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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Bem-vindo, Alberto.
Olá, boa tarde, Ricardo. Pensei que ias dizer mais qualquer coisa.
Não. Estava só a certificar-me que já estavas aí.
Estou, sim senhor.
O título da tua crônica hoje é: "A RTP ensina a transformar o gênero das crianças".
É, parece que sim. Não me queria repetir, mas vou me repetir, pelo menos em parte, porque na semana passada fiz um "Ideias Feitas" sobre o declínio da ideologia de gênero. Pelo menos alguns sinais de declínio que andam por aí. E no caso, havia o sinal da decisão do Comitê Olímpico Internacional de impedir a participação de homens que se identificam como mulheres nas provas femininas. Mas, pelos vistos, esse declínio da ideologia de gênero ainda não chegou a Portugal, porque ontem mesmo a RTP exibiu, acho que foi a RTP 3, nem sabia que isso existia, para ser franco. Mas exibiu um filmezinho de animação que prova que a ideologia de gênero em Portugal ainda, pelo menos em certas bolhas, ainda está muito forte, porque no filmezinho, que dura um minuto e tal, há umas crianças no parque a jogar basketball e interrogam sobre por qual equipe vai jogar uma das crianças. E responde outra criança: "Bem, não sei por qual equipe jogará, porque agora chama-se Lúcia e é trans." E o rapaz, a criança que tinha feito a pergunta primeiro, não percebe: "Trans? O que é isso, trans?" E a alegada rapariga esclarece. A Lúcia ou o Lúcia: "Sou transgênero, está tudo aqui dentro." E aponta pra cabecinha. Depois esclarece ainda mais: "Tu nasceste com um sexo biológico, pode ser masculino ou feminino, pessoas fecundantes e pessoas gestantes, respectivamente. Se a pessoa se identifica com seu sexo biológico, também se identifica com seu gênero, etc. E há pessoas que não se identificam com o seu sexo biológico, e essa sou eu. As raparigas trans", diz ainda a Lúcia ou Lúcia, "não se identificam com o seu pênis e os rapazes trans com a sua vagina." É isto, simples, não é? Pronto, e por aí fora. Depois há mais umas coisinhas, mas aquilo também não dura muito. O filmezinho não é uma comédia, convém notar isto. Não é um drama em que, por acaso, uma das personagens sofre de confusão sexual. É uma coisa feita com intenção pedagógica, ou seja, com o intuito de ensinar aos meninos e às meninas que o sexo biológico é secundário, é subalterno. Pode ser trocado ou substituído com enorme facilidade, com a ajuda de medicação, como se refere, aliás, no filmezinho, porque o menino que se diz Lúcia informa que toma hormonas, que na verdade são os bloqueadores de puberdade e que quando for adulto ou adulta decidirá se faz a cirurgia para mudar os órgãos sexuais. O problema é que o sexo não se muda de acordo com sentimentos, nem com cirurgias. Há dois sexos biológicos e faça-se o que se fizer, não são alteráveis. Um transexual que nasceu homem continuará a ser homem. Com certeza que é transexual, pode se declarar transexual, mas é um homem na mesma. E o mesmo se passa se nascer mulher. Como diz o Richard Dawkins, que evidentemente não ignora a existência de raríssimos casos de disforia. Eu estive a fazer contas, em Portugal haverá uns 300, 400 casos destes, disforia de gênero. Mas como diz o Dawkins: "Discutir o gênero é atividade de quem não tem mais o que fazer", porque boa parte dos biólogos e dos especialistas em genética concordam com ele. A vasta maioria dos cientistas que discordam, e quando se invoca a ciência para pôr isto em causa, pôr a verdade biológica em causa, normalmente os cientistas que discordam vêm das ditas ciências sociais, que aliás, são tão científicas quanto a astrologia. Há um momento, aliás, curioso no tal filmezinho. É quando a criança em causa diz que conversou com os pais e a conversa, pelos vistos, começa com esta pergunta extraordinária: "Papá, mamã, a Terra é plana?" E responde o papai ou a mamã: "Não, filho." "Mamãe, papai, as meninas podem ter pilinha?" "Claro, filha." Já passou de filho pra filha, como se nota. Durante a conversa, a transição de sexo até foi bastante rápida. Dá a ideia que os autores do filmezinho se puseram preventivamente à defesa. De fato, defender que o sexo ou pretender que o sexo depende da identificação é tão absurdo quanto o terraplanismo, o criacionismo ou a crença em bruxaria, ou mais algumas excentricidades que nós possamos lembrar. A RTP nunca passaria um filme instrutivo a defender o terraplanismo ou o criacionismo, ou suponho eu, já não digo nada, quer dizer, a crença em bruxaria. Mas passou este filmezinho a defender tolices que se divulgam por aí a pretexto do gênero e com finalidades políticas que podemos imaginar quais são. E fê-lo com o nosso dinheiro, esse é que é o maior problema. E o dinheiro de muitos pais que legitimamente não querem que os filhos sejam expostos a estas lavagens cerebrais, que são potencialmente eficazes, porque nós todos podemos imaginar o quão influenciáveis as crianças são. E são particularmente perigosas, por razões que me escuso dizer aqui porque não tenho tempo. Agora, cada um deve ser livre de acreditar nos delírios que lhe apetecer, com certeza, a liberdade de expressão é justamente isso. Outra coisa é usar financiamentos públicos para evangelizar e espalhar delírios por aí. Isto já sai um bocadinho da esfera da liberdade e já constitui outra coisa que não sei bem o que é ou não sei bem o que chamar. O que sei, graças a estas e a outras matérias, algumas delas já falei aqui também em outros "Ideias Feitas", é que a RTP é paga por todos os contribuintes para fazer propaganda de facção, para fazer propaganda que agrada a uma minoria, e parece-me que será uma minoria relativamente restrita desses contribuintes, e não devia fazê-lo.
Alberto Gonçalves, a desfazer ideias feitas. Até amanhã, Alberto. Um abraço.
Até amanhã, Ricardo. Um grande abraço.
O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.