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Começa agora mais um O Domínio da Guerra da Rádio Observador com o major-general Arno Moreira. Bom dia.
Olá, bom dia a todos.
Hoje começamos com uma análise de natureza conceptual sobre a atual ordem mundial e sobre a forma como o presidente dos Estados Unidos a está a pretender moldar. É uma alteração que arrasa os mecanismos tradicionais de exercer poder no sistema internacional e que abala os próprios fundamentos das instituições que criamos para regular o funcionamento desse sistema desde 1945. General, que conceito é esse de um mundo egocêntrico?
Vamos começar com uma expressão forte: as cerimónias são coreografias de poder. E aquilo que tivemos em Davos foi uma coreografia de poder com a apresentação do Conselho para a Paz. As cerimónias destinam-se a mostrar, através do protocolo, mas também da coreografia, da encenação, relações de poder. E a imagem que me fica de Davos é anterior à entrada de Donald Trump na sala. Era uma cadeira branca no meio das cadeiras de outras cores, à espera que o imperador se sentasse. Na verdade, aquilo não era uma cadeira, era um trono. Esta diferença na cor da cadeira abre espaço para uma reflexão, uma teorização, uma conceptualização que eu hoje trago aqui sobre a visão de Trump do mundo atual. É um mundo egocêntrico aquele que Donald Trump nos propõe. Nós, seres humanos, somos todos diferentes. Não há nenhum ser humano que seja igual aos outros. Podemos ser iguais perante a lei, mas somos diferentes em tudo o resto. As nações que construímos com os nossos vizinhos da nossa proximidade geográfica, reveem-se nos mesmos valores e, portanto, são também diferentes. As nações entre si são diferentes também umas das outras, tal como os seres humanos. E os Estados que institucionalizaram as nações dentro de um determinado espaço geográfico, são também diferentes. São diferentes nos seus valores, são diferentes na sua geografia e na sua localização e diferentes no seu poder. Somos todos respeitáveis nas nossas diferenças, mas não temos todos o mesmo poder. Os impérios das primeiras civilizações tinham uma dimensão de natureza regional. Depois, a época da navegação global, liderada pelas nações ibéricas, permitiu que os impérios tivessem, pela primeira vez, uma dimensão à escala global. A Europa, como ficou demonstrado a partir do século XVI, tinha uma supremacia tecnológica brutal no domínio da tecnologia militar e facilmente impôs a sua lei à escala global. O mundo era, na altura, eurocêntrico e isso traduzia-se na própria cartografia. A Europa ocupava o centro da cartografia mundial e, portanto, essa representação cartográfica era a forma de representar graficamente o eurocentrismo. De todos os impérios europeus, o mais importante foi o Império Britânico. Teve o seu apogeu entre o final das guerras napoleónicas, 1815, e o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, e combinava duas dimensões de poder: o poder de natureza económico, que sustentava o império, e o poder militar, que resolvia pela força aquilo que o poder económico não conseguia formatar. E foram estes mesmos dois poderes, o poder de natureza económica e o poder de natureza militar, que depois da Segunda Guerra Mundial trouxeram a Pax Americana. A Pax Americana é uma outra forma de recentrar o mundo, o mundo centrado na América, nos seus valores, na sua vontade de intervir no mundo para o modificar. E modificá-lo através da instituição à escala global de um conjunto muito diverso em todas as áreas, multidomínio, de instituições multilaterais que procuravam reproduzir à escala global a forma como os próprios Estados Unidos se olhavam e se viam como a potência liderante do mundo livre. Este poder americano também tinha as suas limitações, porque a realidade dos interesses nem sempre permitia a clareza dos valores defendidos. Nem sempre fomos coerentes com os valores E a firmeza democrática que queríamos dependia muito de uma coisa que está em decadência, que é governos democraticamente eleitos fortes. Já não temos governos democraticamente eleitos fortes. A democracia de hoje em dia está de tal maneira polarizada e dividida que já não consegue gerar estruturas de poder democraticamente eleitos que sejam suficientemente fortes para poder ser assertivas no mundo global. A visão de Donald Trump para o mundo ficou agora mais clara depois da cerimônia da apresentação do Conselho da Paz em Davos. E é a materialização prática daquilo que eu chamo o mundo egocêntrico. Vamos ver então algumas características do mundo egocêntrico. Primeiro, o mundo egocêntrico organiza-se em torno dos interesses de uma única pessoa.
Donald Trump.
Donald Trump. É esta a visão.
Presidente vitalício, não é, desse conselho.
