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"Ideias Feitas", na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo.

E hoje queres falar de Brigitte Bardot.

Quero, sim senhor. E há temas piores. Embora o pretexto não seja o melhor, mas eu devo começar por esclarecer que não sou um grande conhecedor da atriz Brigitte Bardot. Eu acho que vi uns três filmes com ela e todos há muito tempo e ficou-me mais pelas imagens do que pelo filme. Do filme não tenho ideia se gostei ou não, mas lembro que era muito bonito "O Desprezo" do Godard, "Le Mépris". Para mim, a Brigitte Bardot era, sobretudo, uma cantora e conheço-a como cantora, principalmente por causa da relação que ela teve profissional e pessoal com o Serge Gainsbourg. Ela foi namorada, foi musa, não por muito tempo, do Gainsbourg. E ele compôs para ela o famosíssimo "Je t'aime moi non plus". Depois aquilo acabou por não sair, essa versão, naquela altura. Foi lançado uma versão com a Jane Birkin.

Exato. Essa que ficou para a história.

Essa é que ficou, exatamente. Embora a original hoje esteja disponível. Quem quiser encontrar, encontra. Mas além disso, da Brigitte Bardot, além de ela ser, para mim, sobretudo, uma cantora, mais do que atriz, até. Mas tenho também a perfeita noção, embora não seja do meu tempo, do impacto que ela, e a atitude dela, e a beleza dela, e a influência que ela teve na moda e nessas coisas todas. Mas para além disso, teve influência ou impacto, se calhar até inadvertido, na forma como redefiniu o conceito de mulher. Praticamente sem falar no assunto ou sem falar muito no assunto. Ela, se calhar, fez mais pela emancipação feminina do que 500 manifestações em que se queimavam sutiãs e esse tipo de atividades ou de exercícios. E nesse sentido, ela foi uma das maiores feministas do tempo dela e continuou a sê-lo no nosso tempo. E o absurdo, eu estou a dizer isto, estou a falar do nosso tempo e estou a falar, no fundo, da coerência dela, porque nestas últimas horas, a grande maioria dos obituários e das referências mais breves à sua morte e à vida dela, divide essa vida em duas partes. Uma parte boa, solar, libertadora, da atriz lindíssima e daquelas coisas todas, e outra parte mais sombria, uma parte má. E cheguei a ver escrito que a Brigitte Bardot se tinha transformado, a certa altura da sua vida, numa nazi. Não estou a citar o "Cálias", estou a citar, por exemplo, a escritora Inês Pedrosa, chamou-lhe nazi, com todas as letras e não são muitas, são só quatro. Isto por quê? Porque Brigitte Bardot era, dizem essas pessoas, racista. Acusação, de resto, com a qual alguns tribunais franceses concordaram e chegaram a condená-la meia dúzia de vezes por afirmações consideradas racistas. Agora, eu fui ver exatamente. Algumas coisas eu conhecia perfeitamente, outros casos não conhecia. Parece-me que, no geral, as acusações de racismo são injustas e um bocadinho absurdas. Ela foi, sobretudo, coerente. As únicas afirmações que eu lhe consigo encontrar com alguma componente racial foram umas frases que ela disse sobre os habitantes da Ilha da Reunião, mas foi por causa dos maus-tratos a animais e sabemos todos a importância que isso tinha na vida dela. Acabou por se tornar central na vida dela, desde que ela deixou o cinema. E esses maus-tratos na Ilha da Reunião, os maus-tratos aos bichos, coitados, pelos vistos, são recorrentes, estão comprovados, documentados. Portanto, não foi uma coisa que ela inventou. E ela depois até pediu desculpa por se ter exaltado, mas fez uns insultos, realmente, à parte genética de algumas pessoas. Agora, no resto, as condenações de que ela foi alvo, que ela sofreu, prendem-se sempre com críticas ao Islão. E acho que criticar o Islão da forma como ela criticava e nos termos que ela criticava, é aquilo que uma pessoa comum, uma pessoa normalzinha, pode esperar de uma feminista autêntica. O que é inesperado é que haja tantas feministas e tantos pretensos feministas cujo feminismo termina quando o islamismo começa. Porque aparentemente, para essas pessoas, apenas a opressão da mulher no Ocidente, e com certeza ainda existirá, mas essa opressão é que é relevante. O estatuto quase sub-humano e hesito em dizê-lo, mas o estatuto quase sub-humano da mulher na vasta maioria dos países muçulmanos não costuma vir ao caso. São tradições que devem ser respeitadas. Ora, a Brigitte Bardot não respeitava essas tradições, fazia questão de o dizer e além de não as respeitar, acima de tudo, não apreciava que o país dela e a sociedade em que ela vivia, e a sociedade que ela ajudou a abrir e a tornar mais tolerante, importassem milhões de pessoas com tradições brutais para com as mulheres e sem vontade nenhuma de se deixarem assimilar pelos valores do país de acolhimento. Pelo contrário, com vontade de imporem os valores deles ao país de acolhimento. Ela foi coerente durante toda a sua longa existência. Não há aqui contraste entre uma primeira Brigitte Bardot e uma segunda Brigitte Bardot. Parece-me sempre a mesma pessoa e infelizmente nem todos têm essa coerência e talvez por isso estranhem que alguém a tenha. E ainda bem que ela foi coerente, porque também seria triste ver alguém que contribuiu imenso para transformar o papel da mulher, passar as últimas décadas de vida a falar com tolerância da Sharia e da Burca e de outros instrumentos para subalternizar as mulheres. Ela não cedeu a modas ou conveniências políticas, ou ao quismo, ou politicamente correto, ou como quisermos chamar. Até ao fim, a Brigitte Bardot foi fiel à visão que tinha da liberdade e da dignidade. E isso faz com que ela seja mais até do que um ícone, seja uma coisa mais importante do que um simples ícone, que o foi, mas foi uma pessoa corajosa e acho que reconhecer essa coragem e essa coerência e essas virtudes todas, que não são tão óbvias, pelo menos a julgar pelos obituários, acho que reconhecer isso é o maior tributo que lhe podemos prestar.

Obrigado, Alberto. Alberto Gonçalves e as "Ideias Feitas". Até amanhã, Alberto.

Até amanhã, Ricardo.

O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.