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Sejam bem-vindos ao Nota 20, programa da Rádio Observador, em parceria com a Iniciativa Educação, programa onde a ciência fala com a educação. Olá, professor Nuno Crato, como está? Viva.

Ora viva, tudo bem.

Professor, hoje vamos falar sobre como se recuperam as aprendizagens perdidas durante a pandemia. A nossa convidada, Susana Peralta, economista de políticas públicas e professora na Nova SBE, recentemente publicou com quatro economistas da educação, uma proposta de recuperação das aprendizagens perdidas durante a pandemia. Susana Peralta, obrigado por estar no Nota 20 desta semana.

Olá, obrigada pelo convite, é um gosto.

Susana, já vamos às propostas em concreto e que quantificou com os seus colegas acadêmicos. O que sabemos hoje sobre o impacto da pandemia? O que os alunos e o país perderam com as aulas a distância?

Sim. Nós temos estudos de vários países, temos um corpo de conhecimento que se foi acumulando, aliás, logo ao longo do próprio ano de 2020, e que neste momento já é bastante sólido, de elevadas perdas de competências, concentrados, sobretudo, nos estudantes mais novos, mas também é para esse que temos mais informação, porque não há grandes estudos para aquilo que acontece aos estudantes mais velhos e também é provável que para as pessoas a partir do nono, décimo ano, não sabemos muito bem, mas que a tecnologia do online seja mais apropriada para essas faixas etárias. Mas de fato, para aqueles estudantes mais novos, designadamente estudantes do ensino básico, temos já hoje em dia muita evidência acerca das perdas de aprendizagem, em primeiro lugar, e em segundo lugar, quando comparados com alunos noutros anos letivos, no mesmo momento do ano letivo, estes alunos que foram sujeitos a estes momentos de paragem, têm menos competências do que seria expectável, em primeiro lugar, e em segundo lugar, grandes assimetrias nessas competências e uma maior concentração de atrasos de aprendizagens nos alunos e alunas de meios socioeconômicos mais desfavorecidos.

Portanto, estamos a falar de dados científicos. Diga, professor.

Não, nós antes da pandemia tínhamos uma série de dados sobre as férias de verão, sobre as interrupções letivas, coisas que já discutimos aqui e que são dados que mostram que este tipo de pausas forçadas compromete a aprendizagem dos alunos, portanto, os alunos sofrem com isso. Tínhamos também dados em termos comparativos do ensino presencial e o ensino à distância, mas sobretudo na universidade. Agora estamos a acumular dados e estão a surgir uma série de estudos sobre os jovens nestas idades mais juvenis, mais tenras, e o impacto que isso tem. E até alguns estudos que o medem. Não é assim, Susana?

Exato. Aliás, eu já citei isso num artigo que escrevi, e nós também citamos no nosso trabalho, quando fazemos a tal proposta de recuperação de aprendizagens. Há um estudo holandês que é muito interessante, porque é baseado em exames nacionais, porque de fato aqui há sempre uma questão muito importante, que é como é que nós medimos esta perda de aprendizagens, e há um nível de evidência que é também interessante, mas vamos dizer que é mais qualitativo, que são os relatos dos professores e das próprias escolas e até das famílias acerca das dificuldades das crianças. Mas depois o que também é interessante é nós termos instrumentos de medição que sejam uniformes e que permitam, de fato, uma comparação. Ora, este artigo, que é feito com dados holandeses, embora por economistas da Universidade de Oxford, usa dados de exames nacionais, são cerca de 300 mil observações, portanto, de fato, estamos a falar de um poder estatístico bastante elevado e o que é interessante é que há dois momentos de avaliação nacional nos Países Baixos. E um deles ocorreu antes do período de confinamento, de encerramento de escolas do ano passado, e o outro ocorreu depois. E também aqui aproveitando o fato de na Holanda, durante o ano de 2020, as escolas encerraram apenas durante oito semanas e, portanto, fato, não se perdeu o segundo momento da avaliação e felizmente também as autoridades dos Países Baixos resolveram manter esse mesmo momento da avaliação, precisamente por ele ser importante. Em todo o caso, temos nós a sorte, nós que nos interessamos por estes temas, desse momento da avaliação nos permitir agora perceber de fato qual é o impacto da pandemia. Então como é que isso se faz? Os autores deste estudo aplicam o chamado método das diferenças nas diferenças. Ou seja, olham em primeiro lugar para a diferença em 2020, portanto, isto é com os dados de 2020, no tal momento de avaliação, no exame nacional que ocorre depois do confinamento, julgo eu em maio ou junho, e naquele que tinha ocorrido antes do confinamento. E aí temos quanto é que os alunos melhoraram, porque a princípio, ao longo do tempo, os alunos melhoram, nas suas competências no momento depois, com a diferença com o antes do confinamento. Agora, também pode ser que como é que nós sabemos que isto é o normal, que aquilo que aconteceu em 2020 é o normal, ou de fato houve uma perda relativamente àquilo que teria sido normal num ano em que o ensino fosse presencial. E então aí o que os autores fazem, olham para os três anos anteriores, 2019, 2018 e 2017, e veem exatamente essa mesma diferença. E a ideia é que havendo um salto menor em 2020, entre o momento pré e pós confinamento, relativamente àquilo que há nos anos anteriores, é a chamada diferença nas diferenças. Porque estamos a calcular, em primeiro lugar, uma diferença e depois outra. Estamos a calcular a diferença no ano 2020, a diferença nos outros anos e depois qual é a diferença destas diferenças. E aí, de fato, estamos a calcular o impacto próprio à pandemia, próprio ao ensino a distância.

