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E começa agora o Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise é de Orlando Sá Moraes, especialista em Relações Internacionais. Olá, Orlando, bom dia, bem-vindo.

Muito bom dia. Obrigado pelo convite.

Obrigada nós por ter aceitado. Depois de se reunir com Zelensky em Roma, à margem do funeral do Papa, Trump endureceu o discurso com a Rússia e acusou Putin de o estar a enrolar e de não querer parar a guerra. Orlando finalmente viu o que todos temos visto, mas o que isso muda e no que isso pode beneficiar a Ucrânia?

Temos Trump a dizer que foi um encontro simpático, bonito, ele é raro utilizar este tipo de adjetivos.

É verdade.

E também de começar um período de maior reflexão. Quando diz: "Estará Putin a enrolar-me?", portanto, "tapping me along", estará a empatar a situação, pelo menos coloca essa pergunta. E volta a ter uma ênfase do mesmo gênero quando diz: "Talvez Putin não queira parar a guerra". Ao utilizar essas palavras como talvez, nota-se que ainda está a pensar e agora utiliza as redes sociais para esta ponderação que se calhar poderia ser feita junto dos seus conselheiros e assessores para depois concluir sim ou não. E já agora, também o que acontece num caso ou noutro, porque talvez Putin não queira parar a guerra e aquilo que nós precisamos de saber é o que a administração americana poderá estar disposta a fazer, se isso for o caso. Aliás, enquanto mediadores, poderiam ser um pouco mais explícitos quanto a penalizações de infração, quer de possível cessar-fogo, quer aquilo que estão dispostos ou não a fazer, que opções têm. Ele também utiliza expressões como penso. "Penso que a Ucrânia está disposta a ceder a Crimeia". Na realidade, parece não saber. E temos do mesmo lado, parece-me ainda nesta reflexão, Marco Rubio, que ontem deu uma entrevista bastante grande e também continua muito neste estilo do estamos quase, estamos próximos, mas ainda não estamos lá. É um quase, mas que ainda falta aquilo que é mais importante. Se fosse fácil, já teríamos conseguido. Tem que ser de ambos os lados, falar com ambos os lados. Tem que haver cedências, mas na realidade não percebemos que cedência tem que ser feita do lado da Rússia. Parece que continuo... Diga.

Não, ia dizer que ao mesmo tempo que Putin admite negociar sem pré-condições, como falou agora no Marco Rubio, o secretário de Estado dos Estados Unidos disse ontem que esta semana vai ser decisiva para a Casa Branca decidir se vai ou não continuar envolvida nos esforços para um cessar-fogo. Mas Orlando, os próximos dias podem ser decisivos, mas como sempre, a bola está do lado da Federação Russa.

Pois, porque do lado da Ucrânia temos já uma aceitação muito grande e genérica de tudo aquilo que foi proposto. E até em relação aos pontos que foram propostos, aqueles que foram públicos, está claro que a Ucrânia não pode ceder território, pelo menos esta Ucrânia, esta administração, nem a nível constitucional, isso já foi explicado, teria que ser para uma espécie de referendo e não estamos em altura de referendo, porque pelo menos até agosto estaremos em lei marcial, nem seria possível fazer umas eleições justas, nomeadamente com um tema deste gênero. Portanto, nem governo, nem assembleia, e quando o resto daquilo que foi proposto é um reconhecimento formal da Crimeia como Rússia, será muito difícil que seja por esta administração e por este governo. Nós temos desde o início Zelensky com a atitude de estamos aqui, para o que der e vier. Não vai ser ele a admitir uma Ucrânia estilhaçada, mesmo que as regiões a leste sejam apenas ocupadas de uma maneira de fato e não tanto formal, mas também não sabemos se Putin está mesmo a desistir desse reconhecimento formal. Não sabemos se Putin está mesmo a desistir da ideia de desmilitarizar a Ucrânia e, portanto, não sabemos até que ponto é que não estaremos a ter apenas acordo quanto a negociações diretas entre Rússia e Ucrânia, e penso que isso pode já estar mais perto. Agora, de resto, note-se até o acordo de minerais, que também faz parte de tudo isso. Era para ser assinado na quinta-feira, creio que toda gente se esqueceu. Parece-me que Zelensky está a tentar atrasar ao máximo todo o processo, porque não está disposto a ter que entrar muito em assinatura. O Trump, por outro lado, insiste na assinatura. Mesmo numa dessas declarações, diz que o Putin também tem que assinar o acordo. O Trump nisso está a ser muito americano. A América começou com um covenant escrito no Mayflower entre os peregrinos que chegaram ao outro lado, vindos da Irlanda. Esta fixação pelo acordo é muito grande. As pessoas podem assinar um acordo como o Irã, como o Putin e mesmo como o Zelensky, e depois tentar voltar atrás. Porque mesmo numa altura pior, se admitem certas coisas, isso não quer dizer nada. Ou melhor, pode não querer dizer nada, principalmente quando a cultura pode não ser, no caso do Putin, assim tão ocidental, de achar que as regras, que o direito e que os contratos têm todo o valor. Mas vemos Trump, pelo menos, a admitir que Zelensky está a trabalhar duro, também foi uma das expressões utilizadas por ele, enquanto que toda esta atrapalhação dos Estados Unidos talvez possa estar contida nesta frase de Marco Rubio: há múltiplas opções. Eles parece que ainda estão na variedade da multiplicidade das opções e a pôr todas essas opções em cima da mesa, porque também não conseguem firmar muito mais do que isso, para já. Acreditemos, estamos numa semana crucial, mas vamos lá ver até que ponto é que não é possível atrasá-la um pouco mais ou não.

