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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos analisar esta noite os principais focos de conflito com o nosso convidado João Albuquerque, especialista em relações internacionais. Olá, João, bem-vindo.
Olá, Diana, muito boa noite.
A visita de Donald Trump à China, é por aqui que começamos. Já chegou o presidente norte-americano. Espera-se uma reunião diferente e contrariamente ao que é habitual com outros países, não é Trump a dar as cartas?
Sim, de certa maneira, esse parece ser o cenário mais provável nesta visita de Donald Trump à China, sendo que eu julgo que o presidente americano continua sob a ilusão de que chega a Beijing com esta visão ainda de dominância americana. Eu não quero ser demasiado catastrofista, nem alterar aqui hoje no Gabinete de Guerra, de uma forma radical o panorama das relações internacionais, mas eu julgo que a China tem ao longo dos últimos anos e desde a liderança de Xi Jinping, trabalhado ativamente para reforçar o papel que tem no mundo, utilizar a seu favor os trunfos e as relações de interdependência que tem com os Estados Unidos do ponto de vista económico. E o presidente americano chega a Beijing numa altura em que o próprio panorama geopolítico não lhe é favorável, com situações de guerra abertas e conflito aberto em que os Estados Unidos estão envolvidos e nos quais a China pode ter, e terá certamente, um papel muito importante a desempenhar, com capacidade de influência sobre o futuro desses mesmos conflitos. Digo isto em relação à Rússia, mas digo isto também, sobretudo, em particular, em relação ao Irão. E, portanto, há aqui, de certa maneira, apesar desta ilusão, eventualmente do presidente Trump, de que os Estados Unidos continuam com ascendente e não há dúvida de que se mantêm como uma grande potência mundial, talvez a principal do ponto de vista militar. A verdade é que os instrumentos que a China tem hoje ao seu dispor e dos quais tem vindo a reforçar e a trabalhar para que possam jogar ainda mais a seu favor, estão neste momento, de certa maneira, muito mais na mão de Xi Jinping e na forma como a própria administração chinesa tem olhado para esta visita oficial do presidente americano agora a Beijing.
Que argumentos é que tem Donald Trump para dizer que Xi Jinping é um amigo próximo? É que não é isso que nós temos visto nos últimos anos.
Nem pode ser. Nós estamos num cenário de relações internacionais, talvez diferente daquele que conhecemos durante toda a Segunda Guerra Mundial, em que tivemos uma ordem bipolar com os Estados Unidos e a Rússia. E nós, neste momento, temos, de certa maneira, uma relação bipolar que se mantém, desta vez entre os Estados Unidos e a China, com diferentes potências regionais em afirmação ou com capacidade de serem atores muito decisivos no panorama internacional. Mas a relação entre os dois países, apesar dos pontos de interdependência, não é uma relação de aliados, é uma relação competitiva, é uma relação adversarial em vários pontos, quer do ponto de vista das esferas de influência, da capacidade de expansão, dos interesses contrários que têm. Um dos temas muito sensíveis desta viagem é naturalmente Taiwan e os interesses de ambos os países colidem frontalmente em relação àquela que é a argumentação chinesa de que Taiwan é parte integral do seu território e os interesses que os Estados Unidos têm em Taiwan, quer do ponto de vista económico, em relação à produção de microchips e do ponto de vista industrial, mas também do ponto de vista militar, com a presença de bases militares americanas no Mar da China e naquela região. E, portanto, não há ou não deveria haver da parte da administração americana a ilusão de que a relação com a China é uma relação de amizade, mesmo que possa haver pontos de contacto diplomático e obviamente de interação, como tem que haver entre duas grandes potências com a dimensão dos Estados Unidos e China.
O conflito no Irão vai ser, pelo menos é isso que diz Donald Trump, um dos assuntos a ser abordados nesta reunião, nesta visita à China. Tendo a China uma relação relativamente próxima com o Irão, porquê desta recusa de Donald Trump em aceitar ajuda de Pequim para resolver esta guerra? É para não se colocar numa posição de fraqueza? Como é que podemos ler esta afirmação?
