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Sejam então bem-vindos a este "Nem Tudo o que Vai a Rede é Bola" com Bruno Roseiro, Mariana Fernandes e comigo, Gui Nabal Rebelo. Na segunda parte deste programa, vamos falar dos sorteios das competições europeias, com destaque para o da Liga Europa. Vai estar aqui conosco o antigo internacional português Jorge Costa. Vamos falar também com ele sobre a carreira e qual o futuro como treinador. Mas antes dessa conversa, vamos ao que ditaram, para já, os sorteios europeus para as equipes portuguesas. Mariana Fernandes, temos o sorteio da Liga Europa definido. Explica-me o que aconteceu com a Liga dos Campeões. Eu dei aqui a notícia há bocadinho, isto saiu aqui na última hora. Foi adiada, temos aqui problemas informáticos, ninguém ali na UEFA estava a olhar para o que estava a acontecer naquela troca de bolas.
É muito esquisito. O que a UEFA diz que aconteceu, pelo menos à partida, foi um erro informático no servidor externo, que informaticamente, obviamente, consegue associar, em termos de bolas, em termos informáticos, os oponentes que podem ou não cruzar-se. Portanto, aqui nesta altura tínhamos estas indefinições de que algumas equipes não se podiam cruzar com outras por terem estado no mesmo grupo. Duas dessas equipes eram o Liverpool e o Atlético de Madrid, que até eram do grupo do Futebol Clube do Porto. Aquilo que aconteceu é que sai a bola do Atlético de Madrid e a seguir sai a bola do Liverpool, algo que não poderia acontecer. A partir daí, o sorteio decorreu de forma aparentemente normal. Existia já um erro anteriormente, porque tinha acontecido o mesmo com o Manchester United e o Villarreal, que também tinham estado no mesmo grupo, portanto também não poderiam defrontar-se. E percebe-se a partir daí que foi exatamente esse o erro, existindo até um problema informático, porque as cores com que as equipes estavam definidas no ecrã que estava atrás das pessoas que estavam a fazer o sorteio, estava claramente trocado entre estas equipes, entre Liverpool e Manchester United e entre o Villarreal e o Atlético de Madrid. O sorteio decorreu de forma aparentemente normal até ao fim. A verdade é que o Atlético de Madrid, logo depois do sorteio, e é preciso também destacar que o Atlético de Madrid não teve um sorteio propriamente favorável, emparelhou com o Bayern de Munique, logo depois do sorteio, diz que estava então em conversações com a UEFA para perceber o que se tinha passado e para perceber que erro tinha ocorrido. Entretanto, a UEFA faz este comunicado, de forma até bastante célere, portanto as coisas aconteceram de forma bastante rápida, assumiu o erro, explicou então que foi acerto no servidor externo e que o sorteio será repetido, em caso da hora portuguesa, a partir das 14h. O Real Madrid, entretanto, já fez saber que considera que não deve ir a sorteio, o Real Madrid e o Benfica, isto porque o erro ocorre depois de estar definido o primeiro jogo. Ora, nesse primeiro jogo ainda não tinha acontecido nada, quando fica decidido que é Real Madrid e Benfica que se vão enfrentar, ainda não tinha ocorrido nada. Portanto, a verdade é que esse sorteio, esse emparelhamento foi bem feito, não ocorreu nada. Mas o que a UEFA diz, não indo a nenhum caso específico, o que a UEFA diz neste comunicado é que o sorteio foi completamente anulado e será repetido. Portanto, à partida, não existirá aqui margem de manobra para que o Benfica e o Real Madrid se cruzem, pelo menos não, que a sorte não volte a ditar que se cruzem mesmo.
Com essa reação do Real Madrid, ficamos a saber que ficaram contentes com o sorteio, Bruno Roseiro.
Sobre isto só tenho a dizer uma coisa, que é: se o Benfica, que neste caso até nem podia, mas se o Benfica e o Sporting tivessem tocado com o Bayern, era um erro, azar. Como foi o Atlético de Madrid que tocou com o Bayern, foi um erro informático do servidor externo, vamos repetir. Ponto.
A informática tem umas costas largas, caramba. Bom, e destes erros milionários, vamos para o circuito dos milhões.
Também não é isento deles.
Eu gostei agora deste risinho. Vamos falar de Fórmula 1. Antes de irmos aos erros, foi uma grande corrida ontem.
Sim.
Vamos já começar pela parte desportiva.
Vou agarrar e copiar o chavão que mais se ouviu. Se os senhores que escrevem o "Drive to Survive" procurassem o melhor final, acho que por muito que tentassem, não conseguiam fazer um argumento como aquele.
Só uma pergunta: Verstappen vai participar neste "Drive to Survive"? É que havia essa indicação de que ele, eventualmente, no deste ano, não queria participar, pela forma como foi maltratado no ano passado. Há alguma indicação nova, fazem ideia?
