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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. O meu nome é Miguel Cordeiro, vou estar à conversa com Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Vamos falar de conflitos em curso, com destaque para Ucrânia e a Faixa de Gaza, mas começamos com a histórica troca de prisioneiros entre Rússia e Ocidente. Começou a ser noticiado ontem à tarde, concretizou-se. Já tivemos declarações de vários líderes políticos dos países envolvidos nesta troca. Francisco Pereira Coutinho, o que dizer desta troca de prisioneiros e se podemos esperar mais em breve ou foi um caso isolado?

Boa tarde, Miguel. Em breve, acho que não podemos esperar nova troca com esta dimensão, até porque daquilo que já se sabe, esta troca demorou anos a ser negociada. É claro que não faltam dissidentes na Rússia para serem trocados e há vários ocidentais que continuam presos na Rússia, inclusivamente americanos, mas para haver uma troca, é necessário que o Kremlin esteja interessado em prisioneiros que estejam neste momento detidos no Ocidente. E neste caso concreto, aquilo que levou a esta troca dessa dimensão foi o interesse específico de Vladimir Putin num espião chamado Krasikov, um assassino a soldo, que matou um dissidente checheno em 2019 em Berlim, portanto estava preso na Alemanha. Aliás, o próprio Putin tinha, na entrevista a Tucker Carlson, falado neste assassino a soldo, dizendo que ele era um patriota e portanto foi a partir daqui que se conseguiu então negociar esta troca com esta dimensão. É a maior troca desde o final da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a Rússia. Mas para que isto tivesse acontecido, foi necessária a colaboração tanto da Alemanha como da Eslovénia, porque os russos estavam interessados em espiões que estavam presos nestes dois países. E foi muito difícil convencer a Alemanha. Aliás, essas negociações demoraram mais tempo porque aparentemente o chanceler Scholz, num momento inicial, terá dito que só aceitava participar nesta operação se Navalny fosse libertado. Ora, o que é que acontece em fevereiro? Navalny morre numa prisão na Sibéria e portanto a partir daí foi preciso encontrar outro tipo de soluções e isso muito provavelmente levou a que dois dos principais dissidentes russos, que estão presos políticos, Kara-Murza e Ashin tenham sido libertados também ontem. Por quê? Porque a Alemanha queria que isto acontecesse e Putin estava tão interessado em obter Krasikov que aceitou esta troca. Agora, como se percebe, é muito difícil fazer esta negociação diplomática. Agora a administração americana assumiu que queria libertar o maior número possível de americanos presos na Rússia. Aparentemente, Blinken tem uma lista que anda constantemente com ela, que tem os nomes dessas pessoas e, portanto, há interesse por parte da administração Biden de o fazer. E aquilo que aconteceu ontem, vimos Biden receber essas pessoas no aeroporto a altas horas da madrugada, portanto, ele trabalha até altas horas, uma discussão que tivemos aliás, nos últimos meses sobre o seu horário de trabalho, mostra que ele estava pessoalmente empenhado, ele tinha feito essa promessa, especialmente em relação a um jornalista. Portanto, isso foi um momento também muito importante para a liberdade de imprensa, Gershowitz do Wall Street Journal. E portanto, por todas estas razões, a administração americana insistiu muito nisto e é possível que nos próximos seis meses aconteça mais alguma coisa, embora não seja previsível que isso venha a acontecer, justamente pela dificuldade que existe em conseguir encontrar aqui um acordo entre a Rússia e os Estados Unidos.

Entretanto, uma notícia que marca o conflito na Ucrânia é uma sondagem divulgada hoje que diz que mais da metade dos ucranianos querem negociações de paz com a Rússia, uma sondagem financiada pelos Estados Unidos da América e pela Suécia, um estudo realizado em maio pelo Instituto Internacional de Sociologia em Kiev, 57% dos ucranianos defendem o início das negociações. Como é que vê os resultados deste estudo?

Este estudo depois também diz que, salvo erro, uma grande maioria, cerca de 85%, segundo percebi, aceita as negociações, mas não quer que a Ucrânia ceda território à Rússia, o que prejudica a ideia de negociações, porque a Federação Russa assumiu como condição para o início de qualquer processo negocial, que aquilo que eles chamam as novas realidades territoriais sejam respeitadas. E isso implicaria que a Ucrânia prescindisse das províncias que a Rússia anexou em setembro de 2022, portanto, a província de Luhansk, Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson. E portanto, essa porcentagem que fez referência mostra que os ucranianos estão muito cansados com o conflito, o que é perfeitamente compreensível, mas não parecem dispostos a aceitar transformar-se num Estado satélite da Rússia, nem sequer a perder território para a Federação Russa. E portanto, eu creio que esta sondagem não nos consegue dizer muito mais do que isto.

