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Como é habitual a esta hora, desfazemos ideias feitas com Alberto Gonçalves. Alberto, boa tarde, boa sexta-feira.

Olá, boa tarde e boa sexta-feira também.

Obrigada.

Alberto Gonçalves. Hoje traz-nos aqui o tema da censura, mas uma censura muito especial, relacionada com a autora dos livros de "Harry Potter"?

Sim, é especial só no sentido que é representativa de muitas outras. O caso é o seguinte: a J.K. Rowling, a autora do "Harry Potter", viu os seus livros serem removidos de uma livraria no Missouri, nos Estados Unidos, porque ela fez no Twitter aqui há um mês ou dois, coisa de um mês, acho eu, uns comentários que seriam eventualmente ofensivos para com as mulheres transexuais. Pelos vistos, a proprietária da livraria enquadra-se nessa categoria e sentiu-se ofendida, que é uma prática muito usual hoje em dia, as pessoas sentirem-se ofendidas por tudo e por nada, e por causa de uma opinião da autora dos livros, resolveu censurar. É um dos verbos que podemos usar. Resolveu retirar os livros de venda, embora gostasse muito dos livros do "Harry Potter" e confessasse ser fascinada por aquele imaginário. Que eu, francamente, nem conheço. Nunca tentei ler, nem ver qualquer filme do "Harry Potter". Nem tenho nenhuma opinião especial sobre a senhora Rowling. Agora, acho curioso. Hoje em dia já começa a não ser curioso, é um hábito este tipo de notícias. Esta notícia em si não tem importância nenhuma, é apenas uma livrariazinha no Missouri. Mas a questão é que se andarmos a correr as notícias nos sites informativos, etc, estas coisas aparecem todos os dias. Um autor que foi retirado aqui porque há dois anos disse uma coisa xenófoba, outro autor que foi retirado acolá porque disse uma coisa racista, etc. Eu acho que estas coisas que vão acontecendo e que vão chocando cada vez mais as pessoas. Eu não sei exatamente qual era a opinião do Vladimir Nabokov sobre os chineses, por exemplo, mas vamos imaginar que não era a mais positiva. Vamos retirar o "Lolita" das livrarias, porque o senhor não gostava de chineses ou não gostava de chop suey, uma coisa assim qualquer. É que se nós formos para trás e usarmos estes critérios de que os autores possam ofender, mesmo que não o façam nas obras em causa, isso já é outra questão, também não faria sentido nenhum, mas as opiniões pessoais dos autores possam ofender qualquer cidadão, nós vamos acabar por retirar tudo o que existe. Vamos retirar os livros todos das livrarias e os filmes quase todos das salas de cinema e as séries quase todas da televisão, etc. Porque não sobra praticamente nada. Sobrará, imagino, umas obras assim, só o "Príncipezinho" e pouco mais. E umas coisas assim muito inócuas e que não tenham qualquer repercussão artística. Porque se nós formos ver a história, eu imagino que os grandes artistas da história, os grandes pintores, os grandes escritores, os grandes músicos, etc, seriam todos, nas suas épocas, comparativamente com os padrões, e sobretudo estes padrões de sensibilização e da ofensa tão fácil que temos hoje em dia, eu acho que toda a gente para trás seria possivelmente racista e possivelmente xenófoba e possivelmente teria uma opinião muito peculiar sobre a eventualidade de ser confrontado com uma pessoa transexual, por exemplo. Não imagino que o Mozart ou o Arquimedes convivessem assim com naturalidade com uma pessoa que fosse transexual. Posso estar enganado, mas imagino que não. Portanto, se as opiniões dos autores ou se cada estranheza que um autor possa revelar face a coisas que alguns de nós podem achar perfeitamente aceitáveis, se isso dever ter impacto na forma como aceitamos a sua obra e possa influenciar a forma como devemos recusar as respetivas obras, então vamos recusar as obras de toda a gente. Eu acho que é melhor já começar a proibir tudo de antemão e fazer ao contrário, depois selecionar umas coisinhas ou outras que não ofendam ninguém e cujos autores nunca tenham ofendido ninguém. Isto, infelizmente, podia ser uma questão portuguesa, porque Portugal é uma espécie de, Portugal em muitos aspetos, não é exclusivamente por este, é um circo e é um lugar cada vez menos frequentável. Infelizmente, isto está a acontecer em toda a sociedade ocidental. Ou seja, nós podíamos queixar-nos do que acontece no país, mas tínhamos outros sítios para onde ir. Agora começamos a não ter, porque o mundo está a ficar num estado de infantilização, porque isto é infantilização, as pessoas queixarem-se que o autor X ou Y disse uma coisa que foi ofensiva e exigir a remoção, a retirada, a censura das suas obras. Isto é um processo, em termos de processo mental, é absolutamente infantil, claro. E um bocadinho autoritário, mas sobretudo infantil. Como vemos, isto está a acontecer em todo o mundo, nós nem sequer temos a opção de pensar: bem, Portugal está mal, mas ao menos temos a Alemanha, ou temos os Estados Unidos, ou temos a Inglaterra, ou a França, ou Itália. Não, isto é um processo que está a ser mais ou menos global. Portugal é apenas mais um caso. De vez em quando aqui também acontecem com regularidade este tipo de histerias e de pequenos escândalos. Mas é uma coisa que está a acontecer em todo lado. Qualquer dia eu presumo que, espero que no Ruanda ou no Nepal, que haja alguma venda mais ou menos livre das obras e que possamos estar expostos às grandes obras da história da humanidade, não sei. Aqui pelo Ocidente começa a ser difícil.

Muito obrigado, Alberto Gonçalves, aqui a desfazer ideias feitas.

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