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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Francisco Pereira Coutinho, o Catar garante que há negociações sérias entre as duas partes para uma trégua. Mostrou-se até otimista há algumas horas, mas entretanto, a notícia de que o Hamas terá rejeitado uma proposta de dois meses de cessar-fogo. Pergunto-lhe se é possível que haja nesta altura alguma paragem nos combates, mesmo que um tempo inferior a este, e se é possível quando Israel está a cercar a cidade de Khan Yunis.
Parece-me muito difícil que essas negociações cheguem a bom porto, porque claramente o Hamas e Israel querem coisas diferentes. Israel quer libertar os reféns, mas também quer eliminar o Hamas. Para eliminar o Hamas, isso não é possível se existir um cessar-fogo permanente. O Hamas aceita libertar os reféns, mas em contrapartida pretende, como moeda de troca, um cessar-fogo permanente. E esse é que é o grande problema. Já desde o final do ano, há cerca de um mês, surgiram propostas, especialmente através de mediadores como o Egito e o Catar, que vinham prever um processo faseado que levaria eventualmente ao fim de 60 ou 90 dias a um cessar-fogo e que passaria por uma troca de reféns por prisioneiros e várias tipologias de reféns por prisioneiros, e levaria também a uma retirada progressiva das forças militares de Israel de Gaza. Mas isso objetivamente significaria também que se começasse a discutir o futuro pós-conflito. Aquilo que nós temos visto nos últimos dias são respostas muito confusas de Netanyahu e do governo de Israel em relação àquilo que pretendem fazer a seguir ao término desta operação militar e temos tido a discussão sobre a questão dos dois Estados. A situação neste momento é esta, surgiram notícias que Israel eventualmente até tinha proposto uma trégua de 60 dias, mas é uma trégua, não propriamente um cessar-fogo. E isso terá sido rejeitado pelo Hamas.
No meio disto tudo, temos mais de meio milhão de pessoas em Gaza a enfrentar uma situação de fome catastrófica, que é o que alertam as Nações Unidas.
Exatamente, essa é a situação muito complicada e António Guterres tem-se referido a ela já nos últimos meses e tem-se vindo a agravar e vai continuar a agravar-se. Estamos de facto a falar de cerca de 25% da população que neste momento está a passar fome. Estima-se que no mundo, neste momento, 4/5 das pessoas que estão em situação de fome extrema estejam em Gaza e portanto é preciso uma resposta, e essa resposta tem que passar por uma trégua humanitária que permita às Nações Unidas prestar a ajuda humanitária que é necessária, porque já se percebeu que Israel não o vai fazer e não o fazendo, está a violar as suas obrigações enquanto potência ocupante, porque aquilo que ouvimos por parte do governo de Israel é que pretende continuar com a operação militar e isso já se percebeu que é neste momento completamente incompatível com a prestação da ajuda humanitária. Aliás, estima-se que possam vir a morrer mais palestinianos em virtude da fome e das doenças que entretanto vão contrair do que propriamente das operações militares que estão a ser levadas a cabo por Israel. Temos aqui uma situação que é insustentável e há muita pressão por parte dos mediadores e também por parte dos Estados Unidos, e também por parte de alguns membros do governo de Israel mais moderados como Gantz ou Eisenkot, que estão a pressionar Netanyahu a aceitar um acordo de cessar-fogo que envolva uma troca entre prisioneiros e todos os reféns. Mas claro, Netanyahu está também muito pressionado e não está muito interessado numa trégua, porque isso significaria objetivamente também ter que responder por aquilo que se tem passado desde 7 de outubro. Esta é a situação atual, existem negociações, foram feitas várias propostas, mas não parece existirem condições neste momento para um cessar-fogo.
No Mar Vermelho, coronel Mendes Dias, os houthis repetem que os ataques norte-americanos e britânicos não sairão impunes, sendo que o Reino Unido diz ter registado atividade de um sistema aéreo não tripulado no Iémen. É neste contexto que Portugal vai participar numa missão no Mar Vermelho, pelo que anunciou ontem o ministro João Gomes Cravinho. Temos capacidade para uma missão deste tipo?
