Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Está no ar mais um Gabinete de Guerra da tarde em direto. Vamos nos próximos minutos analisar alguns dos factos mais relevantes relacionados com a guerra na Ucrânia. Para nos ajudar nessa análise, temos conosco, como de costume, o historiador Bruno Cardoso Reis, junta-se à Judite França e ao Bruno Vieira Amaral. A moderação deste gabinete é feita pelo jornalista Miguel Videira.

E vamos começar por fazer um balanço dos primeiros nove meses de guerra. Guerra que começou a 24 de fevereiro deste ano. Bruno, boa tarde, bem-vindo. Em que ponto da guerra é que estamos?

Olá, boa tarde. Eu acho que uma primeira conclusão é que realmente Putin foi derrotado nos seus principais objetivos. Agora, o problema é que ele não pode reconhecer essa derrota. E portanto, não temos razões para ser muito otimistas quanto a uma negociação rápida, a um compromisso rápido. Eu temo que, pelo menos até o próximo verão, de facto, os dois lados não desistam de alcançar os seus objetivos por via militar. Já podemos ter aqui algumas conclusões em relação a uma série de questões que se colocaram logo no início. A primeira questão era saber, inclusive, se a própria resistência ucraniana era viável, se havia vontade e capacidade de resistência da Ucrânia, tendo em conta a enorme assimetria de mais. Nós sabemos que a Rússia, quando começou a guerra, tinha uma série de capacidades essenciais, 10 vezes mais carros de combate, aviões de combate, etc, do que a Ucrânia. Portanto, era uma questão que fazia sentido colocar-se, até porque a Ucrânia também tinha sido um pouquinho complacente, pelo menos em relação à ideia de uma invasão em grande escala. O próprio Zelensky, dias antes, tinha criticado os Estados Unidos por insistirem muito nesse ponto e de facto não havia trabalhos defensivos, por exemplo, em torno de Kiev, etc. Essa resposta ficou clara logo nos primeiros dias da guerra e resultou numa adaptação muito inteligente da Ucrânia a essa assimetria de mais, utilizando táticas irregulares, utilizando uma série de niveladores de poder, como aqueles mísseis pessoais anticarro ou antiaéreos, emboscadas, combates urbanos. A segunda grande questão era saber se a Ucrânia conseguia passar dessa guerra defensiva, dessa resistência, por exemplo, em espaços urbanos, para ofensivas, contraofensivas, ofensivas mais ambiciosas em campo aberto. E isso também foi respondido de forma positiva, nomeadamente com as vitórias na Batalha de Kharkiv e agora nesta de Kherson. De facto, a questão não está resolvida. Temos novas questões. Por exemplo, será que a Rússia consegue alterar a sua postura? Será que com este novo comandante consegue ganhar iniciativa não só na guerra aérea, mas também na guerra terrestre? Será que consegue ser boa nesta guerra mais defensiva de trincheiras que parece estar a desenhar-se, pelo menos na zona do sul? Ou será que já está esgotada em termos de capacidades e de tropas de qualidade, pelo menos com toda esta carnificina? Estamos a falar de dezenas de milhares de mortos dos dois lados, de baixas dos dois lados. Depois, temos a questão de saber se, em termos do conjunto do conflito, continuaremos com uma guerra limitada ou se iremos para uma guerra alargada e se haverá aqui inclusive uma escalada para outros mais. Falou-se muito do nuclear tático, mas há também a questão, por exemplo, do armamento químico, que a Rússia também tem. A crise da semana passada na Polônia recordou-nos que estamos aqui sempre dependentes de um acidente ou de um incidente que pode levar a um alargamento da guerra. Apesar de tudo, eu diria que os sinais até agora, inclusive dessa crise por causa do míssil na Polônia, são de que, sobretudo do lado ocidental, sobretudo do lado dos Estados Unidos e dos países europeus, não há vontade de alargar o conflito, de entrar indiretamente no conflito. Há vontade, pelo menos para já, de continuarem a apoiar a Ucrânia militarmente, financeiramente, economicamente, mas não de um envolvimento direto. E mesmo da parte da Rússia, também não parece haver um interesse em que isso aconteça. No fundo, eu tenho sempre dito desde o início, neste ponto, acho que é importante, os conflitos realmente são dinâmicos, têm sempre uma grande dose de imprevisibilidade, não são necessariamente lineares. Portanto, a Ucrânia tem nos dado aqui muitos dados para termos alguma confiança na sua capacidade militar de continuar a alcançar vitórias neste conflito, mas temos que ter aí alguma prudência, porque realmente isso pode mudar.

