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Começa agora o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o major-general João Nuno Moreira. Bom dia!

Olá, muito bom dia a todos.

Bem-vindo. Esta foi uma semana particularmente rica em iniciativas diplomáticas relacionadas com a guerra no Golfo Pérsico, entre ultimatos com prazos suspensos e o anúncio de mais forças militares a caminho do Golfo. Donald Trump terá proposto ao Irã um plano de 15 pontos para acabar com a guerra. Em resposta, e num tom desafiante, o Irã divulgou cinco exigências e não parece simples conciliar aqui as duas posições, general. Como é que acha que serão os próximos dias desta guerra que está a levar ao caos econômico global?

Nós tínhamos como contabilidade geral cerca de 10 mil ataques feitos só pelos Estados Unidos sobre o Irã. Desses 10 mil ataques, tinha resultado a ideia, transmitida por Donald Trump, de que até já não havia mais alvos para atacar. Israel, pelo contrário, dizia que continuava a haver alvos para atacar, porque os alvos dos Estados Unidos e de Israel não são iguais. Eu compreendo que, em face daquilo que são os apoios que o Irã dê ao conjunto de proxies que tem na região, que Israel tenha um conjunto de alvos suplementar em relação àquilo que são os alvos dos Estados Unidos. Vamos lá ver. Os Estados Unidos não vão meter um F-35 no espaço aéreo iraniano para abater um carro de combate, mas um carro de combate, ou sistemas de artilharia, ou sistemas de lançamento de roquete, etc., para Israel podem ser alvos importantes a abater. Israel e os Estados Unidos não estão exatamente na mesma guerra, não têm exatamente o mesmo tipo de alvos e Trump, a certa altura, já bombardeou tudo aquilo que tinha que bombardear, porque Donald Trump e os Estados Unidos têm, nesta guerra, dois alvos principais: o sistema nuclear iraniano, por um lado, e o sistema de mísseis balísticos, porque são os dois sistemas que têm influência sobre os aliados diretos dos Estados Unidos e que constituem, na ótica dos Estados Unidos, uma ameaça também à sua presença na zona. É muito natural que estes alvos já tenham sido praticamente todos batidos. Faltam alvos de oportunidade, que são aqueles que se expõem, mas que se escondem logo rapidamente e para os quais um F-35 não é, provavelmente, a arma indicada para abater. Os Estados Unidos, tendo esgotado esta panóplia de alvos e não tendo conseguido ainda o conjunto de concessões que espera por parte do Irã, resolveu entrar na área energética do Irã. Tudo que era alvos militares, isso já está muito degradado. Vamos agora à parte energética. A parte energética é uma parte complicada do ponto de vista militar. Por quê? Porque eu não consigo encontrar uma boa justificação para dizer que há um sentido militar muito grande ao atacar uma energia elétrica. Por quê? Porque todas as armas, todos os sistemas de armas que eu conheço têm geradores, funcionam, não precisam de ligar à eletricidade. Pode não haver eletricidade, mas os sistemas de armas continuam a funcionar. O que isso faz? Isso vai degradar é a qualidade de vida das populações. Vai mudar o regime? Provavelmente não. A Ucrânia esteve sem eletricidade e continua com grandes problemas no abastecimento contínuo da eletricidade. E não é por isso que mudou o regime ou que declarou a derrota na guerra com a Ucrânia. O sistema energético é um sistema fácil de bater, porque os alvos estão bem identificados, é muito fácil bater as centrais energéticas. Donald Trump deu 48 horas, depois passou as 48 horas a cinco dias, agora vai até o dia 6 de abril. A minha interpretação é que não tem nada a ver com isto. A minha interpretação é que dilatar os prazos é dar tempo a Israel. Isto é, para Israel conseguir bater os tais alvos que ainda lhe faltam e para isso precisa da cápsula dos Estados Unidos. Enquanto não houver acordo, esta cápsula de tempo continua a ser atribuída a Israel. É esta a minha expectativa. Por quê? Porque as negociações estão, por este ritmo, para durar muito tempo, porque as duas partes têm posições maximalistas. Os 15 pontos de Trump e os cinco pontos do Irã são dificilmente conciliáveis. Apareceu aqui um