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Começa agora. Boa tarde, Miguel Vieira.

Boa tarde, João.

O Ministro da Educação admite que há o risco das notas dos exames nacionais não serem divulgadas amanhã. Fernando Alexandre apela à colaboração dos professores.

Tendo em conta que faltam docentes para classificar as respostas que ainda estão por avaliar, diz o ministro. Fernando Alexandre dá exemplos.

Por exemplo, na prova de físico-química, nós temos neste momento 99,9% das respostas corrigidas. O que é que isso quer dizer? Que faltam 373 respostas para esta prova ficar fechada. 373 respostas. É muito difícil a sociedade portuguesa, os alunos, as famílias perceberem que uma prova não vai ter os resultados publicados porque há 373 respostas por corrigir, quando já foram corrigidas cerca de 30 mil.

Estão por corrigir, explica o Ministro da Educação, porque não há professores para concluir a avaliação.

De acordo com o Júri Nacional de Exames, está a ser difícil conseguir trazer mais professores classificadores para apoiarem. E aquilo que eu estou a dizer é: em português e matemática, os números ainda são um bocadinho elevados, mas penso que temos todas as condições para amanhã termos este problema resolvido, mas temos várias provas, por exemplo, Biologia e Geologia, uma prova também com muitos alunos, grande, nós temos 99,7% das respostas corrigidas. Faltam 584 respostas.

Face a este diagnóstico, o ministro diz que há o risco das pautas com as classificações não serem fixadas amanhã, sexta-feira, o prazo fixado pelo Ministério da Educação.

Enquanto eu não tiver as provas todas corrigidas, claro que há riscos, é óbvio. Há um calendário definido, há hora, todos os processos estão definidos, o processo tecnológico está testado e por isso agora o que nós precisamos é de fechar a correção das provas.

E por isso o pedido do Ministro da Educação, Fernando Alexandre, dirigido aos docentes.

O apelo que eu deixo aqui é a todos os professores, agradecendo mais uma vez todo o esforço que fizeram, ainda por cima num contexto de perturbação, em que houve muita coisa que não correu bem, e que possam ajudar, que possam de facto ajudar nesta fase final a resolver um problema que não é do ministro, é um problema do sistema educativo. O sistema educativo tem que conseguir responder àquilo que os alunos esperam, àquilo que as famílias esperam.

Têm a palavra os professores. É nosso convidado este Jornal do Meio-Dia, Pedro Barrares. É o secretário-geral da FNE, a Federação Nacional de Educação. Bem-vindo, obrigado pela disponibilidade. Por que motivo não há professores disponíveis para corrigir o que resta dos exames?

Olá, muito bom dia. Não, professores existem e em número suficiente para dar resposta a todas as necessidades do sistema educativo. É evidente que os recursos humanos nunca são os suficientes, mas para esta tarefa em concreto, com certeza que, à semelhança daquilo que aconteceu no passado, em que o universo de professores era idêntico e em que os resultados apareceram a tempo e horas. Portanto, não será correto nem adequado transferir para os professores os problemas de um sistema que, ao que parece, não está suficientemente robusto e consolidado para dar resposta àquilo que, como o senhor ministro dizia, a sociedade, os nossos alunos e os seus encarregados de educação merecem e precisam.

Não é verdade esta afirmação do Ministro da Educação de que não há professores disponíveis para classificar o que resta dos exames nacionais?

Eu não vou desmentir as afirmações do senhor Ministro da Educação. Aquilo que importa esclarecer é perceber o porquê, quais os motivos pelo qual o senhor ministro faz essa afirmação. Conforme eu disse, o número de professores que foram indicados pelas escolas foram os suficientes para dar resposta a essa necessidade. Se o senhor ministro diz que o Júri Nacional de Exames confirma ou afirma que está a ser difícil, importa perceber quais os motivos que são alegados para que o Júri Nacional de Exames passe essa informação ao senhor Ministro da Educação.

Esta afirmação do Ministro da Educação vem juntar-se àquilo que disse o primeiro-ministro há dois dias. Lamentava Luís Montenegro aquilo que definia como a resistência de alguns professores a este processo digital de classificação dos exames nacionais. Há, de facto, aqui alguma resistência? São os professores ou, pelo menos, alguns docentes, um obstáculo à concretização com sucesso deste processo de avaliação digital?

Importa distinguir aqui dois aspetos. O primeiro, o digital em si. E sobre este primeiro, o feedback que nos é feito chegar e tem sido feito chegar ao longo destas semanas é que é considerado como uma vantagem pela generalidade dos professores, ou seja, o simples fato de não terem que se deslocar para levantar provas, não terem que trancar provas, não terem a dispersão de itens e concentrando apenas em só um ou dois itens para avaliar, não ter que assinar todas as folhas, não ter que ir para as filas entregar as provas e verificar uma a uma. Tudo isto, que com o digital é resolvido, é visto pelos professores como um passo em frente. Portanto, os professores não estão contra o digital. Os professores estão é contra, por um lado, a falta de planificação, a falta de organização num processo que é complexo, que envolve 300 mil provas e, portanto, é um processo muito complexo e que, tendo em conta a experiência do ano passado, julgávamos nós que este ano os problemas verificados tinham sido corrigidos e ultrapassados. Aparentemente não. Mas importa também é que o senhor Ministro da Educação possa dizer, eventualmente não será agora o momento oportuno, mas possa dizer em concreto a informação que é passada pela Eduque e pelo Júri Nacional de Exames, no sentido de se perceber quais os problemas que foram verificados, quais os responsáveis, porque no final deste processo têm que ser assumidas responsabilidades para que esta situação não se verifique no futuro.

