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Começa agora o Domínio da Guerra com o General Arno Moreira. Bom dia, bem-vindo.
Olá, muito bom dia a todos.
Já sabe que além da rádio, também nos pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. General, esta foi mais uma semana marcada pela continuidade da violação do espaço aéreo de países na periferia da Rússia, mas também pelo discurso de Donald Trump, na terça-feira, perante a Assembleia Geral das Nações Unidas. O que destaca destes dois acontecimentos?
Muito bem, vamos começar pelos drones, porque ontem à noite, já houve mais incidentes. Eu tenho uma posição muito particular sobre os drones. Os drones não são jamais brinquedos. Os drones são armas de guerra facilmente militarizáveis por qualquer amador. Isto é, os drones vão ter que ser proibidos. A utilização de drones para atividades de lazer, e é por isso que os drones continuam a ter um sucesso imenso, tem que ser proibida, porque os drones são militarizáveis. O que nós estamos à espera é de um enorme desastre aéreo sobre um aeroporto europeu ou, eventualmente, um ataque às infraestruturas críticas que não estão protegidas para este tipo de objetos. Portanto, com exceção daquilo que é um conjunto muito específico de profissões que terá que ter acesso a estes drones, os drones enquanto atividade de natureza lúdica vão ter que ser proibidos. Não é agradável dizer esta coisa, mas de todos os brinquedos disponíveis na internet, os drones são os mais facilmente militarizáveis. Estamos à espera que aconteça isso.
Uma desgraça para depois tomar essas decisões.
Uma desgraça para depois tomar estas decisões. Mas vamos àquilo que tem acontecido sobre os aeroportos europeus. Eu quando olho para isto, o que é que eu vejo? Vejo que a Federação Russa, com a experiência que tem daquilo que têm sido as interrupções sucessivas do seu tráfego aéreo sobre os aeroportos de Moscovo e de São Petersburgo, pela aproximação de drones ucranianos, entendeu agora: "Ora, aqui está uma forma de guerra híbrida fantástica para lançar a confusão no interior da Europa". As formas de guerra híbrida têm formas de natureza convencional e têm também formas de guerra que não são diretamente atribuíveis a um país. Isto é, nós ainda não conseguimos atribuir a presença destes drones russos exclusivamente à Federação Russa. Isto é, pode haver aí um conjunto de outros atores, que nós ainda não descobrimos quem são, umas vezes por imitação, outras vezes por ideologia, que se sentem empoderados por aquilo que é a capacidade de disrupção que de repente entenderam que estava disponível para causar o caos no espaço aéreo europeu. E, portanto, não sendo possível ainda atribuir à Federação Russa estas manobras disruptivas, na verdade, quando nós fazemos uma análise de quem tem a capacidade de ativar, atuar e de forma profissional operar este conjunto de drones de grandes dimensões, a nossa ideia é imediatamente a Rússia. E a quem beneficia este conjunto de ações? Pois aparentemente beneficia, sobretudo, a Rússia e esta sua manobra de aterrorizar os europeus. Portanto, não temos provas que tenha sido a Federação Russa, talvez um dia venhamos a ter, mas a capacidade e a intenção colam exatamente à Federação Russa. Por que isto tem acontecido nestes espaços? Porque há uma teoria, ainda temos que desenvolver e validar, de que eles levantam voo a partir de plataformas civis que são navios que estejam a operar no Báltico. E, portanto, eles não fazem o seu trajeto da Federação Russa diretamente através dos céus europeus para atuar sobre estes espaços aeroportuários, mas que podem levantar a partir de navios civis que estão a fazer uma atividade comercial perfeitamente lícita.
Que passam despercebidos.
Passam despercebidos e a partir dos quais levantam estas plataformas para fazer este conjunto de guerra híbrida. Portanto, temos que estar muito atentos a isto e seria interessante realmente atribuir verdadeiramente responsabilidades sobre o que se está a passar hoje em dia. Mas, em face disto, e isto é apenas uma faceta daquilo que têm sido as violações sucessivas do espaço aéreo europeu, Trump esta semana foi diretamente questionado sobre o que é que deveria fazer a NATO no caso de se mostrar que houve uma violação do espaço aéreo por aeronaves da Federação Russa. O que disse NATO é: "Acha que a NATO deve deitar abaixo, atingir estes aviões da Rússia?" E Trump disse: "Sim, acho que sim". "Yes, I do". Sim, acho que sim. Nós ficamos um bocadinho desconfiados de tanta assertividade. Esta assertividade demorou uma hora ou duas horas. Porque depois ele veio a dizer: "Dependendo das circunstâncias." Pronto.
