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Ao longo de quatro episódios, o Observador reconstruiu o que aconteceu no México e todos os contornos do caso Saltillo. No podcast "O Escândalo que Destruiu a Seleção", ouvimos quem esteve no México, desde jogadores a jornalistas. Recuperamos também as páginas dos jornais desse período e consultamos o relatório da Federação Portuguesa de Futebol. É tudo para ouvir em quatro episódios deste podcast especial do Observador, em que escutamos agora quem teve de fazer o caminho das pedras depois da participação portuguesa no Mundial do México. Eu sou a Carla Jorge de Carvalho e juntamente com o Miguel Cordeiro recebemos Rui Seabra.

Sim, Rui Seabra, o homem que foi chamado pela Federação Portuguesa de Futebol para ser selecionador nacional depois desse mundial de 86. Um advogado com alguma experiência no universo do dirigismo no futebol, que aceitou, na altura, a missão complicada de liderar a seleção rumo ao Europeu de 88. Aconteceu durante um período em que os melhores jogadores estavam afastados, uns por própria vontade, outros pela Federação Portuguesa de Futebol. Um período em que também muitos jogadores se recusaram a jogar em solidariedade com os colegas que tinham sido castigados pela Federação Portuguesa de Futebol. Temos em estúdio Rui Seabra, liderou a seleção entre julho de 86 e março de 87. Rui Seabra, bem-vindo à Rádio Observador.

Obrigado.

Rui Seabra, assumiu a Seleção Nacional depois do Mundial de 86, mas já contou também noutras entrevistas que foi convidado para selecionador ainda antes do Mundial do México. Quer contar-nos em que circunstâncias é que aconteceu este convite?

É estranho. Aconteceu esse convite porque eu era presidente do INATEL e o doutor Silva Resende era tesoureiro da Federação Portuguesa de Futebol, não era ainda presidente. Isto foi por volta de 82. E nessa altura nós éramos membros da mesa da Santa Casa da Misericórdia, porque a federação era quinhão dos jogos da Santa Casa e o INATEL também. Então um dia ele estava à minha frente, manda-me aquele cartão, o bloco que tínhamos à nossa frente e atira-me e pergunta: "Quem é que o senhor indicava para selecionador nacional?" Estamos a falar de 82. E eu: "Rui Manuel Correia de Seabra". E mandei-lhe. Chegou ao fim da sessão e ele pergunta para mim: "Ó fulano, mas o senhor acha que escreveu mesmo de verdade?" "Claro, eu sinto que tem que ser o selecionador, que não seja treinador, porque não se treina uma equipa em três dias e às vezes só dois com as viagens das provas europeias dos jogadores, que são elegíveis para a seleção". E ele: "Pronto, nunca mais falamos nisso". Passados seis anos, estava eu em Zurique para a reunião da FIFA, preparatória já também para o Mundial, e telefona-me, estava eu no gabinete do Secretário de Estado dos Transportes, do meu amigo Gonçalo Sequeira Braga.

Então, nessa fase, Portugal já estava apurado para o Mundial de 86?

Já estava no México. Ele é que ainda estava na reunião da FIFA de Frankfurt.

Frankfurt.

É, Frankfurt.

Estava a seleção portuguesa no México e o senhor recebe um telefonema a dizer: "Quer ser o próximo selecionador?"

Como se era. Já não havia dúvida sobre isso. E eu disse: "Olha, ó doutor Silva Resende, mas acho muito mal que o senhor me esteja a dizer isso, porque é a segunda vez que nós estamos numa final do Mundial do Futebol. E se isto, porventura, aparece no público, é o desastre completo da seleção". Longe de imaginar o que depois ia acontecer.

Pois, era essa a pergunta que ia fazer, se esse contacto acontece quando já era pública a revolta que estava a acontecer.

Não se constava nada.

Então, aceita o convite?

