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Iniciamos a semana no "Ideias Feitas". Alberto, bem-vindo.
Olá, boa semana.
Obrigada. Estamos com Alberto Gonçalves e neste início de semana Alberto Gonçalves quer falar sobre os comentários de Francisco Louçã, num espaço que tem num canal televisivo, neste caso creio que na SIC Notícias, e a propósito também de as fomes provocadas pelo comunismo, isto à boleia de declarações que já tinham sido feitas, não propriamente recentemente, por uma deputada municipal de Lisboa eleita pelo PPM.
Sim, a deputada é a Aline Hall Boyden, espero estar a pronunciar bem, porque ela tem ascendência ucraniana e polaca, e julgo que o nome é do marido, que é holandês e alemão. Ela é deputada municipal pelo PPM em Lisboa. E as declarações julgo que tinham sido feitas quando a União Europeia, o Parlamento Europeu, decidiram equiparar o nazismo ao comunismo, o que é uma evidência, não é nada de especialmente discutível. E o doutor Louçã, salvo erro, na sexta-feira à noite, resolveu recuperar essas imagens para muito simplesmente gozar com elas. O que a deputada municipal Aline Hall tinha dito era que tinha lembrado que aquele mito, e ela referiu-se exatamente como um mito, de que os comunistas comiam criancinhas, tinha um fundamento factual e esse fundamento eram as fomes que o comunismo gerou na União Soviética desde o início da sua implantação. Foram fomes que levaram, em muitos casos, muitas pessoas a recorrer ao canibalismo. E daí vem esse mito dos comunistas comerem criancinhas. Na realidade, os comunistas obrigavam as pessoas a comerem criancinhas e adultos, com certeza, por falta de alternativa, por desespero absoluto. Essas fomes comunistas não foram causadas por nenhum fenômeno externo, nada que fosse exógeno à realidade local. Eram fomes causadas deliberadamente. As fomes eram causadas porque se retirava a comida aos camponeses onde se achava que havia perigo de subversão ou de dissidência para com o regime, e retirava-se a comida às pessoas, os víveres essenciais, e matavam-se as pessoas à fome. Em muitos casos, recorreu-se com alguma frequência e uma infeliz frequência ao canibalismo, na situação mais ou menos compreensível. Há documentação que prova isso tudo, há documentação fotográfica de cadáveres à venda nas ruas. E isto, atenção, não foi só no tempo de Stalin, isto começou logo com o Lênin, porque o Holodomor, que se refere à grande fome ou matar pela fome, que matou 10 milhões de ucranianos, foi no tempo de Stalin, no início dos anos 30. Dez, 11, 12 anos antes, no início dos anos 20, já tinha havido fomes deliberadas sob a liderança e sob as ordens de Lênin. Portanto, isto nem sequer era uma especificidade do Stalin. Agora, dito isto, o doutor Louçã aproveitou o espaço que tem na SIC Notícias para pura e simplesmente brincar com o assunto, gozar com o facto de a senhora aludir à história do mito dos comunistas comerem criancinhas. E o doutor Louçã ria enquanto comentava o discurso da senhora deputada municipal. E o jornalista em questão, que entrevistava o doutor Louçã, também deu uma gargalhada, duas, mais discretas, mas também entrou na galhofa e foi um momento particularmente, se não visasse a morte de muitos milhões de pessoas e o genocídio, o canibalismo a que essas pessoas foram obrigadas em vários casos, aquilo teria uma certa graça. Assim não teve, foi um momento absolutamente repugnante e que a senhora deputada municipal Aline Hall respondeu hoje através de um artigo n'O Observador. Agora eu acho que ela comete um erro, ela acaba o artigo criticando a ignorância do doutor Francisco Louçã. Ora, é impossível que o doutor Francisco Louçã não saiba o que está a dizer, não conheça os factos, porque os factos estão ao alcance de toda a gente. É impossível que ele diga aquilo por ignorância. Ele diz aquilo porque, por um lado, conhece o público a que se dirige, o público que engole as coisas que ele costuma dizer e as opiniões