Falando do conflito em Gaza, temos os ataques aos líderes do Hamas durante esta semana. Tem sido prometida uma resposta, uma retaliação por parte do Irã. Há reuniões a decorrer também nesse sentido, com muitas lideranças no Médio Oriente. É de esperar esta retaliação acontecer já nos próximos dias? O que podemos esperar do Irã? A última vez que vimos uma reação, teve resposta de Israel pelos sistemas de defesa de Israel. O que podemos esperar desta vez e se deve acontecer nos próximos dias?

Sim, devemos esperar e será possivelmente nos próximos dias. É muito difícil perceber quando, e esta espera faz parte da estratégia de terror do Irão, mas eu diria não apenas do Irão, mas também do Hezbollah. Portanto, aqui é um proxy do Irão. E sabemos isso porque o Aiatolá Khamenei, o líder de fato do Irão, líder religioso, mas que tem grande influência sobre o poder temporal, apesar do Irão ter, neste momento, um novo presidente, disse que o Irão iria responder diretamente. Portanto, iremos ter novamente um ataque sobre Israel. Não sabemos se será semelhante àquele que ocorreu em abril, que acabou por não ter grandes consequências em Israel e permitiu que Israel depois respondesse atacando um radar no Irão e a questão ficou aí sanada. É possível que o ataque seja um pouco diferente agora, mas é preciso também não esquecer o Hezbollah, porque o seu líder, Nasrallah, andou estes meses todos a dizer que se o Hezbollah fosse atacado em Beirute, atacaria Israel em Tel Aviv. E portanto, um conjunto de regras não escritas que têm regido as relações entre Israel e o Hezbollah e que têm evitado que aquele conflito escale para um conflito total, podem ser colocadas novamente em causa e nós temos que esperar e tentar perceber exatamente qual vai ser o tipo de resposta, quer do Hezbollah, quer do Irão, se serão respostas ainda assim calibradas, que permitam que aconteça aquilo que aconteceu em abril, que foi justamente impedir uma guerra total no Medio Oriente. Agora, as notícias que temos hoje são notícias que nos dizem que o Hezbollah está a transferir uma série de armamento para o centro de Beirute. Os ministros de Israel estão com telefones satélite, portanto, está tudo a preparar-se para um ataque.

Mas com tudo isto, como é que ficam as negociações para cessar-fogo, que estão em andamento praticamente desde 7 de outubro do ano passado, em diferentes fases, mas como é que ficam essas negociações depois destes ataques à liderança do Hamas?

O ministro das Relações do Qatar disse o essencial, que Israel matou Haniyeh. Haniyeh era o líder palestino responsável pelas negociações do cessar-fogo, seria, aliás, alguém que estaria muito interessado no cessar-fogo, ao contrário de Sinwar, o líder do Hamas, que está neste momento num túnel em Gaza. As perspectivas de um cessar-fogo neste momento não são muito animadoras, porque Sinwar provavelmente interpretará este ataque como Haniyeh, como uma manifestação que Israel não está interessado no cessar-fogo. Interessantemente, para Netanyahu, este até seria um bom momento para um cessar-fogo, porque de facto obteve aqui duas importantes vitórias militares, porque o que resultou daqui foi decapitação, quer da liderança política do Hamas, quer de um importante quadro militar do Hezbollah, e portanto podia apresentar isto ao público israelita como "isto é que é a vitória total e já podemos avançar para um cessar-fogo", mas as declarações que temos ouvido do Netanyahu não vão nesse sentido, vão no sentido contrário, de dizer "esta é a prova de que este não é o momento para o cessar-fogo, porque estamos a conseguir importantes resultados militares". E portanto, o caminho para o cessar-fogo, eu diria, Miguel, neste momento, é mesmo muitíssimo estreito.

Francisco Pereira Coutinho, muito obrigado por ter estado aqui na Rádio Observador em mais uma edição de Gabinete de Guerra.