O mundo organiza-se em torno dos seus interesses. Segundo, não defende nenhum valor civilizacional acima de todos os outros. Não há valores neste novo mundo egocêntrico, só há interesses. Terceiro, não tem limitações de atuação de ordem moral, que foi aquilo que sempre procurou condicionar a política externa dos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial, a orientação por valores de natureza moral. Quarto, não dá valor às democracias eleitas. O valor concedido aos governos e aos líderes, tanto podem ser eleitos de forma democrática como de serem de forma autocrática. A natureza dos regimes não interessa no mundo egocêntrico. Depois, no mundo egocêntrico, o que se privilegia são as relações interpessoais. Isto é, acabaram as instituições multilaterais. É a forma como os governantes se bajulam entre si que dá relevo e importância no sistema internacional a cada uma dessas personalidades. Vou entrar no penúltimo aspecto. Serve-se do Estado e das suas instituições. E isto é gravíssimo, porque as pessoas eleitas são eleitas para servir o povo, servir de acordo com as leis institucionalizadas e servir e apoiar os interesses de um coletivo organizado sob a forma de um Estado. Não são feitas para promover os interesses de natureza pessoal, nem dos seus amigos. E para terminar, a última característica do mundo egocêntrico, a sua capital é Mar-a-Lago. A sua capital já não é Washington, é Mar-a-Lago. É ali que serão recebidos com pompa e circunstância os amigos que fazem parte deste clube muito especial a que agora chamamos o Conselho para a Paz.
Muito preocupada com os próximos tempos, general. Bem, esta semana começou sob a ameaça de uma confrontação muito séria entre os aliados ocidentais, a propósito da intenção dos Estados Unidos assumirem a posse, de uma forma ou de outra, da Groenlândia. Discutiu-se o fim da NATO, o início de uma guerra comercial devastadora entre os Estados Unidos e a Europa. Entretanto, tivemos Davos e muitas novidades. Em que ponto estamos, general?
Bom, nós na semana passada trouxemos aqui para o programa uma reunião que foi extraordinariamente preocupante, e eu atejo que a caracterizei como sendo uma reunião sombria entre a Groenlândia, a Dinamarca e os Estados Unidos da América, da qual resultou como único ponto para mostrar que alguma coisa se tinha avançado, a constituição de um grupo de trabalho para aprofundar essa negociação. É claro que o que ficou de todo este processo da semana passada é que os Estados Unidos não desistiam da posse efetiva da Groenlândia e que a Dinamarca e os seus aliados europeus não cediam no aspecto da soberania da Dinamarca e da Groenlândia. Mas a Europa não esteve presente naquela reunião. Como é que a Europa reagiu àquela declaração de Trump de que de uma maneira ou de outra, a Groenlândia será dos Estados Unidos?
De bem ou mal.
Bom, a Europa não esteve quieta. Começou a preparar um exercício militar na Groenlândia para mostrar a sua solidariedade. E começou a mostrar o interesse de colocar na Groenlândia bandeiras europeias. Isto é, na verdade, Trump tem razão nisso tudo. Nós não olhamos para a Groenlândia e não temos olhado para o Ártico. Trump tem razão no seu ponto fundamental. A bandeira da Europa tem que estar também no Ártico e na Groenlândia. As bandeiras do Ocidente têm que estar ali. Aquilo não é apenas importante para a segurança dos Estados Unidos, é importante numa ótica de futuro também para a segurança da própria Europa e da própria União Europeia. A organização de um exercício visa Duas ou três coisas. A primeira é sinalizar que a Dinamarca convida as forças militares que quiser. Isto é, é uma afirmação de soberania. Também convidou para participar no exercício forças norte-americanas, para mostrar que o exercício não é feito contra os Estados Unidos, mas é uma afirmação de soberania. E o fato de serem 15, 20, 30 ou 40 os militares que foram fazer o reconhecimento não tem importância nenhuma. É a sinalização política que aqui tem importância. E teve de tal maneira importância, que com base nesta presença militar, ainda que esporádica e breve, os Estados Unidos ficaram zangadíssimos com isto e Donald Trump explodiu.
E veio com as tarifas.
E veio com as tarifas do dia 1 de fevereiro a ser aplicada a oito países europeus. Eram os oito países mais envolvidos na defesa dos interesses da Dinamarca e da Gronelândia e no deslocamento de forças militares para lá. Portanto, nós chegamos ao início desta semana, estávamos a discutir coisas absolutamente impensáveis, o fim da NATO. Já estávamos a discutir o fim da NATO. E estávamos também a discutir aquilo que poderia vir a ser uma tempestade econômico-financeira brutal.