Giorgia Meloni, que como sabemos, é ideologicamente próxima de Donald Trump, parece estar a tentar aproximar-se do presidente norte-americano da União Europeia. Orlando, Von der Leyen, por exemplo, vê com bons olhos os esforços da primeira-ministra italiana, mas há Estados-membros que se sentem incomodados com este estreitar de relações. Há razões para isso?

Eu creio que, ainda mais em períodos de guerra, manter todos os pontos de contato entre todos os países é importante. Às vezes é dito que a União Europeia não fala com uma só voz, aquela eterna pergunta: se eu quiser falar com a União Europeia ou até se eu quiser falar com a Europa, para que telefone é que ligo? Enquanto que a Rússia ou os Estados Unidos seriam mais centralizados. Também não é verdade que muitas vezes falem com uma só voz. Aliás, na administração Trump temos tido várias vozes e até tonalidades diferentes, mesmo na administração Putin. Mas pode ser uma vantagem da Europa ter a von der Leyen, que também aproveitou para cumprimentar o Trump. Isso foi importante, foi a primeira vez que o faz desde este segundo mandato. Temos António Costa e até temos, de certa forma, como representação daquilo que seria o povo da União Europeia, o próprio Parlamento e, portanto, a Metsola. O fato de termos várias vozes, eu não creio que haja problema algum, porque as pessoas estão a articular, já conhecem as posições umas das outras. Aparecer uma pessoa de um país, desde que esteja disposta a isso e que consiga, eu creio que a prima ministra italiana sente que consegue ter esse papel e então aproveita um pouco dessa posição e está, de fato, ideologicamente mais próxima, mas através de um grupo que não é tão extremo como outros grupos, como os patriotas, que têm tido, por vezes, posições um bocadinho mais dentro de todas as suas diferenças, porque estas direitas mais radicais têm, no ano sempre, muitas diferenças entre si, que normalmente não compartilham de uma mesma forma de estar. A dela, ainda assim posicionada um pouco à direita do PPE, consegue articular algumas posições também mais ao centro. E isso é bom para manter o diálogo e por isso é que von der Leyen não está contra esta possibilidade de uma pessoa, apesar de ser chefe de Estado de um país, possa servir de alguma ponte. Nós temos que construir pontes e também aproveitar quando as relações são boas. Não podemos estar só a notar que já há tantas razões para arelijas e para más relações neste momento de guerra e de tensões, que ainda bem que há interlocutores que ainda se dão bem. E de fato, a Meloni pode ter aqui um papel importante a intermediar, que a própria União Europeia venha a aproveitar e a conseguir obter algum benefício com base nisso.

Com esta relação. Orlando Sá Mendes, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Uma boa semana para si.

Muito obrigado eu.

Muito obrigada, um bom dia. Obrigada, Orlando.