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O secretário-geral da ONU está hoje no Conselho Europeu em Bruxelas e Moscovo acena com ameaças. No terreno importa fazer um ponto de situação na cidade de Bakhmut. Vamos contar no gabinete de guerra de hoje com a ajuda do major-general Isidro Morais Pereira, que se junta aqui ao Bruno Vieira Amaral, à Judite França e à Vanessa Cruz.
Comecemos mesmo por esse ponto de situação sobre Bakhmut. Major-general Isidro Morais Pereira, boa tarde. A pressão para tomar esta zona continua, mas a Rússia vai perdendo mão de obra e equipamentos. O comandante das Forças Armadas Terrestres da Ucrânia diz que muito em breve vai aproveitar essa oportunidade, como aconteceu de resto em Kiev, Kharkiv e também noutras zonas que a Ucrânia conseguiu reconquistar. Poderá ter sucesso com essa estratégia em Bakhmut?
Eu penso que sim. Um dos aspectos mais importantes numa operação militar desta natureza, uma operação de grande envergadura como aquela a que estamos a assistir, é aproveitar naturalmente os pontos fracos das forças opositoras, neste caso das forças russas por parte das forças ucranianas, na tentativa de ganhar a iniciativa no campo de batalha. As informações de hoje e as mais recentes até dão conta que eventualmente o financiador da empresa, o dono da empresa militar privada Wagner, já se refere com muita frequência que poderá inclusivamente retirar-se da Ucrânia e concentrar o esforço em África. E como nós sabemos, ele tem várias operações a decorrer em África. Parece-me que há, na realidade, uma perda de ritmo em termos das ofensivas russas na área de Bakhmut e essa perda de ritmo poderá ser aproveitada pela Ucrânia, que neste momento começa a ter condições para reforçar as forças que combatem exatamente em Bakhmut e poder retomá-la eventualmente. Estamos a assistir também, por outro lado, pelo menos é a análise que tem sido feita, que eventualmente algumas forças de reserva russas poderão estar a deslocar-se mais para sul, para a área de Avdiivka, por forma a criar condições para retomar as ofensivas em Vuhledar. Como nós sabemos, as forças russas, fundamentalmente vindas do oriente, do distrito militar oriental, forças de fuzileiros da zona de Vladivostok, sofreram pesadíssimas baixas e sabemos que aqui há cerca de um mês aquilo foi uma brigada, forças da ordem de uma brigada foram completamente destruídas em Vuhledar. E na zona de Vuhledar as operações têm estado praticamente interrompidas. Não tem havido ofensivas, mantém-se a linha defensiva ucraniana e praticamente não tem havido tentativas de continuar a ofensiva por parte das Forças Russas. Aquilo que está a acontecer poderá ser a ação conjugada destes dois fatores. Como nós sabemos, as forças de Prigozhin, pelo menos segundo ele tem referido, quer pessoalmente, quer através daquele conjunto imenso de bloggers militares que ele controla, aquilo que tem sido dito, a informação que tem sido passada é que ele não tem sido suficientemente apoiado pelo Ministério da Defesa Russo no que toca fundamentalmente à entrega de munições e outro material militar. E inclusivamente, outra questão que também é pertinente referir, é que o grupo militar, a empresa militar Wagner foi proibida de recrutar militares, de recrutar cidadãos russos nas suas prisões. Prigozhin abriu alguns gabinetes até em clubes desportivos e noutras instituições na Rússia, na tentativa de recompletar o número de voluntários, porque ele tem sofrido perdas imensas. Aquilo que sabemos é que Prigozhin chegou a ter ao seu serviço quase 50 mil combatentes, pelo menos 45 mil. É um número que muito correntemente se consegue obter em várias fontes de informação, mas crê-se que poderá ter chegado até aos 50 mil e que neste momento dificilmente Prigozhin terá mais que 12 mil combatentes às suas ordens. E os 12 mil que permanecem com ele são os seus melhores combatentes e os seus melhores mercenários, que ao que parece, Prigozhin não está na disposição de perder estes seus combatentes e utilizá-los naturalmente noutras regiões do mundo, por forma a continuar a ter sucesso com a sua companhia militar privada. Porque nós sabemos que os interesses de Prigozhin em África são sobretudo económicos, pelo controle das minas de ouro e pelas minas de diamantes, e por aí fora. Até há dois dias foi relatado um incidente com a China, que terão até sido assassinados cerca de 12 cidadãos chineses que também estariam a operar noutros países. República Centro-Africana, talvez, se a memória não me falha, e que terá causado até algum mal-estar
Major-General Isidro Morais Pereira, deixe-me agora perguntar-lhe se considera que Moscovo, que fez um aviso que as relações com o Ocidente estão neste momento piores do que nunca. Tivemos o antigo presidente Dmitry Medvedev a dizer que se algum país estrangeiro detiver Vladimir Putin, isso seria uma declaração de guerra. Estamos a falar disto a propósito do mandado de captura internacional. Pergunto-lhe se a estratégia russa resume-se apenas e só à intimidação ou pode haver mais algo planeado?
