Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Desfazemos ideias feitas. Conosco já está o Alberto Gonçalves. Já Alberto, bem-vindo. Boa tarde!
Obrigado. Boa tarde.
Olá, Alberto. Bem-vindo.
Olá, Ricardo.
E hoje queres comentar as declarações de Marta Temido sobre a resiliência dos médicos.
É verdade, está nas redes sociais. Eu tinha pensado num outro tema. Entretanto, tive de mudar, porque realmente não parece falar-se de outra coisa, e com razão. Os médicos já tinham sido alvo de um insulto do primeiro-ministro, que em off, durante uma entrevista, lhes chamou cobardes. A alguns médicos específicos, por causa de um surto num lar, já não me lembro onde, mas foi no início da Covid. Depois, num momento de cinismo daqueles de que o doutor Costa, eu ia dizer de que só o doutor Costa é capaz. Não, há outras pessoas capazes também, mas de que o doutor Costa é capaz. Num momento de cinismo assim, ofereceu aos médicos, como prêmio pelo esforço na luta contra a Covid, a final da Liga dos Campeões, salvo erro. Uma coisa desse gênero. Agora hoje tivemos a senhora Ministra da Saúde, que só por si merecia vários Ideias Feitas e merecia coisas muito mais nobres do que o Ideias Feitas, merecia ensaios acadêmicos sobre aquela figura, merecia uma série de coisas. E ela hoje veio dizer que os médicos que se têm demitido em barda, e outros que se preparam, que provavelmente preparam para se demitir, e depois do que ela disse hoje, ainda haverá mais médicos a preparar essa demissão. Tudo isso se deve não à falta de condições ou a salários baixos como alguns alegam, ou como a generalidade dos médicos alega, mas apenas à falta de resiliência. Esta é a expressão que a senhora ministra usou, resiliência. Usou a palavra no sentido figurado. Talvez ela não saiba disso. A palavra vem mais da dinâmica da engenharia dos materiais, da dinâmica dos materiais, da física. Ela usou no sentido figurado, falta de resistência.
É uma palavra muito comum nestes dias.
Hoje em dia tornou-se habitual, sim, é usada neste sentido. Resiliência acho que é, isto não tem interesse nenhum, mas quando um objeto é deformado e volta à sua forma inicial. Mas ela usou no sentido que as pessoas normalmente costumam usar. Não é a palavra que está em causa, é a acusação. Ela está a acusar os médicos de serem preguiçosos, não trabalharem o suficiente ou não terem capacidade de trabalho suficiente. Isto é uma coisa, também não vou dizer que é inédita, mas anda lá perto. E não admira que o governo faça questão de que o assunto Covid seja praticamente o único assunto existente. E o governo reza todos os dias para que a Covid nunca deixe de abrir os jornais e enfeite as manchetes dos jornais. Tudo isso, porque a Covid dá muito jeito ao governo por vários motivos e um dos motivos permite à senhora Ministra da Saúde responsabilizar o vírus pela destruição do Serviço Nacional de Saúde que este governo tem patrocinado. O governo tem destruído o SNS e de várias maneiras e através de várias maneiras. Isto por fanatismo ideológico, por uma visão estatista do sistema de saúde, através de puros cortes. E depois os médicos queixam-se. E queixando-se, quando o grau de insatisfação de um profissional, no caso um médico, é mais forte do que a sua capacidade de aguentar o serviço que está a desempenhar ou o emprego que está a ter, o médico vai embora. E vai embora com mais facilidade do que vão pessoas de outras profissões. É preciso dizer isto, porque haverá médicos bons, haverá médicos maus, com certeza, como em qualquer profissão, há médicos preguiçosos, médicos esforçadíssimos, com certeza. Agora, eles saem da profissão com mais facilidade, da profissão não, desculpe-me, do emprego, com mais facilidade do que pessoas que trabalhem noutras funções, porque possuem competências úteis no mercado concorrencial, como é lógico, e seja dentro do país e seja até, sobretudo, fora do país. Um médico tem facilidade de encontrar emprego ou relativa facilidade ou comparativa facilidade de encontrar emprego em qualquer parte. Se está num emprego em que não se sente valorizado e que tem que trabalhar em condições que acha deploráveis, vai-se embora. Não está para aturar isto e, a meu ver, acho que faz muito bem. No caso de um médico que sentisse que as suas condições de trabalho não eram minimamente suficientes, também iria à minha vida, com certeza.
