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Começa agora o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o Major-General José Moreira.
Olá, bom dia a todos.
Bom dia, bem-vindo. Já sabe que também nos pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. General, na semana passada focamos o nosso Ponto Mira na Gronelândia. Prometemos voltar ao assunto, até porque se esperavam novidades no diálogo entre Estados Unidos, Dinamarca e Gronelândia. Que balanço podemos fazer do que se está a passar depois de Donald Trump ter ameaçado que, a bem ou a mal, de uma maneira ou de outra, ficaria na posse desta imensa ilha sobre o Ártico?
É verdade. Aquilo foi uma espécie de um aperitivo que fizemos no nosso Ponto de Mira. Hoje vamos tratar a Gronelândia de um ponto de vista, talvez com um desenvolvimento mais importante. O tema Gronelândia é um tema que está presente desde o início deste segundo mandato de Donald Trump. Foi logo referido no início como sendo uma das suas ambições tornar a Gronelândia num Estado a acrescentar aos Estados dos Estados Unidos. Isto ocorreu logo, as primeiras referências são do início do seu mandato, janeiro de 2025, e pouco tempo depois, para exatamente reforçar o interesse dos Estados Unidos naquilo que eles chamaram a aquisição, sem que o termo aquisição tivesse sido extraordinariamente bem definido, na aquisição do território, eis senão quando, a 28 de março, temos uma visita bizarra. O vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, vai à Gronelândia.
E na altura aquilo pareceu-nos um bocadinho descarado.
Bizarro, estranho. Aquilo pareceu, na altura, como alguém que vai ver uma coisa que quer comprar. Uma visita a um apartamento. Eu estou interessado neste apartamento.
Num terreno, não é?
Deixa-me ver isto. Ele foi, aliás, acompanhado da esposa e esteve na grande base militar que os Estados Unidos mantêm na Gronelândia, a base de Pituffik. Portanto, ficou logo sinalizado, por um lado, pelo discurso de Trump e, por outro lado, pelo interesse de J.D. Vance em ir pessoalmente conhecer o território, ficou sinalizado que o tema Gronelândia não iria desaparecer da agenda de Trump. Agora temos os desenvolvimentos recentes, que são os desenvolvimentos desde o início de 2026. Houve o sequestro de Maduro no início do ano e isto veio alterar o discurso do presidente dos Estados Unidos sobre a Gronelândia. Até aqui o termo que se falava era o termo aquisição, deixando aqui um bocadinho em aberto como é que isto era feito, através de um tratado de cedência, através da compra efetiva do território, etc. Mas depois da intervenção na Venezuela, o presidente dos Estados Unidos considerou que estavam reunidas as condições para lançar a opção militar também para a tal aquisição da Gronelândia. Portanto, de uma maneira ou de outra-
Isso é que ele diz a bem ou a mal, não é?
De uma maneira ou de outra, o território da Gronelândia será um território dos Estados Unidos. Isto deixou, naturalmente, um enorme desconforto, quer entre os habitantes da Gronelândia, os tais 57 mil que nunca manifestaram desejo nenhum, não há nenhuma sondagem que traduza isso, o seu desejo de se tornarem norte-americanos, de serem agregados aos Estados Unidos da América, e sobretudo, um enorme desconforto da Dinamarca, que sempre se considerou um aliado fiel aos Estados Unidos, que participou nas grandes operações em que os Estados Unidos estiveram envolvidos e, portanto, participou do ponto de vista da solidariedade para com um aliado, e que de repente se vêem com um problema entre mãos que não estavam verdadeiramente à espera, nem sabiam como lidar. Um dos seus aliados, o seu principal aliado, de repente manifesta interesse em ficar com uma parte do seu território. A solução encontrada, esta primeira solução encontrada foi conversações. Falarmos, vamos falar. Pelo que esta semana tivemos uma delegação da Gronelândia e da Dinamarca que foram, atenção porque isto é interessante, a Gronelândia também foi.
Também esteve representada.
Foram os dois à Casa Branca para ver se havia outras alternativas.
Se era viável ou não.
