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"Ideias Feitas", na Rádio Observador. Bem-vindo, Alberto Gonçalves.

Olá, Ricardo. Boa tarde.

A cantiga ainda é uma arma, neste caso, contra Israel?

Parece que sim. Vamos começar pelo início. Aliás, como convém quase sempre. Perante a decisão de admitir a participação de Israel no Festival da Eurovisão, que foi assim decidido, acho que nem se quer chegou a ir à votação, ficou decidido assim. Mas perante isso há países que vão boicotar o certame. E eu sempre quis dizer certame aqui no "Ideias Feitas", nunca tinha tido a oportunidade, estou muito contente.

É sempre bom usar a palavra certame.

Certame é daquelas palavras que merecem ser recuperadas. Pois bem, há países que boicotaram a Eurovisão e televisões desses países que boicotaram a Eurovisão e esses países são a Holanda, Espanha, Irlanda, Eslovénia e Islândia. E é natural que, no atual estado do mundo, isto seja considerado no máximo antissionismo, como eles dizem, ou no mínimo, um mero protesto circunstancial, alusivo a direitos humanos e essas coisas. Mas não é, porque as televisões públicas desses países, para não dizer esses países, nunca boicotaram a Eurovisão, por exemplo, a pretexto do Azerbaijão, que acho que ainda continua a participar, ou da Sérvia, de países que já participaram e agora não participam, mas por razões distintas, sei lá, burocráticas ou por discordar do sistema de votação, como a Turquia, por exemplo, a Bielorrússia. São países que não têm exatamente um currículo exemplar em matéria de direitos humanos e a propósito dos quais não houve nunca qualquer boicote. Portanto, os direitos humanos não são aqui a questão, de certeza. Logo, a objeção a Israel não se prende com os direitos humanos e não é antissionismo ou outra coisa qualquer. É antissemitismo, porque o boicote só se verifica quando Israel está envolvido. antissemitismo é o termo que deve ser utilizado aqui para sermos claros e não haver equívocos. Em Portugal, a RTP não cedeu ou, pelos vistos, até ver, não aderiu ao boicote, apesar da pressão dos funcionários da casa, que pelos vistos acham que a sua função é exibir solidariedade para com Gaza, para ser simpático e não dizer o Hamas. Ora bem, se os funcionários da RTP discordam da posição da empresa, os funcionários da RTP em questão, com certeza não serão todos, deviam demitir-se, porque para fazer uma analogia, um bocado trôpega, mas se eu trabalhasse para uma empresa que promovesse, por exemplo, ideais antissemitas ou ideais frontalmente racistas de qualquer espécie, eu demitia-me dessa empresa. Não iria tentar converter os diretores da empresa ao bom senso. E se os trabalhadores da RTP ou esses trabalhadores da RTP, que para cúmulo são pagos pelos contribuintes e em parte por contribuintes, com certeza, que partilham da convicção de que Israel apenas reagiu à invasão do seu território no 7 de outubro e tem sobrevivido aos propósitos, esses sim, genocidas que alimentam o regime de Gaza. Se os funcionários da RTP, dizia eu, ou alguns funcionários da RTP são antissemitas e não querem conviver com judeus, vamos ser claros, restava-lhes ser homenzinhos e mulherzinhas e pedir a demissão. Pelos vistos, não é o que eles vão fazer. E se a RTP não boicota, a maioria dos finalistas, e esta é a notícia mais recente, pelo menos que eu saiba, a maioria dos finalistas do nosso festival, do Festival da RTP propriamente dito, já garantiu que sim, que vai boicotar a Eurovisão caso ganhem o nosso festival e se apurem para a Eurovisão. Mas curiosamente não vão boicotar o festival da RTP, porque pelos vistos também não sabem ser homenzinhos ou mulherzinhas. Ou seja, explicando isto melhor, os artistas em causa, e acho que são a maioria dos artistas que participam no Festival da RTP, não dispensam a projeção que o nosso festival, realizado por um canal aparentemente rendido ao sionismo, lhes dá e depois se correr bem, acrescentam a projeção adicionada por um boicote ao concurso internacional, que será uma beleza comparável ao martírio. Eu já consigo imaginar, não é difícil de imaginar. Não é preciso muita imaginação para pensar nas manchetes do Jornal Público a elogiar a coragem do cancionetista X ou da cancionetista Y, por não ter problemas em demonstrar a sua rejeição da guerra em Gaza. O lado bom disto tudo é que pelo menos os potenciais boicotadores, não sei se a palavra existe, provavelmente não, anunciaram o boicote de antemão. E aí, por isso, a RTP está mais do que a tempo de fazer o que tem de fazer e desqualificá-los antes que eles se aproveitem de uma empresa pública para alimentar delírios, interesses ou apetites privados. Se por absurdo a RTP não boicotar os boicotadores, ao menos os espectadores que o façam, porque eu não sei muito bem o que é o voto regional, quem é que decide, não sei a quem pertence a decisão do voto regional, daqueles votos de distrito a distrito, acho que isso ainda se mantém, mas do que li, existe uma coisa chamada televoto, que pode decidir a votação final e as pessoas que votam a partir de casa, suponho eu, ou online ou por telefone, não sei. Essas pessoas já sabem de antemão que não vale a pena votar em desistentes e que também seria uma indignidade votar em antissemita.

Obrigado, Alberto, que hoje citaste uma letra do GAC: "A cantiga é uma arma, tudo depende da pontaria."

Exatamente.

Um abraço, Alberto. Até amanhã.

Grupo de Ação Cultural. Até amanhã. Até amanhã, Ricardo. Um abraço.

O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.