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Começa agora o Gabinete de Guerra das manhãs 360. É a esta hora que falamos do conflito entre Rússia e Ucrânia e hoje a análise é feita pelo Bruno Cardoso Reis, que faz também parte dos programas da Rádio Observador Cinco Continentes e Café Europa, este que vai para o ar hoje, como sempre, depois da uma. Bruno, bom dia e obrigada por te juntares a nós uma vez mais.
Bom dia. Obrigado.
Bom dia, Bruno. O dia começou com novos ataques em Kiev. Não há registro de vítimas, mas pelo menos dois edifícios administrativos foram atingidos. O autarca da capital diz que a Rússia continua com o seu terror energético, mas também disse que a Ucrânia, que conseguiu interceptar a maioria dos drones, está cada dia mais forte. Bruno Cardoso Reis, Kiev é a cidade onde os russos mais podem tentar quebrar a moral dos ucranianos?
É realmente uma cidade central. É a capital e o centro da vida ucraniana, é também o centro da resistência, embora os russos tenham tentado passar agora a desinformação, aparentemente, que Zelenskyy se teria mudado para Lviv, portanto, para a Ucrânia Ocidental. Não sei se ele estará lá de visita, se não estará, mas em todo caso, seria estranho que Zelenskyy fugisse agora para a Ucrânia Ocidental, quando não fez isso na altura em que as tropas russas ameaçavam a própria capital. Portanto, é normal que seja um alvo particularmente apetecível desta estratégia russa de visar sobretudo grandes centros populacionais, as principais cidades, a par desta estratégia também de ataque às infraestruturas críticas, nomeadamente à rede elétrica, para tentar causar uma quebra da vontade de resistência. Parece confirmar-se, pelo menos até agora, aquilo que nós verificamos também no passado, por exemplo, o caso mais famoso é realmente a Grã-Bretanha durante o Blitz, que é este tipo de ataques, pelo menos desde que haja o mínimo de capacidade de resposta, no sentido de providenciar abrigos, de providenciar o mínimo de condições às pessoas, aos civis, na verdade, o que leva é, pelo contrário, a população civil a apoiar ainda mais o seu governo, o seu Estado, e a mostrar ainda mais determinação de continuar a guerra contra um adversário que é visto como tendo perdido toda a legitimidade, estando a visar deliberadamente a população civil, e portanto, um adversário especialmente cruel. Eu ainda ontem estava a ouvir soldados ucranianos nestas situações mais rigorosas do inverno. Um deles a quem era perguntado, uma pessoa que antes era um mecânico ou algo assim, portanto, uma pessoa de meia-idade, a quem era perguntado se ele alguma vez pôs a hipótese de deixar de combater. E ele disse: "Nós não temos alternativa, porque atrás de nós estão as nossas mulheres, estão os nossos filhos, estão os civis que nós sabemos que são depois vulneráveis aos crimes de guerra que temos visto dos russos". Portanto, acho que a estratégia não parece estar a resultar, embora obviamente cause aqui um desgaste enorme, um sofrimento enorme na população civil, e seja muito exigente também do ponto de vista do Estado ucraniano e dos aliados da Ucrânia, que têm procurado também reforçar o financiamento e os apoios para lidar com isto.
Estes ataques vêm ao encontro das últimas declarações do Kremlin sobre a não retirada das tropas até o final do ano. Na véspera, num discurso dirigido aos líderes do G7, Zelenskyy tinha apelado à Rússia para retirar as suas tropas numa altura em que se aproxima o Natal. Ora, Peskov disse que estava fora de questão. Ou seja, Bruno, os russos estão mesmo preparados para fazer durar a guerra todo o inverno e apostar no desgaste da população e Zelenskyy?