Se havia, enfim, se podiam ser consideradas outras alternativas relativamente a este desejo. Simplesmente, os dois que foram, que eram os ministros dos Negócios Estrangeiros do governo autónomo da Gronelândia e Lars Rasmussen, que é o ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, estavam à espera de se encontrarem com o seu homólogo, Marco Rubio, o secretário de Estado norte-americano. Mas quem estava à espera era, além de Marco Rubio, J.D. Vance. Isto muda imediatamente a equação, o tom da discussão, a abertura para encontrar soluções, etc. J.D. Vance foi colocado nesta reunião para impedir qualquer avance de natureza negocial ou qualquer compromisso com aquilo que era a vontade dos europeus e, sobretudo, dos dinamarqueses e dos groenlandeses, de encontrar aqui uma saída airosa para isto tudo. Portanto, J.D. Vance é introduzido nisto, ou ele próprio se introduz no sistema, para evitar que aquele tom mais conciliatório De rúbio fosse o tom prevalecente à volta desta mesa. E, portanto, o que resultou daqui são aspetos de natureza que eu diria aquela uma conferência de imprensa à saída desta reunião, toda a gente com ar pesaroso, muito pesado, até um bocadinho desconcertados com tudo aquilo que se tinha passado, e para o qual as palavras de que a reunião foi produtiva e franca não disfarçam o mal-estar daquela reunião. O que disseram agora os participantes depois desta reunião. O Lars Rasmussen, que é o ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, disse uma frase que sintetiza tudo isto: "Existe ainda um desacordo fundamental com os Estados Unidos depois de uma conversa franca e construtiva." Isto diz-nos tudo. Mas o que é que resultou daqui? Isto também não podia resultar em nada, tinha que resultar nalguma coisa. E aquilo que as partes encontraram para resultado foi criar um grupo de trabalho. Criou-se um grupo de trabalho para dar continuidade a esta conversa, sendo que nós vemos muito poucas possibilidades de que este grupo de trabalho possa chegar a algum lado. Mas foi uma parte para não cortarmos o processo, já pelo menos fazermos estender o processo. Estender o processo aqui é importante, porque há um certo acreditar por parte dos europeus que o tema não é popular nos Estados Unidos e que Donald Trump pode vir a recuar nisto, se entretanto o processo demorar tanto tempo que possa ocorrer um descalabro nas eleições de midterm elections. Nós estamos a jogar no tempo, enquanto Donald Trump quer jogar na pressa.
Pois, porque mete uma coisa na cabeça e depois sabemos como é.
A ministra Vivian Mostefeld, que é a ministra dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia, veio apelar ao passado. Temos uma história comum, uma história com os Estados Unidos. O mais importante é sermos capazes de normalizar as nossas relações como elas sempre foram. Isto é, o que ela chama a atenção é que há aqui um corte abrupto naquilo que era uma linha de cooperação, de colaboração estratégica entre as partes e que era importante voltarmos outra vez a este quadro multilateral de aproximação e de encontrar soluções aqui. Rússia. A Rússia está satisfatíssima com este processo. Nunca vi uma Rússia tão satisfeita neste processo.
Até porque se tem falado muito mais disto do que da Ucrânia.
Muito bem. O tema desviou-se, já não é Ucrânia agora, o tema é Gronelândia. O tema tem potencialmente um conflito entre membros da NATO e, portanto, isto parece bombons a cair ali no colo de Vladimir Putin, e o resultado pode ser desastroso para a NATO. Na verdade, quando Donald Trump avança, não para uma solução negociada, mas para a possibilidade de uma intervenção de natureza militar, isto será certamente o fim da NATO, se isto acontecer. E, portanto, Moscovo o que procura aqui é apenas pôr achas na fogueira.
Não está aqui para mais.