Eu penso que não há mais nada planeado, até porque sobre Vladimir Putin e sobre a Comissária para os Direitos das Crianças da Federação Russa, impendem dois mandados de captura emitidos pelo Tribunal Penal Internacional com sede em Haia. E os subscritores desse tribunal, com exceção da Hungria, cujo presidente Viktor Orbán declarou que mesmo que Prigozhin se desloque à Hungria, ele não será detido. Muito embora a Hungria seja um dos subscritores do Tratado de Roma, que cria o Tribunal Penal Internacional, como nós sabemos. Com exceção da Hungria, todos os outros países, até agora, ou não se têm pronunciado, e se não se pronunciaram é porque deram cumprimento àquilo com que se comprometeram. E há países que se pronunciaram, como a Alemanha, como o nosso próprio país, através do nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros. E o procedimento normal é, se estes dois cidadãos russos se deslocarem a um qualquer desses 134 países, com exceção da Hungria, é que sejam detidos pelas forças de segurança, como é óbvio, e presentes ao Tribunal Penal Internacional em Haia. Ora bem, isto de facto não passa de narrativa porque nem Vladimir Putin, face a este mandado que impende sobre ele, nem a senhora comissária se deslocarão a qualquer um destes países, porque de facto, esta é apenas uma possibilidade. E Medvedev usa esta narrativa e este tipo de declarações para intimidar, mais uma vez, o mundo ocidental.
Major-General, no caso da Hungria, o porta-voz de Viktor Orbán já veio dizer que o país não irá deter Putin se ele entrar no país.
Pois, isso eu disse, eu referi isso exatamente. Essa é a exceção. É o único país que até agora referiu que não daria cumprimento àquilo com que se comprometeu, que ao ser um dos signatários do Tratado de Roma e da criação do Tribunal Penal Internacional, tem que dar cumprimento aos respetivos mandados.
Mas isso revela também alguma insegurança, alguma fragilidade na posição ocidental, não havendo consenso.
Outra questão que vale a pena também aqui referir é que segundo notícias de hoje, nós sabemos que quer a Turquia, mas a Turquia não faz parte da União Europeia, quer a Hungria, são os únicos dois países a quem falta ratificar nos seus próprios parlamentos a entrada da Suécia e da Finlândia na NATO. Nós sabemos que a Turquia e a Hungria, a Hungria julgo que a 27, que são as afirmações que eu consegui ainda há minutos ler, que o Parlamento da Hungria irá ratificar a entrada da Finlândia na NATO e a Turquia ainda antes. Julgo que no início da próxima semana também fá-lo-á. Isto reflete uma posição húngara um bocado dúbia já há uns tempos a esta parte. Nós sabemos inclusivamente que os fundos estruturais da União Europeia, que estiveram durante algum tempo congelados face a determinadas tomadas de posição da Hungria, ao arrepio daquilo que é o mainstream da própria União Europeia, daquilo que têm sido as decisões tomadas na União Europeia. Portanto, a Hungria, fundamentalmente influenciada por Viktor Orbán, que tem alguma simpatia, tanto quanto nós sabemos, pela causa de Vladimir Putin, tem sido uma pedra no sapato. Aquilo que eu lhes posso dizer é que a Hungria continua a ser uma pedra no sapato e aquilo que eu prevejo, porque ao dizer que não dá cumprimento a um mandado do Tribunal Penal Internacional, a Hungria, perante este tipo de afirmações, a única solução que eu vejo para limpar a face é retirar-se deste acordo, como fizeram outros países, como o Canadá e como os Estados Unidos, que não é subscritor, a própria Rússia, a própria China, a África do Sul. Há um conjunto de países no mundo que não são subscritores do Tratado de Roma nem do Tribunal Penal Internacional. A Hungria é, mas com este tipo de atitudes, não há outra solução, é de facto retirar-se deste quadro, porque há aqui uma questão diplomática, há aqui uma questão que para a Europa é uma pedra no sapato e mais tarde ou mais cedo, a União Europeia vai ter que tomar medidas sérias relativamente à Hungria. E quando eu digo a União Europeia, digo também a NATO, porque a Hungria pertence a estes dois fora. E este tipo de atitudes são atitudes ao arrepio daquilo que a maioria, praticamente todos os outros países, têm decidido. Portanto, nós sabemos que por um lado é uma fragilidade, por outro lado não, mas depende da perspetiva de análise. Mas nós sabemos que, quer na União Europeia, quer na NATO, as decisões são maioritariamente, na NATO são sempre habitualmente tomadas por consenso, portanto, têm todos que estar de acordo. E na União Europeia, muitas das decisões também são tomadas por consenso. Portanto, são aspetos que, no que toca a estas duas organizações internacionais e respetivos processos de decisão, tornam-nas mais lentas e já há muito tempo que estas questões vêm sendo discutidas e já não foram modificadas porque é uma forma de os países mais pequenos também se defenderem da hegemonia dos países maiores. Mas de qualquer maneira, eu aquilo que eu prevejo é que uma das ilações que temos que tirar deste conflito é que temos que modificar os processos de decisão, designadamente nestas duas organizações, por forma a torná-las mais ágeis. Este é um dos ensinamentos que julgo que fica para o futuro.
E ficamos com esse ensinamento e com essa sua análise. Obrigada, Major-General Isidro Morais Pereira. Amanhã voltamos a abrir novos gabinetes de guerra.