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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Começamos pela visita de Putin aos Emirados Árabes Unidos e à Arábia Saudita. José Filipe Pinto, o que é que podemos esperar destas visitas?
Duas coisas, Maria João. Primeiro, vamos ao aspecto económico. A Rússia precisa, no seu orçamento, do peso das exportações do petróleo e por isso mesmo vai convencer os líderes destes dois países a que aumentem o preço do barril de petróleo, porque isso é necessário para manter o esforço de guerra previsto no orçamento russo. Só que também vamos ver a outra parte. Putin vai procurar aparecer como alguém muito próximo da causa palestiniana e da ideia de que a solução dos dois Estados é a que tem de ser implementada para haver um fim digno para o conflito. Isso é uma falácia. Por que é uma falácia? Repare, junto com esta viagem de Putin ao Médio Oriente, nós assistimos a uma viagem, mas agora do presidente do Irão à Rússia, a Moscovo. O presidente do Irão ao ir a Moscovo, temos de perceber que o Irão é simultaneamente o financiador dos drones que fornece à Rússia na guerra contra a Ucrânia e é o grande financiador de todos os grupos terroristas que atuam na Palestina e nos países limítrofes. Portanto, o que é que acontece? O que aqui está é um exemplo da Realpolitik. E a Realpolitik mostra o quê? Que os países têm interesses. Repare, se a situação na Ucrânia estivesse muito perigosa para o lado russo, Putin não abandonaria Moscovo. Ficaria no seu país, na sua capital, para tentar dirigir o esforço de guerra. Não, ele já pode sair do país. Por quê? Porque tem de pressionar os outros produtores de petróleo para que o produto aumente, para que o preço suba, porque caso contrário, o seu esforço de guerra e a mobilização quase geral a que ele vai recorrer estaria em risco. Putin não pode correr esse risco e por isso mesmo, o que aqui estamos é a mexer as peças no tabuleiro do xadrez da arena internacional. E em termos reais, Putin está a procurar obter o quê? Está a procurar obter uma vantagem económica, mas simultaneamente uma vantagem política. E aquilo que nós falamos desde o início, dar a ideia de que afinal Putin não está isolado, a Rússia não é um pária.
E ao contrário, na política interna da Ucrânia, o mayor de Kiev diz que Zelensky está a perder popularidade por causa dos erros que tem cometido. Ora, que erros serão esses?
São vários, Júlio. Mas repare uma coisa, Zelensky era esperado ter falado ontem aos senadores dos Estados Unidos via Zoom. E nós percebemos que Zelensky não falou e não há qualquer justificação para o cancelamento dessa intervenção. Embora ele hoje participe no início da teleconferência dos líderes do G7. Quais são os principais erros de Zelensky? Zelensky não percebeu que ele não controlava a agenda mundial. Zelensky percebeu que a resposta dos Estados Unidos, a resposta do mundo ocidental, aquele mundo que nas relações internacionais há três eixos. Há o eixo economicista, o eixo ecuménico e o eixo normativo. E a resposta dos países que dominam o eixo normativo, que somos nós, é que o Ocidente é a ala liberal e liderada pelos Estados Unidos, foi no sentido de um apoio incondicional à Ucrânia. E a partir daí, Zelensky foi recebido em todos os parlamentos. Zelensky foi recebido como um herói da resistência. E colocou sempre a questão numa luta entre a democracia e a ditadura, o que é uma falácia, porque a Ucrânia nunca foi uma democracia desde a independência. Mas o problema que está era uma luta das ordens e os Estados Unidos perceberam isto, que a ordem liberal tinha de resistir ao avanço da ordem eurasiana de Putin. E o que é que Zelensky fez? Pensou que era capaz de condicionar, através do esforço enorme do povo ucraniano, a agenda internacional. Esquecido que os Estados Unidos estavam a gerir a sua própria agenda. E essa sua própria agenda é a definição até onde a ordem eurasiana se pode espalhar. É isso que eu falo, Júlio, do mundo de múltiplas ordens no meu mais recente livro. E é por isso que eu sou tão lido nos Estados Unidos. A razão tem a ver com isto. Tem a ver com a situação de percebermos que Zelensky pensou que era o protagonista. Zelensky era o protagonista a nível interno. Nunca foi o protagonista na arena internacional. A arena internacional é entregue aos líderes das ordens, Putin, Biden e Xi Jinping. E estamos neste momento, por causa do conflito no Médio Oriente, a perceber que a Turquia está a