Já é o Trump que conhecemos.
Já é o Trump que conhecemos. Mas mais, depois Marco Rubio foi obrigado a intervir e a dizer: "Sim, mas isso nunca será feito por aviões norte-americanos." Isto é, aquilo que era uma assertividade brutal, "Sim, vamos deitá-los abaixo se eles violarem o espaço aéreo europeu", já não é a mesma coisa. É uma responsabilidade dos europeus fazer, os aviões norte-americanos não irão participar nessa manobra. Estamos a ver que as palavras de Trump duram normalmente entre uma hora e três horas.
Já consigo perceber o intervalo.
Entre uma hora e três horas. Ao fim de três horas começam a aparecer diluições daquilo que era a assertividade inicial. A assertividade inicial é ótima para os diretos.
E para fazer as headlines.
Sim. As explicações depois vêm, como os portugueses dizem, à socapa.
Em letras mais pequenas.
Em letras mais pequeninas, a seguir, para contextualizar isso tudo. Mas o discurso de Donald Trump era muito esperado, este discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas. O que é que nós esperamos de um discurso de um líder da maior potência mundial, do ponto de vista económico, do ponto de vista militar, do ponto de vista daquilo que era também antigamente a liderança do mundo livre? Há uma palavra que eu gosto para os discursos. Os discursos de um líder mundial têm que ser inspiradores. É isso que eu espero de um discurso de um líder mundial. Ser inspirador, mostrar uma visão do mundo baseada em regras, baseada em valores, mostrar uma orientação e assertividade para conseguir transformar pela aplicação de poder positivo e de poder negativo, conseguir transformar o mundo de acordo com essa visão. É isso que eu espero de um líder. O que eu não espero de um líder é o excerto que eu trouxe aqui. Há alguns anos, uma pessoa de grande sucesso na área do desenvolvimento imobiliário em Nova York, conhecido como Donald Trump, fez uma proposta para a renovação deste edifício. Optaram por um outro empreiteiro e hoje em dia, como já devem ter reparado, não temos sequer o piso em mármore tal e qual eu tinha proposto na minha proposta, que foi chumbada. Francamente, há mínimos. Quer dizer, há mínimos. Este é o discurso de Donald Trump perante os líderes de todo o mundo que estão à espera de ouvir o tal discurso de natureza inspiradora.
Parece uma conversa de café.
Parece uma conversa, aquela conversa que eu tenho com as pessoas que trabalham lá na quinta.
Já viste isto? O Neymar que tem.
Já viste isto? Ali à volta de uma mesa com umas cervejas em cima da mesa. Isto realmente é deplorável. Como um líder da maior potência mundial ousa fazer um discurso deste gênero perante os líderes mundiais na Assembleia das Nações Unidas. Eu hoje venho com coisa de crítico muito forte. Não sei.
Ainda mais gostamos de ouvir.
Em relação àquilo que é também substancial desta semana, é o seu post publicado no Truth Social, em que diz que afinal a Ucrânia vai conseguir eventualmente até recuperar todo o território e mais para além disso. É um post muito comprido, isto não foram só duas ou três palavras.
Mas também há aí umas entrelinhas, não é, General?
Mas há aqui imensas entrelinhas, porque ele atira esta responsabilidade para a Europa e tira os Estados Unidos um bocadinho para fora da equação. De qualquer maneira, é uma alteração muito significativa para a qual a Federação Russa não gostou nada. E o que veio dizer a Federação Russa, através de Peskov, foi isto: "Isto é uma espécie de fruto das circunstâncias. Ele tinha estado a falar com o Zelensky, e portanto veio entusiasmado dessa conversa e pôs-se a dizer estas coisas e até chamou tigre de papel à Federação Russa." Olha, a Federação Russa, como sabemos, é um urso. E não há ursos de papel, etc. Mas houve uma alteração. Há aqui uma alteração de postura. Vamos ver se esta é de uma hora, de três horas ou se isto tem pernas para durar mais algum tempo.
No último domingo, Portugal escolheu uma sala da sua representação nas Nações Unidas para anunciar formalmente o reconhecimento do Estado da Palestina. Não sendo um assunto novo, o processo parece ter sido acelerado nas últimas semanas. Isto porque a 31 de julho, Portugal tinha enunciado um conjunto de condições para esse reconhecimento. Mas General, sabemos que não foram concretizadas e por isso, como é que devemos interpretar toda esta pressa?