Não aceitei com essas condições. Se porventura souberem que o senhor me convidou nessas circunstâncias, eu digo que o senhor é o maior aldravão que eu conheci na vida.

Mas por que o convidou, porque já não confiava em José Torres na altura?

Pois. E como eu era, bom, atenção, porque eu sempre estive ligado ao futebol. Eu estive sete anos no Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol e um ano no Conselho Superior de Justiça. Além de ter sido dirigente da Brilhante Académica quando ela foi terceira segunda do Campeonato Nacional de Futebol.

Então ficou aí uma espécie de um acordo de cavalheiros. No fim do campeonato mundial, assumiria o senhor o cargo de selecionador. Quer dizer que não ficou nada surpreendido quando se dá o caso Saltillo, como ficou conhecido.

Não fiquei surpreendido, porque eu nunca pensei que a razão de ser do convite a mim fosse para, como a senhora disse muito bem, para eu atravessar o caminho das pedras, como disse na introdução. Eu disse não, eu pensei: a coisa já não estava a funcionar bem e, portanto, ele queria optar por uma mudança, como aliás aconteceu com o Zé Maria Antunes, antes também não era treinador de futebol. O Cândido Oliveira, por exemplo, não era virgem aqui no futebol português.

E impôs alguma condição quando percebeu que havia esse caminho das pedras para fazer?

Não, pelo contrário, fiquei contente por ter sido convidado antesPara depois ter os escolhos à minha frente, porque era para dar mais razão à minha opinião, que sempre tive, do chamado seleccionador civil.

Qual é que era a vantagem, na sua opinião, de haver um seleccionador e depois o treinador?

A isenção absoluta perante os dirigentes dos clubes. Na altura, os empresários eram poucos, não é verdade? E não tinham o significado que tinham agora. Agora, por maioria de razão, eu seria seleccionador de futebol, por causa dos empresários, que mandam em tudo. E portanto, pela independência que a seleção tinha que ter para com os clubes. Não podia estar à mercê de um telefonema por aí: "Olha, não te esqueças de escolher fulano ou beltrano, cicrano".

E um seleccionador não conseguia dizer que não a esse tipo de telefonemas?

O treinador era difícil, porque depois tinha que ter abertura para ser treinador de um clube qualquer, porventura daqueles que lhe ligavam a pedir qualquer coisa, porque eram profissionais do treino. Eu não era.

Mas toda a sua ideia era ter a possibilidade de existir um seleccionador que existia à margem de todos esses interesses dos clubes.

Exatamente, à margem.

Mas quando chega à Seleção Nacional, tem de lidar com uma situação que está para além de todos esses interesses, que é o fato de 22 jogadores não poderem ser convocados e outros entrarem em solidariedade com os restantes e também dizerem que não estavam disponíveis. Que desafios é que teve para a primeira convocatória? Como é que foi esse momento, fazer a primeira convocatória?

Esse momento foi simplicíssimo para mim. Tenho que falar aqui numa pessoa que foi muito colaborante, que foi o treinador do Guimarães da altura, o Marinho Peres. Por quê? Porque a maior parte dos jogadores eram do Guimarães. Eu creio que só dois do Guimarães é que não foram convocados ou para as Esperanças, ou para os Olímpicos, que eu também tinha, ou para os AS. Quer dizer, aquilo foi uma razia no Guimarães. E o Marinho Peres sempre entendeu perfeitamente a minha situação e a minha posição e nunca pôs entraves aos jogadores.

Diz que foi fácil, mas isto era uma equipa de segunda escolha, era uma equipa mais fraca do que poderia ser ou não?

Portugal, naquela altura, podia dispensar de ânimo leve jogadores como um Diamantino, um Carlos Manuel ou assim? Quer dizer, não podia. O campo de recrutamento não era como agora, em que se pode ir buscar lá fora e a seleção é feita pelos jogadores que jogam nos campeonatos mais competitivos da Europa. Era aqui. Portanto, naturalmente, eu fui buscar os melhores que havia dos disponíveis.

