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Este é o Som do Domínio da Guerra da Rádio Observador. Nos próximos minutos olhamos para os conflitos na Ucrânia e Médio Oriente, sempre com a análise do major-general Farno Moreira. Bem-vindo, general.

Olá, muito bom dia a todos e um bom ano.

Igualmente, muito obrigada. Nesta última semana e coincidindo com as festividades que marcam este período de passagem de ano, assistimos a um aumento dramático de violência entre a Rússia e a Ucrânia, com cidades a ser bombardeadas de um lado e do outro. General, o que se está a passar nesta guerra?

Este pico, este surto de violência, apanhou-nos um bocadinho de surpresa, porque vem sobretudo lembrar-nos que as guerras não têm, ao longo do seu desenvolvimento, trajetórias de natureza linear. Elas são muitas vezes afetadas durante o seu decurso por estes surtos de uma violência extrema contra alvos que aparentemente não estavam na lista inicial dos alvos a atingir. E este é um fenómeno que foi estudado. Este desenvolvimento foi estudado sobretudo a partir do século XIX, com aquilo que foi a experiência das invasões napoleónicas. Alguns autores, Clausewitz foi um deles, procuraram explicar este fenómeno destes picos de violência. E encontraram-se basicamente duas razões para isto. A primeira razão é a razão da legitimação da utilização pelo facto de alguém a ter utilizado antes. Isto é, se eu, como uma das partes de um conflito, a certa altura, introduzo uma nova forma de fazer a guerra, uma nova tecnologia para fazer a guerra, um outro tipo de alvo que não estava previsto no conflito e que tinha sido até poupado até esse momento, o que eu estou a fazer é de alguma maneira legitimar o adversário a poder utilizar exatamente os mesmos métodos, as mesmas armas, os mesmos objectivos. Portanto, um dos fenómenos que explica estes crescendos que acontecem por vezes na guerra, tem a ver com o fenómeno da legitimação pela utilização do adversário deste conjunto de métodos. Mas depois há um outro aspecto, e Clausewitz foi bastante sagaz a ver isto: é que a guerra é conduzida por humanos e ao ser conduzida por humanos, nós não temos apenas o lado racional que deveria imperar em todas as nossas decisões. Temos também um lado emocional. E o lado emocional perturba a forma como nós deveríamos conduzir cientificamente a guerra. E portanto, todas aquelas nossas emoções, muito ligadas, por um lado, à nossa capacidade de memória. Nós não esquecemos o que nos fizeram.

Exatamente.