Eu diria que é sobretudo para consumo interno e acima de tudo para passar uma mensagem de força aos eleitores americanos, não querendo dar precisamente essa parte de fraco, como a Diana referia. Não deixa de ser, no entanto, surpreendente que aquele que é a principal potência mundial com capacidade de ter um ascendente sobre o Irão e de, de facto, forçar o Irão a aceitar condições de negociação que de outra forma não estaria disposto a fazer, não só pela relação de dependência económica que tem, a importação que a China faz dos produtos petrolíferos do Irão, mas também a capacidade de assistência militar que a China tem sido capaz de prestar ao Irão, torna-se um pouco incompreensível como é que Donald Trump exclui logo à partida e recusa terminantemente esta demonstração de auxílio que a China poderia estar disposta a fazer, nem que fosse como um mediador entre as partes. A China terá certamente um papel determinante a desempenhar neste conflito.
Será que os Estados Unidos não querem ficar a dever nada à China?
Eu acho que será difícil, porque a solução alternativa que eu vejo é aquela que Donald Trump também indica ou parece indicar, é que a reação militar americana seja de tal forma devastadora ou intensa do ponto de vista da colocação de tropas no terreno, através do empenhamento militar de uma outra forma mais ativa, que possa ter repercussões catastróficas, quer para o Irã, obviamente, do ponto de vista da sua integridade territorial, mas também do ponto de vista internacional para os Estados Unidos. Isto conduzirá, obviamente, a perdas humanas dos Estados Unidos e isso tem consequências políticas também muito significativas, que eu não sei se o Donald Trump estará preparado para lidar com elas e para as consequências que daí advirão do ponto de vista eleitoral para o presidente americano.
Já que fala nisso, o Irã afirma que não vai haver paz com uma proposta de acordo diferente daquela que foi enviada aos Estados Unidos por Teerão. Esta inflexibilidade revela um Irã que de alguma forma está a saber ler o terreno e está a saber ler também o eleitorado dos Estados Unidos, que acabam por ser responsabilizados também pelo uso dessa arma poderosa que se tem verificado ser o Estreito de Ormuz?
Acho que o Irã demonstrou isso desde o primeiro momento, desde o primeiro dia, quando percebeu que as consequências de encerramento e de exercício de controle naval sobre o Estreito de Ormuz tinham a capacidade de fazer vergar, ou pelo menos condicionar de uma forma muito significativa, as pretensões americanas no território, em toda a região e obviamente também condicionar aqueles que são os principais aliados americanos na região. E portanto, tem feito uso obviamente dessa arma, ao arrepio do direito internacional, não é somenos relembrar, porque está a utilizar meios que condicionam a passagem de navios internacionais e isso não deveria poder acontecer e não está previsto nas convenções internacionais. Não obstante isto, numa situação de conflito como a que se tem verificado, o Irã percebeu e tem percebido que, apesar do estrangulamento que isto tem provocado à economia iraniana por via da limitação das suas exportações, aquilo que são as receitas que pode ter também da exploração do Estreito de Ormuz, do aumento da sua matéria-prima, e de certa maneira, a forma como o tempo tem jogado a seu favor do ponto de vista político, diplomático e também militar, mostra que há um benefício claro da parte do Irã em prolongar este conflito, que é ou deveria ser contrário àqueles que são os interesses do resto do mundo, da Europa em particular, mas em última análise, também dos Estados Unidos.
Vamos andar aqui um pouco mais para a esquerda. Angela Merkel está a ser apontada como a mediadora europeia para o conflito na Ucrânia. A antiga chanceler conhece Vladimir Putin, já assumiu até que podia ter evitado o conflito na Ucrânia e puxou também para si essa responsabilidade. Ainda tem peso político, Angela Merkel, que possa contribuir para essa mediação?