Sim, as declarações, nomeadamente de Peskov e do próprio Putin também nos últimos dias, foram no sentido de dizer que isto vai ser um conflito prolongado. De facto, nós não vemos possibilidade, o próprio Peskov também disse, de umas negociações no curto prazo e essas declarações acho que merecem algum crédito. Realmente, o regime de Putin tem muito pouca margem de manobra para retirar, para poder fazer aqui uma negociação que seja minimamente aceitável para o lado ucraniano e para o lado dos aliados da Ucrânia, que exigem a retirada das tropas russas. E apostou também numa mobilização parcial que pelo menos lhe dá mais carne para canhão, infelizmente. Também temos muitos testemunhos disso. Mais uma vez, estava a ver agora nos últimos dias o testemunho de um antigo soldado russo que entretanto, com o pretexto de ferimentos etc, regressou à Rússia e acabou por escapar para o Ocidente, e que dizia exatamente que os soldados russos se sentem como carne para canhão. Os comandos, as chefias, a liderança, não têm o mínimo problema em enviá-los sem o devido equipamento, sem as devidas condições, sem informações, para fazerem ataques frontais em que muitas vezes vão ter imensas baixas. Mas obviamente isso significa que a chefia não está numa postura de procurar a paz ou de estar muito preocupada necessariamente com a enorme quantidade de baixas, que temos muitos indicadores seguros que realmente é o que aconteceu. Já há estimativas que apontam para quase 100 mil soldados mortos ou feridos do lado russo, o que é praticamente o dobro daquilo que a União Soviética teve em 10 anos no Afeganistão. É um número de baixas de facto enorme. Agora, esta mobilização parcial também dá alguma possibilidade à Rússia de preencher algumas dessas baixas, mesmo que seja com soldados pouco experientes, e dificultar a ação da Ucrânia, aproveitando também as dificuldades que surgem por causa do clima, por causa do outono em particular.
Ainda no terreno, Bruno, as forças ucranianas terão danificado uma ponte importante fora da cidade de Melitopol. Eles já tinham atingido também o quartel russo nesta zona. Por que Melitopol é um objetivo tão importante para os ucranianos? Todos são importantes, obviamente, mas este por quê?
Eu acho que estes ataques são realmente um sinal da especial importância de Melitopol. É um nó de comunicações muito importante na ligação entre o resto da Rússia e todo aquele corredor que a Rússia construiu no sul até à Crimeia. Não é por acaso que não só temos tido notícias destes ataques, mas nos últimos meses, nas últimas semanas, tem sido uma das zonas onde há mais notícias, inclusive de ações de guerrilha, ações irregulares, ações eventualmente de grupos especiais também das próprias forças ucranianas, provavelmente em coordenação com estes grupos locais de guerrilha. O potencial aqui é, de facto, de criar o tipo de dificuldades que a Ucrânia também conseguiu criar na zona de Kherson. Ou seja, é tentar quebrar o mais possível estes nós logísticos, estas pontes, dificultar o mais possível o abastecimento das forças que estão na linha da frente no sul neste momento, que se deslocou da cidade de Kherson e daquela zona na margem ocidental do rio Dniepre, agora para a própria margem do rio e para as posições russas defensivas que existem, de acordo com a informação disponível, precisamente na margem oriental do Dniepre e em torno também de todas estas cidades mais importantes do sul. Isto pode querer dizer que, quando for possível, a Ucrânia poderá ter, nesta zona, um dos seus alvos para novas ofensivas. Eu acho que temos que ser cuidadosos. É verdade que o inverno, ao contrário daquilo que se poderia pensar, para exércitos bem equipados e moralizados, não é o período mais difícil para operações ofensivas nesta região, porque o solo fica congelado e volta outra vez a ser possível circular com veículos pesados fora das estradas e fazer ofensivas mais amplas, mas não deixa de ser muito exigente fazer ofensivas no inverno. Lá está, é preciso equipamento especial, é preciso que as tropas estejam devidamente moralizadas e equipadas para serem eficazes no contexto do inverno. E também é normal que, não só do lado russo, mas do lado ucraniano, também temos notícias de que tem havido aqui um desgaste muito grande. Já estamos a falar de um conflito com mais de nove meses. Mas, na medida em que isso seja possível, e não sei se será numa escala enorme, é normal que a Ucrânia tenha como um dos seus alvos preferenciais e mais importantes, precisamente esta zona do sul e esta zona em torno de Melitopol seria particularmente interessante. Se estivermos a falar de ofensivas terrestres, e isto pode ser uma preparação para isso, não estou a dizer que é necessariamente assim, mas se for uma preparação para isso, isso permitiria às forças ucranianas tentar cortar em dois o território controlado pela Rússia, voltar a isolar, eventualmente, a Crimeia, voltar a atingir o mar de Azov e criar uma situação muito complicada às forças russas. Mas isto é uma possibilidade, acho que faz sentido do ponto de vista militar. Agora, não é garantido que os ucranianos tenham os homens, tenham o equipamento, tenham de facto a capacidade para fazer uma ofensiva nesta escala nas próximas semanas, nos próximos meses.
Entretanto, a notícia de que a Casa Branca prepara-se mesmo para enviar para a Ucrânia um dos mais avançados sistemas de defesa aérea dos Estados Unidos, é o sistema de mísseis Patriot. Este era um desejo de Zelensky. O que podem estes mísseis contribuir para uma maior capacidade das forças ucranianas ou são apenas armas de defesa?
