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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Carlos Gaspar, começamos por si. Depois de vários ataques dos houthis do Iémen a navios no Mar Vermelho, chegou agora a resposta num ataque concertado entre Estados Unidos e Reino Unido e com o apoio de vários países, com o argumento de que foi em legítima defesa e proporcional. É o que lhe parece? Até porque estamos a falar do Mar Vermelho, muito importante para o comércio internacional.

É absolutamente crucial que os Estados Unidos demonstrem neste momento, juntamente com os seus aliados, que têm capacidade para garantir a liberdade de navegação, quer no Estreito de Bab-el-Mandeb, quer no Estreito de Ormuz, onde o Irão há dois dias apreendeu um petroleiro grego. São vias de comunicação essenciais para a estabilidade dos preços dos produtos energéticos e também para as rotas de comércio, designadamente entre a Europa e a Ásia, e entre o Golfo Pérsico e a Ásia. É crucial que a liberdade de navegação seja assegurada. Os Estados Unidos têm assumido essa responsabilidade de defesa, de garantia da liberdade de navegação nos global commons e designadamente nestes pontos cruciais. Ela está ameaçada diretamente pelo Irão, no caso dos estreitos de Ormuz, e indiretamente pelo Irão, através das suas milícias iemenitas, no caso do Mar Vermelho. É uma situação inaceitável e inconfortável, que não tem qualquer justificação. É uma escalada da parte do Irão no conflito do Médio Oriente. É indispensável responder de uma forma robusta para pôr fim a essa escalada iraniana.

E os houthis avisam nesta altura que a retaliação está iminente. A agência de notícias France Presse diz mesmo que o grupo xiita desenvolveu capacidades militares nestes últimos anos. Quer dizer que podemos ter aqui uma frente de guerra duradoura, Bruno Cardoso Reis?

Boa tarde. É um teste. No fundo, claramente aquilo que estava a ser feito não estava a funcionar. Ou seja, os Estados Unidos tentaram sinalizar com a presença militar, tentaram lançar avisos diplomáticos. Houve aqui um acontecimento importante, que foi a aprovação de uma resolução pelo Conselho de Segurança a condenar estes ataques e a apelar a que eles acabassem um dia antes dos ataques e que contou com a aprovação de 11 membros e as abstenções da China e da Rússia. O que quer dizer que, se bem que eles não queiram aparecer aqui completamente ao lado dos Estados Unidos, também não são propriamente entusiastas da ideia de legitimar a pirataria, nomeadamente nestes chamados choke points, estes pontos de estrangulamento da navegação global, que são pontos de passagem praticamente obrigatória. O Canal do Suez, o estreito do Bab-el-Mandeb, o estreito de Aden, que liga a Ásia à Europa por via marítima. A alternativa é ir pela volta do Cabo, como os navegadores portugueses no século XVI, mas isso acrescenta pelo menos uma semana, por vezes mais, à navegação, aumenta muito os custos, o tempo que demoram os produtos a chegar e é realmente uma situação que é especialmente grave para a segurança económica da Europa, mas afeta muito também o interesse, por exemplo, da China, que precisa de continuar a exportar para a Europa. Estamos a falar à volta de 15% do comércio global a passar aqui pelo Estreito de Aden, mas se estivermos a falar do comércio entre a Ásia e a Europa, é mais de metade. Se estivermos a falar do comércio também de produtos petrolíferos do Golfo, também é mais de metade em direção à Europa. Mas sobretudo, há aqui uma questão de princípio. É uma norma fundamental da ordem internacional que haja liberdade de navegação e que a pirataria, seja com que pretexto for, mesmo que seja em nome de uma boa causa, do ponto de vista dos houthis e de muitos dos países do mundo árabe, que é defender a população palestiniana, isso não é admissível. Além do mais, a maior parte dos navios que estavam a ser atacados não tinha nenhuma ligação a Israel. Claramente houve aqui uma escalada da parte dos próprios houthis e, como eu estava a referir, todas as tentativas de dissuadir, de simplesmente reagir, ter uma postura defensiva, interceptar os ataques que foram sendo feitos, isso não era suficiente. Os ataques continuavam a multiplicar-se, continuavam em crescendo e a avaliação dos Estados Unidos e dos seus aliados, e do meu ponto de vista bem, foi que a única alternativa era passar para uma fase seguinte, que era não reagir simplesmente aos ataques, mas fazer ataques preventivos contra os radares, contra as bases de lançamento, contra os paióis que os houthis utilizam para alimentar estes ataques, procurando que isso trave estes ataques. Agora, há realmente esse risco, que é que os houthis continuem a existir. Certamente não foram eliminados todos os arsenais, todos os paióis e os houthis podem continuar a existir. Isso vai obrigar os Estados Unidos a repetir este tipo de ataques, mas veremos. Mas como eu digo, claramente aquilo que estava a ser feito não era suficiente e tinha-se chegado a um ponto de estrangulamento deste ponto de passagem e uma interrupção de um canal vital para o comércio global.