O avanço desta proposta da parte da Spiegel parece-me, antes de mais, uma visão muito germanocêntrica. Isto porque acontece no contexto em que o primeiro nome que tinha sido sugerido como mediador, e foi sugerido por Vladimir Putin, Gerhard Schröder, foi terminantemente rejeitado por razões óbvias, pela proximidade manifesta que Schröder tem demonstrado e ativamente teve participação com várias empresas russas de proximidade ao regime de Vladimir Putin, e portanto, o primeiro nome avançado por Putin, que eu estou convencido de que havia essa consciência e era um nome obviamente para chocar e levar a uma proposta de negociação até do próprio mediador, seria inaceitável para a Europa e para a Ucrânia. E portanto, Angela Merkel surge como uma hipótese não só bastante mais moderada desse ponto de vista, mas sem deixar de ter uma influência grande junto de Vladimir Putin, um grau elevado de respeitabilidade por parte do líder russo e por ter um conhecimento. Enfim, não acho que haja a menor dúvida das capacidades políticas e intelectuais de Angela Merkel, de perceção daquilo que é o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, e a grande mais-valia que poderia representar até do ponto de vista da elevação da Europa e do seu papel neste conflito, se pudesse vir a assumir esse papel de mediadora entre a Rússia e a Ucrânia.
Vamos ver que desenvolvimentos tem esse caso. A União Europeia equaciona substituir a força de manutenção da paz da ONU no Líbano com uma missão própria do bloco europeu. João, tendo em conta as contendas entre Israel e as Nações Unidas, pode ser uma saída para que se estabeleça uma relação mais equilibrada entre Israel e uma organização neutra no terreno, digamos assim, ou neste momento a União Europeia também não é propriamente bem-vinda?
Eu começaria por pegar talvez por outra perspectiva. A primeira, ou pelo menos aquilo que se sabe, é que a missão das Nações Unidas terminará no final deste ano e há fortes indícios de que ela não venha a ser renovada. E aquilo que Kaja Kallas disse essa semana na reunião dos Ministros dos Negócios Estrangeiros aqui em Bruxelas, da União Europeia, foi que a União Europeia podia estar a pensar em primeiro fazer uma missão de estudo no terreno para perceber quais é que seriam as condições e que depois haveria uma reconfiguração daquilo que era a missão que as Nações Unidas estavam a desempenhar ou estão a desempenhar até agora. E essa reconfiguração significava, de certa maneira, um downgrade em relação àquilo que é a presença das Nações Unidas no terreno, com Kaja Kallas a dizer que não haveria uma presença militar ativa da parte da União Europeia e que ela seria muito maisDe formação do exército libanês para lidar com o Hezbollah, por um lado, e para reforçar as estruturas militares e de segurança civil do país para o futuro. A minha primeira preocupação é que, numa altura em que o sul do Líbano já está sob intensos ataques da parte de Israel e também em confronto com o Hezbollah, com o Hezbollah a dominar uma grande parte do território, não sei se será a medida mais adequada diminuir a presença ou pelo menos a configuração da missão que poderia vir a substituir a UNIFIL. Por outro lado, eu acho que aquilo que resulta desta análise também é que, de facto, Israel continua a não dar nenhuma prova de estabilidade em relação às suas relações com os seus vizinhos e continua, quando digo Israel é em particular o seu governo e Benjamin Netanyahu, continua a ser um grande fator de instabilidade na região, quando se sabe que os seus planos de expansão e de entrada nos territórios dos seus vizinhos se mantêm e se têm aprofundado, como vimos na definição daquela nova linha vermelha no sul do Líbano, que foi apresentada pelo ministro da Defesa israelita.
E vão além do que é propriamente a defesa da democracia israelita.
Sim, e numa altura em que se fala também de uma possibilidade de convocação de eleições antecipadas ou pelo menos a extrema-direita israelita a tentar provocar uma convulsão política no país e que isso pode ter consequências. Eu não quero dizer que possamos vir a ter saudades de Netanyahu, porque tem sido absolutamente desastroso e todos nós temos assistido àquilo que tem acontecido, mas eu acho que a extrema-direita israelita e sobretudo pessoas ligadas a Ben-Gvir e às alas ainda mais fundamentalistas e radicais do governo israelita, poderia ser ainda mais catastrófico, com consequências imprevisíveis para a segurança e a paz na região.
Passámos pelo Líbano, Ucrânia, China, Israel. João Albuquerque, muito obrigada pela sua análise neste Gabinete de Guerra.
Obrigado eu, Denia. Muito obrigado.
Até à próxima. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.