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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Estamos com a Daniela Nunes, especialista em política internacional, e vamos falar agora da guerra entre Palestina e Israel, a guerra no Médio Oriente. Hoje, o exército de Israel lançou um projeto-piloto para levar ajuda ao norte de Gaza. Pergunto se há aqui algum sinal de ajuda genuíno, verídico, por parte de Israel aos palestinianos, ou se isto é também uma manobra para tentar limpar um bocadinho os erros de Israel nos últimos tempos.

Eu entendo bem esta pergunta e entendo por que é que qualquer coisa que pareça um sinal positivo acarreta sempre alguma desconfiança.

Alguma dúvida.

Algum receio, alguma dúvida. Exatamente. Porque a realidade é que nós temos vindo a assistir a uma atitude israelita que é extremamente intransigente, é pouco flexível, eu diria mesmo desleixada, face a questões ligadas à vida humana e que nada têm a ver com o conflito, que é ideológico e político. Isso tudo nos leva a acreditar que este tipo de iniciativas possam soar pouco honestas. Neste caso, o que está em causa relativamente a este projeto-piloto é o envio de ajuda humanitária, fundamentalmente comida, através de caminhões para o norte de Gaza, onde se acredita já não existir praticamente ninguém livre de uma situação de fome, incluindo as crianças. É, sobretudo, esta a razão que está a conduzir o Executivo israelita a uma pressão internacional cada vez mais forte, porque o cenário em Gaza é realmente o de fome extrema, em que até já se assiste ao atropelamento e ao esmagamento das pessoas, umas pelas outras, para alcançar qualquer coisa para comer. Aliás, ainda há pouco tempo ouvimos falar da morte de mais de uma centena de pessoas precisamente num episódio destes. Por isso, já não apontamos o dedo a Netanyahu só por ele não estar interessado em flexibilizar, da forma possível, a atitude das forças israelitas no terreno. Agora, ele também enfrenta acusações acerca da forma como ignora, quase por completo, uma situação de catástrofe humana e infantil que, temos que ser justos, podia ser minimizada se Israel facilitasse a passagem de bens e o acesso a produtos essenciais por parte da população civil em Gaza. A reabertura dos pontos de entrada de ajuda por via rodoviária, por exemplo, ajudaria muito e evitaria este exercício, quase de telenovela, de ter que lançar ajuda por via aérea às pessoas, não tendo o mesmo tipo de garantia relativamente à boa chegada dos produtos, nem à sua distribuição justa e ordeira. Para responder à pergunta, mesmo que este projeto-piloto permita efetivamente melhorar o estado das coisas, pelo menos parcialmente, e esperemos que assim seja, o que me parece é que ele resulta mais de uma pressão, que não é apenas internacional, é também nacional, que é uma pressão crescente, do que propriamente de uma espécie de altruísmo milagroso das autoridades israelitas.

E por falar ainda em ajuda, hoje sabemos também, é o que avança o Financial Times, que Bruxelas está a preparar um pacote de ajuda de 7,4 mil milhões de euros para o Egito, também a temer as consequências económicas da guerra. Pergunto, Daniela, por que esta ajuda para o Egito, tendo em conta que não é propriamente um dos elementos militares ou bélicos nesta guerra, e como é que isto está ligado também com o tal conflito entre Israel e Palestina?

Este é, de facto, um pacote de ajuda muito significativo, é muito dinheiro, mas não é uma novidade que a União Europeia está a ajudar alguns países na periferia do conflito em Gaza, designadamente o Egito e a Jordânia também, que têm sido fundamentais, sobretudo em momentos de maior vulnerabilidade e crise humanitária, que têm acompanhado de perto e têm ajudado, acima de tudo, a colmatar, da forma possível, algumas das consequências deste conflito, para além, obviamente, de outros papéis que têm vindo a desempenhar, como o diplomático, por exemplo. Só para recordar, em novembro do ano passado, a senhora Ursula von der Leyen já tinha estado no Egito para agradecer às autoridades egípcias o apoio e a mediação que prestaram ao longo do conflito, naquela altura com um mês e meio apenas. Também nessa altura tinha sido prometida ajuda material e logística ao Cairo, com o intuito de ajudar a tratar civis vindos de Gaza e com o intuito de ajudar a receber pessoas vindas de Gaza. Estava, sobretudo, em causa o envio, nessa altura, de materiais e equipamentos médicos, também para minimizar o mais possível o impacto que esta crise tinha numa região vizinha, que era o Egito. Desde logo, em matéria de recursos egípcios, neste caso. Neste sentido, esta colaboração europeia, a meu ver, só pode fazer todo o sentido e só pode ser apreciada por todos nós, na medida em que, dentro do caos, ainda existem estes agentes estabilizadores de que é exemplo o Egito, mas também a Jordânia, como eu dizia. Evidentemente, e como estavas a dizer, André, esta ajuda também tem como objetivo conter algum do impacto económico que o conflito em Gaza está a ter noutros países, como o Egito, levando, por sua vez, a momentos de crise migratória. Tudo isto é um círculo vicioso e o que se pretende é evitar alguma da instabilidade económica que a guerra possa causar, com o intuito também de evitar ciclos migratórios repentinos, desorganizados, ilegais, irregulares, enfim, essas coisas todas. É também nesse sentido que outros acordos estão a ser levados a cabo entre a União Europeia e outros países, como, por exemplo, a Tunísia. Isso confirma também que o conflito em Gaza está absolutamente regionalizado e, ao contrário do que possamos pensar, não diz apenas respeito a Israel e ao Hamas, porque há, obviamente, um conjunto de consequências a afetar, mais direta ou mais indiretamente, um conjunto de outros países, para não dizer mesmo toda a região do Médio Oriente.

A "Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30. Tem nova edição depois do noticiário das 16h, está sempre disponível em podcast. Eu sou o André Maia. Até a uma próxima.