Não, creio que não.
Nesta altura, acho que é bar aberto, literalmente.
Acho que diz que sim a tudo.
Acho que é literalmente bar aberto. Acho que, sobretudo, o grande vencedor ou a grande vencedora é a Fórmula 1. Acho que há muito tempo, e basta correr as redes sociais, há muito tempo que não se via uma prova a concentrar tanta gente colada à televisão. A própria qualificação de sábado já tinha muita gente também a acompanhar. No final, deu o título do Verstappen, justíssimo. Para mim, uma derrota cruel para o Hamilton, porque o Hamilton fez tudo aquilo que tinha para fazer-
Fez uma corrida extraordinária
...para ganhar.
Exatamente.
E teve um azar que foi o acidente do Latifi, que mudou por completo uma corrida que ele tinha controlada.
E um erro, na minha opinião, aqui, se eu posso dar, da Mercedes, que não soube aproveitar também. Porque se a Mercedes tem mandado entrar o Hamilton, como fez a Red Bull, eventualmente, mesmo que tivesse acontecido aquelas situações todas ali no final-
Mas tinha que seguir o acidente do Latifi
...tinha que seguir o acidente.
Aí parece-me que houve um erro de cálculos. Há muita gente que não acredita nesta teoria, eu acho mesmo que foi. Eu acho que o Toto Wolff quando vê a maneira como ficou a pista e a maneira como ficou o carro do Latifi, ele pensa: "Isto vai até o final com o safety car." E essa, para mim, é uma grande vitória, sobretudo da Red Bull sobre a Mercedes. Acho que isto aqui é o mais importante, do Horner também sobre o Toto Wolff, em toda a linha, e não foi só naquele a seguir ao momento do acidente do Latifi Tirar só uma ideia que é o mundial 2022 vai ser fabuloso, mas a direção de corridas, neste caso Michael Masi, tem de começar a aprender alguma coisa. E depois daquilo que aconteceu na Arábia Saudita, onde andava ali a reatar quase posições. Hoje também estar a responder aos diretores de equipa, a dizer: "Isto aqui são corridas de carros, etc." Sem que se perceba muito bem as coisas. É bom não esquecer que antes tinha sido a Red Bull a protestar quando o Hamilton e o Verstappen tocam, foi a Red Bull também a protestar, a dizer que o Hamilton deveria ter cedido a posição. E a maneira como o Michael Masi está a gerir isto não é propriamente a melhor. Portanto, é a única coisa menos positiva de um fim de semana que eu acho que é fabuloso. Se calhar se o Hamilton, acho que teria sido também o justo campeão. Ganhou o Verstappen. Acho que a Fórmula 1 renasceu muito por culpa do Verstappen.
E vai ser interessante acompanhar este mundial no próximo ano, com algumas mexidas nas principais equipas da Fórmula 1.
Só nos falta um Miguel Oliveira lá.
Era, mas eu acho que pelas entrevistas que temos feito com quem está no mundo do automobilismo em Portugal, vai ser muito difícil conseguirmos um dia ter, nos próximos tempos, um Miguel Oliveira a participar numa competição destes géneros. Já tivemos alguns pilotos, mas as coisas não correm.
Não tivemos aquele que lá esteve mais próximo e que se calhar a melhor figura lá tinha feito. Chama-se António Félix da Costa.
Mas aí é uma história que também que ele já contou e acabou por não ter essa hipótese. Sim, teria sido uma aposta diferente, mas aí são outros milhões se levantam. Vamos então às cartas com o "Ás", o "Joker" e a "Carta fora". Pronto, e Mariana, lá está, puxas do teu "Ás". Eu acho que é o mais rápido de hoje, o Verstappen. Siga.
Sim, decidimos fazer o tema da semana, claramente, pelo menos o tema do fim de semana, mas personalizar aqui esta vitória do Verstappen. Acho que não era preciso ser um grande visionário ou um grande especialista para no dia 10 de maio de 2015, perceber que o Max Verstappen não seria apenas mais um jovem desta nova vaga a passar pela Fórmula 1. E falamos deste dia porque foi o dia em que o Verstappen ganhou o Grande Prémio de Espanha na primeira corrida pela Red Bull, depois de ter subido da Toro Rosso para a equipa dos crescidos, digamos assim, a meia temporada. Nesse dia, eu acho que ficou claro desde logo que ele não ia ser um piloto qualquer, que estava destinado a altos voos. E ontem em Abu Dhabi, excluindo todas estas questões relacionadas com as paragens, com aquele safety car decisivo, com a última volta explosiva, o Verstappen cumpriu tudo aquilo a que alguma vez se propôs e realizou o sonho dele e o sonho do pai, do Jos Verstappen, que o moldou claramente com regra e esquadro para construir um campeão feito à medida. Tornou-se o primeiro campeão de Fórmula 1 dos Países Baixos, o quarto mais novo de sempre, portanto, entra aqui no grupo de apenas quatro pilotos que foram campeões com menos de 25 anos, onde está Hamilton também, Sebastian Vettel e Fernando Alonso, e evitou o oitavo título de Lewis Hamilton, ficando essa certeza de que, ao contrário do que aconteceu com o Nico Rosberg, que foi o último a bater Hamilton, Verstappen não vai a lado nenhum. Portanto, está cá para o mundial 2022, está cá para os próximos e quer continuar a fazer isto com a Red Bull por mais 10 ou 15 anos, como ele próprio disse, tanto nas flash interviews como ainda dentro do carro, quando estava só a falar pela comunicação rádio. Portanto, eu acho também não é preciso ser um visionário para perceber que assistimos aqui ao primeiro capítulo da história do próximo grande campeão da Fórmula 1.
