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"Ideias Feitas", na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo. Obrigado.

E hoje queres falar da morte de Henry Nowak.

Quero, porque acho que se tem falado bem pouco. Para quem não sabe, e há de haver muitas pessoas que estão a ouvir isto e não sabem, Henry Nowak era um inglês de ascendência polaca, mas inglês, de 18 anos, que no dia 3 de dezembro passado, em Southampton, resolveu meter-se com um indivíduo Sikh, que carregava uma faca, ao que parece, e disse-lhe umas coisas enquanto o filmava com o telemóvel, uma coisa um bocado pateta. Disse-lhe: "Tu és um homem mau e não sei o quê. Diz lá que és um homem mau." É a história que corre. Esta parte não está filmada, não está provada, ou está filmada, mas a filmagem não é pública, pelo menos que eu tivesse tido acesso. E o indivíduo respondeu esfaqueando o Henry Nowak cinco vezes. A polícia apareceu. Antes da polícia aparecer, os pais do indivíduo Sikh em causa, não estou a não citar o nome por nenhum motivo, é apenas porque não fixei o nome do indivíduo, ele livrou-se da faca, e queixou-se à polícia de que tinha sido alvo de tratamento racista e que tinha se magoado numa pálpebra. O Henry Nowak com as cinco facadas, naturalmente, estava a agonizar no chão e a polícia fez aquilo que ninguém esperava que algum agente da polícia algum dia fizesse. Os vários polícias que apareceram no local algemaram o rapaz que estava a morrer no chão. O rapaz queixou-se que tinha sido esfaqueado. O polícia disse: "Não parece que tenhas sido esfaqueado." O rapaz queixou-se que não conseguia respirar. O polícia desprezou completamente o assunto e entretanto ele morreu. Só aí lhe tiraram as algemas, tentaram prestar os primeiros socorros, mas evidentemente que os socorros já não adiantaram, porque normalmente os primeiros socorros não funcionam em cadáveres. E tudo isto, já se sabia da história, soube-se agora melhor com a divulgação das filmagens do vídeo da polícia, daquele bodycam que as polícias agora usam, ou algumas polícias usam. Viram-se as imagens, as imagens são absolutamente perturbadoras. Quem quiser ver, pode ver, estão aí disponíveis. E o julgamento foi agora e o assassino foi condenado a uma série de anos de prisão, cerca de 30 anos ou 25 anos, uma coisa do gênero, mas com certeza haverá recursos e haverá uma série de coisas. E tudo isto, saindo um bocadinho do Reino Unido, faz lembrar George Floyd, mas porque tudo isto teve as repercussões opostas às do caso que envolveu George Floyd. Esse acho que não preciso recordar, as pessoas sabem do que se trata e lembram-se, com certeza, do drama que houve em todo o Ocidente, incluindo, ironicamente, no próprio Reino Unido, embora o caso de George Floyd tenha sido nos Estados Unidos. O governo do Reino Unido manifestou-se, o Parlamento manifestou-se, houve manifestações de milhares de pessoas nas ruas, houve homenagens, houve murais no Reino Unido e pelo Ocidente fora. E esse ruído provocado pela morte de George Floyd, que foi asfixiado por um polícia de uma forma absurda, com certeza, foi diretamente proporcional ao silêncio que se seguiu à morte e à divulgação das circunstâncias da morte, sobretudo deste Henry Nowak. Tirando alguns mídia pontuais e as redes sociais, algumas páginas nas redes sociais, durante estes meses que passaram desde dezembro, é como se o Henry Nowak nunca tivesse existido. E este silêncio não é casual. Enquanto a morte de George Floyd, que foi indefensável, era um negro com longo cadastro, mas não há o cadastro que justifique aquela morte, evidentemente. Ele tinha, aparentemente, cometido um pequeno delito, passado uma nota falsa, uma coisa supostamente falsa. A morte dele, dizia eu, deveu-se ao excessivo uso de um polícia, que nem a lei americana, nem o espírito do tempo legitimam. Enquanto isso foi assim, a morte de Henry Nowak está longe de poder ser reduzida à atuação esporádica de uns agentes da polícia, particularmente obtusos. Pelo contrário, a atuação dos agentes bate rigorosamente certo com a lei local e com o espírito do tempo em vigor no Reino Unido. E entre um rapaz branco a agonizar no chão e um rapaz não branco a queixar-se de um arranhão na pálpebra, a polícia tomou imediatamente o partido do não branco e tomou as suas palavras como verdadeiras. Entre a denúncia de racismo impossível de provar no momento e a queixa da outra pessoa que havia sido esfaqueada, a polícia preocupou-se unicamente com a questão do racismo, embora a questão das facadas fosse relativamente fácil de verificar, imagino eu. E este grotesco viés não resulta da perversão dos polícias que acudiram ao caso, porque a perversão está presente todos os dias nas políticas públicas britânicas, que gastam milhões a ensinar a polícia a proteger minorias étnicas, estão presentes nos programas da BBC, na generalidade dos mídia, nas universidades e em todos os lugares que conseguem influenciar a vida de uma sociedade a ponto de a tornar assim absurda. Absurda e não só absurda, absurda e perigosa, insustentável. Não é à toa que o Reino Unido é hoje um dos países do mundo, já estou a inclinar-me para o fim, Ricardo, é hoje um dos países do mundo em que mais pessoas são detidas por discurso de ódio, cerca de 12 mil por ano. São detidas, são interrogadas, às vezes são julgadas e às vezes presas. E não é difícil de adivinhar qual o teor desse discurso de ódio, não é difícil adivinhar que tipo de ideologia decide que o discurso é, de fato, de ódio e que tipo de pessoas são as vítimas desta perseguição desenfreada à liberdade de expressão. Os polícias que algemaram o Henry Nowak e que o deixaram ali morrer, limitaram-se a seguir os procedimentos que o tal espírito do tempo lhes diz ser o mais adequado, que é o mais suscetível de não lhes criar problemas. Eu podia dar uma série de exemplos de polícias que tiveram problemas por agir normalmente. Normalmente no sentido antigo do termo. E mesmo para terminar, embora a culpa seja dos polícias, que na melhor das hipóteses agiram por cobardia, a culpa, claro, repito, não é apenas dos polícias. A culpa é de uma época profundamente doente. Eu ontem falei da França, dos motins, hoje do Reino Unido, mas em toda a Europa Ocidental se nota isto, toda a Europa Ocidental parece estar assim, a caminho de estar assim, à beira de um colapso que não consigo adivinhar para que lado vai pender. Não será nada de bom, isso de certeza que não, mas começa a ser difícil ficar pior do que está.

Até amanhã, Alberto. Um abraço.

Até amanhã, Ricardo. Um abraço.