Exato. E dentre esses melhores dos disponíveis, destaca-se Manuel Fernandes e Veloso, que Veloso não tinha ido ao México por causa de um caso de suspeita de doping. Manuel Fernandes tinha sido excluído dessa convocatória. Qual é que foi a importância desses dois jogadores e da experiência que tinham, também?

O Veloso tinha menos influência do que o Manuel Fernandes. O Manuel Fernandes era um homem que já estava com 36 anos e que era capitão do Sporting há muitos anos. E, portanto, naturalmente, tinha uma experiência do jogo já muito superior. Daqueles jogadores que eu pude recrutar, ou melhor, convocar, era o Xel, que para mim, na altura, eu cheguei a dizer que era o jogador português que melhor conhecia todos os centímetros de um campo de futebol, e o Manuel Fernandes. E pronto, e assim foi, eles foram pedras fundamentais. Mas depois houve outros que surpreenderam a mim. Foi o Jesus, o guarda-redes do Guimarães, o Adão, por exemplo. Eu não quero estar aqui a falar em nomes, mas o Jaime do Belenenses, o Jaime de Lacerda, e vários outros. O Nascimento! O Nascimento, aquilo que me disse a mim uma vez numa conversa engraçado. Ele disse assim: "Ó doutor, eu não tenho técnica nenhuma", porque ele tinha sido formado em França, "mas a mim ensinaram-me a usar o físico. Então eu quando chego ao avançado, à grande área, não é à grande área, é ao meio-campo, eu encosto logo o peito a ele. Não é falta, que ali ninguém marca falta, e o contra-ataque já não existe. Pronto, não me peça para passar a bola, mas para isto, eu é que sou bom".

Mas explique-nos um bocadinho então como é que funcionava. O senhor escolhia os jogadores, selecionava dentro do universo disponível e depois tinha António Oliveira e Juca, que eram os que treinavam a equipa. Era assim? Nunca houve atropelos entre funções?

Não, aliás, eu nunca convocava sem uma reunião com eles dois. E aliás, nós todas as semanas dividíamos visão de jogos por esse país todo. Onde houvesse jogadores convocáveis. Não perdíamos tempo com o Benfica, a não ser o Xel e tal.

Não valia a pena porque a maioria da equipa era indisponível.

Não eram disponíveis. E corríamos o país, distribuíamos as áreas e os jogos. E depois, quando era a convocatória, reuníamos sempre, como nos reuníamos todas as semanas. Criei um gabinete próprio para as seleções, que não havia. Tínhamos olheirosEm todo o país, no Algarve, no Porto.

Então quem escolhia o 11 e quem definia a tática?

Não, depois nós convocávamos os possíveis, os 16, 17 ou 18, consoante as circunstâncias. E depois quem punha a jogar, nós já sabíamos que quando escolhíamos aqueles, uns eram para ser titulares e os outros eram para ser suplentes. Não havia nada que fazer.

Por exemplo, durante o jogo, quem é que decidia as substituições?

Isso era normalmente, éramos tão juntos, tão unidos, que já estávamos a pensar o mesmo.

Mas alguém decidia, alguém dizia: "Vai aquecer, vai trocar."

Eles acabavam por me perguntar sempre, mas eu concordava, porque eu já sabia. Olhe, aquele que era mais determinado nas substituições era o Oliveira, que eu acho que às vezes até tinha que o travar um bocadinho, porque às vezes aos 30 minutos da primeira parte já queria fazer uma substituição.

E quem é que falava com os jogadores? Antes do jogo, ao intervalo, quem é que falava com os jogadores?

Bom, antes do jogo era eu. E a preleção no hotel antes de irem para o treino, era eu.

Gostava de fazer essa palestra?

Não, tinha que fazer, era para explicar tudo, que eles não sabiam por que lá estavam.

E dizia-lhes o quê?