Bruno Rosário, e para o ajudar, vai lá estar a Chris Horner, que é o teu "Ás".
Sim, para mim é o meu "Ás", mais uma vez, sem tirar mérito àquilo que o Verstappen fez em pista, eu diria que a chave da vitória chama-se Christian Horner, até por uma razão: ele acaba por personificar aquela que para mim é a grande diferença entre Hamilton, Verstappen, Mercedes, Red Bull, que é de um lado, conservadorismo, a experiência da Mercedes e do outro, a irreverência e também o risco da Red Bull. E este fim de semana foi um exemplo paradigmático disso mesmo, porque foi assim que a Red Bull conseguiu ir buscar uma vitória que ninguém conseguia imaginar. Ou seja, seja pela pole position do Verstappen, a maneira como ele e o Checo conseguiram fazer aquela "manobra" na passagem da Q2 para a Q3, onde com os pneus macios, o Verstappen faz uma volta canhão.
Checo Pérez, que também esteve em grande destaque.
Mas também por lá estar uma estratégia de Horner, porque parece-me que o Horner tem uma estratégia com o Verstappen a arrancar muito melhor do que aquilo que conseguiu e a ganhar tempo, porque seria essa a lógica. Na altura estava com pneus macios e deveria andar mais. Como isso não acontece, ele próprio diz: "Plano B, plano B." Portanto, o Pérez deixa-se ficar lá um bocadinho para atrasar o Hamilton e até dá mais luta do que provavelmente ele poderia pensar. Tem uma estratégia de troca de pneus arriscada, sempre a arriscar, sempre a colocar-se na posição do caçador, nunca da presa, é sempre o caçador. E depois tem aquele golpe, o tal milagre que ele tinha pedido a seis voltas do final, que é quando o Latifi basicamente conseguiu ultrapassar o Mick Schumacher, ele achou que era um campeão e acabou logo ali a seguir à curva 14. E, portanto, eu diria que dentro do mérito que o Verstappen tem, a estratégia do Christian Horner acaba por ganhar ao Toto Wolff. E mais, e depois tem outra coisa que é: a Red Bull poderia também ter motivos para estar chateada com a direção de corrida, porque o Hamilton podia ter ou não cedido a posição ao Verstappen, mas não fez um décimo daquilo que o Toto Wolff fez. E neste caso, já se percebeu através dos recursos que a FIA negou que o Toto Wolff não tinha razão. Portanto, até por aí, o Horner é o meu "Ás" desta semana.
E agora vamos aos vossos "Jokers". Mariana, vamos falar de xadrez?
Vamos falar de xadrez, sim. Vamos falar do Magnus Carlsen, o norueguês que revalidou pela quinta vez o título de campeão mundial de xadrez ao vencer o russo, e vamos ter muita calma agora, Ian Nepomniachtchi. Acho que está ok.
Está bom. Eu compro.
E revalidou também o estatuto de melhor jogador da atualidade e até já de um dos melhores de sempre. A final ficou decidida ao sexto encontro, depois de cinco empates, e esta sexta partida fica na história também como a mais longa de sempre em campeonatos do mundo. Durou oito horas de xadrez E 136 movimentos. Com este quinto campeonato, o Carlsen fica a uma vitória do recorde do alemão Emanuel Lasker, o único que ganhou seis títulos no circuito atual, unificado, porque Kasparov e Karpov também ganharam seis, mas em dois circuitos diferentes. O Magnus Carlsen, para quem não conhece propriamente a figura, está longe de ser um nome consensual na opinião pública do universo do xadrez, até na Noruega, apesar de ser uma autêntica celebridade no país. Ele tem uma relação muito próxima com o Kasparov, é um aficionado da estratégia militar e de Napoleão Bonaparte e é um fã de futebol no geral e do Real Madrid em particular. À parte isso tudo, é já então um dos melhores de sempre do xadrez.
