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Miguel Pinheiro com O Bom, O Mau e O Vilão. Bom dia, Miguel.

Bom dia.

Bom dia. Então quem são os bons de hoje ou o bom? Há muitos, não é?

Sim, de facto é mais do que um, porque são os candidatos presidenciais que contestaram este absurdo que é termos boletins de voto errados nas eleições. Há 11 candidatos validados pelo Tribunal Constitucional, mas quando forem votar no dia 18 de janeiro, os portugueses vão ter à frente 14 caras e 14 nomes. Tudo porque Joana Amaral Dias, Ricardo Sousa e José Cardoso entraram pelo Tribunal Constitucional adentro a dizerem que eram candidatos. Depois, quando se foi ver, não tinham as condições para isso, mas os boletins já tinham sido impressos. E pelos vistos, atenção, acontece aqui um facto inédito: a culpa não é de ninguém.

Não.

É uma coisa que em Portugal é raríssima, mas dá-se aqui. A culpa não é de ninguém. O Tribunal Constitucional diz que não tem nada a ver com isso, a Comissão Nacional de Eleições diz que só se cumpriram os prazos que estão na lei e o Ministério da Administração Interna nem sequer respondeu às perguntas dos jornalistas. Devem estar mais ocupados a endireitar clipes. O assunto ainda se torna um pouco mais grave porque já aconteceu antes. Isto já aconteceu antes, houve já eleições onde apareciam personagens que não eram candidatos, eleições presidenciais, mas pelos vistos ninguém se deu ao trabalho de mudar a lei, de mudar os prazos, de mudar o que fosse preciso para que isto não se repetisse. E eu bem sei que muitas vezes são os próprios eleitores a colocarem no boletim de voto candidatos fictícios. Há uns anos, se bem me lembro, o Macaco Adriano, do Bicho Chic, recebeu uma série de votos, não sei se vocês se lembram. Foi uma altura em que o Macaco Adriano era muito popular. E então as pessoas decidiram que seria um bom candidato e votaram nele, mesmo não estando ele no boletim de voto. Por isso, por vezes os eleitores fazem isso, mas convém que, apesar de tudo, nestas coisas, a fantasia não parta do próprio Estado. Já agora, se puder ser.

Pois, para não darem ideias.

Ó Paulo, para dar, para não dar. Realmente, alguns candidatos perguntavam com razão: será assim tão difícil?

É muito difícil, Miguel.

São de cinco em cinco anos as eleições, não é?

As presidenciais.

As presidenciais. É assim tão difícil fazer isto de forma a que se vá imprimir o boletim apenas quando houver a certeza de quem são os candidatos? Será assim tão complicado? Se calhar é. Olha, se calhar, Paulo, é. Estamos aqui a dizer mal, mas se fôssemos nós a estar lá, se calhar ainda era pior.

Olha, Miguel, o mau de hoje é uma empresa que não puxa a carroça, não é?

Não, é a CP. Isto é tudo para não nos esquecermos de como funciona ou não funciona uma empresa de transportes que seja propriedade do Estado. Nós vamos acabar este ano e começar o próximo com mais uma greve nos comboios. A Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores da Agricultura, Alimentação, Bebidas, Hotelaria e Turismo de Portugal, este é o nome completo, anunciou que hoje começa uma greve de trabalhadores dos bares do Alfa Pendular e do Intercidades. Aliás, já começou e um porta-voz da Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores da Agricultura, Alimentação, Bebidas, Hotelaria e Turismo de Portugal já disse que a greve está a ter uma adesão de 100%. Portanto, isto já está a funcionar. Há entusiasmo. Agora, há dois detalhes que nós devemos reter. Primeiro detalhe: a greve tem data para começar, mas não tem data para acabar, o que é de facto ótimo. É tão bom podermos fazer uma greve sem data para acabar, possa continuar indefinidamente. Há condições para isso, pelos vistos. O segundo detalhe é que a Federação dos Sindicatos dos Trabalhadores da Agricultura, Alimentação, Bebidas, Hotelaria e Turismo de Portugal pertence à CGTP, ou seja, está na órbita do PCP. Legítimo, com certeza, mas só serve para nós constatarmos que andamos nisto e não saímos disto. Andamos sempre assim. E por isso, quem quiser mudar este estado de coisas, olha para países civilizados da União Europeia, e não só, e percebe que é possível ter serviços de comboios que não sejam prestados pelo Estado. Quem não quiser fazer isso, continua com greves sem data para acabar. Acho que sim, acho que está ótimo.

Mas vamos todos deixar o automóvel lá em casa. Andar de transportes públicos. Segurança energética, essas coisas.

Claro, a grande aposta na ferrovia e depois nos comboios de longo curso, nem dá para beber um copo d'água, porque eles estão em greve, os bares.

Miguel, quem é o vilão?

Olha, o vilão é Gouveia e Melo, que se indignou muito com o facto de ter de dar explicações sobre este caso das adjudicações na Marinha. A polémica surgiu ontem. O Ministério Público de Almada está a investigar uma série de contratos feitos pela Marinha no tempo em que Gouveia e Melo era comandante naval. Mas atenção Era um processo que já vinha de trás, aliás, já tinha sido noticiado em jornais numa altura aqui há cerca de um ano e meio. O processo passou pelo Tribunal de Contas. Aí Gouveia e Melo foi exonerado de responsabilidades, apesar de o tribunal ter considerado que a conduta dos dirigentes da Marinha era passível de um juízo de censura, de falta de cuidado e mera negligência. Depois da decisão do Tribunal de Contas, o Ministério Público decidiu continuar a investigação, o que é legítimo, e perante a polêmica, e isto é que me fez impressão, Gouveia e Melo comportou-se como se a responsabilidade fosse dos outros. Estranhou, estou a citá-lo, que o caso surgisse em plena campanha e depois acusou a revista Sábado, que deu a notícia, de ser um órgão de comunicação que é relações públicas do Ministério Público. Portanto, é assim que um candidato à Presidência da República olha para um órgão de comunicação social. Acha que um determinado órgão de comunicação social é relações públicas do Ministério Público e está ao serviço do Ministério Público. É uma ótima concepção da liberdade de imprensa. Os candidatos a presidente da República têm de perceber que não são candidatos a presidente do condomínio de um prédio de dois andares em Vila Velha de Ródão. Eles são candidatos ao mais importante cargo da República e por isso, sim, têm de ser escrutinados por toda a gente, a começar pelos jornalistas, e têm de explicar muito bem explicadinho tudo o que andaram a fazer até ao momento em que decidiram pedir o voto dos eleitores, porque os eleitores têm direito a não querer surpresas no Palácio de Belém. Ninguém está a dizer que o Gouveia e Melo é culpado de nada. Ninguém está a dizer nada disso. O que se está a dizer é: tem de explicar tudo. E ainda por cima não é propriamente um processo que o deixe surpreendido, porque ele já se explicou ao Tribunal de Contas. Ele sabe o que é que está em causa. Por isso pode explicar-nos tintim por tintim, ao detalhe, tudo o que se passou só pra nós sabermos. Agora, não desvenham, é sempre com a teoria da cabala. Pra isso é que já não há paciência. Cada vez que há uma dificuldade, temos que levar com a teoria da cabala. A sério.

Eu prefiro o Paulo.

Ó céus.

Vamos ao resumo da edição de hoje. O bom são os candidatos presidenciais que contestaram o absurdo, que é termos boletins de voto errados nas eleições. O mau a CP e o vilão Gouveia e Melo.