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E hoje no gabinete de guerra das manhãs 360, Orlando Sá Moisés, especialista em relações internacionais. Muito bom dia, Orlando Sá Moisés.

Muito bom dia.

Bom dia.

Muito obrigado pelo convite.

Ora essa, ajude-nos a perceber: o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita, está em Washington. Decorrem negociações de paz indiretas entre Israel e o Hamas no Qatar. O que é que resulta do ponto de vista prático destas manobras diplomáticas, diria, intensas?

Bom dia, muito obrigado pelo convite. De fato, a palavra manobra pode ser muito bem empregada. Nós estamos cada vez mais um pouco também manobrados com tudo o que se está a passar. A intensidade de tudo isto decorre em grande velocidade. Nós estamos já perante uma espécie de segunda reunião no dia seguinte em Washington e temos, de facto, aqui uma alteração mesmo no primeiro dia em relação às intenções, porque falou-se em encontro que seria até bastante mais tarde do que com os outros representantes dos Estados Unidos, com o próprio Trump mais ao jantar, que seria fechado aos jornalistas e acabou por ser aberto, ou seja, houve aí uma certa manobra. Trump acaba por não resistir e dar a imagem de estar a conversar. Hoje, no dia seguinte, volta a falar, parece-nos Gaza volta a estar no centro das atenções. Trump chegou a dizer naquela sua posição à entrada do seu avião, o Air Force One, que seria sobre o Irão. Os assuntos estão de facto relacionados. Trump está com muita pressa, se calhar com pressa demais, às vezes o acordo de cessar-fogo e tréguas podem ser mais concedidos quando se tem um horizonte um pouquinho maior do que se estar a tentar pensar já tudo para amanhã. Ainda assim, reforça a posição dos Estados Unidos em Doha, no Qatar, com a ida do Witkoff, significa que estamos todos a dar importância a essa plataforma de entendimento que parecia menos importante nesta segunda e terça desta semana, mas ainda assim há de fato umas conversas, há um alinhamento e nós aqui nunca sabemos muito bem a posição de um e de outro, até face à maneira como podem estar a tentar, para usar a sua palavra, manobrados um pelo outro, mas no limite, Trump pode estar a chamar à razão Netanyahu, esperemos que sim, esperemos que esteja até a pressionar esse cessar-fogo. Sabemos que há aqui sempre pontos de grande tensão. Um deles creio que está a ser de fato a Gaza Humanitarian Fund Foundation e que está a ser acusada de não ter proporcionado de fato estes espaços para a entrega da ajuda humanitária como deveria ser, que se perspectivava ser mais rápida, ser mais eficiente e que, pelo contrário, poderá estar a gerar novas razões de violência e de ainda maior conflitualidade, mas que o Hamas pode estar a agarrar até essa questão e a preferir que fosse um programa alimentar da ONU, que aliás tem um diretor que continua a dizer que neste momento estamos, e eu diria desde o dia 2 de março grosso modo, não se conseguiu entrar para a segunda fase do cessar-fogo com as necessidades básicas sendo as maiores de sempre em Gaza. Seria de entrarmos numa espécie de terceiro cessar-fogo, esperemos que sim. Trump está muito confiante, mas ele também está sempre muito confiante. Voltarmos a uma situação de janeiro, parecida com a de 19 de janeiro, que foi logo no início do mandato de Trump, mas que ainda nos pareceu ser muito negociada por Biden, e assim com muita longevidade. Foi na altura negociado quase em junho de 2024.

O fato de Donald Trump ter referido a Gaza como uma tragédia é uma inflexão no discurso. Como é que analisa o uso desta palavra?

É uma palavra muito forte e ele por vezes vai dizendo tanta coisa e por vezes também muda de opinião que vai acertando às vezes as palavras com que usa aqui e ali.

É a história do relógio avariado, não é?

É, exatamente. Ele vai rodando, vai dando o certo por vezes e por outras nem por isso. Continua a falar na Riviera, continua a falar na saída dos palestinianos, que naturalmente não parece ser uma situação que eles próprios queiram. Netanyahu utiliza essa expressão e essa possibilidade, esse plano, se é que existe um plano, porque na realidade parece-nos às vezes que o esboço é sempre demasiado aberto e criativo. Netanyahu dá uma expressão que é muito "quais lá para ali", quer dizer, os que aceitarem sair por não sair, por livre escolha, os que aceitarem ficar. Ora, todos estaríamos de acordo com isso. A questão é até que ponto é que querem mesmo sair, que é essa a dúvida. Até que ponto é que há países que estariam dispostos a aceitar, porque sabemos que os países que podiam estar ali mais próximos já têm dito que não algumas vezes. E depois, de fato, mesmo as pessoas que quisessem sair, neste momento estão com problemas humanitários tão graves e tão catastróficos, de fato, estão a viver uma tragédia, que se calhar também terem saído também é difícil aplicar a expressão livre vontade perante essa situação. E poderá, quem sabe, vir a haver, de fato, acusações graves à nível internacional de crimes graves mesmo de guerra e que terão que ser analisados com tempo. Acho que toda essa coisa também utiliza aqui expressões muito fortes e até situações que são tipificadas do ponto de vista do direito internacional, que nem sempre coincidem e que têm que ser analisadas com muito cuidado, que também são de fato muito graves. Não quer dizer que não existam, mas também às vezes há uma pressão ideológica para que de um lado ou de outro se tente desculpar em demasia ou se tente também de fato utilizar palavras Que são verdadeiros crimes contra a humanidade.

