mais sancionado do mundo, depois a Coreia do Norte e a seguir o Irão. E há sanções claras e há resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas, enfim, há outros quadros de legalidade internacional que proíbem estes países de receber certo tipo de tecnologia ou de ceder certo tipo de tecnologia. Eles fazem-no, acumulam-se as provas, as acusações de que o fazem, mas não o assumem oficialmente e, portanto, a Rússia confortavelmente continua a negar, continua a dizer que é domínio das estritas relações bilaterais da Rússia, neste caso com a Coreia do Norte, com quem ninguém tem nada a ver, e acusa os outros de fazerem isso. Eu diria que é o sintoma do cinismo e da desfaçatez putinista.

Sendo que hoje Zelenskyy, como já referimos, discursou no Conselho Europeu, falou do plano de paz que tinha sido apresentado ontem na Ucrânia, no Parlamento Ucraniano, hoje apresentado perante o Conselho Europeu e pediu apoio. Pediu união em torno deste plano, diz que se houver essa união, se houver esse apoio, que o conflito pode terminar no próximo ano. É uma mensagem que tem sido repetida ao longo dos últimos dias. Como é que viu estas declarações hoje de Zelenskyy perante os líderes da União Europeia?

Eu devo dizer que Zelenskyy faz o seu papel e faz muito bem o seu papel e dramatiza, porque a Ucrânia está numa situação muitíssimo difícil, muito delicada e, portanto, podemos quase dizer que Zelenskyy está a dramatizar ao máximo em vésperas de eleições decisivas nos Estados Unidos, percebendo que muitos dirigentes europeus estão cada vez menos atentos e menos interessados ao que se passa na Ucrânia. Este Conselho Europeu, por exemplo, todos nós percebemos que tem como preocupação fundamental o debate sobre a pressão migratória. E Zelenskyy leva a pesquia e faz esta dramatização, sem o dizer expressamente, mas está a dizer que se não fizerem mais do que fizeram até aqui, nós não vamos conseguir resistir. Apresenta isto de uma forma que é o plano da vitória, mas no fundo a mensagem é a mesma de sempre: as portas da NATO têm que ficar Expressamente escancaradas. Os aliados têm que nos dar mais capacidades de defesa aérea e permitir usar capacidades e mísseis de longo alcance em território russo. É preciso ter um pacote de dissuasão estratégica, não nuclear, mas de dissuasão estratégica, como lhe chama em território ucraniano. É preciso manter a pressão em território russo, por exemplo, em Kursk, para evitar que os russos tenham zonas-tampão. Mas isto revela, de facto, as dificuldades que a Ucrânia tem sentido. E há aqui um aspecto que também não podemos pôr de parte completamente, porque apesar de tudo, nós sabemos que este plano da vitória foi apresentado antes a alguns aliados, a começar por Estados Unidos e dois ou três países europeus, só depois apresentado ontem no Parlamento Ucraniano e agora, de uma forma mais geral, aos membros do Conselho Europeu. Portanto, estamos aqui sempre num terreno difícil de gestão política por parte de Zelensky e de imagem externa, que eu diria, aliás, que se vê nas dificuldades em que o novo secretário-geral da NATO acolhe tudo isto, porque por um lado ele diz, de novo, que a Ucrânia vai aderir à NATO, mas novamente que a NATO não tem planos para convidar a curto prazo a Ucrânia a tornar-se membro, porque se mantém a linha da administração Biden e num contexto delicado das eleições, que é nada fazer que possa significar um escalar da tensão, do conflito e de dar pretexto, por exemplo, a Vladimir Putin para fazer algo ou utilizar capacidades que até agora ainda não utilizou.

Principalmente em clima de eleições norte-americanas. Precisamente sobre eleições, para terminar, ainda temos um minuto e meio. A Moldova vai a eleições próximo domingo, a Geórgia também com eleições no domingo seguinte. Dois atos eleitorais a que a Rússia vai estar certamente muito atenta.

Sim, são eleições a que nós todos devíamos prestar muita atenção, porque no caso dos dois países, da Moldova e da Geórgia, são países expressamente candidatos à União Europeia, que a União Europeia já os admitiu como candidatos. Mas são dois alvos russos. A Geórgia, já nos lembramos, foi invadida em 2008. Há dois territórios que a Rússia controla, que para nós continuam a ser georgianos, Abkhazia e Ossétia do Sul, e vai ter eleições parlamentares no dia 26. E a presidente, que até foi eleita com o apoio de um partido pró-russo, vem agora fazer duras críticas e denúncias de que o partido do governo, que está no poder desde 2012, é um partido russo que está a fazer da Geórgia uma nova Rússia com todas as práticas antidemocráticas. Isto diz a própria presidente em exercício da Geórgia, chamando a atenção para a hipótese de haver eleições manipuladas a favor da Rússia. E, por outro lado, a Moldova, que tem uma clara orientação pró-ocidental, com a presidente Maia Sandu, vai ter eleições presidenciais neste domingo e simultaneamente um referendo de adesão à União Europeia. Mas há muita manipulação, propaganda, desinformação num país que uma parte do território, a Transnístria, tem 1500 soldados russos e é muitíssimo perto de Odessa, e há muitos planos russos para ocupar a pequena Moldova e a partir dali fazer um efeito tenaz sobre Odessa. Portanto, são dois países que temos que acompanhar com muita atenção e cuidado. E desses atos eleitorais, nós podemos ver manobras russas no sentido de fazer novas Ucrânias no sentido de adesão direta por parte das forças de Moscovo.

Claro. Luís Pina, muito obrigado por esta participação. Mais uma edição de Gabinete de Guerra. Voltamos amanhã.