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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Bruno Cardoso Reis, os Estados Unidos e o Reino Unido lançaram novos ataques aéreos conjuntos no Iémen, mas além da tua análise a estes ataques recentes, gostava também de te ouvir sobre a missão naval europeia no mar Vermelho.

Penso que faz sentido ligar as duas coisas. E realmente, o contraste não podia ser maior do meu ponto de vista e deixa uma ideia péssima do que é esta Europa da defesa, do que é uma União Europeia geoestratégica. Nós temos, de facto, uma ameaça enorme à segurança marítima, à segurança económica e energética global, mas inclusive regional e em particular da União Europeia, por causa destes ataques. Temos um grupo armado que não é reconhecido sequer como governo do Iémen, que se arroga o direito de atacar navios civis porque está a defender uma boa causa, segundo eles, que é a causa palestiniana. E aparentemente, na Europa há países como a Espanha que se deixam convencer com esse género de argumentos. A Espanha faz questão de dizer que não participa na missão por amor à paz, mas não vai bloquear a missão. Já bloqueou a adaptação da missão que já está lá no terreno, a missão Atlanta, junto à Somália. Obrigou a que o que fosse adaptado é o mandato da missão que está junto ao Estreito de Ormuz. E mesmo essa missão europeia que a Espanha não bloqueia, o alto representante, o José Borrell, veio dizer que atenção, por causa do amor da Europa à paz, só ia escoltar navios, não ia escalar, não ia fazer missões de guerra. No fundo, não ia lidar com o real problema, que é os ataques dos houthis, ou seja, não ia fazer exatamente o tipo de operações que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estão a fazer. É verdade, com o apoio de alguns países europeus que têm alguma noção do que é a segurança marítima, como por exemplo, os Países Baixos. Tudo isto é completamente ridículo, descredibiliza completamente a União Europeia como um ator sério, inclusive no Médio Oriente, num processo de paz em que é fundamental que os actores que queiram ter alguma palavra a dizer, mostrem que também percebem alguma coisa de um conflito armado e têm alguma capacidade ao nível militar. Tudo isto me parece realmente lamentável, e só contribui para o descrédito da União Europeia como um actor que seja levado a sério numa região tão propensa ao conflito como é o Médio Oriente, ou numa dimensão tão fundamental para a segurança europeia, como é a segurança marítima.

Entretanto, Israel terá proposto dois meses de trégua na Faixa de Gaza, mas o Hamas recusou porque exige a retirada total. Bruno, assim fica difícil qualquer acordo.

Sim, fica difícil, as partes têm posições muito incompatíveis. E vamos ser claros também dos dois lados, no fundo, as decisões são tomadas no essencial pela linha dura. No caso de Israel, apesar de tudo, Netanyahu, por causa da pressão dos ministros moderados e das famílias, foi obrigado a esclarecer que tinha oferecido alguma coisa e seria realmente bastante importante, obviamente, para os reféns, a sua libertação, mas também para a população civil de Gaza, ter um período longo de pausa nos combates que permitisse criar muito mais condições para o realojamento e eventualmente para o regresso às zonas de origem, para uma ajuda humanitária muito mais sustentada e segura. Vamos ver o que é que acontece. Isto também deixa claro que há obviamente também uma linha dura do lado do Hamas, se houvesse dúvidas disso, para a qual a questão da população civil palestiniana e toda esta tragédia humanitária não é um problema. Pelo contrário, é algo que é útil do ponto de vista de toda a gestão política por parte do Hamas deste conflito. Nós temos razões para acreditar que o Hamas sabia que depois dos ataques terríveis, daqueles massacres do 7 de outubro, iria haver uma resposta militar muito forte de Israel. E toda a ideia do Hamas era exatamente usar essa resposta militar para exibir as vítimas e exibir os mártires, na linguagem que o Hamas utiliza sempre, para procurar virar a opinião pública mundial contra Israel, o que tem conseguido com algum sucesso.

A "Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16:30 da tarde. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.