Podem passar muitos anos até, às vezes, mas nós não esquecemos o que nos fizeram. Por um lado, esta memória e depois aquela necessidade de vingança, muitas vezes, apesar de se dizer que a vingança serve-se fria, do ponto de vista político também, ela por vezes tem que ter respostas imediatas para poder satisfazer aquilo que são as expectativas criadas junto à opinião pública. E portanto, este fenómeno é um fenómeno estudado. Resulta da legitimação da utilização pela primeira vez de um novo método e, por outro lado, pelo facto de nós deixarmos que as nossas emoções perturbem os nossos critérios de aplicação da força. Para quem tem seguido este conflito com atenção, verificou que houve uma alteração no padrão da utilização dos vetores aéreos de ataque da Federação Russa, sobretudo ali a partir do outono. Houve, na realidade, uma diminuição daquilo que era a quantidade de vetores aéreos de ataque que a Federação Russa estava a utilizar. E isto naturalmente que constituiu um indício técnico de que ela estava a poupar, isto é, ela estava a não utilizar todos aqueles mísseis de cruzeiro, mísseis balísticos, mísseis hipersónicos, estava a poupá-los para uma ocasião que iria escolher. E essa oportunidade, como nós já tínhamos a experiência do ano passado, era sobretudo que atacasse os sectores críticos ucranianos agora no inverno. E portanto, digamos, esta era a leitura normal. Simplesmente, aquilo que foi o ataque conduzido pela Federação Russa antes do final do ano, por volta do dia 29 de dezembro, excedeu largamente aquilo que eram as nossas expectativas relativamente ao volume das forças empregues num único ataque. A Federação Russa, no dia 29 de dezembro, lançou 158 mísseis e drones sobre a Ucrânia. Tentativa, por um lado, de sobrecarregar as defesas aéreas, mas por outro lado, no sentido de poder produzir resultados. Isto é, a Federação Russa ficou convencida que se continuasse a lançar poucos sistemas de armas em simultâneo, a grande maioria deles seriam destruídos e não obteria resultados. Isto leva-nos a pensar que a Federação Russa queria marcar, efetivamente, uma posição. Ela queria garantir a certeza absoluta de que iria ter resultados. E por isso este ataque foi um ataque com características diferentes. Ele não se fez apenas sobre uma cidade, mas fez-se sobre as grandes cidades ucranianas em todo o território ucraniano. Isto tem que ser lido, isto tem que ter uma leitura. A leitura é esta: é uma demonstração de poder, uma demonstração de capacidade, de que a Federação Russa continua a ter a capacidade, os meios tecnológicos e, sobretudo, a vontade de o fazer, de conseguir atacar qualquer alvo ucraniano em qualquer ponto do seu território e que, não obstante a ajuda ocidental em fornecer uma capacidade antiaérea à Ucrânia, ainda assim, a Federação Russa consegue atingir este conjunto de alvos. O que se passou na sequência deste ataque de 29 de dezembro foi uma resposta por parte da Ucrânia, e a Federação Russa não estaria à espera da intensidade da resposta, esta tal escalada que nós vimos. E a questão também da legitimação da utilização das armas, porque não é normal que a Ucrânia vá bombardear uma cidade como Belgorod, mas sentiu-se legitimada para o fazer em função daquilo que tinha sido o ataque anterior conduzido pela Federação Russa. O Kremlin recebeu com tremenda irritação esta capacidade ucraniana de fazer o seu ataque sobre Belgorod e reagiu logo no dia seguinte com um novo ataque, também com quantidades não iguais às de 29 de dezembro, mas com uma quantidade significativa também de mísseis sobre Kiev e sobre Kharkiv. Entretanto, a situação acalmou relativamente a isto, e acalmou por uma lei que é a lei mais importante da guerra: a lei da logística. A certa altura, não há armas que cheguem para continuar neste patamar de violência e, naturalmente, depois tem que reduzir outra vez aos patamares normais da utilização destes equipamentos. Mas isto vem nos alertar talvez para duas coisas. Primeiro, que de vez em quando, por estes tais motivos que eu enunciei, a guerra conhece desenvolvimentos inesperados e de uma violência dramática, por um lado, e por outro lado, que o assunto da Ucrânia é um assunto que tem que continuar a merecer a nossa atenção. Em face daquilo que é a capacidade da Federação Russa em projetar vetores sobre a Ucrânia, nós não podemos deixar cair a alimentação dos sistemas antiaéreos da Ucrânia, porque senão poderemos estar perante números muito dramáticos de vítimas junto da população civil ucraniana.

Entretanto, no Médio Oriente, o vice-presidente do Hamas foi morto num ataque cirúrgico nos arredores de Beirute, quando se encontrava com alguns operacionais do Hamas. General Arno Moura, o ataque atribuído, mas não reivindicado por Israel, tem potencial para incendiar a região?