E esta tarde há reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Esta escalada pode ter que impacto para a frente de Gaza, Carlos Gaspar? O Pentágono diz que estes ataques não fazem parte do conflito Israel-Hamas.

Dirá, com certeza, como entender, mas há um ponto de referência comum em Gaza e no Mar Vermelho, que é o Irão. São milícias apoiadas, armadas, financiadas pelo Irão que estão a praticar estes atos de violência em duas frentes distintas. Há uma terceira frente possível no Líbano, onde o Hezbollah, outra milícia armada e apoiada pelo Irão, ainda não recuou, continua na fronteira com Israel numa postura ofensiva. Há uma quarta frente possível a partir das milícias xiitas iranianas que estão na Síria e no Iraque, que se podem aproximar das fronteiras de Israel. Há múltiplas frentes neste conflito, que opõe não só Israel ao Hamas de uma maneira directa na Faixa de Gaza, mas que opõe também os Estados Unidos e um certo número de outros países, o Bahrain, entre as potências regionais, também o Canadá, a Holanda, que acompanharam os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, na retaliação contra os rebeldes houthis. Há um número importante de actores que estão a ser envolvidos neste conflito, mesmo que seja compreensível que os Estados Unidos queiram separar as coisas para evitar uma lógica de escalada horizontal deste conflito. É prudente, do ponto de vista diplomático, evitar essa lógica de escalada, mas aparentemente está nas mãos do Irão decidir se há ou não há uma escalada efectiva do conflito.

E neste cenário, Bruno Cardoso Reis, qual poderá ser o papel da Arábia Saudita, que entretanto já veio pedir contenção?

É um papel bastante ambíguo. A Arábia Saudita tem zero simpatia pelos houthis. Tanto tem que estava envolvida ativamente na guerra civil do Iémen contra os houthis. Apesar de tudo, essas operações militares não correram muito bem para a Arábia Saudita, correram até melhor para os houthis e para o Irão e portanto, chegou-se aqui a um certo impasse, a um cessar-fogo, que neste momento convém à Arábia Saudita. Depois há um segundo ângulo importante, que é os houthis e o Irão procuram aparecer aqui como os grandes defensores dos palestinianos, e isso é uma causa muito popular no mundo árabe em geral e também entre a população saudita. Portanto, a Arábia Saudita tem de ter aqui grande prudência. Parece-me evidente que as elites sauditas, os governantes sauditas, veem este estrangulamento do estreito de Aden com imensa preocupação, do estreito de Ormuz, como referia o Carlos Gaspar também. Houve ainda agora um ataque recente do Irão também na zona do estreito de Ormuz. Basicamente todos os portos sauditas dependem desses dois pontos de estrangulamento. Ou estão no Golfo Pérsico e portanto têm de sair pelo estreito de Ormuz, ou estão na costa do Mar Vermelho e há o Suez, mas na direção da Ásia, têm necessariamente de passar pelo estreito de Aden ou, no caso de receberem produtos da Ásia, tem de ser através do estreito de Aden. A Arábia Saudita é dos principais interessados em que esta estratégia dos houthis não funcione, em que os houthis sejam obrigados a parar com estes ataques. Publicamente não pode dizer outra coisa que não seja um apelo um pouco ambíguo à contenção.

Entretanto, temos já consequências a nível económico. A Tesla, por exemplo, suspendeu a produção de automóveis em Berlim, na Alemanha, precisamente por falta de material, por causa desta situação. Podemos vir a enfrentar um novo aumento de preços e também aqui em Portugal, Bruno?

Sim, essa é uma possibilidade, ou seja, escassez de produto e depois, também como consequência disso, aumento dos preços. Aqueles que estão sempre mais na berra, na berlinda, são os preços dos combustíveis e, portanto, o petróleo. Isso está dependente do estreito de Ormuz, mas também do estreito de Aden para o abastecimento à Europa. Eu diria que, sobretudo, se houver uma escalada do lado do Irão, envolvendo directamente o Irão e o estreito de Ormuz, aí sim assistiremos a uma escalada muito mais significativa, mas obviamente isto também não são boas notícias. É sobretudo o impacto aqui no caso do estreito de Aden, em termos do fornecimento de peças. Como sabemos, grande parte da produção hoje em dia é uma produção que é mais juntar peças que vêm de várias proveniências do que propriamente fabricar tudo no mesmo lugar, por exemplo, na produção de automóveis, na fábrica da Tesla. Eles estão dependentes do fornecimento de material de peças que vêm da Ásia e deixaram de conseguir ter peças suficientes para continuar a produzir. E há a notícia de outras companhias, até de companhias também chinesas, por exemplo, a Geely ou o IKEA, que estão a dizer que também vão ter dificuldade em manter a sua produção normal. Obviamente, se isso acontecer, vamos assistir à inflação nos preços de todos esses produtos. De repente, há menos, as pessoas querem continuar a comprar e portanto reduz a oferta, mantém-se a procura, vai haver necessariamente mais inflação.

A Guerra na Terra Santa é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16:30 da tarde, está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.