A linguagem política nem sempre está alinhada com a linguagem do direito internacional. Orlando, deste encontro ou desta visita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a Washington, fica esta imagem forte de Netanyahu a entregar uma cópia da carta que o mesmo terá enviado ao Comitê Nobel a propor Trump para o Prêmio Nobel da Paz. Que significado é que tem este gesto e que consequências poderá ter?

As consequências poderão não ser muitas, porque o Nobel pode ter umas decisões bastante diferentes e vai receber certamente muitas indicações desse gênero. É uma espécie de nomeação, mas que pode ou não ser atendida. Também se junta o Paquistão nesta onda e se calhar até outros países, porque por vezes a percepção e se formos atendendo até as sondagens que foram feitas na altura da eleição de Trump, há várias zonas do globo que conseguem ter um certo alinhamento para com algumas das posições de Trump e achar que este retirar dos Estados Unidos do palco internacional para um maior nível de isolamento e para tentar apenas cada país se incluir nos seus problemas e não tanto uns nos outros, colhe alguns apoios aqui e ali. E portanto esta perspectiva de que traz a paz de cada um se recolher para dentro das suas fronteiras pode gerar a ideia de que a paz poderá resultar. Mas na realidade sabemos que este gesto é uma espécie de apelo à vaidade de Trump, que quer muito comparar-se a outros presidentes dos Estados Unidos, tem essa questão da comparação para com Obama, que consegue essa alta distinção da academia do Nobel, mas também Carter apesar de já ter sido muito depois, também conseguiu, ou mesmo Woodrow Wilson e aqui teríamos alguém que os seus 14 pontos ajudaram a inspirar a própria ideia das Nações Unidas e portanto este diálogo maior entre os Estados. Mas também creio que Jimmy Carter e agora citando de cor diria que Roosevelt, talvez, mas estou a dizer de cor.

Sim.

Ele queria se juntar a esse grupo. No entanto, também pode ser visto aqui como mais uma vez uma tentativa de manusear a maneira como Trump também olha para o seu próprio ego. Todos os chefes de Estado têm esta tendência para trazer um pequeno brinde. O brinde menos conseguido foi o de Zelenskyy se nos recordarmos naquela sua ida contra 28 de dezembro, onde entregou as imagens de ucranianos soldados que tinham sido brutalizados por soldados russos até em cativeiro, portanto para chocar. E aí nota-se que de facto não correu bem, mas quando essa cartada é um certificado, como foi no caso do Merkel, um certificado de nascimento do avô do próprio Trump como sendo alguém que pelo certificado seria alemão, poderá ter sido mais visto e para não comparar com a jogada de Starmer de trazer o convite da Casa Real do Reino Unido a Trump para uma visita que incluísse essa presença junto com o Rei Carlos III, que deixou o Trump muito encantado, mas que na realidade roça quase esse encantamento há uma atitude, a intenção para com a Constituição americana, que é tão clara a dizer que o presidente dos Estados Unidos e no fundo os Estados Unidos, as pessoas todas, não devem acatar ou aceitar ou até atribuir títulos nobiliários ou reais. Foi por isso que os Estados Unidos começaram como república e portanto esse deleite perante a Casa Real é no mínimo um pouco ingênuo de um presidente que quer atingir todos estes patamares muito rapidamente. Vamos lá ver se consegue ou não. No Irão houve algum sucesso para atenuar a crise pontual e para já até pode-se considerar que pode ter atrasado o programa nuclear e portanto ajudado a gerar um pouco mais de paz na região, mas o regime conseguiu reafirmar-se e portanto mesmo aí não sabemos até que ponto é que não poderá haver um efeito ricochete. E agora na Ucrânia vemos uma posição também muito repentina outra vez de Trump, em que se calhar depois de ter experimentado e testado uma situação diferente perante a Rússia em que não ajudaria a Ucrânia para ver se a Rússia tomaria alguma consciência e se entrava também numa forma de estar um pouco diferente, não pelo intensificar dos ataques da Rússia, Trump também pode começar a ver que afinal a Rússia não está assim tanto de boa fé em negociar e não estando contente, o Putin é, e estou a citar: "É muito simpático, mas eles estão de facto a nos dar muitas cantigas." Essa expressão em inglês até foi mais forte, e aquilo que o Putin diz pode ser meaningless, pode muitas vezes não ter significado. Esta troca de palavras cada vez mais forte e o Zelenskyy que diz que ao telefone teve a melhor conversa desta vez com Trump, que a ser verdade, e se ele juntar as suas ações às suas palavras, pode ser que Trump esteja mesmo a reconsiderar a sua posição para com a Rússia. Não sei se não é muito como é aquilo que desejamos, porque estamos a ler o conflito de maneira diferente. Não sei até que ponto é que na mente de Trump ainda está mais presente a sua posição original, posição MAGA, que no fundo quer suavizar as posições para com Moscovo, para tentar de alguma maneira combater de forma mais eficaz a proeminência que a China poderá ter a prazo na esfera mundial.

Na esfera mundial. Muito bem, agradeço Orlando Simões por ter estado conosco hoje aqui no Gabinete de Guerra. Muito obrigado e bom dia.

Eu que agradeço. Muito obrigado. Bom dia.