São armas de defesa antiaérea, mas são armas de defesa antiaérea muito eficazes. São o sistema basicamente mais sofisticado que existe a esse nível, portanto têm mais alcance, permitem atingir os mísseis à maior distância, à maior altitude, com mais precisão e não vão mudar a guerra, até porque eram precisos em grande quantidade para garantir defesa eficaz num território ucraniano, que é realmente um território enorme. Nós ouvimos, por exemplo, falar dos Patriots, talvez pela primeira vez, no contexto da Guerra do Golfo e em Israel, quando houve a ameaça, e houve efetivamente mísseis iraquianos lançados contra Israel. Só que voltamos sempre a esta questão, Israel é um território muito pequeno e é muito mais fácil de saturar o território de Israel com sistemas antiaéreos sofisticados e garantir uma eficácia de quase 100%. Mesmo assim, nunca é de 100%. Mesmo assim, mísseis ou do Hezbollah ou às vezes até do Hamas também têm conseguido penetrar as defesas israelitas. Na Ucrânia, isso será sempre mais difícil, mas é uma boa notícia, porque um dos problemas também das defesas antiaéreas ucranianas é que eles estão a usar basicamente tudo o que têm disponível, inclusive sistemas do período soviético, por exemplo, os S-300, que aparentemente foram os que causaram aquele incidente trágico na Polônia, ou seja, que são sistemas muito mais antiquados, menos eficazes e menos precisos. Aqui também a questão da eficácia e da precisão é importante, e é isso que os sistemas Patriot prometem. Será aqui certamente um contributo importante para aumentar A eficácia da defesa antiaérea ucraniana, o que neste momento, e tendo em conta a estratégia russa de apostar muito nesses ataques com mísseis, com drones em profundidade, é também importante. Outro aspecto que também tem sido talvez menos destacado, mas que também aparece: os americanos têm estado a desenvolver também sistemas antidrone e, portanto, também há a notícia de que vão fornecer mais desses sistemas à Ucrânia. São sistemas menos testados e que têm sido menos utilizados, porque tipicamente os drones têm sido sobretudo usados pelos estados com meios militares mais sofisticados para fazer ataques contra grupos terroristas, contra actores não estatais como a Al-Qaeda, os Talibã, o Daesh, etc. E não o contrário, mas em todo o caso é muito importante também que esses sistemas cheguem e que comecem a ser usados.
Bruno, Zelensky acredita que a guerra acabaria se Putin morresse. Há quem diga, por outro lado, que uma morte ou mesmo uma saída por implosão do regime, a Rússia poderia ter um líder ainda mais duro e mais radical. Bruno Cardoso Reis, na tua opinião, se Putin sair por um qualquer motivo, a guerra termina mesmo?
Eu acho que, por um lado, temos que ser cuidadosos com essa questão, ou seja, aqui estamos a fazer análises. Eu acho que os líderes políticos, nomeadamente Biden, eu próprio critiquei Biden quando ele deixou escapar esse desejo da mudança de regime na Rússia. Eu acho que isso alimenta a propaganda do Kremlin, é algo que não se pode controlar a partir de fora, é algo que pode ser muito facilmente utilizado pela propaganda russa. Agora, em termos de análise, eu acho que uma mudança da liderança abriria a possibilidade a negociações mais sérias, porque no fundo, Putin construiu aqui um regime muito personalizado e muito personalista. Ele está completamente comprometido com esta guerra, portanto, tem muito pouca margem realmente para recuar e fazê-lo de uma forma que não ponha em risco a sua própria imagem de homem forte, da pessoa que no fundo voltou a tornar a Rússia novamente grande. E, portanto, eu acho que a substituição poderia abrir as portas a negociações, mesmo que o sucessor provável, a partir desta elite que o rodeia, fosse provavelmente outro nacionalista, outra pessoa da linha dura, mas ainda assim teria um pouco mais de margem de manobra. Agora eu acho que a pergunta coloca bem a questão que é: não é evidente que a saída de Putin ou a morte por doença, por alguma questão, uma doença súbita de Putin, levasse a Rússia à democracia e a ser liderada automaticamente por líderes da oposição comprometidos com a democracia pluralista e críticos da guerra. É mais provável que, a não ser que o sistema implodisse completamente, e para isso não bastava morrer Putin, era mais provável que alguém dentro da própria elite nacionalista o substituísse.
Entretanto, von der Leyen disse que a União Europeia está a salvo no inverno, apesar da chantagem russa. Bruno, o que foi feito para ter sido ultrapassado o receio inicial de um inverno muito duro para os ocidentais?