Portanto, compara-se

Perdão, Susana. Portanto, compara-se o progresso durante este último ano com o progresso que seria normal registrar, que foi aquele que aconteceu nos anos anteriores. E aí a conclusão é que esse progresso é muito menor, não é assim?

Exatamente. Portanto, o que os autores encontram é uma perda média de cerca de um quinto do ano letivo, em média. E atenção que um quinto do ano letivo são grosso modo as oito semanas de encerramento. E no fundo, é como se aquelas oito semanas não tivessem servido para nada, portanto, em termos de ensino. Mas depois, quando de fato compara o que está a acontecer, porque para haver uma perda média que corresponde praticamente àquelas oito semanas, e certamente que há alunos que têm competências necessárias, mesmo os mais jovens, para apesar de tudo acompanharem o ensino à distância, o que isso significa é que há muitos jovens que perderam muito mais. E de fato eles encontram perdas substanciais até 60% das competências, relativamente aos três anos anteriores, nos jovens de famílias de meios menos favorecidos, designadamente de famílias em que os adultos têm menor nível de educação.

E sendo que os Países Baixos, lá estou eu a interromper outra vez, peço desculpa.

Não, força.

Sendo que os Países Baixos são um país em que a internet está muito difundida, e, portanto, não se pode propriamente dizer que não há conexões. É um dos melhores países do mundo, não é?

É um dos melhores países do mundo de ligação de banda larga, também é um território relativamente pequeno e muito denso. Portanto, é um território natural para este tipo de infraestruturas, chamadas infraestruturas de rede, serem eficientemente implementadas no território, além de ser, obviamente, um país dos mais ricos, com o rendimento per capita mais elevado, um dos que tem o rendimento per capita mais elevado da União Europeia. E portanto, isso é muito interessante, porque isso chama precisamente a atenção para o seguinte fato: nós andamos aqui sempre muito concentrados nos recursos digitais, que são obviamente fundamentais. Nós estamos com o ensino à distância, ter uma boa internet é fundamental. E ter, obviamente, um equipamento, uma máquina para ligar à internet, um computador, um tablet, enfim. Mas não é só isso. O que mostra o caso holandês é que há recursos que são recursos intelectuais e emocionais das famílias, que são determinantes. Aliás, o que liga com aquilo que nós já sabíamos, não só dos anos anteriores em que não havia ensino à distância, portanto, nós sabemos que o ensino é muito desigual, mesmo quando ele só opera na sala de aula, precisamente por causa destes recursos intelectuais que as famílias colocam à disposição dos jovens, e também com a tal evidência que o Nuno audiu, e bem, que é toda a questão do custo das férias escolares, em que, de fato, mais uma vez, o que nós sabemos é quando os jovens de meios menos favorecidos são aqueles que têm grandes perdas de competências ao longo das férias escolares, precisamente porque estão inseridos em meios que, por razões várias, não são suficientemente estimulantes das suas competências cognitivas e não cognitivas.

Susana, já vamos ter a oportunidade de falar das férias escolares. Queria só deter-me aqui na comparação entre esse estudo ou esses dados científicos relativos à Holanda ou Países Baixos, e comparando com a realidade portuguesa, sabendo nós que os Países Baixos são então um país que tem melhores condições de acesso à internet, portanto, tem uma rede de internet melhor do que a portuguesa, ou tradicionalmente melhor do que a portuguesa, sabendo nós que são um país com rendimento per capita superior a Portugal e com menos índice de desigualdade, podemos dizer, ou é abusivo dizer que, nesse caso, as consequências da pandemia nas crianças e nos jovens portugueses podem ser maiores do que aquelas que foram tratadas na Holanda?

