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A desfazer ideias feitas Está aberto o espaço de comentário do Alberto Gonçalves, Ideias Feitas, edição de 4 de setembro. Alberto Gonçalves, queres falar das reações ao acidente com o Elevador da Glória?

Olá, boa tarde. Sim, acho que o assunto é incontornável e é evidente que não vou fazer qualquer análise à tragédia de ontem. Não tenho habilitações para isso. Eu suponho que os mídia já estejam atafelhados de especialistas autênticos e de especialistas instantâneos em elevadores, funiculares, engenharia mecânica, informática e tal. Os especialistas só não ocupam todo o espaço público em volta do assunto, porque também apareceram logo os abutres. E quando digo que os abutres apareceram logo, não estou a exagerar. Ontem ainda se contavam os mortos e os feridos, ainda não havia sequer uma noção do número respectivo, e já as redes sociais, e não só, se enchiam de gente a culpar, mais ou menos discretamente, a autarquia e a culpar francamente a privatização da manutenção de quem cuidava da manutenção do Elevador da Glória. Antes de mais, convém dizer que, salvo raras e deploráveis exceções, os líderes partidários, ao que vi e ao que li, foram bastante contidos e decentes nas declarações que fizeram a seguir ao desastre. Se vão continuar a manter a contenção e a decência, isso vamos ter que esperar para ver. Mas, de qualquer maneira, os abutres e aqueles de que falo aqui não são necessariamente políticos, são com frequência anônimos que usam a tragédia para fins políticos e que saltam para cima do sucedido para desgastar, no caso, os senhores de quem manda na Câmara de Lisboa, e ganhar uns pontos, eventualmente, nas eleições que são já a seguir para o partido ou partidos com que simpatizam e para as ideologias que abraçam. É uma estratégia legítima, mas não é uma estratégia propriamente bonita. E nem sequer tenho a certeza de que seja uma estratégia eficaz. É que a pressa com que correm, com que correram a culpar o engenheiro Carlos Moedas é tanta, que não disfarça uma certa e um pouquinho desagradável impressão de que não ficaram propriamente incomodadas com o acidente, e sim quase satisfeitas por o acidente ter acontecido. O mais provável é que a impressão seja errada e não quero estar a dizer que houve pessoas contentes com o desastre que matou 17 ou 18 infelizes, mas a urgência e até o entusiasmo com que aproveitam a oportunidade para distribuir responsabilidades é tanta, que se pode criar essa impressão. A partir do princípio que a impressão é errada. Dito isto, também não quero sugerir que as responsabilidades não existam. Diretas, indiretas, claro que existem, claro que afetam em primeira instância a empresa que cuida da manutenção e em última instância o presidente da Câmara. E claro que o presidente da Câmara deve assumir essas responsabilidades e, no limite, pode inclusive ponderar a demissão. Mas isso é com ele e é outra questão. A questão de que queria falar aqui é que custa ver não só o aproveitamento dos tais abutres, como custa ainda mais constatar que muitos dos abutres já apoiaram, por exemplo, o exato poder autárquico que assistiu em 2018 ao descarrilamento anterior do Elevador da Glória e que na altura foi atribuído, estou a citar, "a uma falha grave de manutenção", e que na altura também, infelizmente, só não friu nem matou ninguém por mero acaso. E quem diz o Elevador da Glória, diz outras tragédias, que as tragédias em Portugal infelizmente não se limitam a este veículo em particular. Tragédias municipais, tragédias nacionais, que têm acontecido e que aconteceram sob outras tutelas, sem que aqueles que hoje são implacáveis a pedir cabeças e responsabilidades, na altura dessem sequer um pio. É redundante dizer, claro, que o acidente de ontem foi muito triste, não devia ter acontecido. Agora, talvez não seja redundante lembrar que quase tão triste é o modo como em Portugal a vida e a morte das pessoas e, sobretudo, estas questões mais noticiadas, mais públicas, a vida e a morte das pessoas são desvalorizadas em prol dos benefícios que podem trazer para os partidos que alguns apoiam, sejam os partidos quais forem, ou para as ideologias que alguns defendem, sejam as ideologias as que forem. Se amanhã, salvo seja, descarrilar um comboio da CP ou cair um avião da TAP, vamos todos culpar o Estado por isso? Ou vamos descobrir que a manutenção dos comboios e dos aviões afinal tinha sofrido um outsourcing qualquer e então aproveitamos para culpar o neoliberalismo e não sei o quê mais? Eu penso que não, ou pelo menos que não devemos fazer. Eu sei que há por aí uns excêntricos, isto agora parece que é despropósito, mas não é. Há por aí uns excêntricos que não pararam de tentar atribuir cada morte súbita ou não tão súbita que acontece no dia a dia à vacina para a Covid. Qualquer pessoa que morre e que a morte não seja absolutamente clara e explicável, foi com certeza a vacina. Mas é uma maluquice semelhante também atribuir a tragédia de ontem ao processo de privatização da empresa que cuida da manutenção do elevador, e não à empresa específica que tratava da manutenção, como se se pudesse garantir que o elevador jamais sofreria um acidente se estivesse nas mãos de funcionários da Carris. Na verdade, é mais do que uma maluquice, é uma espécie de doença que leva a reduzir a existência humana em geral e social a meras oposições: público/privado, Estado/indivíduo, capitalismo/socialismo, etc. Estas oposições são reais, existem, são aplicáveis a muitas coisas, mas não são aplicáveis a tudo. E aplicá-las a pretexto de um acidente fatal é uma coisa grotesca, que não diz absolutamente nada sobre o acidente e diz alguma coisa, ou bastantes coisas, sobre quem o pratica.

Alberto Gonçalves, com essas reações ao acidente do Elevador da Glória que aconteceu ontem durante a tarde. Alberto, até amanhã.

Até amanhã, Miguel.

O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.

Está com a Rádio Observador, está com a Tarde Política, hoje numa versão alargada. Dedicamos esta hora ao acidente com o Elevador da Glória. Vamos seguir com várias entrevistas até às 20h. Falamos nos próximos minutos das investigações que estão em curso por parte das autoridades para perceber aquilo que aconteceu com este elevador. Vamos já a seguir entrevistar o ex-presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público