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Bemos a porta, mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Fazemos um ponto de situação nos principais conflitos ativos no mundo, hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde.

Olá, boa tarde.

Bruno, é inevitável falarmos hoje sobre a troca de prisioneiros entre a Rússia e a Ucrânia, 270 militares e 120 civis para cada lado. É a maior troca de prisioneiros até agora, desde o início do conflito ou desde o reacender do conflito. A troca já estava acordada, mas podemos ver aqui um primeiro passo para um entendimento mais à frente?

Acho que isso não, acho que é uma boa notícia. É sempre uma boa notícia quando há troca de prisioneiros de guerra, ser prisioneiro de guerra não é uma coisa evidentemente nada agradável, sobretudo os prisioneiros de guerra ucranianos na Rússia. Temos provas de que têm sido muito maltratados e estão em uma espécie de permanente risco de vida. Sob esse ponto de vista é sempre uma boa notícia. Agora, acho que ver aí um sinal de que estamos num ponto de viragem em termos de negociações, acho que não temos indicações nesse sentido. Houve várias negociações já. De facto, é a única área onde tem havido negociações com algum resultado, tem sido nesta área da troca de prisioneiros. Esta aqui destaca-se por ser numa escala maior. Penso que isso em parte poderá explicar-se por alguma vontade das partes de mostrar alguma deferência para com Donald Trump, mas até por isso me parece que pode ser visto quase como o oposto. No fundo, isto é o máximo que as partes estão dispostas a fazer pra dar alguma satisfação ao Donald Trump e aos seus esforços de paz, porque de facto noutras áreas mais substantivas e mais difíceis de chegar realmente a um acordo de cessar-fogo, pelo menos a um acordo de cessar-fogo, mesmo aí tenho dúvidas que esteja a avançar alguma coisa e em relação a uma paz mais duradoura e que fosse também justa e com condições realmente de não levar a outros conflitos, inclusive na Ucrânia a curto prazo, isso parece-me uma hipótese muito mais remota.

E Bruno, que papel é que Donald Trump tem neste tipo de acordos, ou seja, estas trocas de prisioneiros? Hoje Trump, por exemplo, chegou a confirmar o acordo antes do tempo. Entretanto, veio a imprensa ucraniana dizer que o acordo ainda não estava finalizado, só depois é que foi confirmado. Estes acordos acontecem apesar de Trump ou por causa de Trump? Ou nenhum deles?

Como eu estava a referir, eu penso que pode haver aqui um fator Trump no sentido de a escala, pelo menos do acordo, poder ter sido influenciada por essa vontade das partes, Zelensky não querer cortar pontes com Donald Trump e Putin também não querer cortar pontes com Donald Trump, sem fazer cedências nas áreas mais importantes, que têm a ver com questões territoriais ou com garantias de segurança, ou com o facto de a Rússia continuar a insistir na prática no fim da independência da Ucrânia, dos ucranianos insistirem que precisam de ter garantias de segurança, que passariam inclusive pela presença de tropas europeias, pelo menos, para ter algum incentivo pra um acordo de paz, ou seja, condições muito difíceis de aceitar pelas duas partes. Eu diria que pode ter aqui um efeito contraditório, que é em termos de um processo normal negocial, existe discrição, cuidado, estudo, preparação. Acho que Donald Trump, desse ponto de vista, tem um efeito negativo e portanto lá está nas negociações de paz mais de fundo parece-me que não tem um efeito negativo. Inclusive esse exemplo que referiste de ter antecipado o anúncio sem as coisas estarem ainda concretizadas. Por outro lado, como eu disse, parece-me que neste aspecto específico pode ter ajudado alguma coisa, pelo menos a aumentar a escala desta troca, mesmo que em termos dos detalhes negociais possa ter complicado um bocadinho as coisas. Portanto acho que pode ter tido esse duplo efeito, eventualmente ter complicado algumas coisas, mas ter ajudado a que acontecesse, pelo menos nesta escala.

E entretanto o Kremlin diz que ainda não há acordo sobre o local onde vão decorrer ou onde podem decorrer as próximas negociações com a Ucrânia. Fala-se no Vaticano. Eu pergunto, Bruno Cardoso Reis, se esse seria um sítio ideal e se não, onde é que poderia ser?

Quando isso foi referido, eu comentei aqui que achava interessante e obviamente não vou garantir que não vai acontecer, porque estamos em período de grande incerteza de coisas que pareciam impossíveis afinal acontecerem, sobretudo por causa do efeito Donald Trump, que é realmente um presidente sem precedentes nos Estados Unidos e que quebra muitas práticas habituais, muitos princípios habituais, muitos pilares da política externa americana. Mas como eu referi, eu ficaria espantado que isso acontecesse. Não obviamente porque não me pareça que o Vaticano ou que o Papado não possa ter aqui um papel importante em processos de mediação de paz como já aconteceu, aliás, no passado, eu recordo, por exemplo, ainda no Papado do Papa Francisco, teve um papel importante na negociação da normalização de relações entre os Estados Unidos e Cuba durante a presidência do Obama, mas porque a Rússia de Putin tem apostado muito na ligação com a Igreja Ortodoxa, com uma Igreja Ortodoxa muito conservadora, muito nacionalista, muito hostil ao catolicismo e de um modo geral a qualquer prática religiosa que não seja a ortodoxia tradicional na Rússia. Na própria Ucrânia, isso muitas vezes é denunciado pelos nacionalistas russos como um fator que explica porque a Ucrânia se afastou da Rússia É o peso da igreja uniat, ou seja, de pessoas de rito ortodoxo, mas que são católicas, ou seja, reconhecem o papa como chefe da Igreja. Na Ucrânia também há uma igreja ortodoxa autocéfala, ou seja, que se independentizou do patriarcado de Moscovo. Tudo isso tem dificultado muito as relações entre o Vaticano e Moscovo. Houve vários esforços para visitas, inclusive papais à Rússia, que não se concretizaram. Eu ficaria espantado neste sentido, de facto, do ponto de vista dos nacionalistas russos, da elite russa, o Vaticano não é visto como propriamente neutro neste conflito. É visto como sendo mais simpático, mais alinhado com a Ucrânia. E eu diria que as últimas declarações também do Papa Leão XIV, que me parecem, aliás, muito acertadas, no fundo, deixando claro que a causa fundamental desta guerra são as ambições imperiais de expansão, de conquista, ou seja, sem nomear, deixando claro que quem causou esta guerra realmente foi a Rússia de Putin, tudo isso me levaria a ter aqui algumas dúvidas e eu leio essas declarações do Kremlin nesse sentido, ou seja, de o Kremlin estar aqui a pôr em questão se realmente o Vaticano, como foi anunciado por Trump, seria realmente o melhor local. Mais uma vez, em termos de diplomacia habitual, o presidente americano nunca anunciaria isso sem ter garantido que as duas partes estavam de acordo. Mas Donald Trump sabemos que não respeita propriamente essas regras diplomáticas normais.

E Bruno Cardoso Reis, queria olhar também aqui para uma decisão do Departamento de Segurança Interna norte-americano, a decisão de retirar à Universidade de Harvard a possibilidade de matricular estudantes internacionais e também forçar os atuais alunos estrangeiros a pedir transferências para outras instituições. Tu que estás neste momento nos Estados Unidos, que impacto é que isto pode ter?