Eu queria só acrescentar, já agora, João, mais um elemento, que é as escolas em Portugal para o ensino básico encerraram o ano passado no dia 13 ou 15 de março e não voltaram a abrir. E na Alemanha, peço desculpa, nos Países Baixos, estamos a falar de oito semanas. Portanto, esse é outro aspecto que nos deve deixar preocupados relativamente ao impacto, e já estamos a falar só de 2020. Em 2021, as escolas na Holanda, nos Países Baixos, também encerraram, mas aí eu não sei se foi muito diferente o período de encerramento relativamente ao que nós tivemos.

Não, o período de encerramento, ou seja, o início do encerramento foi semelhante. Agora, eles reabriram na última semana de maio, porque eles fazem estes testes já em fim de junho.

Claro, mas isso foi o ano passado. Eu digo este ano. O ano passado, certamente, nós fechamos muito mais do que os Países Baixos. Mas agora este ano, não sei muito bem como é que comparam os dois períodos de encerramento. Isso eu não sei.

Hoje ainda não existem estudos sobre isso também.

Não, por isso eu não sei.

Esse estudo, já agora, está disponível, não o estudo, mas está disponível um resumo do estudo, uma informação sobre o estudo no site da Iniciativa Educação. Há uma notícia que remete para este estudo e que explica, mais ou menos, no essencial, aquilo que ele conclui.

Muito bem.

Portanto, quem não vá ler o estudo original, ou seja, 90% das pessoas naturalmente não vão ler o estudo original, tem ali algo que solidifica tudo isso que nós estamos aqui a falar.

Mas para responder à pergunta, João.

Sim, Susana.

Seria um milagre, quer dizer, nesta coisa da educação. Vamos lá ver, a chamada tecnologia da formação das competências, eu peço desculpa por estar aqui a usar um termo de economês, mas a verdade é que o James Heckman é esse que usa, a tecnologia da formação das competências, é uma tecnologia que tem a ver com as neurociências e, portanto, tem a ver com a nossa constituição enquanto seres humanos, tem a ver com o nosso cérebro, com a maneira como o nosso cérebro se forma. Para isso, quer dizer, as crianças portuguesas não são diferentes das holandesas, nem das norte-americanas, nem das belgas, nem das francesas.

Mas a minha pergunta ia mais no meio, ia mais no sentido do meio em envolvência.

Além disso, exatamente, há vários efeitos que tornam o nosso sistema, vamos dizer, o nosso contexto, mais complicado, não só porque as escolas estiveram encerradas durante mais tempo, como nós temos uma das populações adultas menos educadas da Europa. Nós, no nosso retrato que fizemos das condições de vida das crianças, dizemos isso claramente, há apenas 20% das crianças até o nono ano que têm mães com ensino superior no ensino público em Portugal. Nós sabemos que o recurso educativo das mães é o mais importante, mas de todas as maneiras é muito correlacionado com o dos pais, porque as pessoas tendem a casar-se com pessoas razoavelmente semelhantes do ponto de vista socioeconômico. E, portanto, quer dizer, se nós tivéssemos que fazer o chamado educated guess, tentar procurar extrapolar daquilo que nós conhecemos dos outros países para aquilo que poderá ser a identificação das perdas de aprendizagem no contexto português É difícil que ele não seja pelo menos tão mau. Mas temos muitas condições pra ele vir a revelar-se pior, não só pelas condições materiais das famílias, Portugal é um país mais pobre, como pela qualidade do acesso a meios digitais, designadamente da largura de banda na internet. Vimos muitas notícias sobre isso, crianças em aldeias perdidas, etc. Como pelo nível de educação das famílias, como pela duração do encerramento do ano letivo ao longo de 2020, estamos de facto a falar de uma série de fatores que só podem jogar em nosso desfavor, infelizmente, para essas crianças.

E temos que resolver este problema que nos caiu no colo de repente. E precisamente nesse sentido, a Susana Peralta assina com quatro acadêmicos várias propostas para nós, o país, recuperarmos e os nossos jovens recuperarem rapidamente a aprendizagem que perderam durante o ensino à distância, durante este contexto da pandemia. Essa proposta prevê duas medidas: tutorias e escolas de verão. Vamos começar pelas tutorias. Quantos alunos poderiam ser abrangidos por esta iniciativa? Qual o custo e os benefícios deste programa?