Eu dizia-lhes.

Foram chamados porque há os indisponíveis, que não podem.

Não, eu dizia-lhes por que estavam lá e por que tinham que estar. Porque a Federação Portuguesa de Futebol tinha sido declarada há muitos anos de interesse público e tinha, nessa declaração de interesse público, sido cometida a obrigação de gerir o futebol profissional em Portugal. E portanto, tinha a obrigação de gerir as competições europeias a nível nacional ou mundiais a nível nacional, como forma, digamos, não de compensação, é de encargo cometido por essa declaração de utilidade pública. Eles não sabiam disso. E depois não sabiam, por exemplo: "Olhe, vocês estão aqui, vocês continuam com o vínculo ao vosso clube, porque vocês estão aqui requisitados por interesse público, ao abrigo da lei dos regulamentos desportivos e, portanto, o vosso contrato nos clubes está suspenso. Mas vocês não perdem regalias. Vocês estão suspensos e aqui a Federação Portuguesa de Futebol supre o que vocês perdem nos clubes."

Portanto, falava em nome da Federação Portuguesa de Futebol.

Falava, mas era em nome do esclarecimento da relação que havia entre a situação deles e a nossa.

Porque o ambiente era muito aceso na altura.

O ambiente era aceso, não era com os jogadores, aceso era com a comunicação social, desculpem.

Não só a comunicação social, e isso depois acaba por ter influência também naquilo que é a relação dos adeptos com a seleção. Estamos a falar desse período depois do Mundial de 86, como é que era essa relação? Nós já percebemos e já escutámos relatos de adeptos portugueses que iam ao estádio apoiar a equipe adversária, neste período.

Foi o primeiro jogo logo com a Suécia no Jamor. Havia mais azuis para a Seleção Nacional do que havia para a Suécia.

Exato. Como é que foi gerir toda essa situação também?

Lá está. Era a maior razão possível para o selecionador civil, que não era o treinador que tinha dado a cara naquelas circunstâncias, era eu.

E era difícil. Foi duro.

Fácil não era, mas quer dizer, a tarimba ajuda muito. Eu nessa altura já tinha passado por 14 gabinetes ministeriais, antes e depois do 25 de abril. Já tinha andado em Coimbra seis anos. Portanto, aquilo aprende-se muito na vida. Eu aprendi, tive essa oportunidade.

Quando é que a seleção ou os portugueses se reconciliam com a equipe portuguesa? Porque esse momento foi mesmo muito estranho.

Começaram a reconciliar-se com o gol de calcanhar na Suíça, do Manuel Fernandes, já que vocês falaram no Manuel Fernandes, que deu o empate com a Suíça. E era selecionador da Suíça o Jean Upé, que foi famoso internacional. A senhora não são desse tempo. E então, ele a primeira coisa que fez na conferência de imprensa a seguir ao jogo, foi dar-me os parabéns e um grande abraço. Ora, isso foi filmado pela RTP, aqui para Portugal. Isso é que começou a amenizar um bocadinho o ambiente.

Estamos já a falar em outubro de 86, no final de outubro de 86. Rui Siabra, vamos fazer primeiro uma curta pausa. Regressamos à conversa com Rui Siabra, foi selecionador nacional de futebol depois do Mundial de 1986. Nós na primeira parte já abordamos aqui vários temas, mas eu gostaria de falar aqui de relação, se existiu ou não, com os jogadores indisponíveis. Se alguma vez falou com os tais 22 que estiveram no México, se alguma vez teve alguma conversa com eles neste período de selecionador nacional.

De maneira nenhuma. Estava-me a desautorizar. Portanto, com o meu quadro mental e de entendimento jurídico da situação, só faltava essa.Eles eram indisponíveis por vontade própria. Já muito fez a federação não os chamar ao abrigo do tal interesse público.

Nunca compreendeu as razões que levaram os jogadores da seleção a fazer aquele protesto?