Tem todo o potencial e já começou a ser utilizado naquilo que são os discursos de ódio. Portanto, ele veio dar substância também a estes discursos e a esta retórica. Al-Aruri não era um elemento normal. Ele era uma pessoa com uma verdadeira importância naquilo que era a estrutura e o pensamento armado do Hamas na Cisjordânia. A Cisjordânia merece uma enorme preocupação neste momento por parte de Israel, porque não é, como nós sabemos, e Israel tem consciência disso, não é evidente fazer uma operação na Faixa de Gaza e manter a Cisjordânia num completo isolamento do ponto de vista securitário. Portanto, era natural que a invasão da Faixa de Gaza trouxesse também repercussões naquilo que era a Cisjordânia. Pois, o Saleh al-Aruri era um homem que, para além de ser vice-presidente do Hamas, era o responsável pela parte militar do Hamas na Cisjordânia. Não vivia na Cisjordânia, naturalmente, porque Israel tem um controle securitário muito apertado, portanto, não havia condições para ele viver na Cisjordânia. Mas ele vivia no Líbano e era a partir do Líbano que eram comandadas as operações militares que o Hamas desenvolvia também a partir da Cisjordânia. Portanto, o risco foi certamente avaliado, isto é, o risco do atentado, e nós aqui podemos dizer que foi Israel. Não parece que nos restam dúvidas. O risco foi certamente avaliado e ele coincide, isto é interessante também verificar, com uma certa retórica assertiva sobre a capacidade militar de Israel na fronteira com o Líbano Se nós notarmos, nos últimos dias, tinha havido um conjunto de visitas de caráter político, mas também de caráter militar, ao norte do Líbano, no sentido de reafirmar a capacidade de Israel de fazer frente a qualquer problema mais sério que ocorra com o Hezbollah na fronteira com o Líbano. E, portanto, esta retórica coincide também com o ataque, com o atentado a Al-Aruri. O que significa que Israel também está a mandar mensagens, quer dizer, fez coincidir o atentado com um conjunto de mensagens a dizer: "Eu fiz este atentado, mas atenção que eu estou preparado para uma eventual resposta que o Hezbollah venha a conduzir na fronteira norte de Israel." Esta foi uma operação típica de Israel. Aquela questão de tentar ligar agora os atentados no Irão e das homenagens a Soleimani e a Israel não cola. E não cola por quê? Porque Israel não vai matar cidadãos iranianos indiscriminadamente. Os serviços de intelligence de Israel estão, sobretudo, focados em lideranças. E, portanto, isto corresponde exatamente ao padrão típico daquilo que é a intelligence e a capacidade militar de Israel. É identificar lideranças, identificar a sua localização, identificar os seus movimentos e depois sinalizar em tempo, porque isto é que é importante. O tipo de ataque que é feito exige que uns minutos antes, uma hora antes, haja uma confirmação para o conjunto da estrutura militar que vai executar a operação, a confirmação de que efetivamente o alvo se encontra naquele local, naquelas coordenadas, reunido nestas condições. O que significa que não se trata de uma informação antiga. Trata-se de uma informação que é acompanhada, provavelmente ao minuto, através de um conjunto de operacionais no terreno, que vão certificar que a operação pode ser lançada neste momento, porque Al-Aruri se encontra, efetivamente, nesta localização. Bom, três aspetos que são aqui importantes. Nós nunca devemos esperar que Israel reivindique atentados no estrangeiro. Não o faz por natureza e isso é absolutamente compreensível. Depois, a capacidade de Israel de materializar aquilo que já tinha sido dito e ameaçado o conjunto de lideranças do Hamas, que independentemente do local onde procure, onde se encontre e onde procure refúgio, nada disso os vai proteger eternamente contra o braço de Israel. E depois, é para mim, e talvez esta seja a sinalização mais importante, eu acho que Israel também quis mandar aqui uma mensagem a Nasrallah, ao líder do Hezbollah. E sinalizar que a continuação dos ataques do Hezbollah às aldeias e às vilas do norte de Israel pode merecer, por parte de Israel, certamente, também uma atenção especial em relação ao seu líder. E, portanto, também pode ter havido aqui uma sinalização ao Hezbollah de que existe aqui uma linha vermelha de violência a partir da qual também Nasrallah entrará nesta lista de alvos a abater nos estrangeiros.

E já que fala nele, muito se aguardou pelo discurso do líder do movimento Hezbollah, sobretudo para percebermos a reação a estes últimos desenvolvimentos na guerra entre Israel e o Hamas. O que é que podemos reter deste discurso, em particular?