Exatamente. Isto é uma fogueira que lhe interessa. Não é o resultado final, porque, na verdade, o resultado final da posse dos Estados Unidos na Gronelândia, com uma visão ampla sobre o Ártico, não satisfaz os interesses geoestratégicos da Federação Russa. Portanto, não é a parte final, é o processo que interessa. Este processo de discussão que alimenta a discórdia e a dissensão entre os aliados da NATO, pois Moscovo está pronto para ir introduzindo aqui fagulhas, fogueiras e alimentar toda esta discórdia. A Europa já está arrependida, do meu ponto de vista, e a Dinamarca também, de terem iniciado o processo do referendo de autodeterminação. Isto era uma asneira. Já se via que isto ia acontecer mal e que um país de 57 mil habitantes naquela zona do globo não tem nenhuma hipótese de ser soberano. Nenhuma. Tem que haver sempre um esquema de proteção de natureza militar, porque 57 mil pessoas não geram nem exército, nem capacidades de defesa, nem sequer orçamento para esta função. Portanto, esta questão do referendo está para já morta, ninguém quer realizar o referendo e foi atirado para as calendas gregas. Na Europa, em princípio, estão todos de acordo da solidariedade com a Dinamarca. Onde não estão de acordo, isso é normal, nós somos muitos e há muitas visões sobre isso, é o grau de hostilidade que temos que colocar em relação a Trump. É aqui que não estamos todos de acordo. Há uns que entendem que é preciso forçar Donald Trump a ter uma intervenção de natureza militar hostil, que isso é que é o grande elemento de dissuasão nisto tudo. Isto é, que os Estados Unidos, se quiserem ficar com a Gronelândia, têm que ter um ato hostil contra a Europa. E é por isso que nessa ótica, um conjunto de países, ainda assim significativo, mas muito virado para o norte da Europa e para os países escandinavos que têm uma enorme solidariedade, mas onde se incluem também a França, o Reino Unido, a Alemanha, etc, estão disponíveis para realizar exercícios militares na Gronelândia Isto é um ato de soberania da Dinamarca, convidar países fora daquilo que é a organização da NATO para exercícios militares naturais. O que isto permitiu? O anúncio deste exercício tem três componentes. Uma componente é mostrar que os aliados estão preparados para defender a Gronelândia contra ameaças externas, Rússia e China, para já. Isto é, que aquilo faz parte também da segurança da Europa e, portanto, nós estamos disponíveis para isso. O segundo aspecto é o aspecto de solidariedade com a Dinamarca. Isto é, nós vamos participar num exercício em que a questão da soberania da Gronelândia é importante para a Dinamarca, nós estamos solidários com a Dinamarca. E o terceiro é nós agora termos tropas no terreno. Isto é, à custa deste exercício, já avançaram as primeiras equipas. A França fala inclusivamente em equipas multidimensionais, na parte terrestre, na parte aérea e na parte marítima. Isto é, o dispositivo que se está a criar ainda num núcleo muito pequeno, e por que o núcleo é pequeno? Para não irritar excessivamente os Estados Unidos. Estas tropas não foram para exercícios, foram para preparar o exercício. É preciso ver isto. É um sinal a Trump. Se for necessário, vamos fazer o exercício.
General, foi preciso Trump ameaçar para darmos importância à Gronelândia? Sempre lá esteve.
É que Trump tem razão nisto tudo. Nós andámos sempre muito preocupados com o Mediterrâneo e esquecemo-nos do Ártico, e o Ártico é fundamental também para a segurança da Europa, até para a segurança das suas linhas de comunicação e para os interfaces que existem entre o Atlântico Norte e o Ártico. Trump tem razão que não se pode defender a Gronelândia apenas, como ele diz, com aquela equipa de cães e trenós. Não se pode, mas nós andámos esquecidos. Aquilo é um território gelado e aquilo congelou também no nosso nível de ameaças. Portanto, o envio das forças já começou. O que os europeus estão a preparar-se é para fazer um exercício de dimensões médias na Gronelândia e, portanto, o estacionamento de tropas europeias na Gronelândia tem este sinal: pode haver uma invasão norte-americana, vão ter que fazer prisioneiros militares europeus. Portanto, isto aumenta, do ponto de vista dos Estados Unidos. É diferente os Estados Unidos mandarem para lá uma força e não estar lá ninguém para defender ou mandar para lá e terem que fazer prisioneiros com tropas europeias. Portanto, isto aumenta naturalmente o nível de decisão que os Estados Unidos têm que fazer e o número de linhas vermelhas que necessariamente terão que traçar.
Mudamos de geografia. A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela deu um novo peso à ameaça de intervir também sobre o Irão, onde continuam os protestos contra o regime e uma repressão brutal dos manifestantes pelas forças leais ao poder dos aiatolás. General Álvaro Moreira, em que ponto estamos nesta crise e o que é que podemos esperar, outra vez, de Donald Trump?