dele. Por um lado, como ele não tem esse público em grande conta, nem esse público se dá ao respeito, não merece ser tido em grande conta. Engole aquelas coisas que ele diz, que é uma mistura de mentiras com delírios, com meias-verdades, muito raramente. E neste caso é um insulto a milhões de pessoas que sofreram o que o comunismo sofreu. O doutor Louçã, como bom trotskista, leninista, comunista em geral, acha que isto tem graça. Ele sabe o que aconteceu, sabe o que foram as grandes fomes provocadas pelo comunismo, sabe o impacto que tiveram, sabe as consequências que tiveram e para ele isto é um motivo de chacota. Não é nada que o aflinja, é algo que ele defende em prol daquelas finalidades, daquelas utopias, daqueles objetivos, daqueles manhãs que cantam, que nunca chegaram a cantar. E para cento e tal milhões de pessoas não cantaram de todo, porque essas pessoas morreram antes. E o doutor Louçã, com a ajuda, não sei o nome do jornalista, do pivô que estava ali a entrevistá-lo, que conheço de vista, de ter visto ocasionalmente na televisão, fizeram ali um momento absolutamente repulsivo. Mais repulsivo do que isto, porque isto passa-se numa SIC Notícias, só vê aquilo quem quer, eu não vejo, felizmente, gosto de preservar a minha sanidade. Agora, mais repulsivo do que tudo é o doutor Louçã ser conselheiro de Estado. E um país que tem um sujeito com estes valores e com estas referências morais, ou melhor, que não tem referências morais absolutamente nenhuma, que as referências dele são o Lênin e o Trotsky e o Stalin, mesmo que ele não admita a parte do Stalin, mas é evidente que, no fundo, simpatiza Um país que tem uma personagem como esta como conselheiro de Estado é um país em que isto já não é nada. Já por muitos outros motivos, Portugal já não está em situação de ser levado a sério. Mas quando o doutor Louçã é um conselheiro de Estado, isto não acontece em mais país civilizado nenhum do mundo, nada de parecido, imagino eu. Não se coloca um sujeito destes absolutamente incapaz de qualquer empatia com o ser humano, um sujeito que goza com o genocídio. Um comediante dizer uma piada sobre o Holocausto ou sobre a grande fome ucraniana, dependendo do contexto, acho que nada está fora dos limites do humor. Acho que o humor permite isso. O doutor Louçã não vai ali fazer humor, porque ele nunca não tem graça, nunca teve graça e não parece achar graça a muitas coisas. Acha graça, em particular, é das poucas coisas que o faz rir, porque o doutor Louçã é muito raro vê-lo a rir, embora seja mais aquele esgar contorcido, mas é muito raro vê-lo rir, vê-lo rir do genocídio. Só para terminar, a Sic Notícias e o Expresso acho que também o empregam, são livres de empregar quem os malucos quiserem. Acho que um maluco ser conselheiro de Estado, uma coisa é termos incompetentes, termos mentirosos, como são os políticos, muitos dos políticos, termos pessoas em lugares de algum destaque com esse tipo de defeitos mais ou menos comuns. O doutor Louçã, eu escrevi isso no título que dou a esta "Ideias Feitas": o doutor Louçã é um sociopata que não tem qualquer espécie de empatia com o ser humano. E uma pessoa como essa estar num Conselho de Estado define o Conselho de Estado e define o presidente que escolhe pessoas como estas para o Conselho de Estado.
Obrigado, Alberto Gonçalves. Hoje o Alberto Gonçalves a desfazer ideias feitas à boleia dessas declarações de Francisco Louçã, no espaço de comentário na Sic Notícias, em que recuperou esse discurso de novembro de 2019, da deputada municipal e vice-presidente do Partido Popular Monárquico, sobre esse período negro da história universal, a partir do qual nasceu o mito confundo de verdade de que os comunistas comiam crianças. Foi desta forma que se expressou Aline Biovik depois também de em 2019 o Parlamento Europeu ter aprovado essa resolução que coloca em pé de igualdade o nazismo e também o comunismo.
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