Não quis compreender. E até digo mais. O Jaime Cortesão, autor do relatório do que se passou lá no México, quis me entregar o relatório do que escreveu. E eu disse: "Olha, eu prefiro não ler." Mas um ano depois. Éramos amigos. E eu digo: "Prefiro não ler, sabes por quê? Porque tu, de certeza que não tiveste a possibilidade, apesar do jurista emérito e grande amigo meu, devo já dizer, não tiveste a oportunidade, durante um ano, de manter a independência absoluta que tiveste. Porque entretanto houve aqui coisas que aconteceram. Nomeadamente, o César Grácio, que era o secretário-geral da Federação, ter apanhado um processo disciplinar, o director-geral de Desportos ter sido corrido, o Mirandela da Costa, não é? E outras coisas assim a que tu não podias ser sensível. Porque tu tinhas que ouvir três versões. Não eram só duas. Passaram a ser três porque houve intérpretes que não estiveram lá, porque entretanto já estava fora das funções e, portanto, o relato não era tão isento como podia ser.

Essa terceira versão ia contar o quê? O que é que faltou contar?

Não sei. Ia dizer aquilo que eles não queriam ver que aconteceu no México, como o caso do Miranda da Costa, que esteve lá, e o César Grácio, que esteve lá.

César Grácio esteve sempre com Amândio de Carvalho no México. Era um dos dirigentes.

Era o secretário-geral da Federação.

Sim. Mas acha que esse relatório, que foi apresentado e que foi publicado até no jornal A Bola, na segunda que saiu, na íntegra, mudou também a visão que os adeptos, a opinião pública, tinha dos jogadores e da Federação?

Teve influência. Atenção, o Jaime Cortesão não era bobo. O Jaime Cortesão era um rapaz inteligente e um advogado capaz. Portanto, atenção.

Mas repare, o que sabemos agora, e na altura se começou a saber sobre a preparação da equipa para o Mundial de 86, mostrava algumas condições um bocadinho estranhas. Treinar num campo inclinado, por exemplo, com buracos, não era a melhor forma de dar condições a uma equipa para ter um bom resultado.

No México?

No México.

Não faço ideia.

É porque não quis mesmo saber, é isso?

Não, não quis mesmo saber, porque ouça, eu vivi o PREC intensamente, percebes? E como eu sabia que aquilo era do grupo do Barreiro e do Fernando Correia da RDP, eu dava os meus descontos. Como dou ao Putino quando ele fala, como dou ao Trump quando ele fala. E, portanto, quer dizer, o campo inclinado, a culpa era do México, que era o organizador do Mundial. Não era, portanto, de Portugal.

Portanto, aquilo foi muito político.

Era só político aquilo.

Para perceber aqui, quando falamos do grupo do Barreiro, estamos a falar de um grupo de jogadores que fazia parte dessa seleção.

É, exactamente.

Vento.

Vento, Carlos Manuel.

O Luis que deram cabo, o Diamantino, todos eram do lado do Barreiro, o Vento.

Sim.

Os cabecilhas ficaram conhecidos como isso.

Exatamente, eu não queria falar aqui em política. Mas naquela altura aconteceu a intervenção da política no assunto.

Sim. Nós há pouco falávamos aqui um pouco da convocatória, de como é que ela era feita, e que discutiam isto com os treinadores. Dirigentes da Federação não entravam na discussão quando era para outros-

Só faltava. Nem sabiam.

Com tantos processos, com tantos casos, com jogadores indisponíveis, nunca houve reuniões com diretores sobre: "Podemos ou não podemos convocar este?"

Não. Nós éramos completamente autónomos.

Mas não chegou a ver o caso de quererem convocar um jogador e ele dizer: "Não, eu não quero ir à seleção."?

Não, nunca aconteceu. Nós sabíamos, os indisponíveis tinham mandado uma carta pra Federação a dizer que não jogavam. Pronto, acabou. Nós respeitamos.

