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Ideias Feitas. Ideias Feitas, sempre com a assinatura do Alberto Gonçalves. Hoje, Alberto, queres falar dos 50 anos dos saneamentos no Diário de Notícias. Olá.
Olá, Vanessa, boa tarde. Quero, porque no ano passado comemoraram-se os 50 anos do 25 de Abril e foram comemorados com alguma pompa e circunstância. Não tenho notado que este ano, e em particular neste verão, se esteja a comemorar os 50 anos do "Verão Quente" e é pena. Por isso, modestamente, tenciono dar o meu contributo e lembrar justamente esse episódio que acabaste de citar. Um episódio que foi ocorrido em agosto, hoje é dia 1 de agosto, portanto, a seguir vou de férias. Acho que é uma boa altura para recordar o mês em que 24 jornalistas, cerca de metade da redação da altura, foram despedidos do Diário de Notícias porque queriam fazer qualquer coisa parecida com jornalismo e não mera divulgação de ideologia leninista. A divulgação de ideologia leninista são palavras minhas e não os argumentos usados então pela direção do DN para despedir os jornalistas em questão. Os argumentos da direção, que como sempre acontece, sempre que há casos de censura, a direção não admitia estar a exercer censura. Os argumentos eram os de que a linha editorial do jornal deveria refletir os interesses do povo e do MFA, o Movimento das Forças Armadas. E que os jornalistas em causa serviam interesses revisionistas, reacionários e conservadores, que a força da revolução pairava acima de tudo e não podia admitir sabotagens, etc. No fundo, à semelhança de quaisquer funcionários de uma ditadura, a direção do Diário de Notícias queria uma redação submissa, completamente, rigorosamente alinhada com as diretivas oficiais, que na circunstância eram as do Partido Comunista Português. Em agosto de 1975, portanto completa-se este mês 50 anos, a direção do DN conseguiu finalmente os seus objetivos e os 24 jornalistas desalinhados foram corridos. O termo na época era saneados. Foram corridos do jornal e o jornal assim pôde continuar a divulgar uma ideologia totalitária até ao 25 de novembro seguinte. Convém lembrar também que quando se fala da direção do DN da altura, estamos a falar, sobretudo, e quase exclusivamente, do diretor adjunto. O diretor formal era um tal João Gomes, que era uma figura, pelos vistos, só ligada ao Partido Socialista e que não terá pesado nos acontecimentos, nem para um lado, nem para o outro. O diretor adjunto era um tal José Saramago, esse sim, decisivo na purga. Alguma bibliografia posterior ainda discute se o senhor Saramago obedecia ao PCP ou se, como garantem alguns, ainda era capaz de ultrapassar punhal pela esquerda. Agora, para o que importa, não faz demasiada diferença apurar se o homem era um fanático igual a outros fanáticos ou um fanático ainda maior. É consensual que foi ele, o senhor Saramago, o grande impulsionador dos saneamentos e por muito que nas décadas seguintes ele e as cliques que o bajularam tentassem omitir o episódio, varrê-lo para debaixo do tapete, o episódio existiu e definiu um caráter. O caráter do senhor Saramago também continuou a definir-se nas poucas ocasiões em que abordou esse caso na longa vida que ele, felizmente, ainda teve. Desde logo, ele jamais mostrou o mais vago arrependimento em relação ao que fez. Com a coragem que caracteriza um determinado tipo de sujeitos, sujeitos como ele, admitiu que houve excessos no PREC, no Processo Revolucionário em Curso, mas em simultâneo justificou os excessos. Justificou sempre os excessos com recurso às convicções, ao contexto, ao compromisso, à necessidade de defender a revolução e, cúmulo dos cúmulos, em matéria de descaramento, à crença na transformação social. Vai-se a ver e o senhor Saramago mandou duas dúzias de desgraçados pro desemprego por pura bondade. A verdade é que naquela cabeça nunca soprou uma brisa de arrependimento ou sequer de vergonha. Dos tempos obscuros do DN de há meio século às glórias inchadas do Nobel, que ele muito apregoou e que muito gostou de ganhar, naturalmente. Mas o senhor Saramago, durante toda a sua vida, envelheceu extremista como sempre, intolerante como sempre. Há quem use a vida para aprender e aprender a melhorar. O senhor Saramago usou a vida para se legitimar ou para se tentar legitimar. E acho que conseguiu os seus intentos. Esta é aquela discussão que se tem sempre em relação ao autor, em relação à obra, se há exemplos em que se tem que fazer um desmesurado esforço para separar a obra do autor, o senhor Saramago é um deles. É um caso flagrante em que para conseguirmos ter uma visão neutra da obra, tem que se extrair da obra, extirpar da obra com força o autor, pra que ele não seja uma mancha, uma sombra nessa mesma obra. Agora, quanto à obra, eu acho, às vezes é derivativa, outras vezes é pomposa. A obra a mim não me interessa, assim, especialmente, nem temática, nem esteticamente, não me é particularmente sedutora. Quanto ao autor, o autor é ou era um comunista. Eu não sei se ele nasceu comunista, mas cresceu comunista e morreu comunista. Para alguns, isto é coerência, é uma proeza, é um feito. Para mim, é um fracasso.
Lembrar Saramago, para o Alberto Gonçalves, o grande saneador. É mais ou menos este o título deste Ideias Feitas.
Acho que é exatamente esse o título, Vanessa.
É, eu que escrevi aqui para o Alberto Gonçalves. Portanto, o título é este: Lembrar Saramago, o grande saneador. Alberto, esta é a última crônica por um períodozinho, porque vais de férias. Chegou a tua vez até dia 18. Bom descanso pra ti.
Vou de férias. Vou, sim, senhor. No Observador não há saneamentos políticos.
Pois é.
Vou apenas de férias e regresso dia 18 de agosto, sim, senhor.
Então boas férias, bom descanso, Alberto.
Muito obrigado, Vanessa. Muito obrigado.
Fica a dizer.
O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.