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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, hoje com o Major-General João Vieira Borges. Muito boa tarde, senhor Major-General. Hoje vamos olhar naturalmente para aquilo que foram as conclusões da cimeira da NATO que terminou em Haia. Olhando de forma global, a forma como esta cimeira termina era aquilo como esperava que ela terminasse?

Sim. Até inclusivamente, fruto de circunstâncias que nós sabemos, relacionadas com a própria guerra Israel-Irão e a intervenção dos Estados Unidos, até correu ou terá corrido melhor, tendo em conta que Trump foi bem recebido, até bem demais, e obviamente não houve qualquer alteração ao que estava previsto, àquilo que foi proposto, designadamente, a declaração reforçou, sobretudo, o compromisso de 5% do PIB, 3,5 mais 1,5, e reforçou também a questão da Rússia ser a maior ameaça à NATO, independentemente do tipo de ameaças como ao terrorismo e à ciberguerra. Mas foram muito poucos pontos, foi uma declaração só de cinco pontos. Houve aqui um aspecto interessante, que foi o fato de não haver menção à China nesta declaração final, mas também não houve qualquer menção relativamente à guerra da Ucrânia. A última cimeira teve pontos a mais, foram 38 pontos, se não me engano, e portanto, aqui foi muito mais dirigido. E portanto, esta visão política de necessidade de investimentos para haver maior equidade com os Estados Unidos, foi, no fundo, o trunfo de Trump e foi ir ao encontro daquilo que são as necessidades de uma Europa que vinha desinvestindo há muitos anos. E portanto, esta foi a maneira, vamos ver, o período é até 2035, são 10 anos. Nós também tivemos galos e depois não foram cumpridos, ainda havia 10 países que não tinham cumprido passado 10 anos. Portanto, daqui certamente até lá, e por isso também vai ser criado um ponto de reunião em 2029, ainda haverá muita água debaixo da ponte, designadamente muitos líderes que vão mudar, a situação política internacional vai-se alterar. E também acho que é muito importante fazer um ponto de situação da evolução deste processo de aquisição de equipamento militar em 2029.

Ou seja, mais do que uma reunião, uma cimeira para tratar de guerras, era importante haver este acordo. Independentemente das guerras que estejam em curso nesta altura, é importante haver esse investimento em defesa. É esta a mensagem que no fundo acaba por ficar, é isso?

É essa claramente a mensagem, resumiu isso de uma maneira única.

Obrigado.

Independentemente de sabermos que efetivamente houve discussões, quer antes, quer depois. O jantar anterior não foi só para comer, foi para conversar, relações bilaterais. Também hoje, durante o debate, obviamente, foi à porta fechada, nós não sabemos tudo o que é que foi dito. Percebemos que havia ali algumas questões também relacionadas com o artigo quinto da NATO, em função de declarações sempre infelizes e já normais da parte de Trump, mas também percebemos que depois ele teve as conversações, a começar com o Zelensky e depois com outros atores, que é sempre muito positivo neste tipo de reuniões. Elas serem muito centradas em determinadas questões políticas, como foi desta vez, atinge-se certamente mais os objetivos e é tudo muito mais claro. Quando são 30 e tal pontos, dividem-se as opiniões, depois fica tudo mais ou menos em teoria e depois na prática há uma grande dificuldade. Daí a grande objetividade, o assunto era demasiado importante, era um assunto de futuro e para o futuro de todos nós, de maior autonomia estratégica da Europa, obviamente pressionados pela NATO e sobretudo por Trump, mas também em parceria com aquilo que já era a visão da própria União Europeia, como nós sabemos, no projeto para 2030.

Ainda assim, há aqui algumas reservas, nomeadamente da parte de Espanha, relativamente a estas conclusões. Consegue enquadrar-nos esta posição de Espanha face àquilo que foi a posição assumida nesta cimeira?