Como é que era a sua relação com o Silva Resende e com Amândio de Carvalho?

A minha relação com o Silva Resende era antiga.

Como te explicou.

E depois o Silva Resende foi meu colega no Record. Ele era lá cronista e eu também, no Record. E então, o que é que acontece? Acontece que quando estávamos na mesa da Santa Casa dos Jogos falávamos muito. Depois deixamos de falar.

Enquanto foi selecionador.

Não falámos. Nem ele falou comigo, nem eu com ele.

Portanto, total independência e liberdade para fazer.

Havia um pacto não escrito, moral, entre nós os dois.

Fez seis jogos na seleção nacional.

Sete.

Sete jogos.

Um particular.

Exatamente. Houve jogos particulares pelo meio, mas Portugal falhou esse apuramento para o Europeu de 88.

É que tinha que apurar, tinha que falhar com a Suécia, com a Itália, com Malta e com, quem era o outro?

E com os jogadores indisponíveis.

Não, e com o quarto clube.

Suíça.

A, Portugal, éramos nós. Pois, tá bem.

Acha que mesmo que tivesse todos disponíveis, esse apuramento era difícil?

Não, batemos o recordeFoi o recorde não perder durante seis jogos seguidos. Empatamos, não ganhamos, isso é verdade. Ganhamos um particular com a Bélgica, em Braga, 1x0, mas também perdemos um particular com a Grécia em Portalegre, de centralização.

Ou seja, nunca lhe pediram o apuramento? Sabia-se que era muito difícil que isso acontecesse.

Não, toda a gente sabia que era impossível com a Suécia daquela altura, com os Strombergs todos ali a jogar. Era impossível. E com a Itália? Do Enzo Bearzot e do Vincenzo. E com o Altobelli, com o Donadoni. Meu Deus, vocês não pequem, por favor.

Está a fazer a comparação, claro e natural, e é sempre justo fazer essa comparação com a qualidade dos jogadores de uma seleção e de outra. Mas a nível de condições, percebeu, enquanto selecionador nacional na altura, que Portugal tinha condições piores ou diferentes de outras seleções, como a Itália e a Suíça que já aqui referiu?

Que tipo de condições é que está a referir?

Condições de treino, condições logísticas.

Não, condições de treino tínhamos sempre ótimas condições. Ótimas. No Jamor, normalmente, ou então nos campos onde nós íamos jogar, ou em Portalegre, no Estádio Municipal de Portalegre, ou em Braga, ou no Porto.

E a nível de logística, a organização quando tinham que fazer viagens ao estrangeiro, dormidas, bus?

Tudo impecável. Isso aí já era o Malva, que passou a secretário-geral. Ou melhor, nunca chegou porque só depois de eu sair é que chegou. Mas era o secretário-geral adjunto, que substituiu o César Graço. E então? Nunca faltou nada.

E ao nível da profissionalização, da forma de trabalhar, de preparação física, de conhecimentos técnicos, Portugal estava ao nível das outras equipes?

Isso estava.

Não houve uma autoanálise por parte da federação em relação àquilo que correu mal no México, no mundial do México, e depois a federação entrar a tentar trabalhar de outra forma?

A autoanálise foi a equipe que escolheu para gerir as seleções.

Sim.

Resultou nisto.

Resultou nisto, nesse recorde.

E depois havia o Camacho Vieira, que já era médico há muito tempo das seleções e já conhecia os joelhos de todos os jogadores. Já agora, deixem-me contar uma piada dele. Estávamos 70 em estágio, porque era as esperanças, os olímpicos e os as. E a certa altura, lá no balneário do Jamor, ele estava a apalpar o joelho do Carlos Xavier e eu disse: "Ô doutor, esse não é o joelho do Carlos Xavier, que você já trocou o joelho. Esse é o joelho do Adão, o Carlos Xavier está aqui nesta maca ao lado." E ele: "Ah, o doutor tem razão". Eram tantos joelhos.