Nasrallah tem feito poucas intervenções. Julgo que esta é a terceira intervenção desde o início do conflito. Ele anda desaparecido, porque ele provavelmente sabe que já está incluído na tal lista que nós falámos. Ele anda um bocadinho desaparecido e, portanto, faz poucas intervenções. Eu julgo que a intervenção dele é feita numa circunstância muito particular desta vez. Porque tinha havido o atentado contra Al-Aruri e tinha havido também a explosão do junto da campa de Soleimani durante as homenagens a este líder da Guarda Revolucionária Iraniana. E, portanto, havia, do ponto de vista internacional, uma grande expectativa sobre aquilo que poderia resultar deste discurso. Bom, há duas linhas principais neste discurso que eu gostava de salientar. Ele fez muitas ameaças, mas isso, enfim, é bastante normal. Ele o que fez aqui foi, de alguma maneira, dar com estes dois atentados, um melhor enquadramento daquilo que é o incitamento ao ódio contra estes dois atores internacionais que o Hezbollah elegeu como sendo os seus grandes inimigos. Os Estados Unidos da América, que estão presentes também nos discursos de incitamento de ódio de Nasrallah, por um lado, e naturalmente, sobre Israel. Portanto, o que ele fez foi adensar agora o seu discurso ao ódio, aproveitando estes incidentes que naturalmente influíram, influenciaram e deram também um Repulso às revoltas que se procuram, de alguma maneira, alimentar através destes discursos de incitamento ao ódio. O que nós esperávamos aqui era tentar perceber, descodificar, de que forma é que estes atentados constituiriam uma espécie de uma mola que desse ao Hezbollah uma intervenção diferente daquilo que é o padrão dos bombardeamentos constantes às vilas e aldeias do norte de Israel. Ora, e aí isto ficou muito vago. Não conseguimos perceber se, na realidade, estes dois incidentes terão ou não uma resposta por parte do Hezbollah, que ultrapassa aquilo que tem sido o padrão normal da actividade do Hezbollah desde que começou a invasão da Faixa de Gaza. Por quê? Porque ele refere aqui um aspecto que é importante nós ressaltarmos, que é o aspecto de que cada um dos actores que faz parte deste chamado eixo de resistência, que irá actuar de acordo com os seus interesses. A ser assim, as palavras valem o que valem, isto é um descanso para Israel. Significa que uma ação coordenada de todos não encontrará, porque aquilo que não poderia acontecer a Israel era, de repente, encontrar-se perante várias frentes activas simultaneamente. O que Israel está a fazer neste momento é, sobretudo, a fazer desescalar as operações em Gaza para libertar forças também, para estar pronto para qualquer incidente que possa aparecer no norte, na fronteira com o Líbano.

Vladimir Putin afirmou esta semana que a Rússia tinha a capacidade de atingir qualquer praça em Kiev ou na Ucrânia, mas que entendia que apenas se deveriam atingir alvos militares. General Armando Moura, é exatamente assim ou mais uma vez é Putin a ser Putin e a esconder os propósitos dos bombardeamentos atrás de uma cortina de fumo?

Esta cortina de fumo é importante, sobretudo agora neste período de campanha eleitoral. E aquele volume de que falámos anteriormente era exatamente para ele não correr o risco de não obter resultados. Naturalmente que as operações militares decorrem devagar, agora concentram-se sobretudo na tentativa, depois de Marinka, de conquistar Avdiivka, mas a campanha eleitoral precisa de ser alimentada de triunfos. E não havendo capacidade de os fazer do ponto de vista da progressão das operações terrestres, um bombardeamento aéreo, sobretudo nesta escala, é sempre uma demonstração de poder, e a demonstração de poder da Federação Russa continua a valer apoios ao seu líder. É interessante que ele utilizou uma expressão de algum conforto e de solidariedade com os civis, dizendo: "Eu estou a ferver internamente com esta questão, mas eu vou recusar bombardear civis na Ucrânia". Isto realmente é de um cinismo absolutamente atroz. E depois, isto tem um outro problema, é que vê-se que existe na opinião pública russa, e isso é que é preocupante, uma enorme receptividade às questões do emprego da violência e do sofrimento do povo ucraniano.

E hoje colocamos o nosso ponto mira no Líbano, que tem vindo a protestar sonoramente contra o ataque atribuído a Israel, que vitimou o vice-presidente do Hamas, que falámos há pouco. Face ao que se passa, General, o que é realmente importante sabermos sobre o Líbano?

O Líbano está muito dividido, porque há cerca de 30% de sunitas, 30% de xiitas e um pouco mais, 34% de cristãos, o que significa que este é um país praticamente ingovernável. E mais, as fações, sobretudo a fação xiita, que está sobretudo concentrada no sul, portanto, junto da fronteira de Israel, tem um braço armado que é o Hezbollah. E, portanto, o Líbano é um problema constante para Israel, porque é um problema que resulta do facto de as suas divisões políticas terem-se constituído também como milícias armadas. E, portanto, as forças armadas, os governos legítimos que possam aparecer no Líbano não têm influência nenhuma sobre aquilo que se passa nas suas fronteiras.

E assim chegamos ao fim de mais um Domínio da Guerra. General Armando Moura, muito obrigada.

Um prazer, um bom ano para todos. Obrigado.

Igualmente para todos.