Trata-se de uma missão de vigilância e patrulhamento do Mar Vermelho e deste ponto de vista temos todas as capacidades para estar presente e obviamente não teríamos dito que sim se não tivéssemos essa capacidade. O drone de hoje é um drone, julgo eu, de reconhecimento, que procura recolher informação e é isso que se está a passar. Agora não estamos a falar da capacidade militar portuguesa para fazer interceção de mísseis e outro tipo. Isso obviamente serão outros países, mas na lógica de outro tipo de empenhamento militar, na lógica do patrulhamento aéreo, temos todas as capacidades e é normal que assim se processe. E apenas também nos diz da importância das armadas nos países e da importância do controlo de rotas, que é o terceiro ou quarto patamar de reflexão, que nos leva a entender que os houthis são condicionadores de muitos países africanos, asiáticos, etc. Eu vou chamar assim, a cavalo, talvez, da maior rota comercial do mundo. E, por conseguinte, respondendo objectivamente, sim. Deixe-me só complementar relativamente à situação de Gaza, para termos uma ideia, existe uma casa de banho para 400 palestinianos, um chuveiro para cerca de 1850 palestinianos. Isto também não quer dizer que a ajuda humanitária não tenha entrado. De acordo com a necessidade, até que já havia anterior. Se o anterior era 500 camiões por dia, agora, depois que foi iniciada a ajuda humanitária, são 200 e tal. Já entraram 10 mil e tal camiões no processo longo e, obviamente, não correspondendo sequer à necessidade do povo que vive na Faixa de Gaza.
Já que voltamos a Israel, Francisco Pereira Coutinho, deixe-me perguntar-lhe sobre Josep Borrell, que disse claramente que Israel não pode ter o direito de veto sobre a autodeterminação do povo palestiniano, sabendo nós que o primeiro-ministro israelita é claro na não aceitação dos dois Estados.
Exatamente. Temos aqui um problema com este governo de Israel e com este primeiro-ministro de Israel. A solução de dois Estados, que é a solução escolhida pela comunidade internacional, pelos países europeus, pelos Estados Unidos, só pode ser concretizada com outro governo de Israel e também com outras lideranças na Palestina. Porque objectivamente o direito à autodeterminação implica que um povo decida o seu futuro político e, no caso dos palestinianos, implica constituírem um Estado, e o Estado tem que ser soberano. Ora, aquilo que temos ouvido por parte do governo de Israel é que não aceitam essa solução, porque consideram que essa solução colocaria em causa a segurança de Israel. É claro que foram testadas algumas soluções, especialmente foram discutidas em 95, com o início do Processo de Oslo, que passava pela constituição de um Estado palestiniano desmilitarizado, mas a seguir aos ataques de 7 de outubro, essa discussão acabou quase por se tornar um anátema em Israel, mas é uma discussão à qual vamos ter que voltar, porque claramente um futuro político para a Terra Santa tem que passar necessariamente pela constituição de dois Estados, porque há aqui linhas vermelhas que já foram definidas pelos Estados Unidos, designadamente por Blinken, e pelos europeus, que passam designadamente pelo não reconhecimento de qualquer tipo de anexação por parte de Israel ou de ocupação militar novamente de Gaza. Portanto, isto é algo ao qual o governo de Israel vai ter que responder, seja Netanyahu, seja outro tipo de governo que surja em Israel. E isto é uma discussão que os israelitas vão ter que ter, exatamente que tipo de Estado é que pretendem, se querem um Estado liberal, plural, que aceite o direito internacional, se querem avançar para um Estado confessional, religioso, dominado por nacionalistas religiosos. Portanto, isto é algo que ainda não percebemos qual vai ser a evolução em Israel, e eu creio que é isso que Borrell faz referência quando refere que não pode ser Israel a decidir sobre o exercício de autodeterminação do povo palestiniano. Ele tem que ser concretizado e isso significa que nós, no Ocidente, temos que esperar qual vai ser o novo governo de Israel, o próximo governo de Israel, e se não for um governo de Israel que respeite o princípio de autodeterminação, então temos que começar a tomar medidas drásticas em relação a Israel, designadamente sancionando o Estado de Israel.
A Guerra na Terra Santa é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.