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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo. Hoje queres falar do Nobel da Paz atribuído a Maria Corina Machado.

Olá, Ricardo. Nobel ou Nóbel? Eu costumo dizer Nobel.

Posso parecer um pouco presunçoso, mas acho que a pronúncia correta é Nobel.

Pronto! Eu sei que a notícia já tem alguns dias, mas a entrega do Nobel da Paz à senhora Maria Corina Machado, líder da resistência venezuelana, teve o que se lhe diga, no sentido em que houve muita gente a dizer coisas extraordinárias. E nem o fato de a senhora ser, pelos vistos, uma remota descendente de portugueses, que noutras ocasiões costuma despertar o nosso patriotismo, serviu para atenuar o rancor que muitos dedicaram ao prêmio, ou pelo menos algum mal-estar. Para o comitê norueguês do Nobel, Maria Corina Machado recebeu o prêmio, e cito: "Pelo seu trabalho incansável a promover os direitos democráticos para o povo da Venezuela e pela sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia." Nada a dizer, evidentemente, no meu caso. Outros disseram coisas e tiveram opiniões muito diferentes sobre este prêmio. Um jornal português, por exemplo, reproduziu aquilo que viu escrito em diversos jornais estrangeiros e afirmou que o Nobel de Maria Corina foi ganho contra Trump. É estranho que isso tenha acontecido, já que a senhora até agradeceu explicitamente a Donald Trump, publicamente e também através de um telefonema privado, e depois num post no X. Maria Corina Machado dedicou o prêmio ao povo venezuelano e a Trump pelo apoio decisivo à causa da liberdade da Venezuela. E Trump reproduziu esse post na sua rede social, a Truth. Como os noruegueses notaram, e pelos vistos alguns portugueses não repararam, Maria Corina Machado ganhou o Nobel contra a ditadura de Maduro, não contra Trump. Depois, uma televisão portuguesa, julgo que a SIC, começou por alinhar com a história de que o prêmio fora uma afronta a Trump, mas depois, confrontada com a realidade, resolveu adotar uma outra realidade ainda e subordinou a notícia a duas informações relevantíssimas: que Maria Corina Machado tinha discursado numa conferência de extrema-direita e que Maria Corina Machado é admiradora de Donald Trump, o que para a redação da SIC devem ser critérios tenebrosos que despromovem qualquer pessoa à condição de sub-humana. Mas mesmo assim, em Portugal aconteceu isto e outras coisas, mais ou menos deste teor. De alguma maneira, em Portugal ninguém foi tão longe quanto o ex-líder do bloco de esquerda espanhol, o Podemos, aquele moço com rabicho, o senhor Pablo Iglesias, que afirmou que para darem o Nobel da Paz a Maria Corina, mais valia que o tivessem dado a Trump, e não estou a inventar, juro, ou a Hitler. Portanto, Trump é igual a Hitler, Maria Corina Machado é igual a Hitler e a bem ver toda a gente de que o senhor Pablo Iglesias e a extrema-esquerda em geral não gostam é igual a Hitler. A sofisticação do pensamento desta gente é avassaladora. Já a esquerda que se senta no Parlamento espanhol e que desgraçadamente ainda manda em Espanha, não comparou Maria Corina a Hitler, embora provavelmente tivesse vontade de o fazer, mas andou lá perto. Hoje, um mero pedido de aplausos ao Nobel da Paz a esta senhora venezuelana, a cargo de uma deputada do PP espanhol, foi ignorado pelo governo, pelo PSOE, pela esquerda radical e surpreendentemente, até pelo Vox. A antipatia daquela gente por uma autêntica democrata ficou bem clara. E de resto, essa foi uma das maiores virtudes deste Nobel, além de dar outra visibilidade e, espera-se, proteção à Maria Corina Machado, que bem precisa dessa proteção. As reações ao prêmio permitem confirmar com razoável clareza quem está do lado da democracia e quem mais ou menos assumidamente defende ditaduras. Eu ia deixar uma palavra final para falar do extremo oposto, o extremo da falta de clareza. E nesse âmbito podia referir o professor Marcelo, que se mostrou muito contente com este prêmio, mas que já venerou Fidel Castro e que convive alegremente com o senhor Lula, que é aliado de Maduro e inimigo de Maria Corina Machado. Mas sobre a coerência ou a relevância do professor Marcelo, acho que não vale a pena dizer nada.

Obrigado, Alberto. O "Ideias Feitas" regressa amanhã à Rádio Observador. Um abraço, Alberto.

Um abraço, Ricardo.

O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.