A posição de Espanha já vem de longe. A Espanha era o país que menos investia na NATO. E a Espanha defende, desde há muitos anos, que mais importante do que um indicador político, como é a porcentagem do PIB, e defende isso também sustentada na soberania do Estado, é que é mais importante do que isso é investir em capacidades. E investe como quer, quando quer, paga o que quer. E portanto, nesse sentido, foi demonstrando ao longo dos anos que também estava muito ligada à indústria de defesa, que tinha alguma autonomia também nessa área e não queria ficar subordinada de determinadas orientações, designadamente as imposições. E de acordo com os compromissos assumidos com a NATO, é preciso três brigadas, é preciso um comando, é preciso três batalhões, é preciso isto e mais aquilo, em termos também de equipamento, que são os compromissos assumidos, não são estes, naturalmente, são outros que foram renegociados. O primeiro-ministro acha que basta 2.1 para assumir os compromissos e o resto que tem a ver com o Estado espanhol e com a defesa do Estado espanhol e com a especificidade do Estado espanhol, designadamente até nas questões de segurança, até porque as questões do terrorismo nós sabemos que são muito complexas em Espanha, mais do que a grande parte dos países que estiveram na cimeira, dos 32, e portanto é essa a defesa. Agora, é evidente que pode-se colocar uma outra Uma outra dimensão, que é a dimensão de política interna ou o fato de estar numa situação de crise, a própria Espanha, termos política interna devido à corrupção, devido a outras situações, que foi uma maneira de fazer campanha, de ir ao encontro dos espanhóis e de todos os povos que obviamente querem pagar o menos possível em defesa e ter o mais possível em desenvolvimento. E portanto, estará no meio, certamente, a virtude ou a razão neste caso.

Uma cimeira que Donald Trump diz que foi uma vitória monumental para os Estados Unidos, para a Europa e para a civilização ocidental. O presidente norte-americano sai reforçado depois desta cimeira, a posição dele sai reforçada depois desta cimeira e também depois daquilo que foi a atuação de Donald Trump neste conflito de 12 dias entre Israel e o Irão.

Sai reforçado, mas também é preciso ver que só sai reforçado de uma guerra que ele criou. Esta era a guerra dele. As outras eram guerras de Biden. Esta era uma guerra dele. Seja a guerra dos 12 dias, mas sobretudo esta, seja depois a intervenção final dos Estados Unidos. Era uma guerra de Trump, e que Trump usou a força para obter a paz. Portanto, aqui atingiu os seus objetivos com a sua estratégia. Só que as outras guerras, designadamente a questão de Gaza e muito especialmente a questão da Ucrânia, continuam lá. E ele disse que as resolvia e não as resolveu. Portanto, aí vai ter que fazer ainda muito trabalho de casa. É evidente que ele também argumenta com a questão do Paquistão e da Índia, que também já resolveu essa situação. Ele também deve andar à procura do Prêmio Nobel da Paz, mas o seu discurso, vamos compreendendo melhor ao fim destes meses, que é um discurso de usar mesmo a força para obter a paz. Só que isso não se aplica na Ucrânia. É muito complexo, é uma realidade muito diferente. E também é difícil de aplicar, até porque mais força e mais mortandade sobre os palestinianos deve ser difícil. Portanto, também é muito difícil aplicar numa luta de um Estado contra terroristas. Portanto, são duas realidades diferentes desta, de uma guerra entre duas grandes potências que ainda por cima estavam descontínuas a mais de 2 mil km de distância.

E nesse sentido, Major-General, houve mais uma reunião entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky. Não há assim grandes detalhes sobre o que se passou. Dizem das duas partes que a reunião correu muito bem. Trump diz que vai falar agora também com Putin. Até que ponto é que este pode ser mais um fator para eventualmente ajudar num possível cessar-fogo ou num acordo para que durante algum tempo as hostilidades possam parar entre a Rússia e a Ucrânia?

Eu acho que ele ganhou mais liberdade de ação para negociar no sentido em que costuma negociar, através da força ou através de discursos, por vezes que nem nós compreendemos, nós analistas. E portanto, na relação de forças com a Rússia, obviamente ganhou alguns pontos. E isso poderá ser importante. Agora, espero que seja importante na relação com a Rússia e que não penalize a Ucrânia, que não penalize o direito internacional e que não penalize questões que vimos defendendo em termos de valores, pelo menos os europeus em geral, há mais de três anos. Portanto, vamos ver, porque pode termos o reverso da medalha, pressionar à força um acordo de paz, como pressionou à força um acordo de terras raras com a Ucrânia, penalizando a Ucrânia e todos aqueles que os vêm apoiando ao longo destes anos, designadamente no que concerne à recepção ou à aceitação, mais propriamente, daquilo que são as imposições de rendição da Rússia, porque na prática é isso que sucede com aquilo que nós vimos na semana passada nos discursos de Putin.

O certo é que Donald Trump continua a insistir com essa ideia de que a Rússia tem de parar com a guerra já. Noutro conflito, o conflito entre Israel e o Irão, Donald Trump também fez uma declaração em Haia que diz que a guerra entre Israel e o Irão pode recomeçar em breve. O que o presidente norte-americano pode querer dizer exatamente com isto?

