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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com João Albuquerque, especialista em Relações Internacionais. Boa noite, João, bem-vindo. Começamos pelo Médio Oriente. Donald Trump diz ter cancelado os ataques contra o Irão que estavam planeados para esta noite e justifica este cancelamento com discussões alegadamente aprovadas pelo mais alto nível da liderança iraniana e por vários Estados da região. Isto depois de durante a tarde ter falado mesmo em atacar a ilha iraniana de Kharg e Donald Trump disse também que queria controlar o setor petrolífero do país, como na Venezuela. Pergunto-lhe por que agora este recuo? Podemos estar finalmente perto de alcançar um acordo que parece ser eternamente adiado?

Olá, Lara, boa noite e boa noite aos ouvintes do Observador. É difícil perceber ou tirar conclusões definitivas sobre aquilo que pode estar em causa com este adiamento. Isto porque nós levamos praticamente três, quatro meses de sucessivos adiamentos da parte de Donald Trump, de consecutivas marcações de prazos que depois acabam por não ir avante e autoimpostos pela própria administração americana e que acabam por nunca ter consequência. Não se percebe exatamente se estamos perante mais um momento de recuo de Donald Trump, depois de declarações muito afirmativas da parte do secretário de defesa americano, Pete Hegseth, que tinha dado nota de que os ataques podiam estar para breve. É difícil perceber se isto representa apenas uma inflexão novamente da parte da administração americana, como muitas que já assistimos nos últimos tempos, ou se há um sinal mais positivo que venha da parte da liderança iraniana no sentido de alcançar algum tipo de acordo. Obviamente que o arrastar desta situação por tanto tempo coloca dificuldades a ambas as partes, ao Irão pelo agravamento da situação económica, que tem ainda mais dificuldades por via das sanções que são impostas, mas aos Estados Unidos também, do ponto de vista mediático, político e até do seu envolvimento militar neste conflito, as consequências também se fazem sentir. Obviamente, este arrastar de tempo não é benéfico e de certa maneira talvez seja o único fator de pressão que acaba por levar a que possamos esperar, pelo menos, que haja alguma possibilidade de entendimento no futuro.

Depois de duas noites consecutivas de ataques, hoje podemos mesmo esperar uma noite de tréguas, até porque o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão disse que o cessar-fogo ficava sem efeito depois dos ataques norte-americanos. Esperamos então uma noite sem combates ou não lhe parece que seja possível?

É difícil. Este cessar-fogo, à semelhança de outros cessar-fogos que têm acontecido, nunca foi efetivamente como tal. Acabou-se sempre por haver algum tipo de operações e da parte do Irão, aquilo que sempre foi o seu entendimento foi que as operações que estavam a ser levadas a cabo no Líbano faziam ou tinham que fazer parte do entendimento que resultasse com os Estados Unidos e isso nunca aconteceu por via dos ataques que Israel tem levado a cabo, sobretudo no sul do Líbano. Para o Irão nunca se considerou que tivesse havido efetivamente uma pausa. Agora, obviamente, o cenário muda de figura quando são os Estados Unidos a atacar diretamente o Irão e a colocar um ponto final na cessação mais direta de hostilidades, como agora aconteceu. O Irão terá, mesmo que não seja uma retaliação violenta ou que seja com o intuito real de causar danos muito graves aos Estados Unidos ou aos seus aliados na região, que tem sido a arma que o Irão tem utilizado, eu julgo que será difícil ao Irão deixar estes ataques sem resposta, até do ponto de vista da sua credibilidade e da manutenção daquilo que o Irão tem conseguido fazer, que é dar sempre para o exterior uma imagem de grande força e de grande capacidade, quer defensiva, quer reativa aos ataques que tem sofrido.

Entretanto, a autoridade do Estreito de Ormuz decretou um completo fecho do canal depois do recomeço do conflito armado. Vamos voltar ao início do conflito ou agora com este recuar de Donald Trump pode ser que o Estreito não fique novamente encerrado?