O Irão teve a sua revolução islâmica em 1979 e o Irão é, em si, também uma história de protestos. E o número de protestos que periodicamente ocorre no Irão é sinal, por um lado, do descontentamento gerado por esta mudança, alteração significativa, que é de natureza civilizacional, que obrigou à mudança de comportamentos das pessoas e, por outro lado, também aquilo que é uma visão muito concentrada na parte religiosa e dos costumes, e que não tem sido capaz de responder depois naquilo que é a parte social, económica, de desenvolvimento do Irão. Portanto, a história do Irão recente, depois da revolução de 79, é uma história de duas coisas: a história de repressão e de manifestações de descontentamento. Ainda estamos recordados que não há muito tempo, 2022, 2023, a morte daquela estudante de 22 anos, a Mahsa Amini, às mãos da polícia, teve um fundamento de natureza civilizacional, uma vez que ela não queria cumprir os códigos de vestuário islâmico imposto às mulheres. Ela estava detida pela polícia, foi morta nessas instalações e isto incendiou um conjunto de protestos muito grande, que eram protestos de natureza civilizacional. Isto era o confronto entre aquilo que eu digo que é o Irão moderno, que está sobretudo presente na juventude, que tem meios de acesso à informação e que não vê no regime islâmico o seu grande futuro. E, portanto, este Irão moderno de vez em quando entra em choque com o Irão tradicional e medieval dos aiatolás. Ora, acontecimentos mais recentes. Em 2025, em junho, tivemos a guerra dos 12 dias, que foi a guerra entre Israel e o Irão, que acabou com a intervenção norte-americana, com um conjunto de bombardeamentos sobre o Irão. Isto fragilizou o Irão, porque mostrou que o Irão era vulnerável a ataques exteriores, isto é, que o regime não tinha condições perante adversários de peso, de conduzir com eficácia a sua defesa E mostrou também que o Irão mantinha uma capacidade de retaliação interessante, porque os mísseis balísticos do Irão foram enviados sobre bases norte-americanas, que é uma espécie de uma resposta combinada de baixo nível, combinada e articulada de baixo nível pra não causar baixas nem maiores problemas. A partir desta guerra dos 12 dias, a economia iraniana entrou em colapso. O Rial, que é a moeda do Irão, desvalorizou cerca de 40% desde junho. Isto traduz-se em duas coisas: um aumento brutal da inflação e na descida também brutal da qualidade de vida das populações. E portanto, isto gerou uma insatisfação, que para além daquele Irão moderno da contestação civilizacional, trouxe para a rua uma contestação de natureza econômica, financeira e de insatisfação em relação às respostas econômicas de tudo isto. E, portanto, os primeiros protestos em Teerão ocorreram no dia 28 de dezembro e nas últimas duas ou três semanas tem havido protestos. Esses protestos, entretanto, diminuíram de intensidade nos últimos dias, o que mostra que o aparelho repressivo de Teerão foi crescendo ao longo deste tempo. Eu diria que o desenvolvimento da repressão seguiu cinco patamares. O primeiro é que as forças policiais foram surpreendidas pela dimensão dos protestos e foram ultrapassados. E a incapacidade de limitar os protestos a Teerão levou a que estes protestos se generalizassem em todas as cidades do Irão, o que levou à necessidade de reforçar a polícia. Há aqui agora uma história, que está ainda mal contada, da qual temos apenas detalhes e informações, de que o regime terá ido ao Iraque buscar milícias xiitas para participar na repressão. Isto, a ter acontecido, revela aqui duas coisas.
De novo a fragilidade.
De novo a fragilidade do regime em ter os instrumentos de repressão suficientes para isto e, por outro lado, que a solidariedade iraquiana, do ponto de vista das milícias xiitas, é muito forte e eles estão disponíveis para intervir em defesa do regime no Irão. Portanto, há aqui aspectos também que são importantes. Esse foi o primeiro momento. O segundo momento foram as ameaças de execuções. Todas as pessoas que participam nas manifestações e que forem consideradas responsáveis, podem ser executadas. Depois, a narrativa das forças externas, isto é, estes protestos não são da população iraniana por sua vontade, são estimulados por forças externas e, portanto, procurar reunir um consenso iraniano. Isto que está aqui só serve às forças estrangeiras. Depois, convocatórias de manifestações em apoio ao regime, isso acontece naturalmente. E depois o corte das chamadas telefônicas e do acesso à internet pra evitar a difusão de imagens que deem ideia da dimensão dos protestos. Opções norte-americanas. Os Estados Unidos foram muito vocais, nomeadamente através de Trump, logo no início dos protestos, a dizer que os protestos estavam a ser reprimidos de forma exagerada e que os Estados Unidos não iam ficar sem intervir neste processo. Ou seja, o fantasma da intervenção militar, de novo, de repetir a situação de junho, voltou outra vez pra cima da mesa, o que levou aqui a algum nervoso, tentativas de diálogo por parte do Irão. O que os Estados Unidos estão a fazer neste momento? Estão a deslocar forças. Como já não havia, o Gerald Ford tinha vindo pras Caraíbas, foram buscar um porta-aviões ao mar do sul da China para trazê-lo para o Médio Oriente. Trump entretanto não tem capacidade para fazer intervenção militar agora. Tem que ganhar aqui alguns dias, algumas semanas.