mediador interessante, o Paquistão. O Paquistão importa cerca de 80 e tal % do seu petróleo do Golfo, portanto, está muito dependente da resolução deste problema. Mas tem, por um lado, boas relações com a China, tem muito boas relações com o Irã e as suas Forças Armadas estão, desde há muito tempo, com excelentes relações com os Estados Unidos da América. É um parceiro de confiança por ambas as partes. E tem uma chave que Donald Trump não tem. Isto é, se Donald Trump quiser entregar a alguém do governo iraniano a sua proposta, o seu plano, não tem a quem o fazer porque o Irã não o recebe Não tem um interlocutor pronto para receber o plano. Ora, é aqui que o Paquistão desempenha um papel fantástico: sabe para quem deve encaminhar as propostas que recebe de Trump. Conhece a orgânica, tem os contactos suficientes naquilo que é a estrutura política da liderança iraniana para fazer chegar estas respostas. Muito bem. E então, em que é que estamos neste momento? As propostas dos Estados Unidos estão basicamente agrupadas em quatro áreas. A primeira é impedir que o programa nuclear iraniano possa levar a uma bomba de natureza atómica e, portanto, quer desmantelar aqueles três sítios que os Estados Unidos consideram que estão ligados a este programa militar, que são as instalações de Natanz, de Isfahan e de Fordow. E quer controlar a central civil de produção elétrica iraniana, que é uma central nuclear, que é Bushehr. Eles dão o combustível e mantêm o controle sobre esta central iraniana. E depois, reduzir o número de mísseis balísticos e o seu alcance, abrir o estreito, isso é fundamental, até por uma grande exigência e pressão por parte dos parceiros norte-americanos do Golfo, e em troca reduziria sanções ao Irão. O Irão responde com cinco pontos, esses cinco pontos são mais difíceis de visualização como é que isto se consegue. O fim da agressão e dos assassinatos. Mas isso depende de quem vai assinar este acordo. Este acordo vai implicar Israel, se estamos a ver Israel a assinar este acordo com muita dificuldade. Pode haver um acordo entre os Estados Unidos e o Irão, mas dificilmente Israel irá atrás de assinar este acordo, ou os outros estados do Golfo também dificilmente irão atrás. Portanto, difícil isto. Depois as garantias de segurança. Quem dá garantias de segurança ao Irão? A Federação Russa não deu nenhuma, a China também não deu nenhuma, a Europa não está disponível para dar nenhuma, os Estados Unidos é que vão dar a garantia. Mas isso faz pouco sentido. A questão das garantias de segurança seria apenas um papel assinado. E depois o pagamento de indenizações e compensações, não há histórico disto e, portanto, isto não vai acontecer. O fim da guerra em todas as frentes significa que o Irão quer que não haja guerra não apenas contra o Irão, mas contra os seus instrumentos na proximidade geográfica, os seus proxies. E depois o reconhecimento da autoridade iraniana sobre o Estreito, porque temos que encontrar uma solução para o Estreito. O Estreito tem apenas águas territoriais, não há águas internacionais no Estreito. Isto é, a linha territorial das águas territoriais do Irão encosta à linha das águas territoriais do Omã. O trânsito, neste momento, por aquela parte, passa sempre em águas territoriais, não há águas internacionais que garantam esta circulação. O Irão desconfia que pode estar a preparar-se uma situação neste sentido e, portanto, gostaria de continuar a garantir que só há circulação de navios através de águas territoriais e, no caso das suas águas territoriais, manter um controle férreo sobre isso. O que é que vai acontecer agora? Acontece que os Estados Unidos vão acrescentar pressão sobre o Irão, porque chamaram a 82ª Divisão Aerotransportada e uma parte dela, isto é uma divisão que esteve em tudo que é sítio quente. Esteve no Iraque, já esteve na primeira Guerra do Golfo, no Iraque, no Afeganistão, e é a unidade que os Estados Unidos têm com maior disponibilidade de intervenção para segurar pontos críticos. A chegada desta, não é da divisão, são apenas cerca de mil elementos, poderá, sobre objetivos muito limitados, fala-se na ilha de Karg, não sei se será ou se não.