Eu hoje estou tão crítico. Estou mesmo ácido nesta coisa. Que me perdoem os nossos queridos ouvintes. Mas eu não fico indiferente àquilo que são as questões do interesse nacional e de uma certa confusão entre aquilo que é o interesse nacional estrutural, que é aquele longo prazo, com aquilo que é o interesse nacional conjuntural, que é a curto prazo. E o conjuntural não deve nunca afetar o estrutural. E agora vou procurar desenvolver com maior serenidade este assunto. A questão dos dois Estados é uma questão antiga. Há mais de uma centena de anos, esta questão de olharmos para aquela parte do Médio Oriente e ver ali dois Estados. Nunca estivemos tão longe dos dois Estados como estamos exatamente hoje em dia. Já estivemos mais perto, na sequência dos acordos de Oslo. O que se procurou fazer foi uma aproximação. Isto é, a construção de uma entidade política autônoma na Palestina era feita através da concertação com Israel. E foi a vez que estivemos mais próximos dos dois Estados. Foi quando o processo foi desenvolvido com Israel. Não como agora estamos a procurar fazer, que é implementar a solução dos dois Estados contra Israel.
Mas depois vem o argumento de que não é contra Israel, mas pela paz.
Sim. Agora há aqui três aspetos sobre os quais eu gostava de chamar a atenção. O primeiro é a forma. A forma é importante nas relações internacionais. O reconhecimento de um Estado não é um reconhecimento coletivo, como nos fizeram crer. Toda esta encenação deste conjunto de países, deu-nos a crer que havia um conjunto de países que tinham acertado fazer o reconhecimento. O reconhecimento de um Estado é responsabilidade individual de cada um dos Estados. Então, por que se foi para a solução de apresentar isto como uma solução de natureza coletiva? E eu digo, por falta de coragem política. É a falta de coragem política de assumir aquilo que são as decisões de um Estado, que nos conduzem a procurar uma solução coletiva em que as responsabilidades individuais ficam, de alguma maneira, dispersas. Isto é, é como se eu pudesse dizer: a asneira feita em conjunto responsabiliza menos individualmente cada um de nós. Todos fizemos asneira, portanto, não fomos nós. Mas eu torno a dizer, a responsabilidade é uma responsabilidade individual e estamos a escondê-la neste pacote de países que o fez por falta de coragem de assumir essa opção individualmente. Agora, por que eu falo na falta de coragem disto? Porque, na verdade, entre julho e agora, o que houve foi uma deterioração da situação humanitária, da situação política, da situação complexa que se vive neste relacionamento entre Israel e a Autoridade Palestiniana e o Hamas na Faixa de Gaza. O que é que resultou de um comunicado de 31 de julho? Eu posso ter lido mal, eu voltei a lê-lo outra vez. É que foram utilizadas palavras erradas nesse comunicado. Isto é, este comunicado fala em condições. Mas afinal não eram condições, eram garantias. O que este comunicado deveria ter dito é que nós queremos garantias da Autoridade Palestiniana que se vão realizar aqui um conjunto de factos para que este reconhecimento seja feito. Mas não foi isso que estava lá escrito. O que lá estava escrito era condições, ou seja, tinham que se verificar aquelas condições para se avançar com o processo. Eu não estou a dizer que foi propositado este engano, mas eu sinto-me enganado. Eu e muita gente, provavelmente, neste país, se sente enganada com este processo, porque afinal não eram condições a satisfazer, eram garantias que queríamos obter. E de quem aceitamos as garantias? Aceitamos as garantias da única entidade política em que não confiamos. Isto é que é extraordinário e bizarro. A Autoridade Palestiniana, que é provavelmente a menor autoridade ou tem a menor autoridade política sobre o território, que não é testada em eleições desde 2005 ou desde 2006, que não tem renovação nenhuma, que tem um líder que está a aproximar-se dos 90 anos, que do meu ponto de vista, tem pouquíssimas condições de vir a ser um governo em Gaza, é que vem dar garantias sobre aquilo que considera que será o futuro do seu relacionamento com Israel. Isto é absolutamente extraordinário. Extraordinário que nós, por um lado, dizemos que a Autoridade Palestiniana tem que ser reformada, isto é, estamos a reconhecer que a Autoridade Palestiniana não tem autoridade neste momento. Mas aceitamos as garantias que ela nos vem dar. Portanto, todo este processo está inquinado por palavras, por gestos, a palavra talvez não é muito bonita e eu talvez me arrependa, por truques. Em que nos dão a entender que há um conjunto de condições necessárias para o reconhecimento e depois nos vêm explicar que não eram condições, bastavam as garantias dadas pela Autoridade Palestiniana. Parte final disto, porque estas coisas do interesse nacional mexem muito comigo. Nós fomos atrás dos interesses de outros países. Por que é esta pressa? Porque a França conduziu com a Arábia Saudita uma negociação para que a França possa ganhar o concurso de muitos milhões de euros da venda dos seus caças Rafale à Arábia Saudita Isto é, a França está em concorrência com os Estados Unidos na venda do seu equipamento militar. A decisão estará para agora e, portanto, a França tinha pressa. Tinha o seu interesse para isto. Toda esta pressa francesa tem muito a ver com negócios que a França quer fazer no Médio Oriente, onde acha que a deterioração que resulta do bombardeamento sob o Qatar por parte de Israel, criou condições para uma diminuição da influência dos Estados Unidos naquela região e para que a França passe a ser o grande defensor da região e o grande vendedor de armamentos à região. Portugal não tem interesses nisto? Portugal tem um interesse nisto. Há um interesse que eu considero legítimo, que é: Portugal não deve ficar isolado na cena internacional em face do reconhecimento. Considero esse um interesse legítimo.