Bruno, agora noutro tópico, quatro eurodeputadas do PS abstiveram-se na resolução do Parlamento Europeu, que declarou a Rússia como um Estado patrocinador do terrorismo. Consideras que colhe a justificação destas eurodeputadas de que o documento perturba o caminho para a paz?

Eu acho que é uma questão que é legítimo colocar-se. Eu penso que ontem ou anteontem tinha levantado a questão que do ponto de vista do rigor acadêmico, não me parece que seja rigoroso utilizar esses termos. Não há dúvida que a Rússia está a desenvolver aqui uma campanha de terror aéreo, mas este termo costuma utilizar-se para Estados que apoiam grupos terroristas. Estados como o Irã, por exemplo, como vários Estados no passado fizeram utilizando isto como uma forma indireta de pressão sobre os seus inimigos. E no caso dos Estados Unidos, esta lista, que é votada pelo Congresso, tem implicações muito sérias em termos de relações econômicas, de relações diplomáticas, inclusive com esses Estados. No caso do Parlamento Europeu e da União Europeia, não existe esse regime legal. Aliás, esta resolução apela a que isso seja desenvolvido, mas portanto, estamos sobretudo a falar aqui de uma mensagem política, de uma rejeição muito forte, sobretudo desta última fase da guerra, com ataques aéreos sistemáticos Contra centros populacionais, etc. Eu acho que isso, em si mesmo, não vai afetar as negociações de paz. Eu percebo que a questão se coloca, acho que é legítimo colocar-se. Se houvesse esse regime legal que limitasse quase que automaticamente os contactos diplomáticos, etc, acho que sim. Percebo que é talvez até um pouco esse o espírito aqui da resolução e desse ponto de vista pode-se criticar isso. Agora, eu também acho que não há grandes condições para negociações neste momento. Não creio que a Rússia se deixe propriamente condicionar muito, num sentido ou no outro, por haver esta resolução ou não. Eventualmente até se pode argumentar no sentido oposto, que é haver este tipo de resoluções até pode dar aqui um instrumento de pressão e de negociação adicional sobre a Rússia. Para mim parece-me evidente isso, e isso é também uma questão suscetível de debate e discussão. A mim parece-me evidente que de facto a Rússia só aceitará negociar com o mínimo de condições de boa fé, mesmo essas são sempre bastante duvidosas, tendo em conta todo o comportamento passado da Rússia com o Putin no poder, mas só aceitará isso se for forçada a isso, se for por via de uma resistência ucraniana de tal forma bem-sucedida que possa obrigar o Kremlin, de facto, a repensar aqui a sua postura e a tentar uma negociação.

Bruno, os Estados Unidos mostraram alguma preocupação face à possibilidade de a Rússia usar armas químicas na Ucrânia. Pode ser uma hipótese caso Moscovo continue a perder terreno ou parece-te implausível?

Eu penso que é plausível, ou seja, eu acho que de facto saltou-se muito para a discussão do nuclear. O que eu percebo, e tem a ver muito com a própria retórica russa, que no fundo colocou muitas vezes essa questão em cima da mesa, um pouco como uma forma de criar aqui pressão, na minha interpretação, pressão psicológica, quer sobre a Ucrânia, quer até sobretudo sobre os aliados e a opinião pública ocidental. Mas a verdade é que sempre pareceu mais realista outras formas de escalada. Aliás, nós já assistimos a duas delas, que eu também fui apontando, que é por um lado ataques aéreos, portanto no fundo o tipo de estratégia de ataques indiscriminados de terror sobre a população civil que a Rússia utilizou na Chechénia, que utilizou na Síria. A questão da própria mobilização parcial também é uma forma de escalada, de intensificação do conflito. E depois há, de facto, a questão das armas químicas, cujo uso a Rússia apoiou, nomeadamente na questão da Síria, e que obviamente são um meio que apesar de tudo coloca riscos menores, vamos dizer assim, sendo obviamente uma arma completamente ilegal na lei internacional e completamente a rejeitar, obviamente. Terrível pelos seus efeitos, nomeadamente na população civil, mas que se inscreve nesta campanha de terror e que apesar de tudo não tem alguns dos riscos que a utilização de armamento nuclear coloca. Portanto, eu acho que é realmente uma ameaça credível, séria. Não estou a dizer que é inevitável ou que vá necessariamente acontecer, mas eu acho que é algo que realmente se tem de pensar as implicações disso e tem de ser com uma possibilidade realista.

Bruno, a presidente da Comissão Europeia volta a falar em mais um pacote de sanções à Rússia. Será o nono. A von der Leyen disse hoje que está a ser preparado esse pacote a todo o vapor. Estamos a falar de que tipo de sanções? Até onde poderá ir agora a União Europeia?

Esta resolução do Parlamento Europeu também apela, de facto, a uma nova leva de sanções. Eu acho que aqui estamos realmente num contexto em que há muita frustração dos países europeus e mesmo das opiniões públicas europeias. Mais uma vez, eu acho que há talvez aí algum erro de cálculo da Rússia, embora até as coisas acontecerem nunca sabemos bem, que no fundo achava que com o inverno as opiniões públicas e com esta pressão também económica iriam começar a pressionar para o afastamento da Ucrânia. Acho que esta campanha de terror aéreo, de ataques sistemáticos a grandes cidades pelos mísseis russos criou aqui uma vaga nova de indignação e portanto há aqui alguma vontade de fazer mais coisas. Eu acho que é difícil, realmente já se fez muito, há limites àquilo que se consegue fazer com sanções económicas. Aquilo que a presidente da Comissão, em todo o caso, sinalizou foi que haveria aqui um reforço das sanções no campo financeiro. E aí parece haver alguma margem, de facto, para alargar e intensificar as coisas. Ainda há alguns bancos russos que estão mais ou menos isentos de algumas dessas sanções. Portanto, acho que de facto é uma área em que se conseguir ir mais longe, é possível que tenha aqui algum efeito. E de facto têm sido as sanções que parecem mais eficazes nesta guerra económica contra a Rússia, são precisamente estas sanções financeiras, estas sanções contra várias entidades bancárias russas.

Sendo que o petróleo será mais difícil.

Sim, aí a Ursula von der Leyen também veio falar dessa questão, ou seja, do preço, de se fixar um preço para o petróleo, um preço máximo. Realmente tem sido uma questão muito discutida. Parecia uma ideia interessante, agora claramente tem havido grande resistência a isso. Por um lado, de outros países produtores de petróleo, que veem nisso um precedente perigoso. Portanto, aquelas manobras recentes da OPEP+, nomeadamente liderados pela Arábia Saudita, claramente iam no sentido de mostrar hostilidade em relação a qualquer ideia de que os consumidores possam limitar o preço do petróleo. E por outro lado, de facto, também parece haver algumas dificuldades de operacionalização técnica disso, utilizando aqui meios indiretos, seguros, a questão do preço também dos fretes marítimos, que são áreas onde de facto os países europeus têm um grande peso no mercado mundial. Portanto, vamos ver se de facto se concretiza isso. A presidente da Comissão disse que estava iminente a concretização dessa sanção adicional, dessa limitação de preço. E realmente essa também seria bastante importante em termos de limitar a capacidade de financiamento da máquina de guerra russa.

A ver vamos se esse é o caminho trilhado pelos 27 Estados membros da União Europeia. Agradeço-te, Bruno Cardoso Reis esteve conosco em mais um Gabinete de Guerra.