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Desfazemos ideias feitas como é habitual. Está conosco o Alberto Gonçalves. Alberto, bem-vindo.
Olá, boa tarde.
Olá, boa tarde, Alberto Gonçalves. E neste início de semana, o Alberto Gonçalves quer falar sobre um tema que marcou também o final da semana passada, o caso em França, neste caso nos subúrbios, nos arredores de Paris, de um professor que foi decapitado.
Sim, mas queria começar por falar ou mencionar os temas dos quais não vou falar propriamente. Estive para falar da vacina da gripe que o professor Marcelo foi tomar, ao contrário das pessoas comuns.
Logo pela manhã, bem cedo?
Logo pela manhã e acho que a maioria das pessoas não faz isso, não leva as câmaras de televisão com elas, não as levam e sobretudo também não se despem para tirar a vacina. Li algures que o professor Marcelo se terá despido para tomar uma vacina da gripe. Presumo que não seja necessário, nunca tomei a vacina da gripe, mas presumo que não seja necessário. Mas alguém escreveu que provavelmente assim a imagem fica mais forte e corre mais por aí, que é o intuito dele. De qualquer maneira, é mais um daqueles mini espetáculos em que o nosso presidente da República é exímio. Depois também estive para falar, mas também não valia especialmente a pena, porque não é surpresa nenhuma, do entusiasmo da nossa esquerda com o putativo regresso do Evo Morales à Bolívia, porque um ex-ministro dele ganhou as eleições e o Evo Morales, que subverteu por completo a Constituição boliviana e se perpetuou no poder ou se preparava para perpetuar no poder, agora vai poder voltar a fazê-lo depois de uma breve interrupção. E a Bolívia vai poder continuar o rumo de miséria em que vivia. E a nossa esquerda celebra, fica muito contente com isso e para a nossa esquerda o Trump é que é o mal. E todos nós sabemos que se o senhor Trump perder as eleições, como até parece que provavelmente vai perder agora daqui a dias, toda a gente sabe que o senhor Trump sai do poder pacificamente, que não mandará a tropa pra rua ou tentará fazer qualquer coisa semelhante. Também não vou falar nas universidades de Stanford e de Warwick que proibiram a conferência de um Nobel da Física porque o senhor em causa tem umas opiniões um bocadinho dissonantes do normal em relação à gestão pública da Covid-19. Ou seja, isto prende-se com aquele movimento que há agora da cultura de proibição, do cancel culture. Infelizmente, teremos oportunidades para falar disso noutros programas, noutras alturas, mas também parece que a Covid-19 também já alcançou aquele estatuto religioso e incontestável, por exemplo, das alterações climáticas ou das identidades de género, ou pelo menos das formas como lidar com a identidade de género, que parece que dá sempre um pensamento único que define todas essas questões. Parece que a Covid-19 também já atingiu essa espécie de estatuto religioso. Por falar em religião, e é o assunto que me traz aqui hoje, é a questão do professor francês que mostrou umas imagens de Maomé aos alunos e Maomé não pode ser mostrado em imagem e teve o natural castigo que foi ser decapitado por um terrorista islâmico ou por um devoto de Maomé mais entusiasmado ou mais zeloso. Não é uma novidade, é mais uma tragédia que soma tantas outras tragédias que já nem são notícia na Europa atualmente. A novidade aqui, para mim não era novidade este tipo de comparação que eu vou citar a seguir, é o facto de uma jornalista portuguesa, a Fernanda Câncio, cujo principal item de currículo é ter sido uma pessoa muito próxima do engenheiro Sócrates e nunca descobriu que o engenheiro Sócrates estava envolvido numa série de trapalhadas. Para jornalista, não é um grande currículo, mas a senhora Fernanda Câncio comparou o terrorista ao pai, àquele senhor de Famalicão, que proibiu os filhos de frequentar as aulas de Cidadania e Desenvolvimento, ou lá como é que se chama. Mais uma vez, ela falhou redondamente e a capacidade dela de discernir a realidade. Não vale a pena muito comentar este tipo de comparação. É tal modo absurda, não faz qualquer sentido. Faz sentido notar que o que se passa é justamente o contrário. O pai de Famalicão é que é comparável ao professor decapitado, porque ambos casos se prendem com a liberdade de expressão. Num caso, um pai não quer que os filhos frequentem ou que sejam submetidos a um evangelho qualquer, seja ele qual for determinado. A escola é para ensinar língua e matemática, etc. Não é para dizer às crianças como se devem comportar no mundo. E o pai tem todo esse direito. O professor em causa estava apenas a-- presumo que ele não tenha faltado ao respeito em circunstância nenhuma e se faltou, também o tipo de castigo em causa é absolutamente desproporcionado. O professor estava a falar de História, presumo, ou de Religião, Teologia. Eu não vou fazer essa comparação, mas se eu tivesse a falta de escrúpulos da senhora Fernanda Câncio faria, que forçar as criancinhas a submetê-las a evangelhos com os quais as famílias não concordam e que são altamente duvidosos e discutíveis, é que é mais ou menos semelhante ao tipo de intolerância que os terroristas islâmicos revelam. Mas repito, não estou a fazer esta comparação. Apesar de tudo, é diferente chatear as criancinhas com aquecimento global do que decapitar uma pessoa. Faz toda a diferença e essas comparações não deviam ser feitas e há pessoas que têm voz em espaço público, não há outra maneira de dizer isto, não sabem o que dizem.
Obrigado, Alberto Gonçalves. Alberto Gonçalves neste início de semana a desfazer ideias feitas à boleia desse caso que chocou a sociedade francesa na última sexta-feira.
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