Sim.
Com a imposição única de uma resposta de natureza econômico-financeira, quer sobre ativos norte-americanos, que são detidos pelos europeus, quer sobre instrumentos de proteção do mercado único, quer sobre companhias norte-americanas que investem na Europa, etc. Pusemos os mercados à beira do delírio com isto. Portanto, a semana começou com uma tensão brutal em que já nada era certo.
E com a resposta da Europa a essa imposição de tarifas.
Nunca, como no início desta semana, os dois lados do Atlântico se sentiram tão afastados um do outro. E entretanto, Donald Trump chega a Davos. E com uma candura que dispensava quaisquer explicações, deixou cair todas as suas recentes ameaças. Afinal, já não considerava uma invasão militar da Gronelândia como uma possibilidade. Afinal, já não tencionava aplicar tarifas extraordinárias no dia 1 de fevereiro a países europeus. E depois de falar com Mark Rutte, afinal encontrou um acordo-quadro sobre a Gronelândia, do qual conhecemos muito pouco, a não ser declarações de Trump, que não sabemos até que ponto são verdadeiras, a dizer que ganhamos um acesso de tempo ilimitado às bases militares na Gronelândia. Donald Trump não mudou a sua opinião sobre a Gronelândia. Donald Trump mudou o método para obter os mesmos resultados. E por quê? Uma combinação de várias razões que eu lhe explico rapidamente. Razões internas da política norte-americana. Donald Trump tem dentro de 10 meses eleições intercalares em novembro. E o público norte-americano não está entusiasmado com a ideia de tomar a Gronelândia de uma forma ou de outra. Não está entusiasmado com isto. Está muito menos entusiasmado se a opção de natureza militar for a opção escolhida. Portanto, a pensar também já naquilo que é a sua base eleitoral, Donald Trump viu que a sua aproximação, o seu método estratégico de aproximação à negociação sobre a Gronelândia, não tinha uma adesão, não tinha tração no público e mesmo dentro do setor republicano, havia muitas dúvidas sobre esta estratégia. Segunda razão, a reação europeia. A reação europeia foi bastante mais firme do que aquilo que é costume.
É verdade.
Eu julgo que os europeus e os líderes europeus terão encontrado o tom certo, e o tom certo não é o tom de hostilidade aos Estados Unidos. É o tom de firmeza, de dizer: "Nós não estamos disponíveis para continuarmos a curvar a nossa espinha durante muito mais tempo." E agora? E agora vamos negociar sem a pressão das ameaças, o que já não é mau de si, mas não vamos esquecer de uma coisa. Donald Trump tem o comportamento de uma raposa. Encontrou uma porta fechada e vai agora à procura da janela que possa ainda estar aberta. Não desistiu da Gronelândia, mas pelo menos agora temos a calmaria de que já não existem estas ameaças pendentes sobre a Europa. Entretanto só para terminar, a Rússia veio ajudar a festa.
Claro.
A Rússia veio ajudar a festa.
Tinha todo o interesse nisso.
Primeiro, o Ministério dos Negócios Estrangeiros. A Gronelândia não é uma parte natural da Dinamarca. Como se a Sibéria fosse uma parte natural da Rússia ou como se a Chechênia fosse uma parte natural da Rússia. Mas não, veio dizer que não é uma parte natural e que Donald Trump ficaria na história se anexasse a Gronelândia. A capacidade de lançar acha para a fogueira, esta fogueira que a Federação Russa alimentou como o grande sinal indiciador de que a NATO iria desaparecer. A Federação Russa continua a apostar em alimentar esta fogueira da dissensão entre os países da Aliança Atlântica.
E agora sim, a cortina de fumo. Continuamos a falar de Donald Trump, que há dias atacou ferozmente o acordo concluído, mas ainda não ratificado, entre o Reino Unido e as Maurícias, a propósito das Ilhas Chagos, em pleno Oceano Índico. Mas General, Trump tinha elogiado este acordo há poucos meses, por isso, que cortina de fumo é esta?