querer posicionar como a líder da ordem islâmica. E por isso mesmo, estamos aqui numa situação tremendamente complicada. O que isto quer dizer? Zelensky começa a ser visto mais como parte do problema do que da solução. E por quê? Porque não vale a pena insistir sempre no apoio, em nome daquela que tem sido a enorme capacidade De resistência e de resiliência do povo ucraniano, porque, de fato, o que a ordem liberal já está a dizer é que é tempo de avançar para negociações, e negociações que implicarão perdas, concessões territoriais. E Zelensky, o discurso dele continua a ser aquele que era o seu plano de paz, é um ultimato. E o que acontece? É que um ultimato a Rússia nunca irá aceitar. E por isso mesmo, o que o Ocidente está a mostrar a Zelensky é que a única alternativa passa por salvar o que é possível. Grave é o que o Orbán, e eu senti e captei na Hungria, que é uma ideia de que a Hungria poderia pôr em causa, já no próximo Conselho Europeu, o início do processo de negociação de adesão da Ucrânia à União Europeia. Por quê? Porque o que o Ocidente está a procurar mostrar a Zelensky é que Zelensky pode beneficiar de uma paz, que é a paz possível, será como que um armistício, mas a entrada no mundo ocidental. E o que eu percebi durante a semana inteira que estive na Hungria, é que há muito pouca disposição da parte do Fidesz, do Orbán e de grande parte da população para que tal se materialize. E aí podemos vir a ter um outro problema. Erro é confundir o ser alguém que é apoiado com alguém que é protagonista, alguém que dirige a agenda mundial. Zelensky não dirige, nunca dirigiu a agenda mundial.
E por falar em apoio, as eleições americanas podem ser uma das principais razões para acabar com o apoio à Ucrânia. Até Joe Biden sabe que pode perder o apoio interno que tem actualmente se continuar a gastar dinheiro com o conflito.
Exatamente, e esse é o problema, Maria João, que se coloca quando nós percebemos que Donald Trump, no seu estilo populista, Donald Trump é um plutopopulista. Ele, que pertencia à elite econômica, disse que era preciso varrer a elite política, simbolizada em Hillary Clinton. Esse tipo de discurso valeu-lhe a eleição, apesar dos processos em que está envolvido e em que já se percebeu claramente que será culpado, pelo menos em dois deles é nítida a sua culpa. Portanto, o que acontece é que a imagem de Trump que está a subir é à custa de Biden, cuja popularidade está a descer, mesmo entre o seu próprio partido, mesmo dentro do seu próprio partido, mesmo entre os democratas, principalmente a população mais jovem, como eu já disse. O que isso quer dizer? Biden ontem mostrou o seu repúdio pela violência sexual perpetrada por Hamas. Isto vai colher junto à opinião norte-americana. Eu quero dizer que os anos que levo a estudar o terrorismo, que recorre a motivações religiosas, ensinaram-me que essa é uma realidade e se me perguntar se eu, mesmo sem provas, aceito que possa ter havido crimes de caráter sexual e que possam ainda algumas das reféns femininas estar a ser vítimas disso, acredito, porque em um dos livros que escrevi sobre isso, eu vi uma fatwa do Daesh que atribuía a condição de muçulmana à mulher capturada, às mulheres yaizidis, desde que fossem violadas, e repito, violadas por uma dezena de guerreiros muçulmanos. Portanto, eu escrevi isto a partir de um documento que eu encontrei, de uma fonte fidedigna. Isto mostra o quê? Este espírito, junto do Partido Democrata, quando Biden faz este apelo, não apelo, esta condenação, mostra o quê? Que Biden percebe que é preciso não dulcificarmos a imagem dos terroristas para podermos justificar a manutenção do apoio a Israel. Mas simultaneamente é importante controlarmos os extremismos que existem em Israel e de que Netanyahu até é moderado comparativamente com alguns dos seus ministros, aqueles que pretendem a terceira reconstrução do templo na Esplanada das Mesquitas. Nós temos esta realidade em Israel. Portanto, a população israelita não está unida e a população norte-americana também não está unida. E com eleições à porta, é evidente que Biden vai tentar conseguir que o apoio que dá à Ucrânia, o apoio que dá a Israel, seja feito em nome dos direitos humanos e de princípios que colhem junto dos norte-americanos, como por exemplo, esta agressão sexual.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 09:30 e tem uma nova edição depois da síntese das 16:30. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.