Bruno, o teu joker vai para a Mariana Machado e o corta-mato.
Mas também podia ir para a Noruega, porque a Noruega começa a dar cartas. Quando nós começamos a olhar para praticamente todos os desportos, se calhar não meto o basquete aí, por exemplo, mas em praticamente todos os desportos, nós temos uma nova geração na Noruega, que não é poder ganhar daqui a um ou dois anos.
É ganhar agora.
Agora e ganhar durante uma década, que é uma coisa impressionante.
Gostava tanto que Portugal começasse a trabalhar assim também. É uma opinião.
Vou só recordar aqui uma frase do Mads Olsen, que foi um dos melhores guarda-redes de sempre de andebol e depois também foi selecionador nacional de Portugal, que explicava que até aos 13 anos, qualquer competição na Noruega não tem resultados. Ou seja, se houver um jogo de futebol, se houver um jogo de andebol, não acaba 20-10, 20-15, etc. Não, acaba com a bolsa do lado de ouro.
Exatamente.
E se calhar este tipo de cultura e olhando para aquilo que está a acontecer-
O futebol cá já começa a fazer um pouquinho isso. Nas camadas dos pequenininhos. Mas devia ir um pouquinho mais à frente. Eu concordo, também concordo com isso. Porque ali é o desporto pelo desporto.
Parece que é case study, que se calhar vale a pena só perceber o que se está a passar na Noruega, porque de facto Noruega também não é propriamente um país tão grande para ter tantos astros a sair em tantas modalidades. Aconteceu isso também no corta-mato, ou seja, a Noruega dominou em termos individuais, não em termos coletivos, ganhou a França. Portugal teve uma participação muito discreta nestes Europeus de corta-mato, sobretudo nos seniores, mas ainda assim a Mariana Machado voltou a ser mais uma vez a grande representante nacional. Repetiu a medalha de bronze. Ela tinha ganho em Lisboa em 2019 a medalha de bronze em sub20, agora ganhou em sub23. Curiosamente perdeu, como tinha acontecido em Lisboa com a Nadia Battocletti, que é a grande figura de Itália e uma das grandes meio-fundistas que irá aparecer no futuro. E é a confirmação, de facto, é a nossa única esperança naquilo que foi um ponto tão alto e tão bom para Portugal, que era o meio-fundo e o fundo, que nesta altura está pelas ruas da amargura, mas ainda assim temos na Mariana Machado uma representante que poderá dar cartas na próxima década.
E agora como nos vamos aproximando muito rapidamente da meia hora e antes das sínteses de notícias, pedia-vos também agora aqui mais alguma rapidez. Vamos falar agora nas vossas cartas fora. Rosário, começamos com o basquetebol do Futebol Clube do Porto, que se tem mantido mesmo de fora.
Sim, que voltou a ter uma segunda falta de comparência, já tinha faltado ao jogo com o Avarense, agora faltou com o Oliverense. Já tinha avisado também que por ter sido nomeado o árbitro Fernando Rocha ia ter essa falta de comparência e nesta altura há um problema, que é: à terceira falta de comparência, a equipa vai ser excluída. Portanto, nesta altura é um problema para a federação, porque não pode deixar de nomear os árbitros que entende, mas ao mesmo tempo também não pode permitir que caiamos numa situação onde o Futebol Clube do Porto seja excluído na competição. E o próprio Futebol Clube do Porto, por muitas razões que possa ter em relação àquilo que aconteceu na última final, também tem que pensar que não está aqui propriamente para escolher os árbitros. Portanto, é uma situação que se deve resolver a bem do basquetebol nacional.
E Mariana, continuam os boicotes aos Jogos Olímpicos de Inverno. O que tens para nos dizer sobre isso? Também aqui muito rapidamente.
Não, foi uma semana que fez lembrar 1980 e o boicote dos Estados Unidos e de outros países aos Jogos Olímpicos de Moscovo, na sequência da invasão do Afeganistão por parte da União Soviética. Agora, porém, o boicote é à China, aos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, agendados para 2022. Os Estados Unidos foram novamente o primeiro país a dar esse passo, seguidos agora pela Austrália, Reino Unido e Canadá, sendo que este boicote tem essa nuance de ser apenas institucional, diplomático, ou seja, todos estes países vão enviar os respetivos atletas na mesma, mas não vão enviar delegações oficiais de representantes naquela que é a grande diferença para o que aconteceu em 1980. Os motivos do boicote estão maioritariamente relacionados com questões de violação dos direitos humanos, particularmente com os alegados campos de trabalhos forçados que existem na região de Xinjiang para a minoria uigur e o declínio das liberdades em Hong Kong, sendo que a China já disse que estes quatro países vão pagar o preço de uma decisão que consideram impopular e isolacionista.
