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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Hoje contamos com o historiador Bruno Cardoso Reis para olhar pra atualidade dos conflitos que vão marcando o planeta. Boa tarde, Bruno. Obrigado por estares conosco.
Olá, boa tarde. Obrigado.
Começamos pela Ucrânia, pela entrevista de Volodymyr Zelensky ao The Atlantic, uma revista norte-americana. Diz o presidente ucraniano que a Ucrânia está pronta para ir a eleições ou para fazer um referendo. É verdade que diz que a ajuda dos Estados Unidos pode acelerar esse processo, mas pergunto, Bruno, quando é que vês que isto seja possível?
Sim, nós tivemos hoje a notícia no Financial Times de que, de facto, no quarto aniversário da invasão russa, a 24 de fevereiro, Zelensky iria anunciar esses planos para levar a cabo eleições presenciais e um referendo também em relação ao plano de paz. Mas parece-me que as objeções a eleições, a um referendo, se mantêm, ou seja, vai ser muito difícil. Acho que Zelensky provavelmente tentará colocar como condição, pelo menos, que haja ali um período de cessar-fogo em torno das eleições, e não pode ser apenas no dia das eleições, para as pessoas terem o mínimo de condições de segurança pra votar, pra se organizar as coisas com o mínimo de segurança, mas realmente será um grande desafio, porque temos milhões de pessoas deslocadas no país, milhões de pessoas fora do país. Agora, eu também fui sempre dizendo que é muito importante pra Ucrânia, era muito importante, logo que possível, levar a cabo eleições, eventualmente mesmo alterando a lei, porque realmente isso é muito importante pra legitimar a Ucrânia em relação às democracias ocidentais. Isso é usado de uma forma completamente hipócrita e sem nenhuma credibilidade contra a Ucrânia pela Rússia, por exemplo, ou mesmo por elementos da administração Trump que não mostram nenhuma preocupação, por exemplo, com a realização de eleições livres e justas na Ucrânia ou até na Venezuela. Aparentemente, essa não é a prioridade, mas na Ucrânia é que são urgentes. Mas, em todo caso, parece-me que realmente é difícil para a Ucrânia resistir ad eternum a isto, sobretudo se a guerra se prolongar também muito. E acho que é importante, e foi a mensagem que Zelensky já passou, sem confirmar exatamente esses planos, mas também sem os desmentir, é que ele não está agarrado ao poder, portanto, ao contrário de Putin, que está lá desde 2000. De facto, na Ucrânia há eleições e de vez em quando muda o presidente e mudam as políticas. A Ucrânia já teve presidentes pró-russos, já teve presidentes mais céticos ou mais hostis em relação à Rússia. A seguir a Maidan, seguindo o processo constitucional que está previsto, foi eleito um presidente, o Poroshenko, que depois a seguir perdeu as eleições pra Zelensky. Portanto, realmente na Ucrânia, com muitos problemas, mas há realmente uma democracia, pelo menos nestes aspectos básicos, de vez em quando, o tentador poder mudar como resultado do voto popular.
E esse momento de eleições, logo que seja possível, seria também uma forma então de legitimar o regime face a essas vozes que surgem ligadas ao Kremlin.
Acho que isso não será propriamente a principal preocupação. Acho que é mais uma preocupação de legitimação perante os países ocidentais, nomeadamente os países europeus, também de tornar mais complicada esta campanha de propaganda russa. Como eu digo, é completamente hipócrita, não tem nenhuma credibilidade, mas nem por isso deixa de existir e eventualmente causar algum estrago, por exemplo, entre os apoiantes do Donald Trump. Temos, de facto, tido elementos da própria administração Trump a repetir esse tipo de argumentário do Kremlin em relação a este ponto, como em relação a outros, infelizmente, e portanto, tudo o que seja tornar isso mais complicado, também tentar mais uma vez legitimar-se perante a opinião pública norte-americana, que é quem ainda pode fazer aqui algum contrapeso a Donald Trump e à sua administração, que claramente tem uma grande simpatia por tudo o que são líderes autoritários e tem como prioridade declarada na sua nova estratégia nacional do final do ano passado, normalizar relações, melhorar relações, nomeadamente econômicas com a Rússia. Portanto, tudo o que seja, no fundo, também tentar contrariar um pouco isso ou tornar isso mais difícil de justificar perante a opinião pública americana, também é bom pra Ucrânia.