São as explicações, general?
O segundo interesse é que Portugal é candidato ao lugar de membro não permanente no Conselho de Segurança. E há um conjunto muito significativo de votos naquilo que são os países árabes e islâmicos a que Portugal quer agradar. Mas é o que eu digo, nós estamos a confundir um interesse de natureza conjuntural, porque é uma presença que não é permanente, é durante um determinado período de tempo, com os interesses estruturais. E quais eram os interesses estruturais que, do meu ponto de vista, ficaram afetados? Primeiro lugar, deterioramos a ligação que tínhamos de amizade e até considerávamos um aliado, Israel. Para obter um interesse conjuntural, fomos dar cabo de uma relação de confiança com um amigo e com um aliado que era Israel. Segundo, colocamo-nos desalinhados com a política norte-americana. Ora, a política norte-americana é essencial naquilo que é o interesse nacional estrutural, porque Portugal não pode mudar a sua geografia e as ilhas que tem no Atlântico Norte obrigam-nos a uma relação estreita de cooperação com o aliado que dominar o Atlântico Norte. Quando era a Grã-Bretanha, o nosso aliado era a Grã-Bretanha. Agora que são os Estados Unidos que dominam o Atlântico Norte, a nossa relação privilegiada é com os Estados Unidos. Portanto, os interesses estruturais, do meu ponto de vista, estão aqui afetados por uma medida e por um interesse que me parece absolutamente conjuntural.
Agora a reescrever tudo enquanto há tempo. Para nós. No dia 5 de fevereiro do próximo ano vai expirar o novo tratado para a redução das armas estratégicas. Ora, esta semana, segunda-feira, dia 22, Putin veio anunciar que a Rússia estaria disponível para se manter no tratado durante mais um ano se os Estados Unidos fizessem o mesmo. É mesmo vontade de prolongar o tratado, general, ou existe aqui uma cortina de fumo?
Não, a cortina de fumo é esta: a Federação Russa está a ver os Estados Unidos a escaparem do seu controle e foi buscar mais um tema que acha que pode ser importante para o Prémio Nobel de Donald Trump e, portanto, foi puxar este tema para ver se consegue agarrar os Estados Unidos em mais uma série de rondas negociais.
O nosso ponto de mira foca-se hoje no inesperado tratado na área da defesa entre o Paquistão e a Arábia Saudita. Que relevância tem este acordo para o Médio Oriente e para o sistema internacional, general?
Isto chama-se acordo mútuo de defesa estratégica entre aquilo que é um dos grandes donos dos petrodólares mundiais, a Arábia Saudita, e aquilo que é a única potência nuclear do mundo islâmico. Só que este tratado, assinado agora a 17 de setembro, tem uma cláusula que é igual à cláusula da NATO. Diz que a agressão contra qualquer um dos países implica que seja considerada uma agressão contra ambos. Isto é, a Arábia Saudita acaba de ganhar aquilo que é o guarda-chuva nuclear do Paquistão. Portanto, está a construir-se aqui no mundo islâmico, uma espécie de uma NATO islâmica, para a qual temos que seguir, naturalmente, com muita atenção.
General Arnaut berapa, é sempre um gosto tê-lo connosco. Vou votar em si nas próximas eleições, sejam elas quais forem. Obrigada, até para a próxima.
Um bom dia para todos e uma boa semana. Muito obrigado.