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Gonçalves, bem-vindo ao "Ideias Feitas". São as últimas Ideias Feitas desta semana, do Alberto Gonçalves. Viva, Alberto. Queres fechar esta semana a comentar o estado atual da imprensa e até a citar títulos da imprensa britânica?
Olá, Miguel. Boa tarde. Sim, para variar um bocadinho da política internacional e ainda mais deprimente, da política nacional, eu deparei há uns dias com uma página no Twitter, ou no X, de um utilizador qualquer, não sei quem é, assina com um pseudónimo e que fez uma elencagem, uma lista vastíssima de títulos e excertos de artigos do Guardian que eu achei maravilhosos num certo sentido. E vou aqui só citar alguns. Vou passar a citar com uma pequena pausa entre cada dois títulos para que as pessoas percebam. E não vou fazer comentários, para já. "Por que recusei fazer as pazes com a minha vagina?" "Por que é que deixei de falar com brancos sobre questões raciais?" "Ser negro no interior inglês é ser um estranho." "Parei de ir ao ginásio por causa de Trump. Agora não consigo abrir frascos." "Arranha-céus a ejacular no céu. As cidades precisam de ser tão sexistas?" "A Grã-Bretanha escolheu um bully criminoso e assassino como o seu pássaro nacional." E aqui estavam a falar do pintarroxo. "Os homens usam menos máscara que as mulheres. Mais um sinal de que a masculinidade tóxica mata." "Por que é que o novo penteado de Ivanka Trump nos deve fazer sentir medo?" "Não bloqueies o teu amigo racista do Facebook, educa-o." "E se os homens menstruarem? Uma questão pertinente." "És demasiado branco, rico e heterossexual para seres feminista?" E agora, por fim, desta pequena amostra, a minha preferida: "Chamar às luas de Marte Fobos e Deimos, que significam medo e terror, é demonizar o planeta nosso vizinho." Ora bem, agora sou eu a falar, não são títulos do Guardian. O Guardian nunca foi grande coisa e nunca foi das minhas leituras regulares. Na realidade, poucas vezes lia aquilo porque nunca gostei e por isso não lamento que se tenha tornado uma espécie de abrigo de maluquinhos. O que lamento, sinceramente, é que embora talvez a um ponto extremado, o Guardian está longe de ser um caso raro na descida ao auspício de muito do jornalismo que hoje se pratica. Uma pessoa pega, mesmo que digitalmente, hoje em dia, no New York Times ou na New York Magazine, que assinei fisicamente, por acaso, muitos anos, no Times de Londres ou no Washington Post, ou às vezes, bastante menos em termos problemáticos, no Wall Street Journal. E mesmo no Wall Street Journal, uma pessoa está sujeita a levar com delírios sem pés nem cabeça. Aqui, menos frequentemente. Ou seja, com propaganda identitária e sempre com viés ideológico, quase sempre a pender desalmadamente para o lado mais grotesco do chamado wokeismo. Isto claro que dá para rir, e dá, e eu ri bastante com esta lista de títulos do Guardian. Mas indo um bocadinho mais a fundo da questão, é muito triste que a imprensa, ou uma boa parte dela, tenha chegado a isto. E é sobretudo triste para quem, como eu, que há 15 ou 20 ou 30 anos consumia jornais a eito, não para que os jornais concordassem comigo ou com o que eu já pensava, mas para que me informassem e, nos melhores casos, dos melhores autores, dos melhores jornalistas, dos melhores colunistas, me ajudassem a perceber e a pensar o mundo. Hoje é praticamente o degredo. Em Portugal, eu leio e assino o Observador, evidentemente, e lá fora leio e assino a Spectator e uma revista americana que é semiobscura, mas é brilhante, chamada City Journal. Em espanhol, às vezes dou uma vista de olhos pelo ABC. E é tudo. Mesmo que uma pessoa queira, não há mais. Quer dizer, com pouquíssimas exceções. O jornalismo deixou de ser um intermediário, que era aquilo que era, ou que tendia a ser, entre o leitor e a realidade, e passou a ser uma espécie de porta-voz de agentes, de interesses, de ideologias específicas e, na maioria das vezes, ideologias perigosas. Isto é claro, é uma escolha, que somada a outros problemas que afetam a imprensa e a evolução tecnológica, desde logo, não parece que seja muito positiva para quem a escolheu, mas eles lá sabem, embora tudo isto bem espremido, não pareçam saber muito.
O exemplo do Guardian, "O Wokismo para rir ou chorar" é o título da tua crônica de hoje, Alberto Gonçalves. O Ideias Feitas está de regresso na segunda-feira. Bom fim de semana.
Bom fim de semana, Miguel.