Zelensky diz também que prefere continuar a lutar, ou seja, prolongar o conflito, a aceitar um mau acordo de paz, mesmo que isso signifique, e estou a citar, "adiar uma vitória política de Donald Trump". As coisas postas nestes termos não correm o risco de enfurecer o presidente norte-americano, que já mostrou que não lida bem com esse tipo de declarações?
A minha leitura da entrevista é que Zelensky já percebe melhor, se calhar, ou percebe bem o que é realmente importante pra Trump e está a tentar jogar nesse plano. Ou seja, a minha interpretação da entrevista é que ele está a dizer que seria um erro político pra Donald Trump, teria custos políticos pra Donald Trump nos Estados Unidos, no fundo, forçar a Ucrânia a assinar um acordo a qualquer preço com a Rússia. E que é isso que ele, de alguma forma, está a querer evitar. Portanto, no fundo, ele está a tentar dizer que a razão pela qual não aceita o mau acordo também é pra defender a reputação de Donald Trump e aquilo que ele acena também é com esta ideia, um bom acordo e fazer pressão sobre a Rússia, que é algo que tem faltado sempre. Há sempre imensa pressão sobre a Ucrânia, não há suficiente pressão sobre a Rússia. Fazer real pressão sobre a Rússia pra ela aceitar um acordo mais aceitável Realmente seria também um grande trunfo político pra Donald Trump, inclusive nas eleições intercalares de novembro. Não sei se ele consegue vender isso a Donald Trump. Acho que, apesar de tudo, não é um completo disparate, porque todas as sondagens mostram que realmente a Rússia continua a ser muito impopular nos Estados Unidos, inclusive entre os republicanos. Este é um dos poucos temas em que de vez em quando alguns senadores ou congressistas republicanos vão resistindo a Donald Trump e vão contrariando a narrativa que vem da administração Trump e vão aconselhando realmente mão dura com a Rússia e mais apoio à Ucrânia. Portanto, acho que, como eu digo, isto não é um completo disparate. Não sei se convence Donald Trump, mas acho que é uma forma hábil de Zelensky tentar resistir à pressão de Donald Trump, no fundo, mas sempre argumentando que isto também serve os interesses de Trump, porque realmente já se percebeu que basicamente é isso que determina a política externa americana. Não estamos a falar aqui de nenhum cálculo estratégico muito sofisticado ou de um planejamento longo prazo sobre os interesses dos Estados Unidos, é evidente que tem um grande interesse em conter uma Rússia muito agressiva, que especialmente com Putin tem sido muito clara sempre a ter como prioridade reduzir a influência global dos Estados Unidos. Do ponto de vista dos interesses estratégicos a prazo dos Estados Unidos, apoiar a Ucrânia faz todo sentido, é uma forma barata de degradar o poder e até a imagem da Rússia, mas isso realmente não interessa pra Donald Trump. Pra Donald Trump, o que interessa são sempre ganhos de curto prazo pra ele, em termos econômicos e em termos políticos, e portanto a Rússia vai acenando com milhares de milhões de dólares de negócios. Enfim, a maior parte dos especialistas dizem sem nenhuma credibilidade, porque isso seria três ou quatro vezes mais do que alguma vez existiu de comércio de investimento entre a Rússia e os Estados Unidos. Também não se percebe muito bem depois qual seria a viabilidade disso, porque o grande mercado da Rússia continua fechado, que é o mercado europeu. Mas em todo caso, Zelensky está aqui a tentar contrariar, no fundo, esse Eldorado russo com estes argumentos de vantagem política pra Donald Trump em apoiar a Ucrânia.