Ele argumentou que poderia começar se o Irão, obviamente, voltasse à opção nuclear, mas que não acredita nisso. Foi o que ele disse depois: "Mas eu não acredito que isso vá acontecer". Ou seja, deixou a porta aberta para aquilo que pode vir a acontecer, que é em determinada altura, o próprio Irão usar como estandarte de vitória que manteve o urânio enriquecido, e obviamente que isso seria um mau caminho. Portanto, a seguir ao acordo de paz, foi a pressão que ele fez, era bom haver um acordo que já está a ser negociado através do Qatar, um acordo que dê alguma sustentabilidade a este processo. Agora, nós todos temos a noção, e não é novidade nenhuma ao longo dos últimos anos, que pontualmente, em determinadas circunstâncias, teríamos ataques de Israel. Só que já percebemos também que terão resposta, e uma resposta que ficou agora bem explícita durante estes 12 dias, é que tem consequências. E consequências porque, obviamente, a antiaérea, por muito que seja a melhor que existe no mundo, a antiaérea não é 100% eficaz. E portanto, Israel também tem que pensar muito bem agora quando desenvolve os ataques, mesmo que sejam pontuais, designadamente sobre instalações nucleares ou sobre locais onde estejam eventualmente os tais 400 quilos de urânio enriquecido, que não sabemos qual é a percentagem. Portanto, é nesse sentido que foi a pressão dele, mas o mais importante, na minha perspectiva, é caminhar como se caminhou durante três anos em negociações com Obama, para que Aquilo que foi proposto pelo Parlamento, que é sempre mais extremista até do que o próprio líder supremo, aquilo que foi proposto de fechar completamente as portas à Agência Internacional de Energia Atómica não se concretize. Isso é que era importante, manter-se a monitorização independentemente, como dizia Obama na altura, mesmo quando assinou o acordo, a desconfiança se mantém. Mas é importante, porque senão transformamos o Irão numa Coreia do Norte e isso é muito mau para a comunidade internacional em geral.

Sr. Major-General, deixe-me ainda colocar-lhe uma última questão relacionada com o que se passou nesta cimeira, porque também se falou do papel que Portugal pode ter tido a ajudar a desbloquear a declaração final da Cimeira da NATO. Há pouco também falávamos da questão de Espanha e provavelmente estará relacionado com isso, mas eu queria que nos tentasse explicar, tendo em conta que também não sabemos bem o que se passou e qual é que terá sido essa ação, mas qual é que poderá ter sido, o que Portugal poderá ter feito e ajudado para desbloquear essa declaração final?

Portugal o que ajudou, segundo as informações que eu tenho, foi exatamente no timing do '32 para '35 e, portanto, o ganhar mais três anos para atingir os valores dos 3,5 mais 1,5. Uma segunda situação poderá estar, e está, certamente relacionada também com o esforço que foi feito. Não foi só Portugal, mas para que houvesse um timing intermédio, ou seja, 2029 é um timing importante, tem a ver com a nova administração norte-americana, curiosamente em Portugal também tem a ver com eleições legislativas, mas tem sobretudo a ver com o repensar todo este esforço que está a ser feito no âmbito da NATO, para um cenário que pode ser completamente diferente nessa altura. E isso tem toda a lógica, ou seja, se por acaso houver um acordo de paz com a Rússia e se por acaso a situação internacional evoluir no bom sentido, obviamente que todo esse esforço a determinada altura pode ser e deve ser reajustado. Se por acaso aparecer outro tipo de ameaças, designadamente o terrorismo transnacional, o esforço que está a ser orientado no sentido de uma guerra convencional em termos de equipamentos, ser orientado no sentido de outro tipo de equipamentos. Portanto, há aqui muitas questões que eu acho muito bem que Portugal tenha tido essa intervenção, fundamentalmente no 2029 e no 2035. Isto são alguns dados que vão saindo cá para fora, que Portugal terá tido intervenção. É isso mesmo.

E o facto de haver essa proximidade cultural e geográfica entre Portugal e Espanha, e facto de Espanha ser um país que estava com mais reservas, também terá ajudado a que se chegasse a um entendimento mais lato com todos os aliados.

Sim, claramente, mas não foi só. Havia outros países que também eram muito céticos relativamente às datas, que era o caso da França, não tanto a Alemanha, mas era mais o caso da França, o caso da Bélgica, o caso do Canadá. Nós não temos os dados todos, porque aquelas reuniões são reservadas, mas havia outros países que certamente estiveram nesta linha de pressão para a alteração das datas e acho que foi muito importante essa pressão, atingindo os objetivos em termos gerais, que a preocupação é global de todos os países, foi muito importante.

Sr. Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter vindo a mais um "Gabinete de Guerra". Até à próxima. Obrigado.