Sim. Há de facto muitíssimos estudos que mostram as tutorias. Aliás, saiu agora recentemente uma meta-análise do National Bureau of Economic Research, que chama o efeito transformacional das tutorias. Já agora, as tutorias são o quê? São, no fundo, explicações em pequenos grupos. Eu julgo que as pessoas que recorrem a explicações para ajudar as suas crianças no progresso escolar percebem exatamente o impacto que isso tem, porque é uma atenção individualizada. Nós inspiramos no desenho de um acadêmico, de um economista da educação inglês, que é o Simon Burgess, que fez uma proposta muito semelhante pro Reino Unido. E ele diz que a evidência que mostra é que as tutorias verdadeiramente individuais são aquelas que têm um impacto muito elevado na progressão das competências das crianças. Mas ele diz que depois há vários estudos que mostram que até grupos pequenos, entre quatro e seis crianças, são ainda bastante efetivos. E depois aqui é uma questão de custo e benefício, claro, porque quando nós pomos seis crianças com o mesmo tutor, dividimos o custo por seis. Portanto, nós fazemos duas propostas diferentes, uma para grupos de três crianças, que sai obviamente mais cara, porque o principal custo da tutoria são as horas especializadas do tutor. Ou então em grupos de cinco crianças. Cinco crianças foi o que foi proposto pro Reino Unido e o que foi proposto aqui pra vizinha Espanha, também por um grupo de economistas de educação, proposta que acabou por ser parcialmente levada em conta no orçamento de Estado pra 2021 em Espanha. E portanto, a ideia é pegar em grupos individualizados, em momentos do dia que nós sugerimos no nosso documento que sejam inseridos no próprio horário escolar, utilizando estratégias diferentes de organização do tempo, as escolas têm sempre esses momentos em que as crianças estão a trabalhar por grupos diferentes. E portanto, a ideia é pegar nas crianças que estão com mais dificuldades e procurar durante esses momentos que nós propomos, três vezes por semana, momentos de uma hora, mas mais uma vez nós depois calculamos um custo, fazemos umas estimativas, mas aquilo é sempre adaptável, se houver menos horas sairá mais barato, mais horas do que isso também é complicado, porque enfim, são crianças, não podemos pedir não é para as crianças horas de trabalho. Mas portanto, a ideia é que durante esses momentos, as crianças trabalhem de facto nestes pequenos grupos de três ou cinco crianças, com o tutor, alguém especializado, que tem que receber formação, e já agora a nossa proposta inclui o custo dessa própria formação, e que trabalhando em articulação, obviamente, com a escola, com a equipe pedagógica da escola e designadamente com o professor da criança, possam então ajudar essas crianças a recuperar aquelas aprendizagens que perderam ou que deviam ter adquirido ao longo destes períodos de encerramento das escolas em dois anos letivos seguidos e que não adquiriram.

Estamos a caminhar largamente para o final do programa, Susana Peralta. Custos e benefícios das tutorias, rapidamente, porque ainda temos que falar da outra proposta que tem a ver com escolas de verão.

Nós fazemos os cálculos pra isso do custo, não só do salário horário e olhamos pra as tabelas salariais dos professores e pra o custo de formação, e depois usamos até um estudo que está também no site Iniciativa e Educação, porque a OCDE lançou aqui há vários meses um trabalho acerca dos custos econômicos do encerramento das escolas, mas depois os autores desse estudo fizeram os cálculos específicos pra Portugal, que estão no site da Iniciativa e Educação. Nós depois olhamos também pro salário mediano e portanto fazemos ali vários cenários e vemos, olhando para aquilo que nós sabemos que são os impactos de cada ano de educação nas crianças e depois olhando pra aquilo que pode ser o salário dessas crianças, olhamos pro salário mediano. Depois até fazemos um exercício de grande conservadorismo, que é dizer: "E então e se essa pessoa for ganhar apenas metade do salário mediano?" E ainda assim, o custo máximo é investir numa criança, digamos, no programa mais maximalista, que seriam grupos de três, uma criança que precise de recuperação, tanto em português como em matemática, ao longo de todo o ano letivo, essa criança custaria 1500 € ao erário público. E mesmo que essa criança receba metade do salário mediano, é um custo que ela recupera rapidamente ao longo da vida. Portanto, nós fazemos as contas, mas cada euro gasto num programa destes pode trazer entre 3 € ou 18 € de retorno, consoante nós sejamos mais ou menos conservadores, mas estamos sempre em margens de grande segurança, de que cada euro gasto neste programa é de facto um euro que traz retorno nas próximas décadas no capital humano destas crianças.

