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E começa agora uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão". Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. O teu bom é André Ventura.
Isto pode custar muito a muita gente, pode custar muito a quem odeia o Chega, pode custar muito ao PS. Acima de tudo, pode custar muito ao PSD e pode custar muito ao governo, mas a verdade é que André Ventura ontem fez quase tudo bem. Ao apresentar a moção de censura por causa de Luís Neves, o líder do Chega foi demagógico? Com certeza foi, mas também foi claro e, acima de tudo, foi na medida dele, moderado. Ao contrário do que tinha acontecido noutros dias, não chamou Al Capone a Luís Neves, não berrou, não esbracejou e, além disso, fez tudo para se aproximar do presidente da República e fez tudo para que o presidente da República se aproximasse dele. A moção de censura vai ser chumbada no Parlamento, claro, mas Luís Neves e, mais importante do que isso, Luís Montenegro, sai muito mais fraco de tudo isto. Aliás, basta fazer um exercício e ter os ouvidos alerta. Eu já ouvi pessoas elogiarem André Ventura por estes dias, que eu jamais imaginaria. E se o governo não quer pensar sobre isso?
É sintomático que num assunto André Ventura seja a pessoa com mais sentido de Estado, quase.
Ou que seja percepcionado assim.
Percepcionado, obviamente.
Que seja percepcionado assim. Com certeza que André Ventura tem tido os excessos de sempre. Aliás, até está a conseguir tornar comum uma coisa que pra mim é impensável, que é as pessoas exprimirem esta ideia de que talvez Luís Neves saiba coisas de Luís Montenegro e de outros responsáveis políticos que faz com que eles sejam incapazes de o enfrentar ou de o demitir. Isto pra mim é impensável. Se alguém acredita nisto, então é melhor fecharmos a porta e deitarmos a chave fora. Alguém admitir a possibilidade de Luís Neves se manter no cargo porque sabe coisas sobre outros líderes políticos, nomeadamente sobre o primeiro-ministro, isso pra mim era de emigrar. Eu ia já ali pedir asilo político a um sítio qualquer. Mas até isto, André Ventura está a conseguir tornar em algo corrente.
Uma narrativa que se abre.
E o governo não perceber que isto já está a assumir uma proporção que pode ser muito complicada, acho que é mesmo fazer como os três macaquinhos. Não veem, não ouvem e não falam.
O bom é André Ventura, e quem é o teu mau?
Lá está, é o governo. Como já se percebeu, quem realmente manda no governo está convencido de que os factos provam que os eleitores não querem saber de Luís Neves pra nada, estão mais preocupados em ter dinheiro que chegue até o fim do mês, estão mais preocupados com os efeitos das trapalhadas do ministro da Educação no futuro dos seus filhos, estão mais preocupados com as horas que terão que passar num hospital se precisarem de ajuda do SNS. E isso é tudo verdade. De facto, os eleitores estão mais preocupados com tudo isso? Pois com certeza. Mas há duas coisas que o governo está a desvalorizar. A primeira é esta: basta falar com pessoas de fora da bolha, já que o governo está tão preocupado com a bolha e acha que isto é só na bolha. Basta falar com pessoas de fora da bolha pra perceber que Luís Neves era um diretor da PJ que provocava admiração e agora é um ministro que provoca desconfiança, suspeita ou gozo. E a segunda coisa que o governo está a desvalorizar é que com Luís Neves todos os dias nas notícias, não é possível falar sobre mais nada. Ontem na SIC Notícias, o Hugo Soares começou a sua entrevista a tentar falar sobre o cumprimento do PRR, sobre os números macroeconômicos, sobre as casas que o governo diz que entregou e que combatem a crise da habitação, mas até ele desistiu rapidamente, porque enquanto isto durar, ninguém está a querer saber. Dentro da bolha, fora da bolha, isto está a consumir o país todo e o PSD e o governo não estão a querer ver isso.
Depois não adianta vir com teorias da censura moderna, não é?
Pois não.
Se mantêm casos destes e não se matam casos destes já nascença, enfim.
Precisamente.
Não há milagres.
Miguel, o que é que disse o teu vilão?
O meu vilão, lá está, e por isso é que é o vilão, disse pouco. É o presidente da República. Eu sei que António José Seguro está de férias, mas isso, sinceramente, é um problema dele. Ele é que quis voltar à política e, portanto, se quis voltar à política, uma das consequências de se voltar à política é que não se tem férias descansado. É assim. Agora, estando de férias ou não, não parece que seja possível continuar calado perante tudo isto, até porque o silêncio do presidente da República está a criar um vazio que é ocupado voluntariamente ou involuntariamente por outros. O silêncio faz com que tenhamos Os jornais a falar por ele. O silêncio faz com que tenhamos Adalberto Campos Fernandes a falar por ele. O silêncio faz com que tenhamos Álvaro Beleza a falar por ele e o silêncio faz com que tenhamos, imagine-se, André Ventura a falar por ele, porque ontem na conferência de imprensa, o líder do Chega informou o país que falou ao telefone com António José Seguro e que ele está preocupado. André Ventura relatou-nos o que vai na cabeça do presidente da República. E eu sei que nós tivemos até há pouco tempo um presidente que falava demais, é verdade, mas também não podemos agora ter um presidente que fale de menos. É preciso arranjar aqui um equilíbrio entre as duas coisas.
Sobretudo a deixar passar a ideia de que há quem fale por ele.
Sim, é como eu digo, eu até acho que em vários casos involuntariamente. Não me parece que Adalberto Campos Fernandes ou Álvaro Beleza queiram fazer-se passar por porta-voz do presidente.
Eles podem não querer, mas há quem atribua logo essa função daquela declaração também.
Precisamente. E isso está a criar, como nós aliás podemos constatar pela manchete que está agora no Observador, isso é uma das coisas que está a criar um grande desconforto no governo. Por isso, António José Seguro tem de entender que às vezes não fazer nada já é fazer alguma coisa. Não dizer nada é uma forma de falar. Simplesmente depois os silêncios são interpretados pelas pessoas da maneira que entendem. Por isso, eu sei que as férias estão boas, eu sei que o sol está incrível, esta temperatura está ótima, o mar deve estar uma maravilha, mas se calhar é a altura de António José Seguro interromper as férias e dizer ao país o que é que pensa. Quer dizer, foi eleito, não é? Ele é que quis ser eleito. Então se foi eleito, vamos a isso.
Vamos ao resumo. O bom desta quinta-feira é André Ventura, o mau é o governo e o vilão de hoje é o presidente da República. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs de 360 e sempre em podcast.