E agora vamos rapidamente ao nosso túnel. Isto porque Bruno Rosário, queria falar aqui contigo sobre o Benfica, que começa finalmente a fechar a composição da SAD.
Sim, temos aqui vários temas, vamos só ficar com este para já. Havia essa nota de que nos órgãos sociais do Benfica não havia uma única mulher. Isso foi algo que várias pessoas falaram com o Rui Costa e ele disse: "Não se preocupem, porque a SAD vai ser diferente". Aliás, tinha de ser diferente. E agora, finalmente, parece que está encontrado o primeiro nome. Carla Cruz, que foi o primeiro nome falado e que vinha também do movimento Benfica Bem Maior, acabou por não aceitar. Depois houve também a possibilidade de Sofia Tenreiro, que também não se confirmou, e agora parece que Rosário Pino Correia, que já esteve na direção do Benfica, ou pelo menos ligada durante a altura de Manuel Damásio nos anos 90 ao Benfica, na parte de marketing e publicidade, poderá ser um dos nomes confirmados na SAD. Ainda assim, esta semana trouxe uma novidade, que foi Domingos Soares de Oliveira, com uma frase que, apesar de tudo, não quer dizer que ele fique no Benfica. Aquilo que ele quer dizer é: enquanto acharem que eu sou útil, enquanto o Rui Costa achar que eu sou útil, eu vou ficar no Benfica. Mas para já parece que apesar de entrar no conselho de administração da empresa da liga que vai gerir a centralização dos direitos televisivos, vai ficar mais uns tempos no Benfica, vamos ver quanto mais tempo. Continua a dúvida em relação ao Miguel Moreira, que nesta altura ainda faz parte da SAD do Benfica e que, todas as informações que nós tínhamos, estava de saída depois da saída também do Luís Filipe Vieira.
Temos aqui alguns temas também bastante interessantes para discutir, mas vamos guardá-los para a próxima semana, porque agora vamos falar de futebol com dos mais temidos defesas do futebol português, Jorge Costa. Carreira feita no Futebol Clube do Porto, passagem por Inglaterra e Bélgica, mas foi mesmo nas Antas que se afirmou. Agora como treinador, já esteve em outros países. Jorge, obrigado por estar aqui conosco na Rádio Observador, por participar neste programa
Boa tarde e obrigado pelo convite.
Jorge, vamos começar pelo mais atual, ou seja, o Futebol Clube do Porto ficou hoje a saber que vai jogar com a Lazio na Liga Europa, uma espécie de repetição de um jogo de boa memória para o Futebol Clube do Porto e também para Jorge Costa, que em 2003 venceu a Lazio, no mesmo ano em que os Dragões venceram a Taça UEFA. O Jorge estava nessa equipe. Como é que foram esses jogos? Que lembranças tem desse tempo?
Deixa-me começar, infelizmente, por dizer que o sorteio do Porto deveria ter sido anulado, ou seja, o Porto deveria estar naquele lote restrito de equipes que deveria às 14h saber com quem jogava, porque essa equipe do Porto e aquilo que fez, merecia estar na Champions e não na UEFA. Curioso esse sorteio, porque traz boas recordações. Foi um ano fantástico, um ano de afirmação do Futebol Clube do Porto a nível europeu, num jogo de excelente memória, especialmente o jogo em casa.
Na altura, 4 x 1?
4 x 1, sim, um jogo que começamos a perder. E nós sabemos, na altura e hoje em dia, o quão difícil é dar a volta com equipes italianas, pela forma muito característica que eles têm de defender resultados, mas em que tudo correu bem e que realmente conseguimos uma vitória que nos deu algum conforto para o jogo da segunda mão em Roma.
A final da Liga Europa, curiosamente, este ano também vai ser em Sevilha, onde o Porto ganhou a Taça UEFA nessa altura. Perguntava-lhe, antes de mais, se acha que é um bom prenúncio e se acha que o Porto entra ou cai nesta Liga Europa com essa intenção de a ganhar depois de não ter conseguido passar pras oitavas de final da Liga dos Campeões.
Sim, será um bom prenúncio e são coincidências agradáveis. Uma final em Sevilha, uma eliminatória com a Lazio. Se a história se repetisse, seria um mal menor. Isto com todo o respeito que temos que ter por essa competição. E honestamente, se isso acontecesse, acho que todos os portistas ficariam agradecidos de o Porto ter sido eliminado da Champions, porque com toda a honestidade, cada vez mais é difícil as equipes portuguesas chegarem às finais e terem títulos europeus.