Eram muitos joelhos. Como é que termina a sua função de selecionador?

Muito simples. Soube que ia haver eleições.

Na federação.

Na federação. E soube que havia dois concorrentes. Agora não me lembro dos nomes. E eu então entreguei uma carta escrita e fechada ao Malva para ir por lá, para entregar ao presidente eleito da Federação Portuguesa de Futebol. Fechada, lacrada por mim, assinada e tal, e coisa atrás e à frente e ao lado, e assim, só dirigida ao presidente eleito da Federação Portuguesa de Futebol. E assim foi.

Uma carta a pôr o lugar à disposição.

Não, a demitir-me.

A demitir-se mesmo.

Não, eu não sei o que é isso de lugar à disposição. Isso é para os políticos, não tenho nada a ver com isso. Ou se demite ou se não demite, não há cá meio-termo. O que é isso de pôr o lugar à disposição?

Mas por que se demitia?

Por que eu demitia? Porque tinha cumprido a minha missão.

Que era?

Que era fazer o que fiz, pôr de saltinho, pôr a seleção a funcionar.

Mas ainda muita gente aponta o empate em Portugal com a seleção de Malta como uma das principais razões também para essa saída.

É, e tem toda a razão, porque nós não podíamos empatar com Malta. E atenção, já foi uma segunda escolha da segunda escolha que marcou os dois gols, o Jorge Plácido, vejam bem.

Estava a falar em segunda escolha da segunda escolha.

Exatamente.

Na altura houve várias alcunhas nisso.

Então eu vou já contar por que isso aconteceu. Sabe por quê? Porque a certa altura o Jesus, o guarda-redes da seleção e do Guimarães, veio ter comigo e disse no hotel: "Ô doutor, nós não temos sossego aqui porque estão a entrar todos os delegados, diretores do Marítimo e do Nacional e já nos correram a todos com contrato a dobrar o salário que nós temos nos nossos clubes." Eu chamei o Amâncio e disse: "Está se a passar isto?" E ao senhor vice-presidente: "Os senhores não podem deixar entrar aqui os diretores dos clubes. Eu sei que eles é que são os que vos elegem, mas isto não pode acontecer.Porque eu não posso tirar daqui os jogadores.

Estavam a tentar negociar os jogadores durante o período da sua gestão.

Já estavam negociados. Se o Jesus não me viesse dizer o que se já tinha passado. Só aí é que eu pude tomar uma decisão.

Ainda durante este período, houve algumas alcunhas, podemos dizer assim, para estas seleções: Seleção B, Seleção dos Pobres e os Chiabrinhas. Teve conhecimento destes nomes na altura ou só soube mais tarde?

A Seleção dos Pobres, não.

Foram nomes atribuídos à seleção.

Foram. Acho lamentável, na verdade, porque é brincar com a pobreza, e é coisa que não está na minha formação. Nunca esteve. Os meus pais não deixavam.

Os Chiabrinhas já...

Os Chiabrinhas gostava mais.

Os Chiabrinhas já pode ser. É uma forma até carinhosa.

Como é que gostava que essa época, em que o senhor foi selecionador, seja recordada? Como é que gostava que o lembrassem nessa qualidade do trabalho que desenvolveu?

Não quero que me façam estátuas, nem homenagens, nem nada que se pareça, nada disso. Isto está comigo, há de morrer comigo, é só a minha satisfação pelo dever cumprido. Toda a gente agora diz isso, mas eu digo de peito cheio. Cumpri o meu dever. Assumi funções e cumpri-as até ao fim e com o peito cheio.

Voltava a fazê-lo?

Agora não, já não tenho idade para isso. E agora estou treinado em jogos do Campeonato Inglês. Não é do campeonato nacional.

Quando deixou, na altura, e quando escreveu essa carta, quando deixou o cargo de selecionador, até ao fim da sua carreira, alguma vez achou: "Talvez ainda volte a ser selecionador nacional"?