Eu acho que houve aqui alguns fatores circunstanciais que ajudaram, segundo dizem os especialistas, ou seja, o inverno não foi assim tão duro, pelo menos até agora. Agora parece estar a endurecer um pouco. Portanto, o consumo ou o aumento do consumo, nomeadamente dos países da Europa Central e de Leste, não foi tão grande como costuma ser, nomeadamente pela questão do aquecimento. A Rússia também foi reduzindo o abastecimento, mas apesar de tudo, nos primeiros meses, ainda houve abastecimento russo. Houve, de facto, o cuidado de constituir reservas e, portanto, isso dá aqui margem de manobra à Europa. E depois foram-se procurar alternativas, que é realmente aquilo que a história também nos diz em relação a esse tipo de sanções, que é: por muito custoso que seja, acaba por se ir encontrar alternativas, mesmo que sejam mais caras, mesmo que sejam mais distantes. E, portanto, aqui o que aconteceu foi, sobretudo, de facto, a aposta na importação de gás liquefeito. O Qatar, por exemplo, os próprios Estados Unidos, a Alemanha, enfim, fez investimentos enormes, por exemplo, para construir plataformas temporárias, terminais portuários para poder receber também gás liquefeito. Países vizinhos recebem esse gás e depois reencaminham para os países que precisam. Portanto, de facto, foi-se encontrando forma de fazer isso. Agora, de facto, a um custo mais elevado. Aqui a preocupação é também o que é que vai acontecer no próximo ano. Mas enfim, aquilo que a história nos diz é que, à partida, acaba por se encontrar formas de se lidar com estas sanções. A economia adapta-se, mesmo que pelo caminho haja um custo elevado e por vezes, inclusive há falências, aumento do desemprego, etc. Para já, isso não tem acontecido. Portanto, não houve ruturas no sistema, nem ao nível do abastecimento, nem ao nível das empresas, graças também, obviamente, ao apoio dos Estados e a algum apoio da União Europeia, mas sobretudo ao grande apoio dos Estados e sobretudo dos Estados que têm mais recursos para isso, como é mais uma vez o caso da Alemanha.
Bruno, Putin cancelou a habitual conferência de imprensa de fim de ano. Estes encontros presenciais do presidente russo com a imprensa eram organizados todos os anos desde 2001. Só houve ali uma exceção entre 2008 e 2012, quando ele foi primeiro-ministro. Olhando para os anos anteriores, que importância tem desta vez este cancelamento? Por que é que Putin não se quer expor?
Eu acho que tipicamente são conferências muito longas, de três, quatro horas, com muitos jornalistas, inclusive alguns jornalistas estrangeiros. E, portanto, eu acho que isto significa, sobretudo, que Putin achou que não conseguia estar tanto tempo a falar e a responder a perguntas sem que surgissem muitas perguntas incômodas sobre o custo da guerra. E, portanto, claramente, o perfil dele não é de alguém que esteja disposto a explicar situações difíceis ou a dar más notícias. Quando se tratou de anunciar a anexação destes territórios, destas quatro regiões da Ucrânia, foi ele que fez esse anúncio. Quando se tratou de anunciar que Teria de haver uma retirada russa da capital de um desses distritos, portanto, uma cidade que supostamente se tinha tornado russa entretanto, de Kherson. Não foi ele que apareceu, foi o ministro da defesa, foi o comandante desta operação. Eu acho que isto tem um significado talvez mais amplo, que é que podemos tirar daqui a conclusão que Putin está relativamente pessimista quanto ao estado das forças russas. É algo que nós obviamente temos sempre de ir avaliando. Por exemplo, qual é o real impacto desta mobilização parcial? Será que estas tropas estão a ser muito bem treinadas e muito bem equipadas e vão fazer uma grande diferença? As indicações que temos é que não, mas aparentemente, eu diria que este cancelamento é um sinal de que Putin acha realmente que as coisas não estão a correr bem, que se calhar não vai haver grandes notícias positivas para anunciar nas próximas semanas e que portanto, inclusive esta ideia de uma possível ofensiva de inverno da Rússia. Eu recordo na Segunda Guerra Mundial, a União Soviética, a sua primeira grande ofensiva foi precisamente no inverno de 1941. Aparentemente, Putin não está na expectativa de que isso aconteça, pelo menos não nas próximas semanas. Portanto, eu acho que é um sinal interessante de que ao nível de Putin, que certamente terá alguma boa informação sobre o estado das forças russas, a expectativa não é de facto muito otimista, não é muito positiva.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia, Bruno.
Bom dia.