Foi praticamente há 20 anos que o Futebol Clube do Porto jogou com a Lazio, nessa altura na semifinal, levava essa vantagem de 4 x 1, mas depois chega ao Olímpico de Roma e não pode contar com o José Mourinho, que acaba por ser expulso nos instantes finais do jogo, ainda nas antas. Perguntava-lhe: é mesmo verdade, um, que ele se meteu lá no carrinho da roupa suja para estar com vocês no balneário? E dois, como é que foi preparado esse jogo? Até porque eu recordo-me que na altura, apesar da vantagem de 4 x 1, a Lazio tinha aquela equipe que ainda tinha muitos jogadores que tinham sido campeões, inclusivamente com o Sérgio Conceição em 2000.
Sim. Relativamente à primeira questão, eu penso que sim, até porque parece-me que o próprio Mourinho já o confirmou.
Tiveram lá uma visita.
Não me lembro mesmo. E é curioso. Eu tenho este defeito ou feitio, seja lá o que for, de não ser um grande contador de histórias e muitas vezes quando faço esse tipo de conversas, gostam muito que eu conte histórias. Mas a minha vida, e acho que a vida de qualquer profissional que jogou a um nível alto, nós temos um jogo que realmente há histórias, mas passado três dias temos outro jogo com outras histórias e portanto, a nossa vida é sim feita de histórias, e não tenho grandes memórias. Como é que terá sido preparado esse jogo? Honestamente, não deve ter acontecido nada de especial, porque não me ficou na memória. Também não foi a primeira vez que nós fomos a um jogo sem o Mourinho, que o Mourinho tinha essa capacidade também de nos abandonar de vez em quando.
Mas o Vitor Baía defendeu um pênalti nesse jogo em Roma.
Sim, não me lembro do jogo. Do outro lado estava um dos meus grandes amigos, que era o Fernando Couto. Tenho muitas recordações desse jogo. Lembro também porque acho que foi verdadeiramente o jogo que nos deu aquele clique, aquela confiança que nós poderíamos fazer algo inédito. Posso-me já antecipar, porque provavelmente me vão perguntar desta Lazio e realmente também já o disseram, aquela Lazio naquele ano e quase todas as grandes equipes italianas, acho que estavam no topo do futebol europeu, portanto era uma grande equipe europeia, e o jogo das Antas, principalmente o jogo das Antas, foi quase um hino ao futebol.
A verdade é que o Sporting Braga também foi a sorteio, calhou com o Sheriff, que é uma das grandes surpresas desta temporada europeia, cai também da Liga dos Campeões. O Braga tem tido alguns problemas de consistência e de estabilidade desde o início da temporada. Perguntava-lhe o que é que espera deste confronto com o Sheriff agora no playoff.
Como sabe, eu estive por duas vezes na Roménia, muito próximo da Moldávia. Tenho algum conhecimento do campeonato, mas jamais pensaria que este Sheriff pudesse fazer o que está a fazer este ano. Foi uma agradável surpresa na Champions. Uma equipa boa que, na minha opinião, não estará ao nível de um Braga, mas desenganem-se quem pensa. Claro que nós quando fazemos um prognóstico corremos sempre o risco de errar, mas não me parece que vá ser uma eliminatória tranquila ou, desculpem a expressão, favas contadas para o Braga. O Braga vai ter que estar no seu melhor para passar esta eliminatória.
Olhando também para aquilo que poderá ser o Braga, há uma coisa que tem como certa, que é vai ter de fazer uma viagem longa e com uma série de escalas, ainda para mais em fevereiro, que é uma altura em termos de clima já não é fácil e em termos de calendário também ainda muito menos. Olhando para aquilo que aconteceu também com o Futebol Clube do Porto no Dragão, onde o Sérgio Conceição tem o mérito em termos táticos de conseguir esconder um pouquinho as maiores unidades do Sporting Braga, mas se o problema do Sporting Braga é exatamente essa densidade competitiva que faz com que as principais unidades em jogos, como por exemplo, no Dragão, depois parece que a cabeça quer, mas as pernas já não conseguem responder.
Estávamos a conversar e eu não sei, mas penso que o campeonato moldavo deve ser daqueles campeonatos que também tem a pausa de inverno, que realmente é muito impiedoso. Como já disse, eu tive duas experiências na Roménia. Já nesta altura estão com temperaturas negativas de 10, 12 e podem chegar aos 20, o que pode ser uma vantagem para o Braga, esta paragem do Sheriff, porque é evidente que eles depois fazem tipo uma mini pré-época, mas vão perder algum ritmo competitivo. E podem perder também alguns jogadores, que é típico das equipas de leste no mercado de inverno perderem alguns jogadores. Relativamente à densidade competitiva, a mim não me parece um problema. É um tema que se discute muito. A minha experiência como jogador e também como treinador, porque também já estive em competições europeias, diz-me que desde que os resultados sejam positivos, a parte física não é preocupante. Eu acho que os jogadores hoje em dia, os profissionais, estão mais do que preparados para fazer três jogos por semana, com viagens pelo meio. O que pesa mais aqui é claramente a parte mental, porque é muito encostado, são muitas viagens, eles estão muito tempo longe das famílias e criam novas rotinas, novos hábitos. Mas quando se ganha, tudo é perfeito. O grande problema é jogarmos, viajarmos e com maus resultados começa a ser não tão agradável. Havendo sucesso desportivo, não vejo qualquer tipo de problema.