Muito bem, aproveitando que temos um minuto e meio até o final do programa. Isto voa, está sempre a voar. Escolas de verão é outra da proposta que a Susana Peralta e o outro grupo e os seus colegas ligados à economia da educação propõem para o país para os próximos tempos. Rapidamente, em 20 segundos, o que é que é isto de escolas de verão?

São escolas de verão, ou seja, são ATL, no fundo, em que as crianças têm momentos lúdicos, momentos desportivos muito importantes, porque as crianças também têm um enorme custo na sua saúde mental, no seu bem-estar psicológico ao longo destes dois anos, e com tutorias lá metidas. Portanto, no fundo, é aproveitar o tal poder transformacional das tutorias e dizer que essas crianças forem acolhidas durante quatro semanas em estruturas. Já agora, nós temos as férias de verão mais longas da União Europeia, portanto, não há nada a perder se essas crianças puderem passar quatro semanas em momentos muito lúdicos Com muita componente de socialização e três ou quatro horas por semana de tutorias, para poderem depois também entrar em setembro, no ano letivo, com mais confiança nelas próprias e com mais conforto para os novos desafios que aí virão.

Muito bem. Não duvidando da bondade da sua proposta, Susana Peralta, mas olhando para o que propõe, não seria melhor nos próximos anos letivos, e pedindo-lhe uma resposta mesmo muito telegrafica, criar turmas mais pequenas e quase personalizar o ensino em turmas mais pequeninas?

A questão é que nós estamos a falar de tutorias com grupos de três ou cinco crianças. Mesmo a tal tutoria de três dá no máximo 1500 € por criança ao longo do ano letivo. É muito mais caro. Vamos definir turmas pequenas, três ou cinco crianças nunca serão. Mas turmas de 15 crianças, isso multiplica por dois o custo do ensino superior. Nós estamos a falar de um aumento que é no máximo dos máximos no nosso cenário mais maximalista, de 10% do orçamento atual da educação. Ora, se nós quisermos dividir as turmas por dois e mesmo assim não temos grupos tão pequenos, embora depois são mais horas por dia, estamos a falar de multiplicar por dois, é também uma questão de custo. Isso nós sabemos que funciona. Há centenas de estudos que mostram que isto funciona. E portanto, temos aqui uma medida que é custo efetiva e que funciona, comecemos por aqui, por que não?

Muito bem, Susana Peralta, muito obrigado por ter vindo à Nota vinte desta semana.

Obrigado, Susana.

Obrigadíssima, João Ricardo.

Professor Nuno Crato, estamos mesmo no fim para concluir. Peço-lhe três notas breves.

Com esta discussão sobre as tutorias, deixe-me dizer duas ou três coisas. Primeiro, as tutorias são importantes tutorias cognitivas, ou seja, ajudar os jovens a aprender. Neste sentido, uma coisa diferente são mentorias. Estamos a falar aqui de tutorias no sentido de incentivar a aprendizagem. E segunda questão, estas tutorias são particularmente eficazes para os jovens mais desfavorecidos. Portanto, o que existe internacionalmente e que me leva a achar muito bem a ideia das tutorias, é o seguinte: isto é dirigido àqueles jovens que mais têm perdido e, portanto, não é baixar o ensino para todos, de forma que todos sejam nivelados por um mesmo patamar mais inferior, mas é levar os que têm mais dificuldades a atingir um nível superior, e isso parece-me muito interessante. E é uma coisa que existe no mundo. Nós fazemos isso, por exemplo, com o programa A a Z pela Leitura, da Iniciativa pela Educação, e tem-se provado que é algo muito bom. Vamos para os alunos. Deixe-me dizer uma coisa que eu achei extremamente interessante neste estudo sobre a Holanda, é que eles acabam dizendo o seguinte: "build back better". Ou seja, quando regressarmos, vamos ter que fazer melhor, vamos ter que acelerar e aumentar a qualidade da educação. E isso é fundamental e é mesmo aquilo que nos deve mover agora, em minha opinião, é voltar e aumentar a qualidade da educação e dar particular atenção aos mais desfavorecidos para que todos os estudantes atinjam um nível muito aceitável.

Muito bem.

E cada vez mais ambicioso.

Ambicioso, sim. Na próxima semana, vamos relacionar o tema da educação com a pobreza. Será nosso convidado o professor Fernando Diogo, autor do estudo "Pobreza em Portugal: Trajetos e Cotidianos", promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Daqui a segundos já pode responder à pergunta que colocamos no Twitter, é a seguinte: o percurso escolar é um fator decisivo para a situação de pobreza dos portugueses? Sim ou não? Professor Nuno Crato, até para a semana.

Até para a semana.