Está a sinalizar, não é?
Mas é uma sinalização forte de que há um porta-aviões, mais o grupo aeronaval, que lhe está associado, que vai a caminho do Médio Oriente e que deixou os mares da China. E portanto, isto significa que a opção militar continua a ser para os Estados Unidos uma opção interessante. Quais são as quatro, cinco opções que os Estados Unidos têm? Primeiro, atacar a liderança política iraniana, seria a mensagem mais forte. Atacar a guarda revolucionária, que seria um sinal de que a repressão está a ser reprimida. Atacar a economia do petróleo ou atacar o programa nuclear e balístico, uma espécie de uma continuação daquilo que tinha acontecido em junho. Vamos ver.
Trump tem vindo a socorrer-se de uma narrativa que dá como provável a tomada da Gronelândia pela Rússia e pela China, como falávamos há pouco, e refere constantemente a presença de meios navais destes países junto das costas da região autônoma da Dinamarca. Isto é mesmo assim ou existe aqui uma verdadeira cortina de fumo, general?
Só Trump é que viu estes meios navais, porque ele não fala só em meios navais, ele fala em coisas importantes. Há, ao largo da Gronelândia, agora, destroyers russos, portanto forças navais importantes, destroyers da China e submarinos russos em todo lado. Ora, os pescadores da Gronelândia não deram conta disso. Há aqui um problema que é importante e que nós temos que tratar. Nós, Europa, temos que estar nas águas da Gronelândia.
Já que falamos disso há tantas horas.
Nós temos que estar nas águas da Gronelândia e não basta ter as nossas forças sempre no conforto do Mediterrâneo. Nós temos que ir pras águas da Gronelândia. Por quê? Porque nós temos que oferecer uma contranarrativa a Trump. Isto é, as forças navais europeias destacadas na Gronelândia não detectaram nem destroyers russos, nem destroyers chineses e a atividade de submarinos, que é normal, não é anormal em relação àquela presença.
Mas Trump passa a ideia que estamos desatentos.
Por quê? Porque nós não estamos lá. E ele diz: "Eu tenho informação privilegiada e os europeus não podem dizer que não há". Nós temos que estar presentes do ponto de vista naval, também na zona, aeronaval, na zona para dizer a Donald Trump: "Desculpem, mas as forças aeronavais europeias não detectaram nenhuma desta atividade". Nós também estamos em falta, porque não estamos a recolher intelligence suficiente.
O nosso Ponto de Mira foca-se hoje no anúncio pela administração norte-americana da segunda fase do processo de paz na Faixa de Gaza, com a nomeação de uma administração para o território. Que perspectivas se abrem com esta nova fase, General Armando Vara?
Nós temos andado a saltar de foco entre a Ucrânia, a Venezuela e o Irão e esquecemo-nos de Gaza, mas Gaza não estava resolvido. Só a primeira fase é que estava implementada. Agora anuncia-se, finalmente, a segunda fase. A segunda fase tem dois pontos críticos que serão objeto agora de profunda discussão e negociação.
É o desarmamento do Hamas.
É o desarmamento do Hamas e um governo provisório, uma administração provisória para o território. Parece já haver consenso sobre esta administração provisória, e isto são as boas notícias, não havendo ainda notícias sobre se o Hamas vai desarmar ou não. Mas a administração será chefiada por um antigo ministro da Autoridade Palestiniana e será de natureza tecnocrática, isto é, para afastar tentações de natureza de controle político do processo. Os mediadores do lado árabe terão concordado com esta aproximação. Os Estados Unidos também agora terão que cumprir a sua parte. Mas temos aqui uma parte muito importante para fazer, que são estes dois pontos, para terminar: a administração do território por causa de fornecer os serviços e bens necessários à população, por um lado, e, por outro lado, desarmar o Hamas, criando condições políticas para o desenvolvimento de toda a atividade de administração do território que é necessária.
Para a semana cá estaremos para contar as últimas. Obrigada, General Armando Vara, e bom fim de semana a todos. Bom fim de semana