O New York Times diz hoje que os Estados Unidos estão a fazer ou estarão a fazer pressão pra que a Ucrânia concorde com as concessões à Rússia. Isto numa altura em que o Kremlin anuncia uma nova ronda de negociações trilaterais a ter lugar já na próxima semana. Bruno, esse é um dos pontos que pode ser discutido, essa pressão pra que a Ucrânia se aproxime ou concorde com essas concessões à Rússia, ou essa pressão é feita à parte?
É uma pressão que é feita constantemente e por via de vários canais, mas parece-me que é credível que realmente isso esteja a verificar, precisamente tendo em conta estas declarações, por exemplo, de Zelensky, esta reação da Ucrânia. A Ucrânia está a tentar contrariar isso e também mostrando abertura em relação à questão das eleições. Como eu digo, a minha impressão é que Zelensky tentará associar isso a um cessar-fogo um pouco mais prolongado, deixando claro que não é por ele que não há eleições, é porque não há cessar-fogo. Mas realmente tudo isso me parecem ser estratégias da Ucrânia pra responder a essa pressão norte-americana. Aqui o que há que sublinhar é que a Rússia ainda não respondeu ao tal plano de 20 pontos. Portanto, implicitamente recusou, mas nem sequer foi obrigado pelos Estados Unidos a recusar isso taxativamente e aparentemente os Estados Unidos acham isso normal. E haver mais rondas negociais quando a Rússia ainda nem se pronunciou sobre esse plano. A Rússia vai tentando ganhar tempo, arrastando a questão, sempre na expectativa de que, em última análise, Trump irá pressionar mais a Ucrânia e não a Rússia, e se houver problemas, se as negociações falharem, irá culpar a Ucrânia, Zelensky e os aliados europeus, e não a Rússia.
Entretanto, arranca hoje a Conferência de Segurança de Munique. Portugal faz-se representar pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel. Já sabemos que Marco Rubio e Volodymyr Zelensky se podem encontrar, podem ter uma reunião. Eu pergunto-te, Bruno, o que é que podemos esperar desta conferência?
Será sobretudo uma tentativa de perceber em que estado estão as relações entre Estados Unidos e Europa. Foi assim que começou esta conferência em 1963, sobretudo visando reforçar os laços transatlânticos entre os aliados europeus e os Estados Unidos. Depois alargou-se muito, globalizou-se muito e continua a ter uma agenda mais global, segurança mais global, mas nunca perdeu esse enfoque também. E agora esse aspecto ganhou mais importância porque se tornou de repente muito mais incerto, vamos dizer assim. E essa é a nota, aliás, o mote, o ponto de partida. A Conferência de Munique tem associado também um instituto de investigação, produz sempre um relatório anual e o mote, o título do relatório deste ano é a desordem. A ideia da desordem global, do que eles chamam "wrecking ball politics", portanto, políticas de demolição, e com particular foco nas relações transatlânticas. Será certamente esse um dos grandes focos. Vamos ver o que é que sairá daqui. Se teremos mais um discurso norte-americano de hostilização aos aliados europeus. Foi o que aconteceu com J.D. Vance o ano passado, que aproveitou a Conferência de Segurança de Munique pra dizer aos europeus que não se preocupassem com a ameaça russa, porque ela não existia. O problema era a política interna dos países europeus e Vance fez uma espécie de apelo ao voto na Alternative for Deutschland, do partido de extrema-direita, que tem neonazistas, etc., na Alemanha, em plena campanha eleitoral alemã, numa cidade alemã, em Munique. Vamos ver se isso não acontecerá, e eu diria que é possível que não aconteça este ano. Marco Rubio tende a ser um pouco mais diplomático, já será uma melhoria, mas não quer dizer que as coisas voltem ao normal.
Está feito o Gabinete de Guerra hoje com a análise do historiador Bruno Caðós Reis. Bruno, muito obrigado.
Obrigado. Bom fim de semana.
Obrigado. O programa fica, como sempre, disponível em podcast.