É um impacto muito significativo. À volta de um quarto dos estudantes de Harvard são estrangeiros. É muito importante, obviamente, para uma universidade de elite poder captar os melhores estudantes, venham de onde vier, nas áreas em que eu trabalho. Eu estive há umas semanas atrás, precisamente na Kennedy School, no Belfer Center, que é o centro de relações internacionais lá de Harvard, num evento. Aliás, quem me levou ao sítio, porque como sempre estas universidades são um bocadinho labirínticas, era um aluno estrangeiro muito simpático, italiano. Mas obviamente, por exemplo, nessa área das relações internacionais, é uma enorme mais-valia as universidades poderem ter, como nós também já temos em Portugal, muitos estudantes estrangeiros. Isso enriquece muito o debate. Mas há implicações também financeiras, são uma fonte importante de financiamento, pagam propinas maiores do que os norte-americanos e realmente tem um efeito muito negativo e era algo que as universidades aqui temiam. Esta questão dos vistos, de admitir ou não estrangeiros, é uma área em que a administração e a presidência têm um grande poder discricionário. O entendimento há muitas décadas de todos os presidentes americanos tem sido que isto é uma enorme mais-valia para os Estados Unidos, é uma fonte de enriquecimento não só intelectual, mas até económico. Muitos destes alunos são muito bons, tornam-se depois inventores, inovadores e também empreendedores, ou seja, muitas das novas empresas, Silicon Valley, etc. Basta pensar no próprio Elon Musk, que é alguém muito próximo de Donald Trump, vieram, de facto, do estrangeiro para estudar nos Estados Unidos, e portanto tem realmente um efeito terrível. Harvard, entretanto, tem recursos, obviamente, para recorrer, mas o efeito imediato é realmente altamente perturbador, quer para a vida dos estudantes, quer para a vida da universidade. Vamos ver quais são os próximos episódios. Harvard parece ter grande confiança que em termos legais isto não será sustentável a prazo, que os tribunais acabarão por lhe dar razão, até porque Harvard tem vários juízes também de Harvard no Supremo Tribunal, mas no entretanto, no curto prazo, o efeito é altamente perturbador para a universidade e também para os estudantes, que obviamente têm os seus planos completamente arruinados.

A ver vamos como fica a situação dos estudantes estrangeiros em Harvard. Bruno Cardoso Reis, temos ainda tempo para olhar para a situação no Médio Oriente. Israel acusou esta semana as autoridades europeias de antissemitismo, usou o exemplo do ataque desta semana à Embaixada Israelita em Washington para mostrar que há um clima hostil à comunidade judaica e que é fomentado pela Europa. Entretanto, a França já se veio demarcar dessa situação. Fazem sentido este tipo de acusações neste momento ou estamos aqui a entrar em assuntos sensíveis de maneira até algo perigosa?

Que há um crescimento do antissemitismo a nível global, isso é um facto. Dados recentes apontavam para volta de 46% da população global, portanto quase metade, ter preconceitos antissemitas. É verdade que isso aumentou ou pelo menos tornou-se mais visível, passou a ter uma expressão também em atos antissemitas, não todos violentos, mas aumentou bastante com a guerra no Médio Oriente, no fundo, com esta situação em Gaza e isso parece-me ser um facto. Agora, atribuir as culpas à Europa especificamente, realmente parece-me uma coisa delirante. Parte desta postura de hostilidade, de preconceito ideológico da administração Trump em relação à Europa em geral e à União Europeia em particular, parece-me um ato altamente inamistoso e de facto não é aceitável. O que mais faltava era que os europeus agora fossem culpados por atos de antissemitismo nos Estados Unidos. É um problema dos norte-americanos, é aos que tratem do assunto. Aparentemente, a presidência está muito ocupada a combater o antissemitismo supostamente com este tipo de medidas contra as universidades, mas evidentemente, isso não impede que haja atos depois de violência, eu diria talvez focar-se mais nas reais ameaças violentas e deixar de andar a caçar fantasmas ou hostilizar aliados tradicionais como uma espécie de bode expiatório para aquilo que a administração aqui não conseguiu fazer, que foi realmente combater ou evitar este ato, embora eu procure aqui ser justo. É verdade que estas situações muitas vezes são difíceis de evitar ou de combater. Estamos a falar de um ataque à porta de um evento, até havia segurança nesse evento, mas as pessoas já estavam na rua. Obviamente isso é difícil de evitar, mas em todo caso, se há alguma coisa a fazer é focar-se neste aspeto realmente da radicalização violenta e do risco deste tipo de atos e não, como eu digo, andar aqui à procura de bodes expiatórios.

E então com as acusações de antissemitismo por parte de Israel à Europa, que terminamos este Gabinete de Guerra. Bruno Cardoso Reis, muito obrigado. O programa está de volta na segunda-feira.

Obrigado.