As declarações de Trump aqui há alguns meses não se podem rever nas declarações atuais. Ele há alguns meses veio felicitar o governo britânico por ter encontrado uma excelente solução que permitia a continuação da base militar, sobretudo em Diego Garcia, uma base militar que serve os interesses britânicos, mas que serve sobretudo os interesses norte-americanos no meio do Índico, pelo acordo alcançado. Que acordo era este? Era um acordo em que o Reino Unido reconhecia, por um lado, a soberania das Maurícias sobre o arquipélago das Chagos, onde está a tal ilha e a tal base aeronaval essencial para a defesa dos interesses norte-americanos em Diego Garcia. Reconhecia que Diego Garcia e o arquipélago das Chagos pertenciam à soberania, mas introduzia um período de aluguer de uma determinada posse efetiva durante 99 anos ao Reino Unido e, portanto, também aos Estados Unidos. Ora, o que é que acontece? Acontece que, entretanto, apareceu a questão da Gronelândia . E Chagos, abriria aqui um precedente brutal, Diego Garcia, que afinal a segurança dos Estados Unidos não precisava da soberania e da posse territorial. Isto é, poderiam encontrar-se soluções alternativas, como este aluguer a longo prazo de uma base fundamental para controlar o Índico.
Sem implicar uma anexação.
Sem implicar uma anexação. Ora, o discurso de Trump teve, portanto, que mudar para suportar a sua opção de intervenção e de anexação da Gronelândia. Portanto, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, é verdade, mas estão a mudar-se muito depressa e daí esta enorme cortina de fumo da nova posição norte-americana, que é contrária à ratificação deste acordo entre o Reino Unido e as Maurícias.
O nosso Ponto de Mira foca-se hoje na narrativa russa de comparar a atual invasão da Ucrânia com a guerra patriótica que conduziu contra a Alemanha, isto na Segunda Guerra Mundial. E o general disse-me que tinha dois números interessantes para nos apresentar. Que números são esses, general?
Tenho. Primeiro, apenas uma pequena introdução. Temos que assinalar esta semana, certamente para a semana teremos mais desenvolvimentos e poderemos falar com mais detalhe sobre isto. Temos a primeira reunião trilateral entre os Estados Unidos, a Ucrânia e a Federação Russa. Isto é um passo importantíssimo e nós que passámos este programa todo a zurzir em Donald Trump, temos que dizer que isto só é possível porque Donald Trump insistiu nisto e não deixou cair contra todos os ventos, tempestades e opiniões críticas, esta questão da reunião. Vamos avançar ou não? Não sabemos.
E devemos olhar também para a narrativa de Zelensky, não é?
Exatamente. Pela primeira vez, temos sentados na mesma mesa para discutir aquilo que é sobretudo a questão de natureza territorial, a Federação Russa, a Ucrânia e os representantes norte-americanos. É um progresso notável. E isto está relacionado com os tais dois números que eu prometi para este Ponto de Mira. No passado dia 11 de janeiro, aqui há pouco mais de uma semana, ficou assinalado um número, que é esse primeiro número que trago aqui, que é o número 1418. O que é este número 1418? 1418 é o número de dias que decorre entre 22 de junho de 1941 e 9 de maio de 1945. Isto é, é o número de dias que a União Soviética, incluindo muitos ucranianos, demorou a empurrar o dispositivo militar da Alemanha nazi durante a Segunda Guerra Mundial, entre Moscovo e Berlim. 1418 dias. Ora, no dia 11 de janeiro, cumpriram-se 1418 dias da guerra da Ucrânia. Isto é, a guerra da Ucrânia já demora mais tempo do que demorou a ofensiva da União Soviética sobre a Alemanha. Isto é um número impressionante. Repito outra vez o número, 1418 dias. E o segundo número que trago também me parece muito interessante. Qual é a distância que existe entre Moscovo e Berlim? Isto é, qual foi a distância percorrida pelo Exército Soviético durante estes 1418 dias, entre Moscovo e Berlim? São cerca de 1500 km. Isto é, durante essa guerra, que durou 1418 dias, a União Soviética e o seu exército avançou 1500 km. Ora, em 1418 dias, quantos quilómetros avançou a Federação Russa na Ucrânia? Algumas dezenas. E, portanto, isto mostra que a comparação que se tem vindo a fazer entre a guerra patriótica e esta narrativa russa da repetição da guerra patriótica, o Exército Soviético foi claramente mais efetivo do que foi a Federação Russa e o seu exemplo. Portanto, os dois números a reter são estes 1418 dias da duração da guerra e a comparação entre os 1500 km avançados e agora algumas dezenas de quilómetros.
Impressionante, mesmo. General Arno Moran, muito obrigada por mais um Ponto de Guerra.
Foi um prazer, bom fim de semana para todos.
E sempre bom fim de semana.
Muito obrigado.