Não, nunca na vida. Só se é selecionador nacional uma vez. Presidente da República pode ser duas vezes, dois mandatos, que é o que diz a Constituição. Mas selecionador não pode.

E imagino que continue a acompanhar a seleção portuguesa.

Claro.

O que é que espera deste campeonato do mundo?

Eu espero que isto vá correr muito mal.

Então.

E vai correr muito mal por causa do enquadramento que há. Ir fazer jogos nos Estados Unidos com o Trump e com aquele terrorismo urbano que lá há. Ir fazer jogos no México, que é dominado pelos cartéis da droga. E ainda por lá o Irão a jogar, em que o Trump já diz que a equipa não pode ter jogadores da Guarda Revolucionária. Isto não promete nada de bom. Eu, se fosse jogador, olha, aí é que eu era indisponível. Não tenha dúvidas. Eu não ia ali para servir de carne para canhão. Não, era indisponível à partida. Não ia. Olhe, agora é que eu dou razão aos indisponíveis do meu tempo.

Deixou de existir este conceito, em que foi selecionador nacional, de selecionadores civis. Isto praticamente deixou de existir. Faz falta ao futebol?

Eu acho que agora ainda faz mais falta, por causa dos agentes, que é uma terceira força. Nós tínhamos lá os dirigentes. Tínhamos os votos dos dirigentes para a federação. E agora temos os agentes que mandam mais do que os dirigentes e que todos os outros.

O futebol é muito diferente do futebol com que lidou na década de 80.

É muito diferente. Até, digamos, taticamente mudou muito. Todas as equipas hoje em dia, se não jogam em todo o campo, nuns 100 metros, durante 90 minutos, estão boladas de pernas. Não vão.

É muito mais exigente fisicamente também.

É.

Nós estamos a chegar ao final do nosso tempo e eu acho que podemos aproveitar este momento, Carla, para de ex-selecionador para o selecionador atual, se quer deixar algum conselho para Roberto Martínez.

Não, não deixo, de maneira nenhuma. Só faltava eu atrever-me a uma coisa dessas. Era a mesma coisa que estar a menosprezar aquilo que eu fui e que não queria que me fizessem essas coisas. Não. Acho que a seleção até está bem entregue, devo dizer, porque este senhor tem demonstrado que tem uma ideia para a seleção. Pronto. E posto isto, nada mais.

Nem quer dizer nada sobre Cristiano Ronaldo, se deve ou não continuar a alinhar de início na equipa.

Vamos lá ver. Haja quem atire a primeira pedra para o Cristiano Ronaldo, está bem? Quem atira a primeira pedra é mais que Jesus Cristo, já é Deus. Não pode ser. O Ronaldo, enquanto estiver a jogar, mesmo na Arábia Saudita, tem que jogar nem que seja 10 minutos. Posso dizer?

Pode.

Quando estava na Académica, só havia uma substituição por jogo. Depois do meu tempo, passou a haver duas. E eu então dizia lá para os meus colegas e para os jogadores da Académica, porque eu estava na mesma pensão que estavam os jogadores da Académica, na Pensão Antunes. E eu disse: "Enquanto o Rocha jogar meia parte, ele é indiscutível na equipa". 45, o Rocha, o Rochinha.

E, portanto, o Cristiano Ronaldo acha que está nesse patamar.

Está nesse patamar. Não há possibilidade de o tirar.

Só sai quando ele quiser.

Não, ele sai já a seguir. A seguir ao mundial, agora é que é o caso do António Silva Regende comigo. Quer ganhemos, quer não ganhemos a Taça Gil Roberto no México, de certeza que o Ronaldo sai pelo pé dele.

Fica aqui essa antevisão do ex-selecionador Rui Siabra. Muito obrigado por ter estado connosco nestes minutos aqui na Rádio Observador.

Obrigado eu.

Obrigada.