Voltando ao Futebol Clube do Porto, mas agora mais às contas do campeonato, o Porto está na liderança da Primeira Liga, em igualdade pontual com o Sporting, mas ainda tem este jogo com o Benfica, o jogo para o campeonato, vai jogar com o Benfica duas vezes, mas neste caso com o campeonato no Dragão até o final do ano. Perguntava se esse jogo pode ser importante para as contas do campeonato, se as coisas acabarem por não correr bem.
Um clássico, um derby, tem sempre uma importância extra, por muito que os intervenientes queiram desvalorizar, esqueçam, porque estamos a falar de um ponto ou três, mas que tem uma importância acrescida do que qualquer outro jogo do campeonato. A importância deste jogo em termos daquilo que possa ser as contas finais do campeonato ou um pouco mais de motivação. Eu acho que para este jogo o Benfica parte muito mais pressionado do que o Porto. Estamos a falar de quatro pontos de diferença, certo?
Sim, nesta altura, sim. 38 a 34.
Em caso de vitória do Porto, a equipa do Porto fica com a moral elevadíssima. Em caso de vitória do Porto, a equipa do Benfica fica de rastos e com a agravante de ficar a sete pontos, que vale o que vale. E a experiência tem-nos dito que tem havido surpresas, mas em termos anímicos, é complicado. Portanto, não tenho muitas dúvidas que a pressão para o clássico estará muito mais do lado do Benfica.
O Jorge foi defesa, foi central, foi líder da equipa do Futebol Clube do Porto e esse é um pouquinho o papel que hoje interpreta o Pepe aos seus 38 anos, que é também isso, central, indiscutível e o líder da equipa. Pela terceira vez, vimos o Pepe sair com problemas físicos na primeira parte esta época, o Fábio Cardoso entrar, o Marcando também já está de fora e vai ter uma ausência grande. Perguntava-lhe se acha que era importante o Futebol Clube do Porto reforçar o eixo defensivo já em janeiro, nomeadamente com o Rúben Semedo, como se falou, ou se acha que o Fábio Cardoso, até pela conversa que vimos ontem do Sérgio Conceição com ele no final do jogo, poderá ser a alternativa que o Sérgio Conceição precisa quando o Pepe não estiver disponível?
Eu vou responder da forma mais honesta e mais natural possível, sem que me levem a mal. Acho que o Fábio Cardoso, aquilo que tem vindo a fazer, mesmo antes de chegar ao Porto, é a prova mais do que provada que é um jogador com valor, com capacidade e que é uma ótima solução, neste caso, para a equipa que representa, que é o Futebol Clube do Porto. Relativamente ao Pepe, que foram várias questões, eu acho que o Pepe está a pagar um pouco a vontade que tem de jogar e a necessidade que o Porto tem de não respeitar os prazos normais de uma recuperação. E eu, como conheço bem o Pepe, também sei que o Pepe seguramente está a forçar e está a dar tudo para ajudar e para ser útil. Portanto, estamos aqui com, penso eu, algumas cedivas, que faz com que seja já o Pepe o que é obrigado a sair. Essa é uma questão que fica bem claro que o Fábio, para mim, é uma opção mais do que válida. A questão do Rúben Semedo. Eu acho que também é lógico, por muito bem que o Porto esteja servido de centrais, e está, sendo que está curto, porque o Porto sai da Champions, mas tem ainda a Liga Europa. Portanto, também vai ter aqui uma quantidade de jogos interessantes. Mas o Rúben, independentemente daquilo que é a sua vida extrafutebol, como jogador, é um central que o Porto não tem e que precisa, e que portanto, na minha opinião, encaixava que nem uma luva neste plantel.
E em relação ao Pepe, qual é que será o melhor remédio no atual contexto? É ele fazer mesmo a paragem, recuperar a 100%, ou ir tentando arriscar nos jogos mais importantes, como por exemplo, os jogos com o Benfica?
Eu tenho experiência de futebol, tenho experiência de lesões, não sou nem fisioterapeuta, nem médico.
Sim, eu perguntava nesta perspectiva de risco. Parece que o Pepe está sempre ali um bocadinho no limite e como o Futebol Clube do Porto precisa dele, seja por aquilo que ele é como central, como aquilo que ele é como líder, como se viu, por exemplo, no Atlético de Madrid, ele parece estar sempre ali um bocadinho no risco e às vezes, se calhar, esse risco é que faz com que ele tenha de sair mais cedo, por questões físicas.