O Irão já está a estabelecer uma certa segurança.

Isto acrescenta certamente aqui um grau de pressão adicional às negociações. Entretanto, fala-se da mediação internacional para que as partes deixem de trocar mensagens e se sentem na mesma sala ou pelo menos no mesmo hotel, que seja mais fácil fazer chegar as mensagens, é para acelerar, porque na verdade estamos todos com muita pressa que esta situação rapidamente se resolva. O que significa que há também uma enorme pressão sobre as duas partes para que as duas partes se encontrem e deixem de trocar apenas mensagens e passem a trocar também ideias uma parte com a outra.

Certo é, general, que esta guerra no Golfo tem deixado escondida a guerra na Ucrânia e esta semana Zelensky vai dar conta que continuam as pressões do Donald Trump para que a Ucrânia se retire do Donbass. Essa seria a condição para os ucranianos possam receber garantias de segurança por parte dos Estados Unidos. Entretanto, continuam suspensas as rondas negociais. General Zelensky tem mais do que nunca razões para estar preocupado.

Tem, tem muitas razões para estar preocupado e para além disso, de estar preocupado, eu acho que Zelensky já tomou a decisão de que não vai entregar o Donbass que falta. Por quê? Porque o apoio norte-americano também, as garantias garantem pouco, do ponto de vista da atuação desta administração. Zelensky não terá confiança em Donald Trump de que estas garantias efetivamente serão suficientes para dissuadir a aposta da Federação Russa em conquistar muito mais território depois de ficar com o Donbass. Entretanto Só para fazer um ponto de situação muito rápido sobre a situação na Ucrânia. A Federação Russa continua a atacar com os seus vectores aéreos, mísseis e drones, de uma forma cada vez maior.

Houve um ataque de mil drones em 24 horas.

Houve um ataque entre 23 e 24 de março, um dos maiores ataques de sempre, senão o maior. Estiveram envolvidos mais de mil vectores que foram lançados sobre o território ucraniano. Isto mostra aquilo que tem sido a capacidade industrial da Federação Russa em produzir este tipo de vectores de ataque e o enorme estresse que existe sobre a Ucrânia de ter meios com capacidade para resistir e abater pelo menos uma parte significativa destes vectores.

E pode ser já reflexo do alívio de sanções de Donald Trump?

A Federação Russa está em economia de guerra e, portanto, todos os seus recursos são dirigidos para a economia de guerra. Naturalmente que à medida que a guerra prossegue, a Federação Russa tem mais e mais meios para conduzir isso. E por isso é que é preocupante que haja notícias, como veio no Washington Post no dia 26, de que o Pentágono se prepara para reduzir as entregas dos mísseis de intercepção dos sistemas Patriot à Ucrânia para os desviar para o Golfo. E, portanto, a guerra do Golfo veio trazer aqui uma complicação adicional. Aliás, retirando o palco, para onde é que foi Zelenski? Foi para o Golfo! Zelenski foi para o Golfo procurar arranjar quer visibilidade política, como é evidente, mas também aliados e, sobretudo, apoio de natureza económica. Isto é, está disponível para ajudar as empresas de armamento do Golfo a produzirem, por exemplo, drones antidrone e, em troca disso, receberá certamente financiamento para que a sua indústria caseira consiga produzir também estes equipamentos. Portanto, é muito interessante que tiraram o palco a Zelenski.

E ele vai à procura.

Zelenski foi procurar o palco na Arábia Saudita. O que é que vai acontecer agora? Acontece que, em face da melhoria da visibilidade das condições do ponto de vista das operações militares, se espera um incremento muito significativo naquilo que é a ofensiva da primavera, verão, que as forças russas vão procurar fazer sobre o Donbass. Na verdade, o que a Ucrânia fez foi antecipou-se durante algumas semanas e conseguiu, no sul da Ucrânia, recuperar um conjunto muito significativo, 400 km² de território. A Federação Russa foi obrigada a tirar forças que tinha no Donbass para deter esta contraofensiva da Ucrânia, o que veio dificultar o tal lançamento das operações de primavera. Portanto, continuamos aqui a puxar manta de um lado para que ela falte do outro. Não é expectável que em 2026 a Federação Russa consiga tomar o que lhe falta do Donbass, sobretudo porque partiu também atrasada por causa da contraofensiva ucraniana no sul da Ucrânia.

Mark Rutte afirmou esta semana que a NATO ainda está a avaliar se o Irão tem capacidade para atacar a Europa, diz não ter a certeza de que o Irão possa atingir capitais europeias. General, que preocupações estão por detrás desta cortina de fumo?

É. Eu estranhei mesmo, porque eu trabalhei na intelligence da NATO. O que faz a NATO? A NATO está em tempo de paz. Não tem operações a decorrer que exijam a mobilização de meios para a guerra. O que é que faz um oficial de intelligence em tempo de paz? Faz isto.

Avalia os riscos, não é?

Avalia, estuda, isto que faz o oficial de intelligence em tempo de paz. Olha para a área geográfica que lhe está atribuída e estuda tudo ao detalhe, mas várias horas por dia, durante todos os dias. Portanto, é muito estranho quando o secretário-geral da NATO nos vem dizer que neste assunto ainda estão a estudar. Isto é uma verdadeira cortina de fumo, porque a função da NATO é preparar-se, é estar preparada, não é começar a estudar na altura em que as ameaças se concretizam. Onde é que está o fumo aqui nisto? É que a NATO não se quer envolver por nada neste assunto. E, portanto, Mark Rutte encontra aqui na solução estudar, uma solução para não se fazer nada. Isto é, ainda estamos a estudar. Significa que enquanto durarem os estudos-

Com uma guerra que começou faz amanhã um mês.

