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"Ideias Feitas", na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Alberto, queres olhar aqui para a acusação do Ministério Público a Isaltino Morais, autarca de Oeiras, por causa dos famosos almoços? Olá.

Quero, sim, senhora. Olá, Vanessa. O Ministério Público ficou alvoroçado com os gastos em almoços do Dr. Isaltino. Pelos vistos, ele é suspeito de ter pago com dinheiros públicos 1441 refeições, com custo total de €150 mil. Isto dá cerca de €104 por refeição. Isto não é exatamente o prato do dia, com certeza, mas acho que o folclore e o pequeno escândalo que se faz à volta disto desvia a atenção do essencial. Eu já lá vou, ao essencial. Antes disso, vou ao acessório. Sobre o Dr. Isaltino, apetece-me recordar um episódio que já tem uma data de anos. Uma vez escrevi, no "Sábado" ou no "Diário de Notícias", uma crônica em que falava dele e previa que pelo andar da carruagem, dado os acontecimentos que estavam a envolvê-lo na altura, ele seria preso. E pouco depois recebi do Dr. Isaltino uma carta em papel, e salvo erro, era papel timbrado da própria autarquia, a refutar os meus argumentos e a insinuar que me poderia processar ou coisa do gênero. Não sei os termos exatos porque não guardei a carta. Segundo ele, eu não tinha qualquer fundamento, nem eu nem ninguém, para pôr sequer a hipótese da sua prisão. E uns meses depois, o Dr. Isaltino foi de fato preso e não me processou, escusado dizer. Dito isto, acho que isto é uma prova de que não estou aqui para defender o homem, mas vou dizer umas coisas que talvez possam ser interpretadas, embora mal interpretadas, como uma defesa do homem. É verdade que o dinheiro dos contribuintes portugueses ou europeus, porque há muito dinheiro dos fundos e dessas coisas todas, dos fundos de coesão, que vem parar às câmaras, esse dinheiro não devia ser usado em pândegas gastronômicas e, segundo me garantiram que o Dr. Isaltino faz, eu não conheço, na promoção de determinados restaurantes. Acho que ele faz uns vídeos para falar de uns restaurantes e tal, aqui é que se come muito bem, acolá também se come excelentemente e por aí fora. Mas pelo menos o Dr. Isaltino mostra que o faz e garante ainda que o faz dentro da legalidade, mas mostra que o faz, não esconde, muito pelo contrário. E há casos bem piores e dissimulados, que não mostram. Eu sei, por exemplo, de um município, não vou dizer qual, mas é um município que me é muito mais próximo que Oeiras, onde os senhores e as senhoras autarcas frequentam os restaurantes locais e saem sem pedir a conta e obviamente sem pagar a conta. E os proprietários não dizem nada com medo de que venham a ter problemas com a autarquia, que pode, como se imagina, destruir-lhes o negócio sem grande dificuldade. E ainda assim estamos apenas a falar de comes e bebes, porque em 300 e tal concelhos é capaz de haver exceções, mas a verdade é que o nosso estimadíssimo poder local se define quase exclusivamente pela capacidade de, com ou sem benefício próprio, mais lagosta, menos lagosta, mais almoço, menos almoço, a capacidade de estrafegar o dinheiro dos cidadãos em desígnios quase sempre legais e quase sempre injustificáveis. Eles são rotundas, ele é arte pública, que normalmente é aquele monte de entulho que se despeja em cima das rotundas, eles são concertos de músicos que ninguém pagaria do seu bolso para assistir, mas a autarquia paga e algumas pessoas sempre assistem porque acham que é de borla. Eles são pavilhões multiusos, sem uso nenhum a não ser aqueles sertanes fascinantes que se organizam lá dentro. Ele é construção e manutenção de estádios vazios, de complexos desportivos. Conheço complexos desportivos em municípios que têm aí 3 mil habitantes e nunca está lá ninguém, evidentemente. Há gastos também em foguetório, foguetório literal, fogo de artifício e tal, às vezes, ou foguetório metafórico, outro género, de festa ou de pândega. Há obras redundantes ou sem sentido, que com frequência existem apenas para cumprir as famosas taxas de execução. Há contratação crescente de novos funcionários só para garantir votos. Enfim, a lista de abusos, e conforme diz o Ministério Público a propósito do Dr. Isaltino, de prováveis casos de peculato e abuso de poder, precisaria de três ou quatro Ideias Feitas só para ser enumerada de forma genérica. Eu não quero com isto dizer que o Dr. Isaltino não deva ser investigado, claro, quero dizer que é absurdo e talvez um bocadinho contraproducente focarmo-nos em casos individuais e não ter consciência de que o problema não é o Dr. Isaltino, é o poder local e a forma relativamente solta e livre como esse poder é exercido em Portugal. O que acontece entre nós, e continuo a ressalvar a possibilidade de haver exceções, tenho esperança que as haja, é que o poder local é uma multiplicação, e uma multiplicação por centenas de vezes, dos vícios do poder central, para como sujeita a um escrutínio muito inferior. Nos casos, como no caso de que estamos a falar, o vício é a gula, noutros casos são outros vícios. Eu nem sequer me atrevo a desenvolver excessivamente a minha opinião sobre as autarquias, sobre a utilidade das autarquias, senão depois vão-me chamar de extremista ou anarquista ou coisa parecida. Eu digo apenas que a minha opinião é contrária da opinião da esmagadora maioria dos munícipes portugueses, dos cidadãos portugueses, que costumam apreciar o modo como os respectivos autarcas gastam os dinheiros públicos, fundos da União Europeia incluídos, volto a notar, mas são dinheiro na mesma. E os munícipes de Oeiras apreciam o Dr. Isaltino como os munícipes do resto do país apreciam os sujeitos que elegem. Se é isto que o povo quer, é isto que o povo tem. É que no fundo, se formos a ver, é um arranjo absolutamente perfeito e democrático, e a minha opinião sobre o assunto, para além de não ter peso, porque é apenas a minha opinião, até poderia ser considerada um bocadinho antidemocrática. A democracia é a vontade do povo, e a vontade do povo é ter os Isaltinos todos que temos por aí.

"Os almoços de Isaltino e os abusos dos outros" é o título deste Ideias Feitas, sempre com a assinatura do Alberto Gonçalves. Alberto, até amanhã.

Até amanhã, Vanessa.