Que consequências caso as pautas não sejam divulgadas amanhã?

Há uma consequência desde já evidente, que é uma consequência política. Mais uma vez eu digo, não foram os professores que definiram o calendário. Eu recordo que o senhor Ministro da Educação chegou a dizer publicamente que estavam reunidas todas as condições para que os resultados pudessem sair no dia 14. A publicação desses resultados foram adiados em três dias, mas pelas declarações, até seria possível fazê-lo no dia 14, mas por uma questão de maior rigor e transparência, para permitir o acesso a todos os alunos às provas, foi tomada esta decisão política de passar de dia 14 para dia 17. Portanto, o normal seria que no dia 17 estivessem reunidas todas as condições. Se isto não se verificar, há obviamente que tirar ilações e perceber o motivo pelo qual isto aconteceu. Há consequências políticas, mas também há, com certeza, consequências naquilo que diz respeito a um processo que se quer sério e rigoroso e onde garantidamente a desconfiança na forma como todo este processo decorreu será colocada em causa e daí nós também, já antecipando isso, emitimos um comunicado no sentido de serem definidos planos de contingência, porque nos vamos eventualmente deparar com um volume muito elevado de pedidos de classificação das provas.

Averiguamos o que vai ditar o dia de amanhã e se se concretiza ou não a promessa de divulgar as pautas, ou se, pelo contrário, face aos problemas identificados pelo Ministro da Educação, tal não vai acontecer. Agradeço-lhe, Pedro Barreiros, secretário-geral da FNE, a sua presença nesta edição do meio-dia da Rádio Observador.

O ministro da Administração Interna diz ao Observador que foi um lapso. Luís Neves, quando chegou ao governo, não declarou à Entidade para a Transparência a empresa da mulher que tem a propriedade em Odemira, alvo de obras realizadas pelo amigo João Carvalho.

O empresário dono da Constrobarcelos e empresas a que foram adjudicados vários contratos pela Polícia Judiciária quando Luís Neves era diretor nacional da instituição. Um caso que suscita interrogações, desde logo, se há algum conflito de interesses. Este é um caso que tem estado a ser seguido de perto pela editoria de Justiça do Observador. Aqui conosco em estúdio está o jornalista João Paulo Godinho, que assina uma notícia que pode ler em observador.pt, há pouco era manchete, sobre as declarações entregues pelo ministro à Entidade da Transparência. Mais do que uma em cinco meses, João. Boa tarde, bem-vindo.

Boa tarde, Miguel. Efetivamente, Luís Neves entregou já três declarações junto à Entidade para a Transparência desde que tomou posse no dia 23 de fevereiro. Entregou a primeira dentro do prazo legal, que existe de dois meses, e depois, no dia 25 de maio, entregou uma declaração de alteração e outra de substituição, portanto, perfazendo essas três declarações. E é nesta última declaração de substituição que surgem algumas mudanças relevantes em relação ao que Luís Neves tinha declarado no mês anterior à Entidade para a Transparência, no cumprimento das obrigações declarativas que os titulares de cargos políticos e altos cargos públicos todos têm. E essas alterações são, sobretudo, uma conta bancária com saldo superior a 50 salários mínimos, que é uma obrigação a declarar, e que Luís Neves comunicou agora ter mais de €133 mil. A subida dos empréstimos que tinha, que passou de, creio eu, 180 mil para 315 mil e, sobretudo, a comunicação da empresa da mulher, que não estava na declaração quando tomou posse como ministro.

Que justificação é que o ministro dá para o facto de não ter declarado esta empresa proprietária da tal moradia em Odemira?

Muito bem, nós contactámos o gabinete do Ministro da Administração Interna e aquilo que nos foi comunicado é que a informação sobre a empresa da mulher, a empresa A&AL Campos, não foi incluída na declaração inicial do Ministro da Administração Interna por um mero lapso. Foi esta a expressão que o gabinete do ministro da Administração Interna nos transmitiu.

João, há uma nuvem que paira sobre o ministro pintada em tons de suspeita. Se há alguma relação entre os contratos feitos pela PJ com a Constrobarcelos e as obras de restauro da moradia do ministro em Odemira, há alguma investigação em curso?

Neste momento, que nós tenhamos conhecimento, não. Efetivamente, nós colocámos várias questões à Polícia Judiciária sobre um eventual conflito de interesses e se houve uma declaração sobre esse aparente conflito de interesses de Luís Neves conhecer e ter uma amizade com o empreiteiro que depois acabou por ser contratado para várias obras da Polícia Judiciária. A Polícia Judiciária confirmou-nos que foram feitos 17 contratos naquele período entre 2019 e 2025, se não estou em erro nas datas, que totalizaram 2,3 milhões de euros, sensivelmente, mas nunca nos esclareceu até o momento se houve uma declaração de conflito de interesses da parte de Luís Neves. E paralelamente, nós questionámos também a Procuradoria-Geral da República já sobre esta matéria, que ainda não nos respondeu se foi ou não aberto algum inquérito e se recebeu ou não alguma denúncia sobre esta matéria.

Continuamos a aguardar com expectativa e interesse, seguramente, essa resposta do Ministério Público às perguntas enviadas pelo Observador e, em particular, pelo jornalista da Editoria de Justiça, João Paulo Godinho, que assina este artigo, que já não é manchete, mas está em destaque no site do Observador, "Neves não declarou a empresa da mulher à chegada ao Governo".

Fica por aqui o jornal do meio-dia com o Miguel Vilela.