Exatamente. Enquanto durarem os estudos, a NATO não tem que tomar nenhuma posição sobre este assunto. Portanto, o que ele está à espera é que os estudos demorem mais do que a resolução do problema. Isto mostra o conjunto muito significativo de dilemas que se colocam hoje em dia à NATO, que é, e eu continuo a dizer, uma força muito credível do ponto de vista militar, mas que nunca encontra uma oportunidade de natureza política que diga: "Esta guerra é a minha guerra, é nela que eu me tenho que concentrar". Portanto, a NATO Está sempre à procura de uma saída de emergência para não ter que se envolver neste assunto. Eu compreendo Mark Rutte, porque ele está também num papel muito ingrato. Ele quer continuar a segurar os Estados Unidos dentro da NATO. Por outro lado, não tem apoio nenhum por parte dos países europeus nas teorias que ele tem que defender para dar ânimo a Trump e manter Trump interessado na NATO. São equilíbrios muito difíceis e como é que se resolvem estes equilíbrios? Estudos. Através de estudos. Vamos lá ver os meus antigos camaradas de intelligence, que têm esta área à sua responsabilidade, façam o favor de tirar umas férias, porque os estudos têm que demorar muito tempo, porque a NATO não se quer envolver nisto.

Hoje colocamos o nosso ponto de mira sobre a produção industrial russa e ocidental no domínio dos mísseis balísticos e dos mísseis de interceção. General, o que mereceu a sua atenção?

É que nós tivemos números em fevereiro sobre aquilo que é a produção dos mísseis antibalísticos que equipam os sistemas Patriot, que estão na Ucrânia, mas que estão também espalhados em todo o mundo. Quem produz estes mísseis de interceção, o PAC-3 MSE, é uma empresa norte-americana chamada Lockheed Martin. A Lockheed Martin tem uma espécie de exclusivo a nível mundial para produzir este sistema. Ora, em 2025, a Lockheed Martin produziu cerca de 620 mísseis. Não é muita coisa. Nós às vezes achamos que isto são números brutais. Não. Em 2025, produziu 620 Patriot. Ainda assim, houve uma aceleração da produção. A aceleração da produção permitiu construir mais 20. 20!

Pensei que ia dizer algumas centenas.

Em vez de 600, conseguiu construir 620. Isto dá cerca de 51 mísseis produzidos por mês. Em cinco dias, no Médio Oriente, foram consumidos cerca de 800. Isto é para termos uma ideia de como nós estamos muito dependentes de um produtor que produz um número reduzidíssimo. Uma guerra como a que ocorre no Médio Oriente, leva 800 em cinco dias. A Ucrânia precisa de cerca de 2 mil por ano para isto. Ora, o que acontece é que quando nós comparamos aquilo que foi o número de ataques com mísseis balísticos da Federação Russa à Ucrânia, vemos que o número de mísseis balísticos e aerobalísticos lançados contra a Ucrânia em janeiro foi de 75 mísseis deste género. Ou seja, a Federação Russa está a conseguir produzir mísseis a um ritmo de, vamos supor que os utilizou todos, 75, pelo menos, sobre a Ucrânia, enquanto que por mês, a Lockheed Martin só produz 51,6. Isto é, neste momento, a capacidade de produção da Federação Russa em mísseis balísticos é superior à capacidade de produção dos mísseis de interceção da Lockheed Martin. Só há no mundo mais uma empresa que está a produzir este tipo de intercetor, que é a Mitsubishi Heavy Industries, no Japão. Mas a licença é: só produz para consumo da autodefesa do Japão. Não é um produto para exportação. Nós estamos limitados a 51,6 mísseis de interceção por mês e a Federação Russa só em janeiro utilizou 75 contra a Ucrânia. Isto é uma coisa que temos que pensar, porque a Lockheed Martin não pode ter apenas uma fábrica destas a funcionar. É necessário que os europeus tenham capacidade de trazer para a Europa, também, produção deste tipo de intercetores, porque a Federação Russa não vai reduzir o número de mísseis que tem disponíveis e o ritmo a que estamos neste momento a produzir os mísseis de interceção é claramente inferior ao nível que a Federação Russa consegue produzir de mísseis balísticos. Portanto, a atenção está aqui o alerta.

General Arno Ramalho, é sempre um gosto. Obrigada.

Bom fim de semana para todos. Muito obrigado.

Bom fim de semana para si. Obrigada.