Sabe que eu percebo perfeitamente. Eu houve um ano, penso que foi com o Fernando Santos, que fomos ao Liverpool e ele saiu lesionado e depois joguei em casa e sai lesionado. E eu passei um bocadinho por isso, que é a vontade, porque quando é lesões musculares, é complicado, porque não dói e nós achamos que estamos 100% recuperados, mas o músculo está frágil e acaba por ceder. Mas a nossa vontade, a minha vontade era tão grande de jogar e de ajudar, e tenho a certeza que a do Pepe é igual ou maior, que nós próprios, neste caso, o próprio Pepe, força, consciente de que está bem para jogar. Mas se me pergunta claramente, eu acho que nestes jogos de alguma forma importantes, eu acho que o risco compensa, que vale a pena.
O Jorge foi também internacional português, esteve no Euro 2000, no Mundial 2002. A verdade é que a Seleção Nacional está aqui a passar por um momento de alguma indefinição com este apuramento que ainda está pendurado para o Mundial do Catar. Perguntava-lhe como é que tem olhado para a atualidade da Seleção Nacional e o que acha que vai acontecer agora, pelo menos de forma imediata, já contra a Turquia na primeira eliminatória do playoff?
Olha, em primeiro lugar, deixa-me dizer que, como é evidente, este refrão, quem vive do passado são os museus. Mas deixa-me também aproveitar a oportunidade e qualquer oportunidade que eu tenha para relembrar, especialmente os portugueses ou parte dos portugueses, como é evidente, que nós devemos ser gratos e devemos ser reconhecidos quando nos fazem bem e o Fernando Santos fez-nos muito bem. Estamos a falar do único selecionador português, um selecionador de Portugal, que nos deu dois títulos mundiais importantes. Portanto, foi com muito desagrado que vi parte da comunicação, parte dos adeptos, parte dos portugueses, a contestar de uma forma tão forte este apuramento. Acho claramente que o Fernando Santos é a pessoa indicada para continuar à frente da nossa seleção e que Portugal, com maior ou menor dificuldade, vai estar presente no Mundial. É verdade também, uma coisa não impede a outra, que os últimos dois jogos da Seleção foram, infelizmente para nós, foram dos piores jogos que eu já vi esta Seleção fazer. Na altura, até me questionaram, e eu próprio me questionei o porquê. Eu acho que o que aconteceu foi sobretudo mental. Foi um grau de dificuldade baixo Em que nós achamos que iria acontecer, de uma forma ou de outra. Portanto, eu acho que todos os jogadores não se focaram mentalmente naquilo que teriam que fazer, porque nada é garantido.
Estamos praticamente a acabar o nosso tempo, mas gostava de falar um pouquinho também da própria carreira do Jorge. Já passou por Roménia, Chipre, Seleção do Gabão, Tunísia, França, Índia, acho que não falhei nenhum país. E esteve agora no Farense, onde apesar de os resultados não aparecerem, era muito elogiado pela qualidade do futebol que a equipe apresentava. Perguntava-lhe o que é que espera em termos de carreira também e se está mais virado para uma aposta lá fora ou ficar por cá.
Neste momento, estou honestamente num período de reflexão profunda, porque este meu regresso a Portugal trouxe coisas muito boas. Mas também esta saída do Farense, eu não tenho qualquer tipo de problemas em assumir, foi um choque muito grande naquilo que era os meus projetos e naquilo que era a minha ideia. É verdade que nós ganhámos bem e é verdade, infelizmente, no futebol, os projetos resumem-se de domingo a domingo ao empate, à derrota ou à vitória. Portanto, poucos são os clubes em Portugal que têm projetos. E a paciência é pouca e as redes sociais são terríveis. Portanto, neste momento estou num período de reflexão. Como é evidente, eu amo o meu país, gosto muito da minha profissão, sou um apaixonado por futebol, sou um apaixonado por Portugal e gostava muito de trabalhar no meu país. No entanto, é o que tiver que ser. Não fecho portas, como é evidente, a ir trabalhar para fora novamente, até porque estive cerca de 12 anos fora e quando tive a oportunidade de vir para o Farense, nem pensei duas vezes. Estava a trabalhar e tive uma conversa muito no coração com o meu presidente de altura, porque a hipótese de voltar a Portugal era algo que eu queria. Fiquei desiludido? Fiquei. Fiquei triste? Fiquei. Fiquei muito magoado? Sim, também fiquei. Por isso é que eu digo que estou num período, não direi de luto, porque é muito forte, mas estou num período de reflexão e tentar perceber o que será melhor para mim e para a minha carreira.
Jorge Costa, obrigado por esta disponibilidade, por estar aqui conosco neste "Nem Tudo o Que Corre, Bem Abola", aqui na Rádio Observador. Daqui a pouco, em observador.pt, já pode ouvir este programa em podcast. Até já.