Eu tenho dito isso várias vezes. O Irão percebeu desde sempre e eu acho que isso é muito visível e salta à vista de todos que o Irão estava absolutamente preparado para esta eventualidade e para aquilo que viesse a acontecer, com a identificação dos pontos nevrálgicos que podia utilizar a seu favor. O Estreito de Ormuz é obviamente o principal e não há dúvida de que a utilização novamente do encerramento total do Estreito de Ormuz provoca um dano muito significativo. É sentido também nos Estados Unidos, mas ele tem uma consequência muito significativa para a União Europeia. Só para nós termos uma ideia, aquilo que a União Europeia tem gasto desde o início do conflito na aquisição de combustíveis por via do agravamento dos preços e o dinheiro que tem investido nesse esforço de aquisição de matérias-primas para energia e para combustível ultrapassa aquilo que tem sido o esforço militar americano em todo o terreno, passa os 400 mil milhões de euros. É um valor absolutamente estratosférico para aquilo que é a dimensão e para o investimento que a Europa pode fazer e que tem consequências muito gravosas para todos os países europeus.

Vamos passar para o conflito na Ucrânia. Apesar de o foco mediático estar agora mais virado para o Médio Oriente, os ataques entre Moscovo e Kiev continuam. As últimas 24 horas ficaram marcadas pelo ataque da Ucrânia na Crimeia, que ficou com algumas pontes fundamentais destruídas, e também pelos bombardeamentos russos na região de Sumy, que deixou uma cidade sem luz e sem água. Em que ponto é que está este conflito na Ucrânia? Mais de quatro anos depois, os ataques continuam com a mesma intensidade?

Eu, na semana passada, depois da declaração ou do comunicado oficial de Zelenskyy nas redes sociais, fazendo um apelo direto ao presidente russo, convocando-o, de certa maneira, instando-o a sentar-se à mesa das negociações e dizendo que estava nas mãos do presidente russo acabar com este conflito, eu tive alguma esperança de que pudesse haver uma maior aproximação entre as partes e uma maior disponibilidade entre as partes para procurarem uma resolução pacífica do conflito. Isso implicaria, obviamente, que, numa primeira instância, os canais diplomáticos funcionassem e, portanto, a diplomacia pudesse entrar em ação para começar a trabalhar numa possibilidade de acordo entre a Ucrânia e a Rússia, para depois, numa fase posterior, os dois líderes se poderem sentar à mesa e fecharam o entendimento entre as partes. Aquilo que parece, neste momento, ser a reação da Rússia é exatamente oposta, com a intensificação dos ataques, com a intensificação até da intensidade e da violência com que têm produzido esses ataques e não dando qualquer indicação de que este apelo que Zelenskyy lançou tenha acolhido ou tenha sido bem aceito no Kremlin e tenha sido visto como uma real possibilidade de colocar um fim ao conflito. Eu acho que isso tem sido bastante visível e tem sido a tentativa de Vladimir Putin não só de continuar a mostrar a sua relevância e a capacidade da Rússia de se manter neste conflito, mas também a capacidade de fazer prolongar ainda mais no tempo este conflito através do empenho de maior armamento e de reforço da artilharia que tem utilizado.

E agora com conflitos no Médio Oriente, Vladimir Zelenskyy tem de fazer um esforço ainda maior para continuar a conseguir cativar os apoios ocidentais?

Essa foi a segunda parte mais evidente do comunicado do presidente ucraniano. De facto, em que ele dava nota de forma explícita de que os Estados Unidos estavam muito distantes de ter a Ucrânia no centro das suas preocupações, com o envolvimento que estão a ter no Irão e que, portanto, era muito necessário ou ainda mais necessário, digamos assim, o envolvimento da União Europeia em todo este conflito. Nós tivemos uma primeira tentativa agora com a reunião desta coligação da boa vontade, mas que acabou também por não trazer grandes resultados. Mas aquilo que é certo, e eu acho que Zelenskyy percebeu isso de uma forma muito clara, sem o compromisso e sem o empenho dos Estados europeus, seja do ponto de vista do armamento, de contínuo apoio militar à Ucrânia, seja na continuidade do esforço de adesão, dos planos de reconstrução, dos planos de recapacitação da Ucrânia no período pós-conflito. Sem isso, a Ucrânia terá muitas dificuldades quando os Estados Unidos estão obviamente numa outra frente de batalha e, portanto, muito menos preocupados e com muito menos atenção àquilo que se passa na Ucrânia.

O nosso tempo chegou ao fim. João Alqueires, especialista em Relações Internacionais, muito obrigada pela sua análise.

Claro, muito obrigado. Foi um gosto. Até à próxima.

Obrigada. O Gabinete de Guerra regressa amanhã.