E tu achas, peço desculpa por te interromper, Alberto. Tu achas que a Marta Temido também é resiliente ou não?
A Marta Temido tem sido de uma resiliência imensa, é imensamente resiliente. Aquela senhora aguentar, não é aguentar o esforço que alguns media promoveram no início da Covid. Esta senhora é uma heroína. Não, alguém conseguir aguentar que esta senhora seja Ministra da Saúde ou que esta senhora se consiga aguentar a Ministra da Saúde, depois de demonstrada a sua imensa incapacidade para desempenhar o cargo, é de uma resiliência, se quisermos usar a palavra, Ricardo, notável. Mas eu estava, só para completar, eu estava a dizer que, portanto, no meio desta questão toda, eu não tenho especial pena dos médicos. E alguns foram muito injustiçados, com certeza, não digo todos, mas muito injustiçados por estas declarações da doutora Marta Temido. Eu tenho pena das pessoas, tenho mais pena ou sobretudo pena das pessoas que não têm alternativas ao Serviço Nacional de Saúde. Leiasse condições de aceder a seguros, a hospitais privados. E essas pessoas adoecem, não são diagnosticadas. Se a doença for grave, podem morrer. E muitas têm morrido por falta de cuidados médicos. Naquilo que alguns continuam a dizer que é o melhor serviço nacional de saúde do mundo. Isto também parece com a oferta da Liga dos Campeões do doutor Costa, já entra no cinismo puro. Portugal tem assistido, neste período da Covid, tem assistido a sucessivos momentos de excesso de mortalidade. Eu já não gosto quando as pessoas dizem isso, todos os jornais dizem, todas as televisões o fazem. Acho que não fazem por mal, mas acho que é um desrespeito Quando se diz que hoje estamos a lamentar mais 12 mortos por Covid. Não, se estamos a lamentar mortos, o país está a lamentar cada dia 300 e tal mortos. E todas as mortes são lamentáveis, não são apenas as mortes por Covid, todas são lamentáveis. O problema é que algumas mortes são evitáveis. E eu acho que as mortes evitáveis, que o desinvestimento ou a atitude deste governo para com o SNS tem causado, são mais numerosas do que as mortes diretamente por Covid. E estou a falar daquelas mortes por Covid, mesmo em casos em que foi a Covid a provocar uma doença grave numa pessoa relativamente saudável e a fazê-la morrer. Não estou a falar em casos, são pessoas na mesma, evidentemente, mas quando uma pessoa tem 92 anos e morreu com Covid e tinha uma série de doenças associadas, o caso tem que ser relativizado. Agora, há pessoas que adoeceram em todas as idades, que não foram diagnosticadas, que não foram consultadas, que não foram operadas e tudo isso não por causa da Covid. A Covid serve para o governo se desculpar, mas por causa da ação do governo no Serviço Nacional de Saúde. E quando as pessoas têm acesso a meios privados, tratam-se por aí, evidentemente. E quem tiver ainda mais possibilidades, trata-se no estrangeiro, onde puder. Aqui em Portugal, quem depende do Serviço Nacional de Saúde, e eu que não gosto da coisa pública em geral, acho que a questão da saúde é importante.
Temos de fechar, Alberto.
Ok. Acho importante que se assegure a saúde de quem não tem meios de aceder a outras formas privadas, etc. Isso tem sido culpa deste governo e em particular, porque é quem dá a cara pelo governo da doutora Marta Temido, e esta senhora merecia ser responsabilizada por isso e responsabilizada às últimas consequências. Acho que a demissão não é o bastante.
Opinião de Alberto Gonçalves, que todos os dias ao final da tarde desfaz na Rádio Observador ideias feitas.
Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto